Desconcerto no Banco Bom da Santíssima Trindade:
Anjos Jogam à Porrada
O Céu está à beira duma carga de nervos! Mais uma vez por
causa do banco da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que em teoria já não
é dela e também já não é um banco mas dois meios bancos, tendo uma das metades
sido entregue à administração do Inferno dado que esta metade corresponde ao
Banco Mau e do qual nunca mais se ouviu falar, calhando porque está a receber
as maldades e desvios, perdão, desvarios do Banco Bom, que ficou sob
administração de condóminos do Céu e por isso mesmo se chama Banco Bom, Novo
para os amigos. E a coisa está tão feia que o patrão dos condóminos angelicais
decidiu criar uma excepção e chamou do Inferno um contingente especial de
advogados – todos os advogados têm lugar cativo no Inferno – para darem conta
do recado, isto é, das inúmeras queixas e acções judiciárias que os anjos e
demais habitantes do Paraíso estão a interpor por causa do Banco antigo, do
Banco Bom e de todas as fundações, sociedades financeiras e correlativas
associadas. E isto se o Senhor quis resolver o assunto com um mínimo de
civilidade pois já se andava ao soco em cima das núvens (se tê estranhado o estado
do tempo, este está assim explicado) e pelo menos os subordinados do anjo Uriel
tinham saído de uma dessas brigas com uns olhos negros, asas torcidas e algo
depenadas e as auréolas de formato mais a dar para o quadrado do que para o
redondo e como Uriel é um anjo de pêlo na venta, só por milagre não pegara fogo
às núvens. Uriel está neste momento a usufruir dumas férias forçadas, mercê dum
processo disciplinar por que o Senhor e patrão do condomínio celestial lhe
rugiu que “Tu não te armas mais em Faetonte ou queres seguir o destino desse
pagão que há muito foi despromovido a mito?”. Uriel não quis pois mais vale
ser-se um anjo no desemprego do que um mito mas a razão do arraial mais recente
nas núvens – e que se traduziu, cá em baixo na Terra, por um pequeno dilúvio na
capital da República dos Nabos – foi o facto de que de repente, sem aviso, o
anjo Teoael bateu com a porta do Banco Bom na cara do anjo supervisor
declarando que não presidia mais “àquela palhaçada”, o que muito ofendeu o
supervisor e pôs todos os anjos a correr para os cofres dos seus novos títulos
financeiros e a vendê-los a todo o vapor, causando uma sobrecarga nos
computadores negociais do Éden, que já não puderam calcular o número de virgens
atribuídas a cada novo mártir que bate agora à porta do Céu, provocando em
consequência uma concentração expontânea e não convocada, logo ilegal, no
caminho para o Paraíso. Neste momento a Bolsa do Céu está um caos e muitos
anjos e habitantes do paraíso começam a pensar se não será melhor apostar no
Inferno e trasladar para lá as economias, porque isto do modo como as coisas
estão… As coscuvilhices do nosso “penetra” nos domínios celestes informam-nos
de que esta abrupta demissão do anjo dos dinheiros e negócios se deveu ao facto
de que o anjo supervisor, por mandato do Altíssimo, é claro, se recusou a
aceitar os planos para a recuperação do Banco Bom e posterior venda, quando o
mercado já pudesse ter ganho alguma confiança naquele poço sem fundo. O que o Eterno
quer é despachar o caso, vender ao primeiro parvo que apareça e pôr uma pedra
sobre o assunto, tão grande que nunca mais qualquer coca-bichinhos possa vir a
descobrir o que raio se passou ao certo com o antigo Banco da Terceira Pessoa
da Santíssima Trindade e para onde é que de facto foi a massa que era suposto
lá estar. Oficialmente, contudo, e apesar dumas estranhas histórias de acções
vendidas que podem ter tido algum inside
trading na hora da venda, o Altíssimo não sabe de nada, continua a afirmar
que o Banco está sólido e assobia para o lado. Os habitantes menores do Paraíso também começam a ouvir assobios,
mas esses vêm dos buracos crescentes nas suas carteiras e investimentos.


Sem comentários:
Enviar um comentário