Deus Muda Estatutos do Céu
Para evitar mais sarrafusca e porque de outro modo teria de enviar a
Terceira Pessoa da Santíssima Trindade para o Conselho de Administração do
Inferno, coisa que Satã recusou liminarmente sob pena de ocorrer um novo
combate entre anjos celestiais e anjos caídos, está agora o Altíssimo a mudar
os Estatutos do Céu. De acordo com os novos estatutos passam a existir apenas 9
mandamentos e 5 pecados capitais (os desgraçados que em vez de 10 têm de
cumprir 613 mandamentos, podem agora respirar aliviados porque passam a ter só
612). A partir de hoje os pecados capitais da Ganância e da Gula são
despromovidos a pequenos, pequenininhos, quase microscópicos pecados veniais,
isto é, sem importância que se enxergue, e o mandamento “Não roubarás” ou antes
“não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, a sua terra, o seu gado
ou os seus escravos” foi riscado da lista dos dez de Moisés e dos sete de Noé
(que passam a ser 6, razão porque agora é mais difícil ver as sete cores do
arco-íris). Deus está também a meditar se deverá riscar das Tábuas da Lei o
mandamento “não matarás” dado que os que fazem a guerra em Seu nome se fartam
de matar e de formas muito criativas, numa espécie de concurso de fazer
empalidecer os júris dos mais arrepiantes festivais de filmes de terror. Estas alterações
aos Estatutos do Céu e aos consequentes mandamentos e regras que os devotos têm
de respeitar se desejarem entrar no Paraíso, têm a sua origem no mais recente
segredo de alcova da família da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. O
segredo prende-se com um negócio que se farta de meter água, pois envolve
submarinos comprados pela República dos Nabos a uma potência estrangeira quando
o Ex.mo sr. Paulo Ibn-Portões mandava nos dinheiros da Defesa do Nabal. Ao que
parece, essa potência estrangeira pagou generosas “luvas” à família da Terceira
Pessoa da Santíssima para que os submarinos – que não navegam – fossem
comprados. Tipo, alguém comprar um bruto BMW topo de gama e deixá-lo à porta de
casa para inveja dos vizinhos, nunca saindo com ele para lado algum pois se não
há massas para o pão, ainda menos há p’rá gasolina. Porque razão uma entidade
tão celestial como o Espírito Santo se viu envolvida num negócio tão terreno e
bélico como Submarinos para o Nabal é
algo que escapa até à todo-poderosa omnisciência de Deus… isto é, até à mudança
dos celestiais estatutos, pois a partir daí torna-se tudo muito claro. A partir
de agora a ganância já não é pecado mas passa a ser uma decente qualidade, mui
apreciada pelas hostes celestiais e assim o comportamento do clã da Terceira
Pessoa da Santíssima Trindade nada tem de criticável ou incompreensível. Esta é
uma excelente notícia para os muito ricos deste mundo, que já não precisam
temer nem os monstros castigadores do Tribunal de Osíris nem o Julgamento
Divino ou o “vai bater a outra porta” de São Pedro, dado que já não precisam passar
pelo buraco da agulha acompanhados do respectivo camelo mas podem entrar pacatamente
no Paraíso acompanhados da sua cáfila de camelos, a frota de Lamgorginis, a
meia dúzia de iates a e a mansão nas Bahamas. O que tornará o Céu um lugar
muito mais interessante pois dexará de se assistir a entediantes argumentações
teológicas baseadas no tópico “no meu tempo era assim” ou a coros de bebés a
chorarem porque ainda não sabem fazer outra coisa. A partir de agora haverá
corridas de bólides e regatas de iates de luxo, festas glamorosas onde vale
tudo, incluindo cobiçar a mulher do próximo, acesos combates financeiros e
épicas conquistas das bolsas de valores, entre outras actividades mais
tranquilas como noitadas nas praias com beldades e barris de boa bebida e ainda
melhor comida ou pacíficas partidas de golfe onde se combinam as próximas OPAs
agressivas à multinacional que gere os negócios do Céu. Infelizmente nem todos
no Paraíso estão a conseguir acompanhar a mudança. O Filho do Altíssimo, O Messias para os amigos, está a
consultar desde há uma semana o best-seller latino “Novo Testamento” para perceber
se no seu tempo pela Terra, Ele operou o milagre da multiplicação dos pães ou o
da redução dos peixes nas margens do Mar de Tiberíades dado que no negócio do
Espírito Santo, de 30 milhões de “luvas” iniciais exportadas da capital das
Bolas de Berlim, apenas restavam 20 na Capital dos Nevoeiros e daí para a
Olissipo deu-se outro milagre subtractivo, que terminou em apenas 5 milhões.
Ora o Messias quer perceber para onde foram esses desaparecidos 25 milhões, e
se houve milagre do Espírito Santo irá intentar uma acção em tribunal por
apropriação indevida dos seus direitos de autor. É que nos novos estatutos do
Céu não há qualquer referência a franchisings
do negócio dos milagres, o qual é, ainda, exclusivo do Filho de Deus e de quem Ele
calha de nomear para algum milagre muito específico. Quanto ao Diabo, esse já
está a fechar a cadeado e sistema de alarme a laser as portas do Inferno,
recusando a entrada a todo e qualquer novo hóspede, não vá a família do
Espírito Santo ser recambiada mesmo para o Inferno, com documentação
certificada pelo punho do Pai de Todos. Satã não quer correr riscos e ver um
destes dias desaparecer sem deixar rasto as suas encomendas de brasas,
utensílios de culinária e contratos de compra-e-venda de almas, pois nem todos
os advogados residentes no Inferno, a trabalharem em consórcio, seriam capazes
de defender os pergaminhos dos diabos desse infausto e santo espírito.

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