A Actividade Vinícola Mudou de Estação
Talvez por efeito das alterações
climáticas (que existem mas é muito importante que se diga que não existem, não
me perguntem porquê) o calendário vinícola está a sofrer alterações, tendo as
fainas correspondentes mudado de estação. Esta foi a informação prestada pelo
activo candidato a presidente da República dos Cachos, Magriço Rosé, que
declarou em entrevista aos órgãos de comunicação social que até às eleições, a
realizar em Maio, ainda haverá muita vindima. Esta declaração encheu de alegria
os cidadãos da República, todos patrióticos borrachos, pois podem deitar para
trás das costas não apenas os candeeiros e paredes em que se apoiam durante as
bezanas mas também os receios de que pudesse não haver produção suficiente este
ano para os manter no estado etilizado que lhes permite alhearem-se da realidade
e conseguirem assim sobreviver com a crise. Aliás, nada melhor do que os
dionisíacos espíritos do garrafão para afastar a crise pois quando a pança está
oca e não há conduto, nada como empinar uns copos, pois isso dá de comer a
milhões de borrachos, como já lá dizia o da outra senhora. Os tempos mudam mas
parece que tudo fica na mesma, não é verdade? Também muito felizes com esta
notícia ficaram os imigrantes do leste da União das Hortaliças pois tal
prolongamento da safra significa que terão trabalho garantido até Maio (embora
não necessariamente os salários pois boa parte deles é forçada a trabalhar à
borla). De facto a vindima será feita até Maio, a poda e a empa em Junho, as
curas em Agosto, a desparra em Setembro e a averiguação da qualidade dos
primeiros chachos em Outubro, podendo os agricultores ir de férias no Natal,
para felicidade dos netinhos que estão encaixotados nas cidades litorâneas
desta República. O São Pedro prometeu já enviar as chuvas no Verão, para bem da
parra e da cepa, o que varrerá os veraneantes das praias, levando-os antes para
os trabalhos agrícolas, onde poderão ajudar a aumentar o PIB (e o número de
bebés) e assim ajudar no pagamento da dívida aos mercados. Os turistas
estrangeiros acharam very interesting,
très typique e so schön esta alteração no calendário agrícola que lhes permitirá
comodamente comparar as técnicas agrícolas – e apanharem borracheiras de
meia-noite – entre os seus países e a República dos Cachos. Aliás, para
promover lá fora a qualidade da produção etílica da República, os políticos
passaram a andar sempre com um grão na asa, e às vezes com uma saca inteira, em
total sintonia com os hábitos dos seus constituintes, que agora já não
estranham que os seus governantes tenham ideias e promulguem leis que mais
parecem saídas do miolo dum bêbado. Quem não achou piada nenhuma a esta
alteração do calendário agrícola foram os pássaros e as raposas que, dizem em
exposição apresentada pela Saltapocinhas ao Parlamento da União das Hortaliças
na Capital do Tacho/Couve-de-Bruxelas, sem as vindimas no Outono deixam de ter
bagos para encher o papo quando o frio aperta, a comida escasseia e nem um
grilinho distraído se pilha para a ceia (que isto de pilhar galinhas já foi
chão que deu uvas). A resposta dos países do Norte, tenazes defensores do
ambiente, não se fez esperar e diz o seguinte: as uvas deverão ter, sem
excepção, diâmetro de 5 cm ,
cor vermelho-púrpura, tonalidade vermelho 164, azul 61 e verde 4, sem qualquer
outra nuance de tonalidade, pícaros verde-claro e com torção esquerda.
Quaisquer outras dimensões ou colorações interditarão as uvas para a feitura de
vinho e/ou bebida espirituosa. Caso ocorram colapsos de produção devido a este
normativo, todos os países da União serão obrigados a importar o vinho feito sinteticamente
na República Federal das Batatas, Monarquia dos Capacetes Chifrudos e
Confederação dos Moinhos. Esta directiva não resolveu o problema das raposas ou
dos pássaros, que ainda não têm comida para o Inverno mas não se preocupem, as
soluções daquele pessoal são assim mesmo: nunca resolvem problemas, só os
complicam.


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