Não, Não, Estes Escravos Calharam-me Num Sorteio dos Detergentes
Publicamos hoje uma “entrevista”
entre o Príncipe das Areias e o chefão da Liga Internacional do Pontapé na
Chincha, obtida graças às nossas ilegais mas muito eficientes escutas secretas,
reconhecidas pela NSA com quem aliás trabalhamos em parceria. A “entrevista”
ocorreu enquanto ambos tomavam chá de menta – e uns copinhos de Madeira, mas é
segredo – e observavam as odaliscas privativas do monarca, que dançavam na
pista danças do vente e dos véus em performances de arrebatar o fôlego às
profissionais e ainda mais aos espectadores. Discorriam as duas eminências
sobre os estádios do novo campeonato mundial, que decorrerá no Principado e o
chefe do Pontapé na Chincha manifestava a sua preocupação pelo facto de tendo o
Principado das Areias tão poucos súbditos, ou não fosse este um deserto,
poderem as obras não estarem concluídas à data do início da competição, mesmo
se viessem a adiá-la para o último mês do ano. Mas o Príncipe estava muito
tranquilo, pois os poucos subdítos do Principado, e que jamais se vergariam a
fazer trabalhos braçais pois as rendas do combustível dão para tudo, até para
comprar empregados…
- Comprar
empregados?
- Sim.
Comprar. Compramos todos os empregados. Comprados são muito mais dóceis.
Antigamente contratava-los, mas havia sempre chatices com os sindicatos, os
passaportes, as embaixadas. Agora, compramo-los.
- Mas isso…
isso… é escravatura, não é? E a escravatura iria cair muito mal…
- Ora,
escravos têm vocês nos vossos países. Não lhes dão contratos por mais de 1 mês,
dão-lhes metade dos salários mínimos (quando não ficam em atraso) pois estão a
fazer “mini-jobs” e têm de pagar as refeições, a casa e essas trapalhadas todas
e até o transporte para irem para os vossos serviços, com essa miséria de meio
salário mínimo. Nós, não. Nós compramo-los e pronto.
- Mas… então
os custos da competição irão aumentar e não estava previsto nas nossas trocas
financeiras via Ilha dos Camarões/Cantão dos Queijos. Quer dizsr… se tiverem de
comprar escravos…
- Escravos é
uma palavra demodée. E soa mal. São,
assalariados sem contrato de trabalho pré-definido. E na verdade não nos custam
nada, eles vêem de livre vontade, o que aliás é a última coisa que têm de livre
antes de aterrarem aqui. Infelizmente, estes novos vêm das Altas Cordilheiras e
morrem-nos muito, uma questão de clima, esta a perceber?
Houve um
silêncio que, imaginamos, fosse preenchido com o chefão do Pontapé na Chincha a
abanar compreensivelmente com a cabeça.
- O que, está
a ver, é um problema com os corpos pois como não são da nossa religião, não
podemos enterrá-los cá e os familiares nas Cordilheiras poderiam também começar
a disparatar. Temos de procurar escravos voluntários a países com climas mais
próximos do nosso para não morrerem tanto. Gasta-se muito combustível a
devolvê-los às famílias.
- Ah, afinal
sempre há custos… - pois o chefe do Pontapé na Chincha bem conhecia a habilidade
deste simpático príncipe para altear os custos de tudo com “imprevistos”
vários. O que deixava menos lucros para o senhor da Chincha.
-
Infelizmente, mas estamos a tratar de resolver o problema.
- Não acredito
que alguém venha de sua livre vontade ser escravo.
. Bem, eles
não sabem que veem para cá ser escravos. Só o descobrem quando cá chegam e lhes
tiramos os passaportes e os enfiamos em baiucas sem comida e lhes proibimos o
acesso à água (de outro modo andariam sempre com as trombas na torneira e não
trabalhavam) e também não lhes pagamos qualquer salário e os obrigamos a
trabalhar a esta torreira de deserto. Alguns deles só percebem cerca de 1 mês
depois, quando em vez de lhes darmos o salário, lhes damos umas lambadas por
perguntarem quando recebem.
- Mas o
mercado deve rarear mais cedo ou mais tarde. As notícias espalham-se.
- Oh, mas o
mercado é vasto. – o príncipe alargou os braços, expressando a vastidão do
mercado de escravos – Basta espalhar um bocadinho de caos, uma guerras de
religião aqui e ali, com a ajuda duns quantos desesperados que desejam ser
mártires para escapar ao martírio deste mundo. Por vezes até se lançam contra
os da nossa fé…
- Mas isso,
desculpe a interrupção, alteza, não é contra a vossa religião?
- Não é contra
os negócios. Portanto, espalha-se um bocadinho de caos aqui e ali, espera-se
que o clima faça alguns outros desastres, enquanto noutros lados se lança um
pequeno tumulto financeiro-informático… temos especialistas, acredite.
- Serão
suficientes?
- Bem, não.
Mas é por isso que é muito importante opormo-nos com todas as forças a essa
horrenda blasfémia do controlo de natalidade. Se começarem a ter filhos apenas
em função do que podem pôr-lhes na boca, onde iremos buscar os escravos do
futuro? Conto consigo para neste campeonato promover a nossa santa cruzada
contra a liberdade de pensamento, os direitos civis de minorias e mulheres e o
planeamento familiar. As grandes famílias cheias de filhos famintos são o
verdadeiro e imbatível bastião da fé.
- E dos
negócios. – o chefe do Campeonato abanava-se com um lenço, debaixo da saída do
potente ar condicionado regulado para 15º mas mesmo assim suando as estopinhas
na abrigada sombra do bonito palácio. À sua frente um jardim verde onde
murmuravam fontes e canais de água.
Mas é essa a
minha fé, meu caro. É essa a minha fé… - o príncipe a olhar para todos os
lados, subitamente preocupado se algum guarda religioso escondido o ouvia
(nunca se sabia onde eles estavam), pois isso podia custar-lhe o trono. E
custaria, de certeza, muito dinheiro pois um guarda religioso com bom-senso não
o denunciaria mas exigiria larga fatia do bolo.
- Talvez eu
pudesse fornecer alguma dessa mão-de-obra. Como sabem na nossa União… - o chefe
da Chincha a pensar numa futura e profícua PPP com o príncipe das areias, o
qual apenas sorria:
- Está a começar
a entender. Mas não será bom ter a vossa organização envolvida neste negócio,
já há muitos invejosos a dizer que o campeonato do mundo da Chincha aqui no meu
país foi devido a subornos… - um sorriso expressivo de ambos a provar que
estavam de acordo com a teoria.
- Não é a
organização. Sou eu. A título exclusivamente privado e sigiloso. A discrição é
a alma do negócio. – o chincheiro também a sorrir – Tenho várias agências de
viagens, posso promover sorteios de viagens e bilhetes do campeonato a baixo
preço. Apenas, estes não são dóceis nativos das Cordilheiras, estes têm a mania
que têm direito a direitos. Estão mais adaptados ao vosso clima mas esta coisa
dos direitos…
- Ah, não se
preocupe, meu caro. Envie-os para cá. Com essa questão da “Guerra ao Terror”
detêmo-los à chegada, tiramos-lhes os passaportes e levamo-los directamente
para os campos de trabalho para construírem os estádios. Mostrando-os como
terroristas, o mundo inteiro nunca mais vai querer saber deles, e o que as
famílias disserem em contrário, só trará mal a elas pois serão as famílias de
terroristas, logo suspeitas… com o tempo, o medo fará o resto. Envie-mos, meu
caro, envie-mos, eu sei o que fazer deles.
- Por falar
desses campos, talvez não fosse má ideia realizar umas pequenas melhorias nas
condições de trabalho dos escravos… até porque estas minhas remessas têm por
vezes o costume de fotografar coisas à sorrelfa e…
- Não se
preocupe com isso. Nós também temos o cuidado de os privar dos telemóveis à
chegada para não poderem espalhar maldosos boatos para as famílias. Aqui é tudo
secreto, controlado e isolado, não tenha receios.
- Sim, mas
umas pequeninas melhorias nas condições…
- E perder uma
fatia significativa dos lucros apenas porque se dão horas de descanso aos
ingratos? São escravos, meu caro, não trabalhadores assalariados!
- Mas começam
a falar desses campos. A dizer que no final haverá mais mortos do que no
atentado do 11 de Setembro. Os mais radicais já estão a chamar aos vossos estaleiros
de trabalho escravo campos de extermínio…
- Por falar em
campos de extermínio, isso lembrou-me que preciso de lhe encomendar uns quantos
fornos. Para queimar os corpos dos mortos, está a ver. Para não aparecerem por
aí abelhudos a exumar os corpos à socapa e a fazerem autópsias e a descobrirrem
que os escravos morrem não apenas por excesso de trabalho e fome q.b.,
insolação e desidratação por prolongadas horas de trabalho ao sol, sem
protecção e sob temperaturas de mais de 40º C ou que tiveram “acidentes”, em
vez de terem morrido com os nossos apliativos ataques cardíacos fulminantes.
Podem ser os velhos fornos desses campos. Desde que estejam operacionais e nos
limpem os cadáveres num ápice. Está a ver, só este ano já nos morreram 1117
escravos e a coisa ainda só vai nos alicerces.
- Vai ser
complicado arranjar-lhe isso. Está a ver, as organizações de direitos humanos
têm estes assuntos muito bigiados e desviar uma coisa dessas é um pouco, como
direi…
- Mas porque
vocês não arranjam uma organização de direitos humanos como deve ser? Nós temos
cá a nossa e ela diz que estes trabalhadores estrangeiros não morrem mais do
que o habitual, que é normal morrerem assim, como tordos. – e porque o
presidente da Federação do Pontapé na Chincha mostrasse uma face surpreendida o
príncipe, pacientemente, explicou – Sim, é a nossa Organiza dos Direitos
Humanos. Chama-se Comité Nacional dos Direitos Humanos. E é uma organização
legítima, defende os direitos das pessoas como nós, não, naturalmente os dos
escravos que, por serem escravos, não têm direito a terem direitos alguns.
Mande para cá alguns dos vossos observadores da Habeas Corpus Internacional que
nós ensinamo-los. – esfregando as mãos, a antever o momento em que pusesse as
mãos nuns quantos linguarudos.
- Mas… queimar
os corpos não é… - porque era um tema muito delicado – contra a vossa religião?
- Claro que é
mas vocês são Infiéis, qual é o problema?
O presidente
da Federação sentiu-se um bocadinho apreensivo por de repente ter sido incluído
no nebuloso grupo dos escravos/infiéis e como tal inimigos da fé do Príncipe
mesmo que nada tivesse contra ou a favor da dita religião ou sequer soubessem
que esta existia. Estava na altura de ser diplomata. Até porque os lucros
mandavam fechar os olhos a certas coisas.
- Vejo que não
preciso de me preocupar, o Príncipe tem tudo controlado. Ao sucesso do
Campeonato Mundial da Chincha. – erguendo o seu bonito copo de vidro boémio com
chá de menta salpicado com uns pozinhos de wishky escocês puro 24 anos em casco
de carvalho.
- Ao sucesso
do Campeonato. E da imagem de progresso do meu amado califado
- Ao sucesso!
– ambos em coro, fazendo tchim-tchim com outros copos, de reserva, e
bonitamente atestados de whisky.




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