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sexta-feira, 28 de março de 2014

Não, Não, Estes Escravos Calharam-me Num Sorteio dos Detergentes

Publicamos hoje uma “entrevista” entre o Príncipe das Areias e o chefão da Liga Internacional do Pontapé na Chincha, obtida graças às nossas ilegais mas muito eficientes escutas secretas, reconhecidas pela NSA com quem aliás trabalhamos em parceria. A “entrevista” ocorreu enquanto ambos tomavam chá de menta – e uns copinhos de Madeira, mas é segredo – e observavam as odaliscas privativas do monarca, que dançavam na pista danças do vente e dos véus em performances de arrebatar o fôlego às profissionais e ainda mais aos espectadores. Discorriam as duas eminências sobre os estádios do novo campeonato mundial, que decorrerá no Principado e o chefe do Pontapé na Chincha manifestava a sua preocupação pelo facto de tendo o Principado das Areias tão poucos súbditos, ou não fosse este um deserto, poderem as obras não estarem concluídas à data do início da competição, mesmo se viessem a adiá-la para o último mês do ano. Mas o Príncipe estava muito tranquilo, pois os poucos subdítos do Principado, e que jamais se vergariam a fazer trabalhos braçais pois as rendas do combustível dão para tudo, até para comprar empregados…
- Comprar empregados?
- Sim. Comprar. Compramos todos os empregados. Comprados são muito mais dóceis. Antigamente contratava-los, mas havia sempre chatices com os sindicatos, os passaportes, as embaixadas. Agora, compramo-los.
- Mas isso… isso… é escravatura, não é? E a escravatura iria cair muito mal…
- Ora, escravos têm vocês nos vossos países. Não lhes dão contratos por mais de 1 mês, dão-lhes metade dos salários mínimos (quando não ficam em atraso) pois estão a fazer “mini-jobs” e têm de pagar as refeições, a casa e essas trapalhadas todas e até o transporte para irem para os vossos serviços, com essa miséria de meio salário mínimo. Nós, não. Nós compramo-los e pronto.
- Mas… então os custos da competição irão aumentar e não estava previsto nas nossas trocas financeiras via Ilha dos Camarões/Cantão dos Queijos. Quer dizsr… se tiverem de comprar escravos…
- Escravos é uma palavra demodée. E soa mal. São, assalariados sem contrato de trabalho pré-definido. E na verdade não nos custam nada, eles vêem de livre vontade, o que aliás é a última coisa que têm de livre antes de aterrarem aqui. Infelizmente, estes novos vêm das Altas Cordilheiras e morrem-nos muito, uma questão de clima, esta a perceber?
Houve um silêncio que, imaginamos, fosse preenchido com o chefão do Pontapé na Chincha a abanar compreensivelmente com a cabeça.
- O que, está a ver, é um problema com os corpos pois como não são da nossa religião, não podemos enterrá-los cá e os familiares nas Cordilheiras poderiam também começar a disparatar. Temos de procurar escravos voluntários a países com climas mais próximos do nosso para não morrerem tanto. Gasta-se muito combustível a devolvê-los às famílias.
- Ah, afinal sempre há custos… - pois o chefe do Pontapé na Chincha bem conhecia a habilidade deste simpático príncipe para altear os custos de tudo com “imprevistos” vários. O que deixava menos lucros para o senhor da Chincha.
- Infelizmente, mas estamos a tratar de resolver o problema.
- Não acredito que alguém venha de sua livre vontade ser escravo.
. Bem, eles não sabem que veem para cá ser escravos. Só o descobrem quando cá chegam e lhes tiramos os passaportes e os enfiamos em baiucas sem comida e lhes proibimos o acesso à água (de outro modo andariam sempre com as trombas na torneira e não trabalhavam) e também não lhes pagamos qualquer salário e os obrigamos a trabalhar a esta torreira de deserto. Alguns deles só percebem cerca de 1 mês depois, quando em vez de lhes darmos o salário, lhes damos umas lambadas por perguntarem quando recebem.
- Mas o mercado deve rarear mais cedo ou mais tarde. As notícias espalham-se.
- Oh, mas o mercado é vasto. – o príncipe alargou os braços, expressando a vastidão do mercado de escravos – Basta espalhar um bocadinho de caos, uma guerras de religião aqui e ali, com a ajuda duns quantos desesperados que desejam ser mártires para escapar ao martírio deste mundo. Por vezes até se lançam contra os da nossa fé…
- Mas isso, desculpe a interrupção, alteza, não é contra a vossa religião?
- Não é contra os negócios. Portanto, espalha-se um bocadinho de caos aqui e ali, espera-se que o clima faça alguns outros desastres, enquanto noutros lados se lança um pequeno tumulto financeiro-informático… temos especialistas, acredite.
- Serão suficientes?
- Bem, não. Mas é por isso que é muito importante opormo-nos com todas as forças a essa horrenda blasfémia do controlo de natalidade. Se começarem a ter filhos apenas em função do que podem pôr-lhes na boca, onde iremos buscar os escravos do futuro? Conto consigo para neste campeonato promover a nossa santa cruzada contra a liberdade de pensamento, os direitos civis de minorias e mulheres e o planeamento familiar. As grandes famílias cheias de filhos famintos são o verdadeiro e imbatível bastião da fé.
- E dos negócios. – o chefe do Campeonato abanava-se com um lenço, debaixo da saída do potente ar condicionado regulado para 15º mas mesmo assim suando as estopinhas na abrigada sombra do bonito palácio. À sua frente um jardim verde onde murmuravam fontes e canais de água.
Mas é essa a minha fé, meu caro. É essa a minha fé… - o príncipe a olhar para todos os lados, subitamente preocupado se algum guarda religioso escondido o ouvia (nunca se sabia onde eles estavam), pois isso podia custar-lhe o trono. E custaria, de certeza, muito dinheiro pois um guarda religioso com bom-senso não o denunciaria mas exigiria larga fatia do bolo.
- Talvez eu pudesse fornecer alguma dessa mão-de-obra. Como sabem na nossa União… - o chefe da Chincha a pensar numa futura e profícua PPP com o príncipe das areias, o qual apenas sorria:
- Está a começar a entender. Mas não será bom ter a vossa organização envolvida neste negócio, já há muitos invejosos a dizer que o campeonato do mundo da Chincha aqui no meu país foi devido a subornos… - um sorriso expressivo de ambos a provar que estavam de acordo com a teoria.
- Não é a organização. Sou eu. A título exclusivamente privado e sigiloso. A discrição é a alma do negócio. – o chincheiro também a sorrir – Tenho várias agências de viagens, posso promover sorteios de viagens e bilhetes do campeonato a baixo preço. Apenas, estes não são dóceis nativos das Cordilheiras, estes têm a mania que têm direito a direitos. Estão mais adaptados ao vosso clima mas esta coisa dos direitos…
- Ah, não se preocupe, meu caro. Envie-os para cá. Com essa questão da “Guerra ao Terror” detêmo-los à chegada, tiramos-lhes os passaportes e levamo-los directamente para os campos de trabalho para construírem os estádios. Mostrando-os como terroristas, o mundo inteiro nunca mais vai querer saber deles, e o que as famílias disserem em contrário, só trará mal a elas pois serão as famílias de terroristas, logo suspeitas… com o tempo, o medo fará o resto. Envie-mos, meu caro, envie-mos, eu sei o que fazer deles.
- Por falar desses campos, talvez não fosse má ideia realizar umas pequenas melhorias nas condições de trabalho dos escravos… até porque estas minhas remessas têm por vezes o costume de fotografar coisas à sorrelfa e…
- Não se preocupe com isso. Nós também temos o cuidado de os privar dos telemóveis à chegada para não poderem espalhar maldosos boatos para as famílias. Aqui é tudo secreto, controlado e isolado, não tenha receios.
- Sim, mas umas pequeninas melhorias nas condições…
- E perder uma fatia significativa dos lucros apenas porque se dão horas de descanso aos ingratos? São escravos, meu caro, não trabalhadores assalariados!
- Mas começam a falar desses campos. A dizer que no final haverá mais mortos do que no atentado do 11 de Setembro. Os mais radicais já estão a chamar aos vossos estaleiros de trabalho escravo campos de extermínio…
- Por falar em campos de extermínio, isso lembrou-me que preciso de lhe encomendar uns quantos fornos. Para queimar os corpos dos mortos, está a ver. Para não aparecerem por aí abelhudos a exumar os corpos à socapa e a fazerem autópsias e a descobrirrem que os escravos morrem não apenas por excesso de trabalho e fome q.b., insolação e desidratação por prolongadas horas de trabalho ao sol, sem protecção e sob temperaturas de mais de 40º C ou que tiveram “acidentes”, em vez de terem morrido com os nossos apliativos ataques cardíacos fulminantes. Podem ser os velhos fornos desses campos. Desde que estejam operacionais e nos limpem os cadáveres num ápice. Está a ver, só este ano já nos morreram 1117 escravos e a coisa ainda só vai nos alicerces.
- Vai ser complicado arranjar-lhe isso. Está a ver, as organizações de direitos humanos têm estes assuntos muito bigiados e desviar uma coisa dessas é um pouco, como direi…
- Mas porque vocês não arranjam uma organização de direitos humanos como deve ser? Nós temos cá a nossa e ela diz que estes trabalhadores estrangeiros não morrem mais do que o habitual, que é normal morrerem assim, como tordos. – e porque o presidente da Federação do Pontapé na Chincha mostrasse uma face surpreendida o príncipe, pacientemente, explicou – Sim, é a nossa Organiza dos Direitos Humanos. Chama-se Comité Nacional dos Direitos Humanos. E é uma organização legítima, defende os direitos das pessoas como nós, não, naturalmente os dos escravos que, por serem escravos, não têm direito a terem direitos alguns. Mande para cá alguns dos vossos observadores da Habeas Corpus Internacional que nós ensinamo-los. – esfregando as mãos, a antever o momento em que pusesse as mãos nuns quantos linguarudos.
- Mas… queimar os corpos não é… - porque era um tema muito delicado – contra a vossa religião?
- Claro que é mas vocês são Infiéis, qual é o problema?
O presidente da Federação sentiu-se um bocadinho apreensivo por de repente ter sido incluído no nebuloso grupo dos escravos/infiéis e como tal inimigos da fé do Príncipe mesmo que nada tivesse contra ou a favor da dita religião ou sequer soubessem que esta existia. Estava na altura de ser diplomata. Até porque os lucros mandavam fechar os olhos a certas coisas.
- Vejo que não preciso de me preocupar, o Príncipe tem tudo controlado. Ao sucesso do Campeonato Mundial da Chincha. – erguendo o seu bonito copo de vidro boémio com chá de menta salpicado com uns pozinhos de wishky escocês puro 24 anos em casco de carvalho.
- Ao sucesso do Campeonato. E da imagem de progresso do meu amado califado
- Ao sucesso! – ambos em coro, fazendo tchim-tchim com outros copos, de reserva, e bonitamente atestados de whisky.





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