Deus Acrescentou Mais um Negócio à Sua Actividade:
Venda de Escravas
E é, podemos
garantir, um negócio com futuro e muitos lucros para dar, ainda mais agora que
foi santificado pela intervenção dos que combatem em nome do Senhor do Paraíso e tentam alargar por todos os meios –
quanto mais sangrentos, mais santos – o novíssimo Califado das Cabeças
Cortadas, em que as execuções são o espectáculo pedonal mais frequente e que
por este andar se arriscam a limpar o novo país de cidadãos, pelo que terão de
recorrer à mão de obra, ou mais exactamente aos ventres estrangeiros e escrava.
E é aí que entra o novo negócio de Deus: a captura e venda de escravas. De
preferência en masse, que é para
poupar nos transportes e reduzir a contribuição para os gases de efeito de
estufa. E embora surpreenda aos devotos mais distraídos este novo franchising dos investimentos comerciais
divinos, temos de convir que é muito necessário dada a confusão que vai no Banco
da Terceira Pessoa da
Santíssima Trindade, pois mesmo o Banco Bom que dele resultou
é pior que o Banco Mau que Satã teve de aceitar governar à força. Afinal os
anjos ainda não fazem ideia se no fechar das contas não terão de ser eles a
entrar com o pilim para os dois bancos, já que os diabos se rebelaram e
declararam preto no branco que não entravam nem com uma brasinha para o Banco
Mau, ainda menos para o Bom pois o negócio deles é o das patifarias. Com o
Califado a perder população aos magotes todos os dias por mor das execuções em
massa e Deus a precisar de fundos, santificou-se então a prática da
escravatura, que é um a sagrada tarefa de raptar e aprisionar um ser humano e a
partir desse instante o despromover à posição de besta de carga e/ou parideira,
vendendo-o no mercado como uma junta de bois ou uma galinha para a canja,
enquanto o escravo, nesta abençoada reviravolta da sua vida, adquire o único
direito que é o de servir todos os desejos e caprichos do dono e esperar que
ele lhe dê a morte num dia em que estiver mal disposto. Como se vê, tudo muito
santo e bom, tal como Deus manda. E como nesta santa irmandade do exército do
califa Iznogood nem todos são ricos como Midas, os preços das escravas são
tabelados democraticamente em função do poder de compra de cada um, pelo que
uma rapariga jovem, bonita, virgem e com bons atributos de parideira passa a
estar à venda no mercado por apenas 10 dólares, para que os guerreiros mais
pobres do exército do califa não se revoltem e abatam o chefe mas pelo
contrário, se possam manter sempre saciados e livres de todo o pecado, ao mesmo
tempo que põem estas escravas parideiras a produzir muitos meninos para
repovoar o califado e assegurar os contingentes futuros de abastecimento de
combatentes, porque as guerras, se geram mártires que podem ir para o céu
desfrutar de todos os prazeres que na Terra são pecado, têm também o
desagradável inconveniente de matar muitos guerreiros em vez de destruir apenas
civis que não desejam pegar numa arma seja para servir o califa. Por isso, além
do mercado externo, o califa Iznogood reserva desde já uma quota de escravas
para os seus homens de modo a, além de repovoarem o califado, cozinharem para
eles pois que isto de fazer uma guerra e andar a matar indiscriminadamente quem
não concorda com a cor da roupa do califa, é tarefa demasiado absorvente em
tempo e forças para um homem ainda ter de se preocupar com os tachos e sertãs. Antes
de serem vendidas têm as jovens candidatas a bichos de cobrição e bestas de
carga e de cozinha direito a um último telefonema para os pais – tipo último
desejo do condenado – para dizerem que passarão a partir daquele momento a
serem escravas, que nunca mais poderão ver a família e comunicar o preço da sua
venda em hasta pública. Neste momento no Califado das Cabeças Cortadas voltaram
a estar em actividade animadíssimos mercados de escravas, com a mercadoria
disposta à apreciação dos licitadores, tal e qual como nos velhos tempos em que
a escravatura era um negócio legal e respeitável. Considerando que milhares de mulheres
estão neste momento a serem vendidas, seria interessante saber onde é que elas
irão ser entregues, quem as compra, para quê e como. Também é interessante
saber que num mundo que se gaba da sua Declaração Universal dos Direitos
Humanos, que em teoria aboliu a escravatura, que é pelo direito internacional
um crime, ninguém se preocupe em saber o destino destas escravas, quem as vende
e quem as compra e punir pelo menos os compradores. A partir do momento em que
são raptadas, estas mulheres desaparecem no buraco negro da condição animal e
deixam de existir para o mundo. Há afinal coisas mais importantes do que tentar
saber para onde foi levada uma escrava, quem a comprou e o que lhe fez a
seguir. Seria interessante conhecer quais os honrados países, países que nada
têm a ver com o “Eixo do Mal” que estão a receber este influxo constante de
“mercadoria”. Seria interessante conhecer quais os honrados senhores que estão
a comprar, com ou sem testas de ferro, estas “mercadorias”. Quanto a Deus… 4
500 milhões de anos depois de ter andado a brincar aos oleiros para fazer
Terra, Sol, animais, plantas e gente, e sobretudo depois de nos ter aturado
durante os últimos 100 mil anos, não acham natural que possa estar já um
bocadinho senil?

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