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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Deus Acrescentou Mais um Negócio à Sua Actividade: Venda de Escravas
 E é, podemos garantir, um negócio com futuro e muitos lucros para dar, ainda mais agora que foi santificado pela intervenção dos que combatem em nome do Senhor do Paraíso e tentam alargar por todos os meios – quanto mais sangrentos, mais santos – o novíssimo Califado das Cabeças Cortadas, em que as execuções são o espectáculo pedonal mais frequente e que por este andar se arriscam a limpar o novo país de cidadãos, pelo que terão de recorrer à mão de obra, ou mais exactamente aos ventres estrangeiros e escrava. E é aí que entra o novo negócio de Deus: a captura e venda de escravas. De preferência en masse, que é para poupar nos transportes e reduzir a contribuição para os gases de efeito de estufa. E embora surpreenda aos devotos mais distraídos este novo franchising dos investimentos comerciais divinos, temos de convir que é muito necessário dada a confusão que vai no Banco da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pois mesmo o Banco Bom que dele resultou é pior que o Banco Mau que Satã teve de aceitar governar à força. Afinal os anjos ainda não fazem ideia se no fechar das contas não terão de ser eles a entrar com o pilim para os dois bancos, já que os diabos se rebelaram e declararam preto no branco que não entravam nem com uma brasinha para o Banco Mau, ainda menos para o Bom pois o negócio deles é o das patifarias. Com o Califado a perder população aos magotes todos os dias por mor das execuções em massa e Deus a precisar de fundos, santificou-se então a prática da escravatura, que é um a sagrada tarefa de raptar e aprisionar um ser humano e a partir desse instante o despromover à posição de besta de carga e/ou parideira, vendendo-o no mercado como uma junta de bois ou uma galinha para a canja, enquanto o escravo, nesta abençoada reviravolta da sua vida, adquire o único direito que é o de servir todos os desejos e caprichos do dono e esperar que ele lhe dê a morte num dia em que estiver mal disposto. Como se vê, tudo muito santo e bom, tal como Deus manda. E como nesta santa irmandade do exército do califa Iznogood nem todos são ricos como Midas, os preços das escravas são tabelados democraticamente em função do poder de compra de cada um, pelo que uma rapariga jovem, bonita, virgem e com bons atributos de parideira passa a estar à venda no mercado por apenas 10 dólares, para que os guerreiros mais pobres do exército do califa não se revoltem e abatam o chefe mas pelo contrário, se possam manter sempre saciados e livres de todo o pecado, ao mesmo tempo que põem estas escravas parideiras a produzir muitos meninos para repovoar o califado e assegurar os contingentes futuros de abastecimento de combatentes, porque as guerras, se geram mártires que podem ir para o céu desfrutar de todos os prazeres que na Terra são pecado, têm também o desagradável inconveniente de matar muitos guerreiros em vez de destruir apenas civis que não desejam pegar numa arma seja para servir o califa. Por isso, além do mercado externo, o califa Iznogood reserva desde já uma quota de escravas para os seus homens de modo a, além de repovoarem o califado, cozinharem para eles pois que isto de fazer uma guerra e andar a matar indiscriminadamente quem não concorda com a cor da roupa do califa, é tarefa demasiado absorvente em tempo e forças para um homem ainda ter de se preocupar com os tachos e sertãs. Antes de serem vendidas têm as jovens candidatas a bichos de cobrição e bestas de carga e de cozinha direito a um último telefonema para os pais – tipo último desejo do condenado – para dizerem que passarão a partir daquele momento a serem escravas, que nunca mais poderão ver a família e comunicar o preço da sua venda em hasta pública. Neste momento no Califado das Cabeças Cortadas voltaram a estar em actividade animadíssimos mercados de escravas, com a mercadoria disposta à apreciação dos licitadores, tal e qual como nos velhos tempos em que a escravatura era um negócio legal e respeitável. Considerando que milhares de mulheres estão neste momento a serem vendidas, seria interessante saber onde é que elas irão ser entregues, quem as compra, para quê e como. Também é interessante saber que num mundo que se gaba da sua Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em teoria aboliu a escravatura, que é pelo direito internacional um crime, ninguém se preocupe em saber o destino destas escravas, quem as vende e quem as compra e punir pelo menos os compradores. A partir do momento em que são raptadas, estas mulheres desaparecem no buraco negro da condição animal e deixam de existir para o mundo. Há afinal coisas mais importantes do que tentar saber para onde foi levada uma escrava, quem a comprou e o que lhe fez a seguir. Seria interessante conhecer quais os honrados países, países que nada têm a ver com o “Eixo do Mal” que estão a receber este influxo constante de “mercadoria”. Seria interessante conhecer quais os honrados senhores que estão a comprar, com ou sem testas de ferro, estas “mercadorias”. Quanto a Deus… 4 500 milhões de anos depois de ter andado a brincar aos oleiros para fazer Terra, Sol, animais, plantas e gente, e sobretudo depois de nos ter aturado durante os últimos 100 mil anos, não acham natural que possa estar já um bocadinho senil?

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