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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Na Ilha do Caruncho Animais e Humanos Têm Finalmente Direitos Iguais 

Da sacrossanta Ilha do Caruncho, que é mesmo um jardim, até porque esse é o nome do seu rei, vem a boa notícia (valha-nos ao menos isso!) de que foi alcançado um novo patamar civilizacional em direcção ao progresso quando foram equiparados os direitos de admissão entre jornalistas, animais e não-membros de partidos políticos. Ou pelo menos do partido político do rei da ilha. Diz o novo regimento que a partir de agora está vedada a entrada nas sedes e delegações do partido a jornalistas, não membros do partido e animais. Está também proibido comer, beber e fumar, portanto, pessoal da lancheira, chegada a hora do almocinho, vá de desbancar todos para o passeio em frente à porta das instalações e se tiverem sede durante o horário de funcionamento, aguentem-na porque se isto o vinho pode ser punido com coima, a água por sua vez é cara e não se pode oferecer de borla aos calões dos trabalhadores. Esta decisão colocou a ilha em polvorosa, o que não é nada bom para o o caruncho, com a manifestação popular de diversas correntes de opinião, o que é de todo inusitado na ilha onde todos pensam da mesma maneira, isto é, tal e qual como o rei, desde que o mundo é mundo… ou desde que pelo menos o rei Jardim subiu ao poder. As vacas, galinhas, cães e cagarras vieram para a rua, expressando por meio de grasnidos, ladradelas, cacarejos, mugidos e bater de cascos a sua extrema alegria por serem finalmente reconhecidas com os mesmos direitos que os humanos, mesmo sendo um reconhecimento pela negativa. Alguns humanos também se manifestaram, expressando a sua ira por jornalistas, e não membros do clube serem igualados aos animais. Mas são ambas atitudes muito extremistas. Com efeito o novo regimento do partido do rei da Ilha do Caruncho pretende apenas recuperar a castiça tradição do “reservado o direito de admissão”, que era um letreiro muito comum à entrada das lojas e restaurantes no tempo da Ditadura e  impedia a entrada a pessoas sem o que hoje se chamaria “perfil adequado”. Ou dito de outro modo, pelintras pobremente vestidos, com buracos nas calças, biqueira ou sola dos sapatos, ou com aspecto de quem tomava banho no balneáreo público, não podiam entrar na loja ou no restaurante que decorasse a porta com tal letreiro. Mas infelizmente, apesar de ser adorável regressar às nossas origens e tradições (porque não, já agora autos-de-fé nos rossios das cidades e aldeias?), o mundo já não é o que era e esta reserva do direito de admissão está a causar inadvertivos problemas ao partido do rei. Basicamente porque está a sentir dificuldades na adesão de novos sócios, porque como os aspirantes a sócios não podem entrar porque ainda não pertencem ao clube, têm de pedir a um amigo que já pertença à excelsa confraria para lhes trazer os papelinhos da inscrição. Ora sabemos como são estas coisas de amigos e claro mas nem todos confiam nestes o bastante para depois lhes pedirem que vão lá entregar a papelada e a "massa" da jóia de inscrição e das quotas de sócio. Além disso nem todos os que desejam fazer parte do clube têm já lá amigos que possam levar e trazer papeladas e "cacau". E há aqueles que até confiam nos amigos para lhes passarem para as mãos o guito necessário embora alguns amigos não estejam para servir de moços de correios entre os candidatos e o partido e o dinheiro... ganhou asas como os pardais. Começamos a pensar que entrar no Reino dos Céus é capaz de ser menos complicado, apesar de ser necessário passar pelo buraco da agulha e seu proverbial camelo. Que, por ser animal, também está proibido de entrar na sede e delegações do partido do rei. No ar fica então a pairar uma dúvida: o que acontecerá às formigas, aranhas e peixinhos-de-prata se forem apanhados nesses interditos locais? Serão multados? Enviadas a tribunal por trespasse de propriedade privada? E se forem condenados a prisão por estes crimes, como impedir que, por exemplo, as formigas se evadam do presídio? 

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