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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Os Meus Direitos Humanos São Melhores Que os Teus
Na República Popular das Correias e Ançaimos do Norte, mais conhecida por Império da Fome, foi lançada a mobilização geral, inclundo aos que por causa da fome mal conseguem andar, para se apresentarem impreterivelmente às 4 da tarde no grande comício convocado pelo Pai da Nação, e onde apenas ele será o orador (discurso de 5 horas, abrilhantado por fanfarra militar e documentário em ecrã gigante a condizer, iluminação a pedais, garantida pelos camaradas prisioneiros), terminando o glorioso e edificante evento com a inscrição geral de todos os participantes voluntários-à-força no exército da Gloriosa República Democrática (só no título). Quem faltar ao comício será filado em casa ou na toca onde se esconder, e levado para a frente do pelotão de fuzilamento, que o receberá condiga e eficientemente e o encaminhará para a última morada. O motivo do patriótico comício e chamada às armas é simples: a Organização das Nações Desunidas desta vez passou por um momento quântico de união e condenou o Império da Fome pelos atropelos gerais aos direitos humanos dos seus cidadãos e eventuais tolos que obtenham o privilégio mui especial de visitar os cenários autorizados do país e em vez de ficarem eternamente agradecidos ao Grande Líder pela sua bondade em lhes abrir as portas do seu paraíso, decidam armar-se “à bronca”. O comício, subordinado ao tema “Os Nossos Direitos Humanos São Melhores do Que os Vossos”, irá apresentar imagens dos campos de prisioneiros/concentração-extermínio, que não existem apesar dos satélites demonstrarem a sua existência e localização a quem quer que o deseje saber, e nos quais se usam práticas que os carrascos das SS muito teriam desejado conhecer e aplicar à sua agenda de extermínios. No entanto, havendo bem aprendido as lições de Treblinka e Teresin, estes documentários irão apresentar felizes prisioneiros a jogar à bola, a comer bolos, a passear junto do arame farpado de braço dado com as namoradas e a apontar para as montanhas ao longe, apreciando a paisagem, rematando com um evento cultural onde os prisioneiros apresentarão peças de teatro a falar da abundância de sardinhas no rancho. A concluir as festividades, haverá uma récita de canto coral com hinos de louvor ao Grande Líder, para demonstrar como os prisioneiros o amam e apreciam as infra-animais condições em são forçados a sobreviver (todos os intervenientes serão exterminados na manhã seguinte, quando as câmaras de filmar já não estiverem lá). Uma vez convencidos os participantes no comício de que no Paraíso do Grande Líder, onde têm a suprema ventura de morar, os seus direitos humanos são melhores do que os do resto do mundo, apesar da sua experiência lhes dizer o contrário (mas quem são eles para saberem mais do que o Grande Líder?), será declarada uma guerra nuclear para defender esses direitos. Porque, como se pode compreender, uma guerra nuclear é a mais altruísta estratégia de defesa dos direitos humanos. Os nossos, pois os dos outros não interessam. E para que os demoníacos países capitalistas e satânicos não sejam apanhados com as calças na mão, o Grande Líder fez já correr nas agências noticiosas do mundo inteiro o pré-aviso de guerra nuclear, para que depois as más-línguas e a Organização das Nações Desunidas não venham dizer que ele atacou à traição e falsa fé.

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