Nasceu o Califado dos Cábulas
Isto dos califados tornou-se moda.
Pois acaba de ser declarada a criação dum novo califado, desta vez pelas
produções cinematográficas do grupo armado favorito dos cábulas: o Movimento
Estudar é Proibido (perdão, Pecado), ou Boko-Boko para os amigos, e sem
surpresas, porque ter ideias criativas dá trabalho e isso é contrário aos
estatutos da gazeta às aulas, o novo califado chama-se Califado dos Cábulas. O
anúncio do recém-nascido foi efectuado conforme o estabelecido na etiqueta para
estas situações: a promulgação foi feita por um líder com ar alucinado e a
segurar uma AK-47 enquanto em fundo se escutavam baterias das ditas AK a
executar o cânone “Quantos Mais Matarmos, Mais Seguro Teremos o Céu p’ra Nós”,
se viam explosões, casas a arder, pessoas a fugir e a serem mortas a rajada de
metralhadora e catana, guerrilheiros a irem de casa em casa a assassinar em
nome de Deus quem lá se escondia, mesmo se desarmado e vulnerável, e dezenas de
jovens raparigas a serem tiradas à força da escola e a serem ali mesmo agraciadas
com a sua nova condição de escravas. As leis deste califado são muito simples: os
estudos são proibidos (excepto os do catecismo do líder), as escolas e
bibliotecas têm de ser reduzidas a escombros para evitar as demoníacas tentações
e quem for apanhado a estudar, cedendo a essas mesmas tentações, mesmo se às
escondidas e em regime auto-didacta, será de imediato esquartejado e posto a
assar em auto-de-fé para salvação e educação dos remanescentes súbditos (se é
que no final ainda irá restar algum). E porque é urgente salvar todas as almas,
especialmente as dos guerreiros do Deus, e porque o Céu entrou em promoção “Mate
3, veja perdoados 40 pecados seus”, as leis do Califado dos Cábulas ordenam que
os se mate o maior número de gente possível, tanto mais que eles não são tão
puros ou amigos de Deus quanto os assassinos… perdão, guerreiros de Deus. Infelizmente
e como Satã é poderoso, as pessoas resistem ainda e sempre à purga dos seus
pecados pela morte, fugindo a sete pés das catanas e metralhadoras para os países
vizinhos. Porém, como os guerreiros de Deus são abnegados e amam o seu próximo,
quanto mais não seja após reduzido a picadinho, uma nova lei foi instituída: as
fronteiras são obra de Satã, logo serão ignoradas. Deste modo, quando as
pessoas fogem para os países vizinhos, crentes de que aí talvez as deixem viver,
colhem a santa surpresa de que os soldados Boko-Boko vão atrás deles – naquilo a
que nos tratados do direito internacional se chama “invasão territorial”, mas
todos sabemos que as leis internacionais também são obra de Satã – e matam-nos
o melhor que podem. E porque fazer turismo é também aconselhado aos guerreiros
de Deus, após terem feito o “serviço” em território estrangeiro, ficam por lá a
ver se podem acrescentar as terras dos vizinhos ao Califado, dado que tudo é de
Deus. Aliás, a expansão territorial é necessária pois em breve ninguém restará para
assassinar e reduzir à escravatura no Califado original e os rapazes de Deus não
podem de repente ficar sem trabalho, sob risco de caírem em tentações e deitar
a perder todo o meritório trabalho assassino antes realizado. Os territórios
incluídos no Califado são agora terras muito felizes pois estão a reaprender a
viver como nos dias anteriores ao pecado, isto é, na Idade da Pedra. Para
começo, os guerreiros de Deus pegam fogo a tudo o que apanham, com especial
enfoque em centrais e transformadores de electricidade, pois foram informados
pelo líder religioso local que o Céu ainda não aderiu a essas modernices. Assim,
e romanticamente, as pessoas estão a reaprender a viver à luz das velas e
fogueiras, sem a poluição gerada pela música nem por nefastas coisas como
Filosofia, Ciências Naturais, Pintura, Escultura e afins. Também estão a
reaprender o romantismo dos haréns, com as mulheres da família impedidas de circular
nas ruas à noite porque se o fizerem “estão mesmo a pedi-las”, e dentro em
breve impedidas de circular de todo, e estão a descobrir o que é a
solidariedade religiosa. Porque este novo califado, assim como vários outros mais
ou menos já estabelecidos ou prestes a estabelecer, está arreceber a preciosa
ajuda de soldados de Deus dos califados amigos. Assim, no Norte de África
tem-se uma Al-Qaeda a operar em todos os conflitos, quando até há bem pouco
tempo o seu centro de actuação era bem mais a leste, um ISIS que decidiu ajudar
os companheiros de fé e dar uma mãozinha aos colegas de outras paragens, uns Salafitas
que agem da Tunísia ao Egipto, pelo menos, e por aí fora. É ou não bonita esta
cooperação no assassínio em nome de Deus? É claro que para fazer a guerra é
necessário aquilo com que se compra os limões e aquilo com que se compra os limões
não cresce nas árvores, nem mesmo por milagre de Deus. Então há uma pergunta a
pairar: quem paga e de onde vem o dinheiro para financiar Boko-Haram, ISIS, Seleka,
Al-Shabaab, Talibãs, Hezbollah, Salafitas, Irmandade Muçulmana, etc.? O mercado
de escravos? O petróleo de campos petrolíferos que por acaso se consiga
controlar durante algum tempo? A extorsão e exigência de resgates? Rapazes,
isso foi, com outras variantes – não o petróleo e os escravos mas a droga – o negócio
da Máfia e esta nunca conseguiu conquistar tanto território? É que para fazer a
guerra, desde as Filipinas aos Camarões e Argélia, pelo menos, é preciso muito
dinheiro e de fontes de rendimento constantes e seguras. É demasiado território,
são demasiados desafios logísticos e operacionais, demasiados combatentes a
quem pagar e manter, pois mesmo a fé em Deus não cala estômagos vazios e quando
os exércitos têm fome costumam virar-se contra os líderes. E já agora, para onde
vão todas estas centenas de escravos e escravas que desaparecem sem que mais se
lhes apanhe o rasto? Como é possível desaparecerem centenas de pessoas duma
assentada sem que se lhes encontre o rasto? 200 e muitas pessoas são demasiadas
para se esconderem num buraco ou debaixo das folhas. Em que casas e países “respeitáveis”
mas que ainda fazem da escravatura o seu modo de funcionamento, estarão agora estas
pessoas? Estarão de alguma forma os donos destes novos escravos envolvidos no
financiamento destes exércitos defensores da Idade da Pedra? Entretanto
acabamos de receber informações do nosso infiltrado no Céu, que dão conta duma
pequena revolta angelical, que reclama melhores condições de trabalho. É que,
na ausência de electricidade que ilumine as noites e dada a grande quantidade
de mortos que estes grupos de guerreiros de Deus estão a oferecer ao Criador em
remissão dos seus pecados e condução dos idólatras à Verdadeira Fé, os anjos
estão a ter grande dificuldade em contar os cadáveres – e fazer o consequente cálculo
de pecados perdoados aos assassinos – apenas à luz das suas próprias asas.

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