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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Eu Sou uma Pessoa de Bem, Apenas Não Olhem Para o Registo dos Meus Crimes

 Tem havido grande perturbação no clube de apostas da Organização das Nações Desunidas por causa das eleições para os seus clubes de poker, de bridge e de canastra. Como no poker são todos uns zaragateiros, e a Organização das Nações Desunidas é um grémio sério, o clube do de poker tem o nome de Conselho de Segurança, mas as regras do jogo são exactamente as mesmas: todos fazem caras circunspectas (as famosas caras de poker), todos tentam convencer os parceiros que o seu jogo é o mais forte da mesa, enfim todos fazem bluff para que os outros não lhes descubram a jogada nem os lixem c’os trunfos. Tal como nos campeonatos internacionais, também aqui há jogadores da 1ª, 2ª e 3ª divisão, tendo os 1º divisionários permanente lugar cativo à mesa de jogo com direito de mudarem as regras sempre que lhes apetece, o que torna o jogo muito mais divertido… É claro que todos querem fazer parte do selecto clube mas não pode porque os seus membros instituíram uma espécie de clausula de exclusão, portanto á falta de melhor, ficam todos felizes se forem chamados para a 2ª divisão, a qual muda consoante a estação do ano. Assim uma espécie de Campeonatos da Primavera, de Verão, de Outono, estão a ver… por isso a Organização das Nações Desunidas ficou ainda mais desunida quando este ano um dos apurados disse que não queria fazer parte da 2ª divisão, estava muito bem na 3ª regional, fizessem o favor de escolher outro, pois não queria alinhar num jogo viciado, com cartas marcadas “para dar sempre a vitória aos gajos da 1ª liga”. Esta atitude teve graves repercussões no financiamento da União pois atirou de pantanas com os serviços de apostas relativos à eclosão da próxima traulitada, tendo sido necessário proceder ao recálculo dos prémios a distribuir aos clientes e margens de lucro dos corretores de apostas. Já por outro lado, a eleição para o clube de bridge – que é como quem diz o Comité para os Direitos Humanos, seja lá o que isso for nos tempos d’hoje – decorreu sobre rodas, sem arrufos ou alaridos. Porque, para evitar celeumas, as regras estavam neste caso muito bem definidas à partida, dado este ser um assunto quente nas Nações Desunidas. Assim, era condição obrigatória que os candidatos tivessem provas dadas, com o currículo mais extenso e versátil possível, da arte de torturar em todas as especialidades. Também era obrigatório apresentar um portfolio devidamente ilustrado com exemplos concretos, em papel foto lustroso e de grão fino, a cores e formato A4, de perseguições a minorias: religiosas, étnicas, sexuais, etc. Todos os candidatos deveriam também comprovar a sua experiência em repressão ao direito de expressão escrita, falada, de associação, manifestação e, sempre que tecnicamente possível, de controlo do pensamento dos respectivos súbditos. Seriam condições de classificação especial a prova documental – com vídeos e respectivo registo sonoro – de genocídios bem sucedidos, sendo a classificação do candidate tanto mais alta quanto o extermínio mais se aproximasse dos 100% de eficácia. A caça aos súbditos quando estes tentassem fugir do país por não aguentarem mais as condições de vida, mesmo que não por causa de um programa higiénico de genocídio, receberia os mesmos pontos de classificação dum genocídio, caso não existisse no país minoria alguma, ou comunidade estrangeira, para exterminar. Finalmente uma bem sucedida repressão da dissidência e símbolos culturais de minorias étnicas, como língua, roupa, arte ou religião, devidamente provado com fotografias, relatórios, legislação e outros mecanismos de genocídio cultural, era critério prioritário de avaliação. Todos os candidatos se excederam em todas estas modalidades, tendo sido unanimemente aprovados para membros da Comissão de Direitos Humanos. Os mais distraídos poderão estranhar que sejam países com tais currículos os escolhidos para supervisionarem essa coisa dos Direitos Humanos mas nada mais simples de explicar. Quem melhor do que um ladrão para descobrir como uma casa foi assaltada?

Estaleiros Navais Inauguram Nova Tecnologia Para Submarinos e Porta-Aviões

Com pompa, copos de três e foguetório foi hoje lançado ao mar pelo Ministro dos Relógios, o excelentíssimo Paulo Ibn-Portões, o revolucionário porta-aviões Economia, o qual, como já se previa, nem chegou a sair das docas dos Estaleiros da Barafunda, pois mal lhe rebentaram com a garrafa de Raposeira na quilha e desceu o plano inclinado direito ao domínio marinho, entrou por ele dentro e foi ao fundo… sem voltar a reemergir, ao contrário de alguns submarinos também contratualizados pelo mesmo Ministro quando ainda andava a treinar para chegar aos Relógios. O afundanço foi considerado um enorme sucesso das políticas de crescimento do desemprego, emigração em massa e mortalidade devido ao também afundanço da segurança social e outras prebendas inúteis que só servem para criar calões e cabelos brancos nos governantes e impedi-los de saborear um bom havano (de contrabando). O director dos Estaleiros da Barafunda, comprados há poucos dias por uma empresa na pré-falência (chiu, é segredo, os mercados não podem saber) e que se especializou em obras que dão para o torto, declarou à imprensa escrita e visual que o agora adornado porta-aviões – nesse instante o vaso de guerra deixou de adornar para afundar a pique – foi construído com a mais avançada tecnologia dos tais submarinos, comprados à empresa Aço e Ferro-Velho com sede na Cidade das Bolas de Berlim. Seja dito que estes submarinos nunca saíram do cais por receio de que oferecessem ao curioso público o mesmo interessante espectáculo dos submersíveis desta empresa, comprados pela Democracia da Moussaka e que em vez de singrarem mar afora, viraram de borco quando a marinha local os tentou pôr a navegar. No entanto, como o pessoal aqui do Nabal não é de moussakas mas de boa cerveja do Mar do Norte, os Estaleiros da Barafunda ousaram melhorar a tecnologia da Aço e Ferro-Velho, a mais avançada neste tipo de construção naval, e o resultado foi uma Economia que afundou com maior rapidez que os submarinos das Bolas de Berlim, poupando assim imensas divisas em combustível, reparações, manutenção e salários dos marinheiros que estão lá em baixo a morrer aos bocadinhos, pois não há dinheiro para operações de resgate. A tecnologia incluiu rombos discretos no casco, designados na linguagem técnica naval como off-shores, alteração do design e aumento da potência dos turbo-reactores Dívida Pública e upgrade do sistema eléctrico Taxa de Desempego, que passa agora apenas a alimentar a cabine do capitão, desaparecendo das estatísticas todas as demais áreas do navio. Também foram revistas em alta as rendas do sistema PPP de camuflagem contra sonares inimigos e o sistema de propulsão de emergência Impostos e Taxas Moderadoras. Por seu turno, para poupar nos gastos com inutilidades como alimentação para a tripulação abaixo de comandante de frota, o sistema de distribuição de rações Défice Público passou a funcionar em regime alternado: umas vezes está em alta e outras está em baixa, tudo dependendo do menú do dia na messe dos capitães. Com todas estas alterações não sabemos se a economia real – a que, está bem de ver pelos resultados até agora obtidos, não é falada nos livros – vai alguma vez sair do coma mas o Economia afundou a uma velocidade que já o colocou no Livro dos Records. Pasmados com este sucesso, os dirigentes da Aço & Ferro-Velho enviaram já sinais de fumo (pois não acreditam que o pessoal daqui do sul tenha inteligência para usar sequer um email) a pedir detalhes das inovações, para as patentearem como suas no Cantão dos Queijos, onde se acabou de votar uma lei contra a entrada de estrangeiros mas não, como é natural, contra a entrada de negócios e divisas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Relógio do Coelho da Alice

Foi esta semana inaugurado no Portal Amarelo da República dos Nabos o Grande Relógio do Coelho Branco da Alice, o que coloca o nabal na frente dos contos de fadas, já que a realidade é mais mirabolante do que as aventuras da dita Alice, e no caso tão perigosa quanto estar na presença da Rainha de Copas. E porque nada mais apropriado do que um coelhinho branco para inaugurar o relógio do seu famoso homónimo, foi o inaugurador o nosso caro professor-doutor Portas Ibn-Portões que se vestiu a preceito para a função (tendo pedido emprestado um fato de coelhinha da Playboy) e surgiu em palco aos pulinhos como o simpático roedor e co-herói de aventuras da Alice, batendo com a patinha a música da Quadrilha das Lagostas e entoando as rimas de Humpty Dumpty e do Chapeleiro Louco para grande felicidade e êxtase dos meninos reunidos para a inauguração, trajados a preceito com as letras do alfabeto emprestadas dos adereços ali da Rua Sésamo, de que se destacaram as letras Jota em delicadas cores laranja e amarelo rosé. Foi uma festa de beneficência magnífica, destinada a recolher fundos para os Jotas e para os pobrezinhos da República Federal das Batatas, que são os mais pobrezinhos da União das Hortaliças e precisam de toda a nossa solidariedade. Para abrilhantar o espírito festivo da época natalícia o Grifo dançou uma tarantela com a Falsa Tartaruga, deixando todos atarantados, e os gémeos Teedledee e Tweedledum deram lambadas um ao outro, num estilo capaz de fazer corar qualquer dançarina exótica. Para bem da moral e bons costumes o Grifo interrompeu a sessão de lambada e deu a palavra à Lagarta no Cogumelo, que muito interessou a audiência, a qual pasmou para a profundidade do discurso, quanto mais não fosse pelas incompreensíveis deduções, resultantes da pedra provocada pelo tabaco do cachimbo da Lagarta e que reproduziam ponto por ponto os últimos discursos do Ministro-Mor do nabal, mostrando a total consonância entre os dois partidos no governo e a irrevogabilidade da aliança com o distinto professor-doutor Portas Ibn-Portões. Falou-se muito do futuro e do poder mágico do relógio prestes a ser inaugurado, o qual quando chegar a zero não fará nenhum foguetão levantar voo como em Cabo Canaveral mas rebentará em tal estrondo que a Tripeça irá pelos ares e o nabal será reduzido a cisco, acabando assim com todos os seus problemas. O Chapeleiro Louco aplaudiu muito e tentou despejar chá por cima do pom-pom caudal do coelhinho do professor Ibn-Portões, fazendo com que este desatasse aos saltos por causa da água fervente e não, como pensaram os queridos jotinhas, pelo entusiasmo da inauguração. Infelizmente, quando por fim cortaram a fita e deram com o flamingo no vidro do relógio – como se faz aos barcos no dia do lançamento ao mar – o relógio não fez tique-taque. A Rainha de Copas ficou furiosa com tão estrondosa falha dos relojoeiros do reino e desatou a gritar “Fora com a sua cabeça!” enquanto o professor-doutor Portas Ibn-Portões, aproveitando a deixa dos ouriços que haviam rebolado dali para fora antes da rainha abrir a boca, saiu a correr da sala, falando para com os seus botões, muito aflito: “Ai, ai, ai! Estou atrasado! Estou atrasado!”. Espera-se agora que o mágico relógio avariado faça a sua magia e conserte todos os problemas do Nabal, e da União das Hortaliças, o que em 5 anos de crise nem governos nem Parlamento da União foram capazes de resolver.

Foi ontem aprovada no Principado dos Privilégios uma lei do silêncio obrigatório sobre salários, alcavalas, dividendos, subsídios, despesas várias e outras alcavalas da nobre classe dirigente que já actualmente ganha 10 vezes mais do que os seus governados. Os contribuintes passivos e os activamente fugintes ao fisco, suspiraram de alívio pois estavam cansados de se indignarem diariamente com a descoberta de novas prebendas gordalhuças dos governantes, que ninguém entende de onde caem pois o Principado também se vê a braços com uma bonita crise económica, social, política e mais umas quantas que andam por aí à solta. Assim, os ministros decidiram desde já aumentar de novo os seus salários, despesas de representação e ajudas de custo pois agora ninguém saberá de fonte oficial quais serão os aumentos atribuídos. Também decidiram aumentar uma série de impostos sobre os governados e criar muitos novos, tais como: Imposto de Andar a Pé, Imposto da Sombra, Imposto de Respiração, Imposto por Fazer Meninos, Imposto Por Não fazer Meninos, Imposto de Alimentação, Imposto Por Estar Um Ano Mais Velho (embora se preveja que os nascidos a 29 de Fevereiro fujam a este por períodos de 3 anos à vez). Este aumento de impostos é necessário não para pagar juros da dívida ao Fundo Mundial da Agiotagem mas para criar um fundo resiliente para os novos aumentos de salário e alcavalas que em breve farão a classe dirigente fará novamente a si própria. No entanto os governantes aumentados terão a vida muito mais dificultada, pois não é fácil gastar tanto dinheiro, até porque se o gastarem talvez ajudem a dinamizar a economia, o que não convém nada. Assim, diversas empresas de consultoria financeira sedeadas em vários offshores estão já a contactar os ministros do Principado, via Rede-de-Pesca onde tudo é muito mais anónimo e rápido, para os ajudar a transladar os seus fundos, salários, pensões, reformas e carteiras de acções para contas aí escondidas, como toda a gente de bem e que se preze também possui. O facto da lei do Principado dos Privilégios declarar crime de traição e lesa-majestade a transferência de quaisquer rendimentos, activos financeiros, bens mobiliários e outros para o exterior só se aplica, naturalmente, aos governados, pois a lei não é cega mas é bem pesada. Infelizmente para os ministros, além das dificuldades terríveis que irão passar para gastar o dinheiro, terão ainda de suportar o terrível tormento de esperar alguns dias até os seus bens patrimoniais serem adequada, secreta e seguramente transferidos para os offshores. Mas o mais terrível de tudo é que os pindéricos súbditos do Principado têm a incorrigível mania de espiarem toda a gente e coscuvilharem sobre tudo e mais alguma coisa. Para satisfazer este vil costume, os jornalistas estão já a instalar escutas ilegais nos ministérios, restaurantes exclusivos, clubes, casas de praia, de campo, de golfe, de caça, da cidade, quintas e resorts pessoais dos governantes, para saberem exactamente e ao pormenor os próximos aumentos de salários ministeriais e transferências offshore em primeira mão e espalhar as novidades pelos seus leitores. Não é terrível ter assim a privacidade devassada? Bem estão os pindéricos súbditos que, forçados a viver debaixo das pontes pois as rendas das barracas são demasiado caras, não sofrem com as escutas. Quem de seu juízo vai instalar escutas nos pardieiros e debaixo das pontes, dado que a viverem ao relento, a vida destes incómodos súbditos está à plena vista de quem queira coscuvilhar?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Esta Liberdade É Só Retórica, Seus Nabos!

Vai grande reboliço no Nabal por causa da alteração dos horários de trabalho, decretados pelo dono da horta, isto é, da República Democrática dos Nabos, que sempre achou serem os seus hortelões uma cáfila de preguiçosos do piorio e por esse motivo decidiu aumentar o horário de trabalho, para os obrigar a vergar a mola pelo maior tempo possível sem que viesse a receber sanções por violação dos acórdãos mundiais sobre o trabalho. Porque alguns dos assalariados ainda poderiam ser seus parentes, decidiu o senhor da horta incluir a hipótese neste decreto, com direito a pregação na porta da igreja e das tascas da zona, dos hortelões-rendeiros e capatazes do pessoal, de renegociarem o horário de trabalho que mais lhes parecesse adequado. Acontece porém que os hortelões-rendeiros, que conhecem como se faz o trabalho e a dimensão real do dia solar, consideraram que o melhor era manter o horário de trabalho tal e qual como estava dado que, para todos os efeitos, os cavadores daquela horta trabalhavam mais horas e não se encostavam menos às árvores do que os cavadores das hortas vizinhas, apesar de serem mais pobres que todos os vizinhos pois por ali a distribuição dos lucros da venda das hortaliças vai apenas para alguns. Restou disto que grande parte dos cavadores, podadores, mondadores e rapazes da água ficaram com o horário antigo e só uns quantos – os directamente dependentes de contrato com o dono da horta e que para todos os efeitos não percebe nada de agricultura – ficaram com o horário de sol-a-sol, isto é, o novo. Como seria de prever, isto tem dado imensa tensão laboral entre cavadores, hortelões-rendeiros e o dono da chafarica, ao ponto de já se estarem a afiar as lâminas das enxadas para se ir às do vizinho (o dono não está nestes assados pois a sua casa é longe da horta e ainda mais dos cavadores). Por esta razão muitos nabos pegaram já nas ramas e emigraram, com receio de levarem outra enxadada nas tolas, e não como dizem as más-línguas por causa do desemprego, pois esse até tem baixado, não por haver mais trabalho mas porque os desempregados, contemplando uma maravilhosa carreira de longa duração – sem trabalho para o esto da vida - deixam de fazer parte das estatísticas ao fim de 1 ano sem trabalho passando a ser os “inactivos” mesmo que o não queiram ser. Perante a debandada em massa dos nabos e outros mimos da horta e as primeiras cabeças partidas, além dum engarrafamento de ambulâncias – e sermões nos cafés e tascas da aldeia sobre o caso – o dono da horta, isto é, da República, enviou o seu porta-voz (já que ele não se atrevia a enfrentar os ânimos azedados dos jornaleiros rurais) para pôr tudo em pratos limpos que é como quem diz, com as enxadas cravadas na terra. O porta-voz anunciou que vai enviar para o tribunal esta questão de uns aplicarem o novo horário de trabalho e outros o antigo para provar que ele, o dono, é que tem razão. E quando os rendeiros fizeram ver que na lei estava escrito que era dada liberdade de renegociar o horário de trabalho com os assalariados à jorna, o porta-voz declarou que essa liberdade era a liberdade de renegociar um horário ainda mais longo (livrando o dono da horta de problemas com os tribunais internacionais) ou então não renegociar coisíssima nenhuma. E quando um dos rendeiros, um espertalhaço com um curso superior em leis mas não dos novos, dos de 15 dias, respondeu que isso não era liberdade nenhuma, o porta-voz respondeu: “oh, meu parvalhão, então ainda não percebeste que esta liberdade é apenas retórica?”.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Abrem Hoje os Campeonatos Mundiais do Disparate

Decorreu hoje em imponente cerimónia inaugural com direito a tocha, danças com muitos grupos étnicos e fogo de artifício de estontear os Campeonatos Mundiais do Disparate e em plural porque no singular já não dava para as encomendas. Apesar da época do ano, os organizadores garantiram já que estes Campeonatos não pretendem de forma alguma copiar ou roubar as multidões dos Jogos Olímpicos, a decorrer actualmente na capital do espirro e constipações do Império dos Ursos. Tal como nos Olímpicos, também aqui as equipas são muitas e de todos os continentes. E tal como nos Olímpicos, as equipas são classificadas em função dos desempenhos realizados nos últimos 4 anos, os chamados Mínimos do Disparate, sendo a única diferença que os competidores não são atletas de alto nível mas… os governos dos Estados. Este ano a selecção foi especialmente difícil pois os governos, cientes da importância destas provas internacionais, têm nos últimos 4 anos dado o seu melhor para criar os maiores disparates do planeta ou, na ausência dos maiores, o maior número possível. Os principais candidatos ao título do Mais Aparvalhado e vencedor dos jogos são os que abaixo se descrevem, em conjunto com as suas contribuições para a parvoíce e ignorância estrábica mundial:
1. Império do Chá – no início do ano, alarmados com a possibilidade de terem a entrar-lhes pelas fronteiras alguns concidadãos de Leste da União das Hortaliças, de que fazem parte e em que assinaram o Tratado de Livre Circulação de Pessoas e Bens, promulgaram leis para impedir a entrada desses concidadãos e lixarem o mais possível a vida aos imigrantes que lá lá se encontram, sejam ou não do Leste. Estas medidas colocaram o país entre os melhores classificadados na modalidade Violar Todos os Tratados Assinados e promovem o saudável ódio aos estrageiros, em particular à minoria do Povo das Carroças, que deve é ser regada com ácido, como acabou de acontecer na Cidade das Luzes, e capital da República do Amor e do Queijo Gruyère e cujo hino é uma canção de amor chamada a “Marselhesa”. Espera-se que este tipo de atitude seja agora replicado por todos os outros países da União até acabar tudo à pancada no Tacho.
2. Califado dos Dervixes Voadores – uma das economias emergentes, distinguiu-se no ano passado em reprimir à trolha uma enorme contestação popular à mania do seu líder em tentar que as pessoas vivam a religião do mesmo modo fanatizante que ele. Na sequência desta contestação, e doutras, o governo local acabou de aprovar duas maravilhosas leis: a primeira a de reprimir e prender médicos que no futuro venham a prestar cuidados de saúde a manifestantes intoxicados com armas químicas, balas de borracha, cassetetes e tasers eléctricos e outros brinquedos das Polícias de Choque; a segunda, a de controlar tudo o que  os seu cidadãos vêm por Internet e, caso o visor/censor não goste do que o cidadão está a ver – ou está a publicar – eliminar de imediato o acesso a essa página ou bloquear a publicação do conteúdo, para que não haja aso a pensar-se fora do que manda o líder. Estas leis vão criar duas revoluções, uma na medicina e outra no mundo on-line. Na Medicina o antiquadérrimo Juramento de Hipócrates será substituído por um juramento de fidelidade ao líder, tendo sido já sugerido que poderia ser algo nos moldes do que era jurando quando se entrava para as SS. A revolução on-line ditará o fim da absurda mania da liberdade de navegação, permitindo a recuperação da economia mundial através de novas linhas de negócio como por exemplo a venda de cartas de navegação aos candidatos a utilizadores da Net, após exame de obediência ao pensamento do líder e pagamento de imposto que será de metade do salário anual.
3. Califado das Tribos à Pancada – aqui a guerra não é só entre tribos mas também contra o mulherio. Nos últimos dias foi aprovada a lei do casamento infantil, que na prática legaliza a entrega de meninas de 9 anos a maridos que sejam homens adultos (e o facto delas morrerem na noite da consumação do casório não é problema, o homem pode passar à caça do dote seguinte), o que impede as rapariguinhas de adquirirem perniciosos conhecimentos e ideias na escola, estando como estarão – as que sobreviverem à prova – ocupadas com as questões da casa, do marido (e das sovas que este lhe dará sempre que estiver para aí virado) e logo que possível, com os filhos que pouco mais novos serão do que elas, como é bom de ver. A outra lei, igualmente interessante e que vem apaziguar os temores de alguns homens especialmente adeptos de malhar nas esposas ou de as regarem com ácido quando estão ao dormir, apenas porque “elas estavam ali”, declara que as vítimas de violência doméstica – que no país são as esposas, filhas, mães e irmãs – não podem apresentar queixa contra os seus agressores e mesmo que parentes das vítimas o pensassem fazer, serão agora interditados de prestar declarações em tribunal mesmo tendo sido testemunhas oculares dos factos. Esta maravilhosa lei permite assim a propagação do ódio e da violência impune sobre pelo menos metade da população local, esperando-se que venha de igual modo a servir de exemplo para os países vizinhos e por fim se espalhe ao mundo todo a moda de matar, mutilar e espancar o mulherio. Tudo em nome da moral e dos bons costumes (que deverão a partir dessa altura ter novo significado).
4. País em Luta Contra o Exército da Resistência do Senhor, mais conhecido pelo País dos Diamantes de Sangue, decidiu que mais importante do que lutar contra este exército terrorista especializado em massacrar sistematicamente a população civil que nem sequer foi consultada para a barafunda, tinha era de assestar baterias contra os homossexuais. E vai daí, zás, publicou umas bonitas leis que punem toda a gente que não tem tendências sexuais em conformidade com o novo Código Civil, de pena de cadeia idêntica à de um homicida, quem quer que acolha em casa, proteja ou não denuncie os homossexuais – copiando leis de perseguição a minorias religiosas que estiveram em vigor antes e durante a última guerra mundial – será também preso e multado por “conivência com os pecadores” e qualquer pessoa que dê aconselhamento ou apoio médico, incluindo o de tratamento e prevenção da SIDA, deverá ser preso e multado por “ajudar os pecadores”. Sendo que neste país os homossexuais são uma minoria mesmo minoria da população – se tanto uns 1% - e sendo o país o recordista mundial de propagação da SIDA, pode ver-se o revolucionário efeito desta medida: conseguir que mais cedo ou mais tarde toda a população esteja afectada, dado que quem trabalha na prevenção desta doença terá até medo de perguntar se o seu paciente é ou não larilas. Ao mesmo tempo esta lei canaliza o desespero da população com a guerra civil e as horríveis condições de vida para cima dos homossexuais, que são por via de regra pacíficos e não conseguirão defender-se da perseguição, tanto mais que a lei em causa também pune com cadeia qualquer advogado idiota que decida defender os direitos humanos mais elementares (como o direito à vida) destes cidadãos, que passam agora a ser oficialmente… de última categoria. O ódio assim canalizado permitirá por seu turno a manutenção no poder por parte de quem criou esta lei e não soube até agora governar o país.
6. Império dos Ursos – mas desenganem, se se pensam que estas leis anti-homosexxuais são apanágio de “atrasados países do Sul”. Porque no Império dos Ursos, o que agora organiza e acolhe os Olímpicos, leis parecidas foram postas em prática. Mais ainda, o nosso amável Pupú e czar do país, decidiu que quem quer que proteste contra a sua liderança é preso. Assim, prendeu manifestantes que no Inverno protestavam pacificamente na praça principal da capital, dispersou à traulitada uma brincadeira de universitários que faziam na rua uma divertida guerra de almofadas, e acaba de prender pessoas que dizem palavrões nas paragens dos autocarros, porque supostamente estão a ser mal-comportados mas na verdade porque têm andado a divulgar coisas que o querido Pupú não quer que se saibam. O Pupú acha que os homossexuais são um perigo para o Império (e não a marada da economia local nem a brutal lavagem de dinheiro na organização dos Olímpicos) e por esse motivo as leis que promulgou permitem e legalizam o ataque a homossexuais e suas organizações, que são a partir de agora ilegais e, tal como no país atrás referido, quem tentar defender em tribunal os direitos dos agredidos será considerado um infractor da lei e como tal sujeito a pagar pelo atrevimento. Antigamente, quando as coisas iam más, os czares canalizavam a frustração do povo para os massacres e pogroms contra a minoria das estrelas amarelas, mas essa minoria, cansada de levar pancada, quando as fronteiras se abriram fugiu em massa e agora já não está lá para levar porrada. Donde o bom povo do cursos, para responder em harmonia às novas leis, desatou já a espancar homossexuais e vandalizar os seus bens. Já que o povo não pode malhar no Pupú, malha nos outros. Esta lei é assim uma forte competidora da categoria: Desviar os Alvos e Permanecer no Poder.
7. A República Federal das Batatas porém decidiu concorrer na categoria a Grande Lata, através da decisão do seu Tribunal Constitucional que declarou inconstitucionais as medidas tomadas pelo Banco Central da União e que de facto valeram a salvação da moeda única até ao momento. Supostamente todos os países da União têm de obedecer às leis e directivas desta e até agora os desgraçados países que tiveram de ser “ajudados” foram obrigados até a violar as suas constituições porque “não podiam ir contra os Tratados” e contra o que fora ditado pela União. No entanto esta República Federal tem um Tribunal Constitucional que pode dar julgado e parecer sobre as leis não do seu país… mas de toda a União. De facto, se não forem os campeões da Grande Lata…
8. Por seu turno a República Democrática dos Nabos, para fazer jus à sua grande nabice, está a rebentar a escala na modalidade Disparate ao Minuto. Começou com a inovação dos vistos gold, para fazer arrancar a economia, embora não se consiga perceber como é que a compra de apartamentos de luxo por parte de estrangeiros – muitos deles com dinheiro não se sabe de onde – poderá recuperar a economia e o facto é que até agora não recuperou. A menos que se espere que o local passe a ser uma plataforma de negócios das máfias… mas a seguir, e com medo de perder a medalha do dito, decidiu avançar com uma proposta de vistos gold para investigadores, exactamente duas semanas após ter cortado as bolsas para investigadores nacionais aí na casa dos 90% e quanto aos projectos de investigação é melhor nem tentar fazer cálculos… porque, é claro, não há dinheiro. Como é que agora a ciência nacional se vai desenvolver com investigadores de vistos gold é um mistério digno de investigação científica e quiçá Nobel pois que qualquer investigador que queira vir para o Nabal fazer ciência, já o faz através de milhentos protocolos e programas de câmbio e convites de centros de investigação e universidades. Como é que apenas meia dúzia de eventuais investigadores gold irão fazer avançar a ciência nacional sem as centenas dos outros nacionais para fazer trabalho é que também não se percebe, mas é por isso que o Nabal concorre na categoria do Disparate ao Minuto. Para melhorar as possibilidades de triunfo, a oposição local apresentou agora uma nova proposta de lei, que se pode traduzir por Tribunais Gold. Esta inovação legislativa pretende criar tribunais específicos para investidores estrangeiros com muito dinheiro, deixando todos os outros na balbúrdia judicial do costume e revolucionando a mais do que primitiva noção de Justiça que é: “a lei é igual para todos”. Por todas estas incríveis ideias apostamos todo o nosso pilim nos nabos campeões do Disparate ao Minuto.
9. No Cantão dos Queijos, e contra a opinião de todos os partidos menos do que fez a proposta, acaba de ir a votos a lei de bloqueio à livre circulação de pessoas e bens, ao arrepio de todos os tratados assinados, o que coloca este país em competição directa com o Império do Chá e as suas leis anti-emigração de Leste, na modalidade já com grande e multi-secular tradição: Violar Todos os Tratados Assinados. Devemos contudo assinalar que nos parece estar o Cantão dos Queijos em melhores condições para ganhar a prova dado que a lei agora aprovada pela maioria da população limita a entrada de imigrantes no país mas não limita de forma alguma a entrada de dinheiro, ouro ou outros bens de valor, nem as transferências bancárias que se façam para os cobiçados e secretivos bancos do país.
10. Na República do Amor e do Queijo Gruyère a moda é a de realizar enormes manifestações contra os direitos dos homossexuais em casar e em expulsar e regar com ácido a minoria do Povo das Carroças, e de os atacar violentamente seja lá como for, mesmo que seja a minoria nascida e criada no país. A questão do casamento gay permite a este país concorrer na categoria Hipocrisia Militante ou O Amor É Só Para os Outros, dado que quando a epidemia de SIDA começou se aconselhava este grupo da população a desenvolver relações monogâmicas e agora, que eles seguiram o conselho e querem legalizar estas relações… enfrentam oposição. A questão da expulsão do Povo das Carroças, levando mesmo a ida às escolas para tirar os estudantes desta etnia das salas de aula e os deportar para países onde nem sequer talvez tenham nascido, levou alguns devotados membros da população local, em resposta a estas medidas governamentais,  a atacar e borrifar de ácido outros membros das Carroças, o que em paralelo com a popularidade do comediante Dedouanas, coloca este país na linha da frente para a competição na modalidade: Eu Tenho Muitos Amigos Estrangeiros Mas Estes Estrangeiros Não São Daqui.
Assim sendo, apenas desejamos fazer uma pergunta aos leitores: têm a certeza que as próximas eleições são para um novo Parlamento da União ou não serão antes para a eleição dum novo Hitler? É que as semelhanças dos tempos, e dos disparates, dão muito que pensar.