O Relógio do Coelho da Alice
Foi esta semana inaugurado no
Portal Amarelo da República dos Nabos o Grande Relógio do Coelho Branco da
Alice, o que coloca o nabal na frente dos contos de fadas, já que a realidade é
mais mirabolante do que as aventuras da dita Alice, e no caso tão perigosa
quanto estar na presença da Rainha de Copas. E porque nada mais apropriado do
que um coelhinho branco para inaugurar o relógio do seu famoso homónimo, foi o
inaugurador o nosso caro professor-doutor Portas Ibn-Portões que se vestiu a preceito
para a função (tendo pedido emprestado um fato de coelhinha da Playboy) e
surgiu em palco aos pulinhos como o simpático roedor e co-herói de aventuras da
Alice, batendo com a patinha a música da Quadrilha das Lagostas e entoando as
rimas de Humpty Dumpty e do Chapeleiro Louco para grande felicidade e êxtase
dos meninos reunidos para a inauguração, trajados a preceito com as letras do
alfabeto emprestadas dos adereços ali da Rua Sésamo, de que se destacaram as
letras Jota em delicadas cores laranja e amarelo rosé. Foi uma festa de
beneficência magnífica, destinada a recolher fundos para os Jotas e para os
pobrezinhos da República Federal das Batatas, que são os mais pobrezinhos da
União das Hortaliças e precisam de toda a nossa solidariedade. Para abrilhantar
o espírito festivo da época natalícia o Grifo dançou uma tarantela com a Falsa
Tartaruga, deixando todos atarantados, e os gémeos Teedledee e Tweedledum deram
lambadas um ao outro, num estilo capaz de fazer corar qualquer dançarina exótica.
Para bem da moral e bons costumes o Grifo interrompeu a sessão de lambada e deu
a palavra à Lagarta no Cogumelo, que muito interessou a audiência, a qual
pasmou para a profundidade do discurso, quanto mais não fosse pelas
incompreensíveis deduções, resultantes da pedra provocada pelo tabaco do
cachimbo da Lagarta e que reproduziam ponto por ponto os últimos discursos do
Ministro-Mor do nabal, mostrando a total consonância entre os dois partidos no
governo e a irrevogabilidade da aliança com o distinto professor-doutor Portas
Ibn-Portões. Falou-se muito do futuro e do poder mágico do relógio prestes a
ser inaugurado, o qual quando chegar a zero não fará nenhum foguetão levantar
voo como em Cabo Canaveral mas rebentará em tal estrondo que a Tripeça irá
pelos ares e o nabal será reduzido a cisco, acabando assim com todos os seus
problemas. O Chapeleiro Louco aplaudiu muito e tentou despejar chá por cima do
pom-pom caudal do coelhinho do professor Ibn-Portões, fazendo com que este
desatasse aos saltos por causa da água fervente e não, como pensaram os
queridos jotinhas, pelo entusiasmo da inauguração. Infelizmente, quando por fim
cortaram a fita e deram com o flamingo no vidro do relógio – como se faz aos
barcos no dia do lançamento ao mar – o relógio não fez tique-taque. A Rainha de
Copas ficou furiosa com tão estrondosa falha dos relojoeiros do reino e desatou
a gritar “Fora com a sua cabeça!” enquanto o professor-doutor Portas
Ibn-Portões, aproveitando a deixa dos ouriços que haviam rebolado dali para
fora antes da rainha abrir a boca, saiu a correr da sala, falando para com os
seus botões, muito aflito: “Ai, ai, ai! Estou atrasado! Estou atrasado!”.
Espera-se agora que o mágico relógio avariado faça a sua magia e conserte todos
os problemas do Nabal, e da União das Hortaliças, o que em 5 anos de crise nem
governos nem Parlamento da União foram capazes de resolver.
Foi ontem aprovada
no Principado dos Privilégios uma lei do silêncio obrigatório sobre salários,
alcavalas, dividendos, subsídios, despesas várias e outras alcavalas da nobre
classe dirigente que já actualmente ganha 10 vezes mais do que os seus
governados. Os contribuintes passivos e os activamente fugintes ao fisco,
suspiraram de alívio pois estavam cansados de se indignarem diariamente com a
descoberta de novas prebendas gordalhuças dos governantes, que ninguém entende
de onde caem pois o Principado também se vê a braços com uma bonita crise
económica, social, política e mais umas quantas que andam por aí à solta.
Assim, os ministros decidiram desde já aumentar de novo os seus salários,
despesas de representação e ajudas de custo pois agora ninguém saberá de fonte
oficial quais serão os aumentos atribuídos. Também decidiram aumentar uma série
de impostos sobre os governados e criar muitos novos, tais como: Imposto de Andar
a Pé, Imposto da Sombra, Imposto de Respiração, Imposto por Fazer Meninos,
Imposto Por Não fazer Meninos, Imposto de Alimentação, Imposto Por Estar Um Ano
Mais Velho (embora se preveja que os nascidos a 29 de Fevereiro fujam a este por
períodos de 3 anos à vez). Este aumento de impostos é necessário não para pagar
juros da dívida ao Fundo Mundial da Agiotagem mas para criar um fundo
resiliente para os novos aumentos de salário e alcavalas que em breve farão a
classe dirigente fará novamente a si própria. No entanto os governantes
aumentados terão a vida muito mais dificultada, pois não é fácil gastar tanto
dinheiro, até porque se o gastarem talvez ajudem a dinamizar a economia, o que
não convém nada. Assim, diversas empresas de consultoria financeira sedeadas em
vários offshores estão já a contactar
os ministros do Principado, via Rede-de-Pesca onde tudo é muito mais anónimo e
rápido, para os ajudar a transladar os seus fundos, salários, pensões, reformas
e carteiras de acções para contas aí escondidas, como toda a gente de bem e que
se preze também possui. O facto da lei do Principado dos Privilégios declarar
crime de traição e lesa-majestade a transferência de quaisquer rendimentos,
activos financeiros, bens mobiliários e outros para o exterior só se aplica,
naturalmente, aos governados, pois a lei não é cega mas é bem pesada.
Infelizmente para os ministros, além das dificuldades terríveis que irão passar
para gastar o dinheiro, terão ainda de suportar o terrível tormento de esperar
alguns dias até os seus bens patrimoniais serem adequada, secreta e seguramente
transferidos para os offshores. Mas o
mais terrível de tudo é que os pindéricos súbditos do Principado têm a
incorrigível mania de espiarem toda a gente e coscuvilharem sobre tudo e mais
alguma coisa. Para satisfazer este vil costume, os jornalistas estão já a
instalar escutas ilegais nos ministérios, restaurantes exclusivos, clubes,
casas de praia, de campo, de golfe, de caça, da cidade, quintas e resorts pessoais dos governantes, para
saberem exactamente e ao pormenor os próximos aumentos de salários ministeriais
e transferências offshore em primeira
mão e espalhar as novidades pelos seus leitores. Não é terrível ter assim a
privacidade devassada? Bem estão os pindéricos súbditos que, forçados a viver
debaixo das pontes pois as rendas das barracas são demasiado caras, não sofrem
com as escutas. Quem de seu juízo vai instalar escutas nos pardieiros e debaixo
das pontes, dado que a viverem ao relento, a vida destes incómodos súbditos está
à plena vista de quem queira coscuvilhar?




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