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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Relógio do Coelho da Alice

Foi esta semana inaugurado no Portal Amarelo da República dos Nabos o Grande Relógio do Coelho Branco da Alice, o que coloca o nabal na frente dos contos de fadas, já que a realidade é mais mirabolante do que as aventuras da dita Alice, e no caso tão perigosa quanto estar na presença da Rainha de Copas. E porque nada mais apropriado do que um coelhinho branco para inaugurar o relógio do seu famoso homónimo, foi o inaugurador o nosso caro professor-doutor Portas Ibn-Portões que se vestiu a preceito para a função (tendo pedido emprestado um fato de coelhinha da Playboy) e surgiu em palco aos pulinhos como o simpático roedor e co-herói de aventuras da Alice, batendo com a patinha a música da Quadrilha das Lagostas e entoando as rimas de Humpty Dumpty e do Chapeleiro Louco para grande felicidade e êxtase dos meninos reunidos para a inauguração, trajados a preceito com as letras do alfabeto emprestadas dos adereços ali da Rua Sésamo, de que se destacaram as letras Jota em delicadas cores laranja e amarelo rosé. Foi uma festa de beneficência magnífica, destinada a recolher fundos para os Jotas e para os pobrezinhos da República Federal das Batatas, que são os mais pobrezinhos da União das Hortaliças e precisam de toda a nossa solidariedade. Para abrilhantar o espírito festivo da época natalícia o Grifo dançou uma tarantela com a Falsa Tartaruga, deixando todos atarantados, e os gémeos Teedledee e Tweedledum deram lambadas um ao outro, num estilo capaz de fazer corar qualquer dançarina exótica. Para bem da moral e bons costumes o Grifo interrompeu a sessão de lambada e deu a palavra à Lagarta no Cogumelo, que muito interessou a audiência, a qual pasmou para a profundidade do discurso, quanto mais não fosse pelas incompreensíveis deduções, resultantes da pedra provocada pelo tabaco do cachimbo da Lagarta e que reproduziam ponto por ponto os últimos discursos do Ministro-Mor do nabal, mostrando a total consonância entre os dois partidos no governo e a irrevogabilidade da aliança com o distinto professor-doutor Portas Ibn-Portões. Falou-se muito do futuro e do poder mágico do relógio prestes a ser inaugurado, o qual quando chegar a zero não fará nenhum foguetão levantar voo como em Cabo Canaveral mas rebentará em tal estrondo que a Tripeça irá pelos ares e o nabal será reduzido a cisco, acabando assim com todos os seus problemas. O Chapeleiro Louco aplaudiu muito e tentou despejar chá por cima do pom-pom caudal do coelhinho do professor Ibn-Portões, fazendo com que este desatasse aos saltos por causa da água fervente e não, como pensaram os queridos jotinhas, pelo entusiasmo da inauguração. Infelizmente, quando por fim cortaram a fita e deram com o flamingo no vidro do relógio – como se faz aos barcos no dia do lançamento ao mar – o relógio não fez tique-taque. A Rainha de Copas ficou furiosa com tão estrondosa falha dos relojoeiros do reino e desatou a gritar “Fora com a sua cabeça!” enquanto o professor-doutor Portas Ibn-Portões, aproveitando a deixa dos ouriços que haviam rebolado dali para fora antes da rainha abrir a boca, saiu a correr da sala, falando para com os seus botões, muito aflito: “Ai, ai, ai! Estou atrasado! Estou atrasado!”. Espera-se agora que o mágico relógio avariado faça a sua magia e conserte todos os problemas do Nabal, e da União das Hortaliças, o que em 5 anos de crise nem governos nem Parlamento da União foram capazes de resolver.

Foi ontem aprovada no Principado dos Privilégios uma lei do silêncio obrigatório sobre salários, alcavalas, dividendos, subsídios, despesas várias e outras alcavalas da nobre classe dirigente que já actualmente ganha 10 vezes mais do que os seus governados. Os contribuintes passivos e os activamente fugintes ao fisco, suspiraram de alívio pois estavam cansados de se indignarem diariamente com a descoberta de novas prebendas gordalhuças dos governantes, que ninguém entende de onde caem pois o Principado também se vê a braços com uma bonita crise económica, social, política e mais umas quantas que andam por aí à solta. Assim, os ministros decidiram desde já aumentar de novo os seus salários, despesas de representação e ajudas de custo pois agora ninguém saberá de fonte oficial quais serão os aumentos atribuídos. Também decidiram aumentar uma série de impostos sobre os governados e criar muitos novos, tais como: Imposto de Andar a Pé, Imposto da Sombra, Imposto de Respiração, Imposto por Fazer Meninos, Imposto Por Não fazer Meninos, Imposto de Alimentação, Imposto Por Estar Um Ano Mais Velho (embora se preveja que os nascidos a 29 de Fevereiro fujam a este por períodos de 3 anos à vez). Este aumento de impostos é necessário não para pagar juros da dívida ao Fundo Mundial da Agiotagem mas para criar um fundo resiliente para os novos aumentos de salário e alcavalas que em breve farão a classe dirigente fará novamente a si própria. No entanto os governantes aumentados terão a vida muito mais dificultada, pois não é fácil gastar tanto dinheiro, até porque se o gastarem talvez ajudem a dinamizar a economia, o que não convém nada. Assim, diversas empresas de consultoria financeira sedeadas em vários offshores estão já a contactar os ministros do Principado, via Rede-de-Pesca onde tudo é muito mais anónimo e rápido, para os ajudar a transladar os seus fundos, salários, pensões, reformas e carteiras de acções para contas aí escondidas, como toda a gente de bem e que se preze também possui. O facto da lei do Principado dos Privilégios declarar crime de traição e lesa-majestade a transferência de quaisquer rendimentos, activos financeiros, bens mobiliários e outros para o exterior só se aplica, naturalmente, aos governados, pois a lei não é cega mas é bem pesada. Infelizmente para os ministros, além das dificuldades terríveis que irão passar para gastar o dinheiro, terão ainda de suportar o terrível tormento de esperar alguns dias até os seus bens patrimoniais serem adequada, secreta e seguramente transferidos para os offshores. Mas o mais terrível de tudo é que os pindéricos súbditos do Principado têm a incorrigível mania de espiarem toda a gente e coscuvilharem sobre tudo e mais alguma coisa. Para satisfazer este vil costume, os jornalistas estão já a instalar escutas ilegais nos ministérios, restaurantes exclusivos, clubes, casas de praia, de campo, de golfe, de caça, da cidade, quintas e resorts pessoais dos governantes, para saberem exactamente e ao pormenor os próximos aumentos de salários ministeriais e transferências offshore em primeira mão e espalhar as novidades pelos seus leitores. Não é terrível ter assim a privacidade devassada? Bem estão os pindéricos súbditos que, forçados a viver debaixo das pontes pois as rendas das barracas são demasiado caras, não sofrem com as escutas. Quem de seu juízo vai instalar escutas nos pardieiros e debaixo das pontes, dado que a viverem ao relento, a vida destes incómodos súbditos está à plena vista de quem queira coscuvilhar?

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