Eu Sou uma Pessoa de Bem, Apenas Não Olhem Para o Registo dos Meus Crimes
Tem havido grande perturbação no
clube de apostas da Organização das Nações Desunidas por causa das eleições
para os seus clubes de poker, de bridge e de canastra. Como no poker são todos
uns zaragateiros, e a Organização das Nações Desunidas é um grémio sério, o
clube do de poker tem o nome de Conselho de Segurança, mas as regras do jogo
são exactamente as mesmas: todos fazem caras circunspectas (as famosas caras de
poker), todos tentam convencer os parceiros que o seu jogo é o mais forte da
mesa, enfim todos fazem bluff para
que os outros não lhes descubram a jogada nem os lixem c’os trunfos. Tal como
nos campeonatos internacionais, também aqui há jogadores da 1ª, 2ª e 3ª
divisão, tendo os 1º divisionários permanente lugar cativo à mesa de jogo com
direito de mudarem as regras sempre que lhes apetece, o que torna o jogo muito
mais divertido… É claro que todos querem fazer parte do selecto clube mas não
pode porque os seus membros instituíram uma espécie de clausula de exclusão,
portanto á falta de melhor, ficam todos felizes se forem chamados para a 2ª
divisão, a qual muda consoante a estação do ano. Assim uma espécie de
Campeonatos da Primavera, de Verão, de Outono, estão a ver… por isso a
Organização das Nações Desunidas ficou ainda mais desunida quando este ano um
dos apurados disse que não queria fazer parte da 2ª divisão, estava muito bem
na 3ª regional, fizessem o favor de escolher outro, pois não queria alinhar num
jogo viciado, com cartas marcadas “para dar sempre a vitória aos gajos da 1ª
liga”. Esta atitude teve graves repercussões no financiamento da União pois
atirou de pantanas com os serviços de apostas relativos à eclosão da próxima
traulitada, tendo sido necessário proceder ao recálculo dos prémios a
distribuir aos clientes e margens de lucro dos corretores de apostas. Já por
outro lado, a eleição para o clube de bridge – que é como quem diz o Comité
para os Direitos Humanos, seja lá o que isso for nos tempos d’hoje – decorreu
sobre rodas, sem arrufos ou alaridos. Porque, para evitar celeumas, as regras
estavam neste caso muito bem definidas à partida, dado este ser um assunto
quente nas Nações Desunidas. Assim, era condição obrigatória que os candidatos
tivessem provas dadas, com o currículo mais extenso e versátil possível, da
arte de torturar em todas as especialidades. Também era obrigatório apresentar
um portfolio devidamente ilustrado
com exemplos concretos, em papel foto lustroso e de grão fino, a cores e
formato A4, de perseguições a minorias: religiosas, étnicas, sexuais, etc.
Todos os candidatos deveriam também comprovar a sua experiência em repressão ao
direito de expressão escrita, falada, de associação, manifestação e, sempre que
tecnicamente possível, de controlo do pensamento dos respectivos súbditos.
Seriam condições de classificação especial a prova documental – com vídeos e
respectivo registo sonoro – de genocídios bem sucedidos, sendo a classificação
do candidate tanto mais alta quanto o extermínio mais se aproximasse dos 100%
de eficácia. A caça aos súbditos quando estes tentassem fugir do país por não
aguentarem mais as condições de vida, mesmo que não por causa de um programa
higiénico de genocídio, receberia os mesmos pontos de classificação dum
genocídio, caso não existisse no país minoria alguma, ou comunidade
estrangeira, para exterminar. Finalmente uma bem sucedida repressão da
dissidência e símbolos culturais de minorias étnicas, como língua, roupa, arte
ou religião, devidamente provado com fotografias, relatórios, legislação e
outros mecanismos de genocídio cultural, era critério prioritário de avaliação.
Todos os candidatos se excederam em todas estas modalidades, tendo sido
unanimemente aprovados para membros da Comissão de Direitos Humanos. Os mais
distraídos poderão estranhar que sejam países com tais currículos os escolhidos
para supervisionarem essa coisa dos Direitos Humanos mas nada mais simples de
explicar. Quem melhor do que um ladrão para descobrir como uma casa foi
assaltada?


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