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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Esta Liberdade É Só Retórica, Seus Nabos!

Vai grande reboliço no Nabal por causa da alteração dos horários de trabalho, decretados pelo dono da horta, isto é, da República Democrática dos Nabos, que sempre achou serem os seus hortelões uma cáfila de preguiçosos do piorio e por esse motivo decidiu aumentar o horário de trabalho, para os obrigar a vergar a mola pelo maior tempo possível sem que viesse a receber sanções por violação dos acórdãos mundiais sobre o trabalho. Porque alguns dos assalariados ainda poderiam ser seus parentes, decidiu o senhor da horta incluir a hipótese neste decreto, com direito a pregação na porta da igreja e das tascas da zona, dos hortelões-rendeiros e capatazes do pessoal, de renegociarem o horário de trabalho que mais lhes parecesse adequado. Acontece porém que os hortelões-rendeiros, que conhecem como se faz o trabalho e a dimensão real do dia solar, consideraram que o melhor era manter o horário de trabalho tal e qual como estava dado que, para todos os efeitos, os cavadores daquela horta trabalhavam mais horas e não se encostavam menos às árvores do que os cavadores das hortas vizinhas, apesar de serem mais pobres que todos os vizinhos pois por ali a distribuição dos lucros da venda das hortaliças vai apenas para alguns. Restou disto que grande parte dos cavadores, podadores, mondadores e rapazes da água ficaram com o horário antigo e só uns quantos – os directamente dependentes de contrato com o dono da horta e que para todos os efeitos não percebe nada de agricultura – ficaram com o horário de sol-a-sol, isto é, o novo. Como seria de prever, isto tem dado imensa tensão laboral entre cavadores, hortelões-rendeiros e o dono da chafarica, ao ponto de já se estarem a afiar as lâminas das enxadas para se ir às do vizinho (o dono não está nestes assados pois a sua casa é longe da horta e ainda mais dos cavadores). Por esta razão muitos nabos pegaram já nas ramas e emigraram, com receio de levarem outra enxadada nas tolas, e não como dizem as más-línguas por causa do desemprego, pois esse até tem baixado, não por haver mais trabalho mas porque os desempregados, contemplando uma maravilhosa carreira de longa duração – sem trabalho para o esto da vida - deixam de fazer parte das estatísticas ao fim de 1 ano sem trabalho passando a ser os “inactivos” mesmo que o não queiram ser. Perante a debandada em massa dos nabos e outros mimos da horta e as primeiras cabeças partidas, além dum engarrafamento de ambulâncias – e sermões nos cafés e tascas da aldeia sobre o caso – o dono da horta, isto é, da República, enviou o seu porta-voz (já que ele não se atrevia a enfrentar os ânimos azedados dos jornaleiros rurais) para pôr tudo em pratos limpos que é como quem diz, com as enxadas cravadas na terra. O porta-voz anunciou que vai enviar para o tribunal esta questão de uns aplicarem o novo horário de trabalho e outros o antigo para provar que ele, o dono, é que tem razão. E quando os rendeiros fizeram ver que na lei estava escrito que era dada liberdade de renegociar o horário de trabalho com os assalariados à jorna, o porta-voz declarou que essa liberdade era a liberdade de renegociar um horário ainda mais longo (livrando o dono da horta de problemas com os tribunais internacionais) ou então não renegociar coisíssima nenhuma. E quando um dos rendeiros, um espertalhaço com um curso superior em leis mas não dos novos, dos de 15 dias, respondeu que isso não era liberdade nenhuma, o porta-voz respondeu: “oh, meu parvalhão, então ainda não percebeste que esta liberdade é apenas retórica?”.

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