Quer Combater as Alterações Climáticas? Então Pague
a Multa!
O Potentado da
Paelha está em maré de inovação fiscal. Após a lei que permite manifestações mas
apenas se os manifestantes se vestirem com as cores da moda e os organizadores
se comprometerem a que todos serão bem comportados e não atirarão sequer uma
casca de banana para o chão, a maioria dos quais não conhecem nem sabem se
aparecerão mesmo que digam que sim no Facebook, a garantia incluindo os
infiltrados enviados pelas forças de segurança para causar sarrafusca, agora o
governo local inovou no combate às alterações climáticas ao mesmo tempo que
mete mais umas quantas castanholas (a moeda local) nos cofres do fisco. Assim,
se quiser partilhar o carro para levar o colega ou algum outro triste ao
emprego, dar boleia ao filho do vizinho até à escola ou oferecer-se para
conduzir a vizinha boazona que vem carregada das compras até casa, páre… vá às
Finanças pedir uma licença de transporte de passageiros como qualquer
respeitável empresa de camionagem ou então… pague a multa. Pois é, no Potentado
da Paelha agora é assim. Quem quer que se lembre de partilhar o carro, coisa
que é no geral realizada à borla, com ou sem organização em rede de partilha
MOV anunciada no Facebook, terá de pagar imposto ou multa, que isto da
solidariedade é muito bonito, em especial num país em que 25% do pessoal não
tem dinheiro porque está desempregado, mas se a solidariedade for para com o
(con)Fisco. A vaga da partilha de carros começou há uns anos para combater as
emissões de gases de efeito de estufa e assim tentar que as alterações
climáticas não se tornassem tão desastrosas. Foi uma iniciativa em toda a União
das Hortaliças mas só pegou a sério quando o pessoal entrou em crise se viu
obrigado por força do aperto das carteiras a partilhar as viaturas para
arredondar as despesas, porque hoje sou eu que entro com o meu popó e a
gasolina, amanhã és tu. Assim, uma iniciativa anunciada há uns anos com pompa,
fanfarra e circunstância, agora é reconhecida como contribuindo não para as
reduções das emissões mas para o PIB e portanto digna de imposto, embora não de
vistorias de segurança. Esta inovação do Potentado da Paelha vem provar aos
críticos que o combate às alterações climáticas consegue dar dinheiro ao
Estado, estando-se já a considerar taxar as donas-de-casa que em vez de usarem
secadores de roupa decidem secá-la à varanda, beneficiando da energia solar por
enquanto gratuita. Também se está a equacionar no Palácio da Moeda aplicar um
imposto aos domingueiros veraneantes pois que ficam sem fazer nada na praia
além de torrar ao sol, aproveitando para repor as suas doses de vitamina D
anti-raquitismo e também as de percursores do cancro. A lógica é simples: se
depois os veraneantes forem gastar toda a sua massa e vida nos tratamentos,
nada como taxá-los antes que morram. Não foi ainda possível taxar a actividade
respiratória devido a dificuldades técnicas com os equipamentos que deverão
medir o volume de ar que cada cidadão inspira por minuto. Entretanto, e com o
novo imposto sobre partilha de automóveis já em vigor, se você precisar de se
deslocar para o serviço, esqueça os carrinhos partilhados e se não tem dinheiro
para o passe, vá a pé. Se para chegar ao trabalho precisarem de sair de casa no
dia anterior, arranje casa mais perto já que dormir no trabalho após as horas
de expediente é interdito, uma vez que as novas leis punem com prisão (e antes
disso o segurança correr-vos-á das instalações) todos os que estiverem a dormir
fora na rua ou debaixo de telha que não seja sua. Esqueça também usar um burro,
cavalo, boi, dromedário ou camelo de 4 patas pois terá de possuir licença de
uso e porte de muar, matrícula e carroça devidamente certificada pelas normas
da União que definem desde a cor dos taipais à dimensão dos cubos, diâmetro das
rodas e distância entre semi-eixos. No caso de você ser dos sortudos que ainda
pode ir passar as férias às berças e o Ti Jaquim das Couves precisar de ir ao
hospital mas, como é de bom tom, não houver ambulância nem centro de saúde
senão a 100 km
de distância, já sabe: peça primeiro uma licença de transporte de passageiros,
pegue no bloco dos recibos verdes e quando receber a licença, três meses mais
tarde, poderá tranquilamente levar o Ti Jaquim… p’rá funerária. No final, de
alma tranquila, vocês saberá que o Governo lhe estará profundamente agradecido pois é um
chato a menos com que precisa de se preocupar.


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