Vou-me Embora, Amor!... Não, Querida, Não Vás!...
Foi concluído hoje o divórcio
entre as casas reinantes da República dos Nabos e da Tripeça, tendo-se
concentrado no cais uma vasta multidão de súbditos nabos para dizer adeus ao
navio que levava a princesa real de volta aos estados ricaços do norte da União
das Hortaliças e ao seu palácio de infância na Cidade-do-Tacho/Couve-de-Bruxelas.
Ao que o nosso jornal apurou, o divórcio deveu-se a intrigas palacianas,
estando entre os intriguistas o Sr. Dr. Paulo Ibn-Portões, que até ensinara os
seus galos a cocoricar a todas as matinas, vésperas e completas, rematado com grande
coro elegíaco final de cacarejos quando a bela princesa nórdica se fosse embora.
O objectivo: ganhar as boas graças dos nabos e vir a ser vizir em lugar do
vizir, como o seu querido e até ao momento falhado primo Iznogood tanto anseia.
O fall out do casório deveu-se a que
a segunda parte do dote da princesa, designado por Segundo Resgate (talvez
porque a princesa seja tão feia que o noivo tem de ser resgatado do susto com
umas boas arrobas de ouro), não foi pago pois os primos da Terra dos Gelos e Fiordes
se recusaram a contribuir para o Resgate, argumentando que “já tinham entrado
com a massa para as pérolas do vestido de noiva, agora outros que se descosam
c’o pilim”. Para tristeza do rei dos nabos, que ama muito a princesa apesar
dela ser feia como uma noite de trovoada, os seus conselheiros e embaixadores
aliaram-se aos somíticos parentes da moça e obrigaram-no ao divórcio, não se
sabendo até ao momento quais terão sido as contrapartidas recebidas por
mandarem a princesa dar uma volta ao bilhar grande e desamparar a loja, mas o
nosso repórter especializado em furos económicos já se deslocou ao offshore do Luxoburgo para fazer umas
averiguações em certos bancos e quando tivermos pormenores, deles daremos
devida publicação (se não nos fecharem a tasca antes). Entretanto, no dia da
partida da princesa, os galos do Sr. Paulo Ibn-Portões desafinaram de tal
maneira que a cidade entrou em pânico, a pensar que vinha aí uma invasão dos
hunos. Mas o Sr. Paulo Ibn-Portões é um homem de acção, que não se perturba por
nada, nem mesmo pelas irrevogabilidades revogáveis e linhas vermelhas que não
se podem passar mas que ele passa pois ainda está para nascer o cavaleiro que
lhe ponha um travão à cavalgada. Arregimentou de imediato vários trovadores
fatelas, numeroso coro de cantores pimba e pô-los a tocar no rossio enquanto
convocava um Conselho de Estado para decidir dos sapatos e vestidos que a
princesa seria autorizada a levar pois “vão-se as princesas mas ficam os
anéis”. Eufórico pela partida da Tripeça, que se negara a oferecer-lhe uns
certos favores privados porque também ela ama o rei nabo, o Sr. Paulo
Ibn-Portões, após a actuação do orfeão pimba, cujo fim era juntar o máximo de
nabos dada a popularidade dos pimbalhões, fez acalorado discurso (talvez fosse
por isso que a tribuna pegou fogo), declarando ser este o dia da restauração da
independência do Nabal, agora que lançara borda fora os sovinas mandões da Tripeça
e já podia ir sozinho ao mercado, esqueçam o 1º de Dezembro, o 18 de Maio será
o novo feriado, Viva a Independência, Viva o Nabal! Houve grande ovação, embora
não se saiba se foi pela independência se pelo incidente de strip-tease de que foi vítima a cantora
pimba Mamalhuda-Fornecida-Afinal-Havia-Outra na saída da esquerda baixa da
tribuna. O barco da princesa partiu e o rei ficou sozinho a chorar no cais enquanto
à sua volta os conselheiros e ministros afiavam os punhais e espadas para o
torneio que se realizará em breve para Manda-Chuva-do-Nabal. Mas queridos
concidadão não chorem pela princesa expulsa. Sabemos de fonte segura que,
quando a euforia do mercado desaparecer, com a chegada das chuvas e do míldio
na vinha, o rei pedirá de novo o regresso da Tripeça e, como ela gostou tanto
de ser rainha neste Nabal à beira mar plantado, voltará e com um fornecido
Segundo, Terceiro e todos os Resgates que o rei desejar. Para o povão não fará
nenhuma diferença estar cá a Tripeça ou não estar, pois terá de continuar a
apertar o cinto, dado que o divórcio exige a restituição de todo o dote, com
juros, custos de mora, taxas de câmbio e despesas de advogado, estas últimas a
pagar por pelo menos durante 100 anos.


Sem comentários:
Enviar um comentário