É a nova campanha de
desenvolvimento dos nabos, baseada na sábia premissa de que “se funciona lá
fora, também deve funcionar cá dentro”, mesmo que os nativos do “lá fora”
específico onde esta campanha foi buscar exemplo sejam ridicularizados em toda
a parte pela sua geral falta de conhecimentos, quando não analfabetismo puro e
duro. Mas o Nabal não se deixa assustar por estes pequenos danos colaterais e
avançou em força, qual desembarque em Gallipolli, pois nada trava esta pequena
pátria de bravos aventureiros e empreendedores que tantos alfobres novos deram ao
mundo. A campanha centra-se na educação e pretende desenvolvê-la… para baixo.
Porque para baixo é que está o petróleo e quando se descobrir o petróleo no
Beato acaba-se a crise. Para que a educação venha por aí abaixo é primeiro
necessário cortar na despesa: salários cortados, turmas cortadas (encaixotando
os alunos todos em meia dúzia de turmas, de preferência com vários níveis na
mesma para alargar a confusão), escolas fechadas ou aglomeradas em ajuntamentos
muito grandes qu’é p’ra professores e alunos não se sentirem tão sozinhos nem
criarem vínculos afectivos com o edifício onde trabalham e se darem na ideia de
melhorar alguma coisinha. Este aglomeranço tem ganhos económicos extra que muito
contribuirão para baixar o défice, pois turmas de 40 alunos em salas só de
vinte podem ser ecologicamente aquecidas a calor humano, o que traz ainda a
vantagem de que os alunos assim juntinhos (para os pais medricas podemos voltar
à velha segregação de sexos), começam desde bem cedo a desenvolver as
capacidades sociais necessárias para lidar com comboios com crises de
identidade (pensam que são latas de sardinhas). Ao mesmo tempo é promovido o
desporto, não pela construção de pavilhões para a Educação Física mas ensarilhando
de tal modo os acessos à escola com remodelações, passadiços e outras obras,
que os alunos ficam em forma mesmo sem darem por isso; tais acrescentos
fornecem também vasto leque de distracções que os alunos acabam por ir para
todos os lados menos para a escola, as taxas de absentismo escolar aumentam e melhora-se
o analfabetismo funcional dos catraios, tornando-os mais aptos a entrar no mundo
do trabalho que não deseja gente de estudos mas malta de cabedal para aguentar
com o que tiver de ser, tal e qual como manda o acordo da Tripeça. Lá que os
alunos, e em particular as alunas, possam ser atacados no caminho para a
escola, bom, acidentes acontecem, não é verdade? É claro que há alunos e
alunos. E para os alunos com direito a ser alunos estão a ser construídas
várias escolas exclusivas, ao lado das que já existem e que são para todos (os
com e os sem direito a serem alunos) com pastel que devia ir para… as escolas
de todos. Porque razão o pastel dos impostos de todos vai não para as escolas
de todos mas para as exclusivas, deve-se à solidariedade mesmo se à força, pois
se o nabal quer alguns nabos com estudos, todos têm de fazer o sacrifício, logo
todos têm de pagar… para alguns. E pagam. As carrinhas privadas e as obras
nestas escolas exclusivas, os pequenos enriquecimentos de currículo como
equitação, bailado ou ténis, enquanto as escolas para todos se vão parecendo
cada vez mais, para gáudio da garotada, com versões modernas da “Casa dos
Horrores”, ensinando desde logo aos petizes as possibilidades do negócio de
apostas: é hoje ou amanhã que o tecto cai em cima da mola do stôr? Somos
borrifados pelo cano rebentado das escadas agora ou logo?... Aliás esta escola
de “Horrores” traz outras interessantes apostas na formação para a vida, como
sejam: (1) buracos nas paredes – dão estágios gratuitos da carreira de espião,
estimulando os nabinhos a espreitar por qualquer frincha ou abertura, sendo de
especial nota os buracos nos balneários e WCs das raparigas que calhem ser
paredes meias com os dos rapazes; (2) degraus partidos – iniciam à prática do
surf ou da astronáutica, servindo de rampa de lançamento para os nabos
distraídos que assim se podem transformar em múmias, para felicidade dos
colegas que terão mais algumas superfícies onde treinar graffitis sem ouvirem
da directora; (3) paredes a cair – estágio gratuito de empreendedorismo em que
os alunos são estimulados a venderem bocados de caliça, tijolos e outros
objectos mais ou menos contundentes, para serem usados em tiro ao professor;
(4) telhados a meter água – material experimental de bombeiro especializado em
cheias, que prepara o jovem para quando em casa o mesmo fenómeno ocorrer, conferindo-lhe
espectacular habilidade a fintar pingos e a mudar alguidares e baldes cheios, mais
depressa que o Bota de Ouro a fazer um remate. Com este treino vocacional é
extremamente difícil às escolas para alguns competirem com as de-todos, pelo
que, e aproveitando também os protestos dos nabos-pais mais descontentes
(desses nunca faltam), o ministério, querendo proteger a iniciativa privada e o
direito de escolha dos nabos, decidiu dar um cheque a todos os pais que queiram
meter o seu rebento nas escolas para-alguns. Como o cheque tem o mesmo valor
que custaria ter um nabo na escola para-todos e a para-alguns é mais cara,
sucederá que a meio dos estudos o nabo terá de sair desta para ir para a escola
para-todos, apanhando um choque tão grande que se lhe murchará a rama e
desistirá de vez de estudar. O que será óptimo para reduzir o défice. Quem
disse que a crise não é um oceano de oportunidades?


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