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sexta-feira, 20 de junho de 2014

É a nova campanha de desenvolvimento dos nabos, baseada na sábia premissa de que “se funciona lá fora, também deve funcionar cá dentro”, mesmo que os nativos do “lá fora” específico onde esta campanha foi buscar exemplo sejam ridicularizados em toda a parte pela sua geral falta de conhecimentos, quando não analfabetismo puro e duro. Mas o Nabal não se deixa assustar por estes pequenos danos colaterais e avançou em força, qual desembarque em Gallipolli, pois nada trava esta pequena pátria de bravos aventureiros e empreendedores que tantos alfobres novos deram ao mundo. A campanha centra-se na educação e pretende desenvolvê-la… para baixo. Porque para baixo é que está o petróleo e quando se descobrir o petróleo no Beato acaba-se a crise. Para que a educação venha por aí abaixo é primeiro necessário cortar na despesa: salários cortados, turmas cortadas (encaixotando os alunos todos em meia dúzia de turmas, de preferência com vários níveis na mesma para alargar a confusão), escolas fechadas ou aglomeradas em ajuntamentos muito grandes qu’é p’ra professores e alunos não se sentirem tão sozinhos nem criarem vínculos afectivos com o edifício onde trabalham e se darem na ideia de melhorar alguma coisinha. Este aglomeranço tem ganhos económicos extra que muito contribuirão para baixar o défice, pois turmas de 40 alunos em salas só de vinte podem ser ecologicamente aquecidas a calor humano, o que traz ainda a vantagem de que os alunos assim juntinhos (para os pais medricas podemos voltar à velha segregação de sexos), começam desde bem cedo a desenvolver as capacidades sociais necessárias para lidar com comboios com crises de identidade (pensam que são latas de sardinhas). Ao mesmo tempo é promovido o desporto, não pela construção de pavilhões para a Educação Física mas ensarilhando de tal modo os acessos à escola com remodelações, passadiços e outras obras, que os alunos ficam em forma mesmo sem darem por isso; tais acrescentos fornecem também vasto leque de distracções que os alunos acabam por ir para todos os lados menos para a escola, as taxas de absentismo escolar aumentam e melhora-se o analfabetismo funcional dos catraios, tornando-os mais aptos a entrar no mundo do trabalho que não deseja gente de estudos mas malta de cabedal para aguentar com o que tiver de ser, tal e qual como manda o acordo da Tripeça. Lá que os alunos, e em particular as alunas, possam ser atacados no caminho para a escola, bom, acidentes acontecem, não é verdade? É claro que há alunos e alunos. E para os alunos com direito a ser alunos estão a ser construídas várias escolas exclusivas, ao lado das que já existem e que são para todos (os com e os sem direito a serem alunos) com pastel que devia ir para… as escolas de todos. Porque razão o pastel dos impostos de todos vai não para as escolas de todos mas para as exclusivas, deve-se à solidariedade mesmo se à força, pois se o nabal quer alguns nabos com estudos, todos têm de fazer o sacrifício, logo todos têm de pagar… para alguns. E pagam. As carrinhas privadas e as obras nestas escolas exclusivas, os pequenos enriquecimentos de currículo como equitação, bailado ou ténis, enquanto as escolas para todos se vão parecendo cada vez mais, para gáudio da garotada, com versões modernas da “Casa dos Horrores”, ensinando desde logo aos petizes as possibilidades do negócio de apostas: é hoje ou amanhã que o tecto cai em cima da mola do stôr? Somos borrifados pelo cano rebentado das escadas agora ou logo?... Aliás esta escola de “Horrores” traz outras interessantes apostas na formação para a vida, como sejam: (1) buracos nas paredes – dão estágios gratuitos da carreira de espião, estimulando os nabinhos a espreitar por qualquer frincha ou abertura, sendo de especial nota os buracos nos balneários e WCs das raparigas que calhem ser paredes meias com os dos rapazes; (2) degraus partidos – iniciam à prática do surf ou da astronáutica, servindo de rampa de lançamento para os nabos distraídos que assim se podem transformar em múmias, para felicidade dos colegas que terão mais algumas superfícies onde treinar graffitis sem ouvirem da directora; (3) paredes a cair – estágio gratuito de empreendedorismo em que os alunos são estimulados a venderem bocados de caliça, tijolos e outros objectos mais ou menos contundentes, para serem usados em tiro ao professor; (4) telhados a meter água – material experimental de bombeiro especializado em cheias, que prepara o jovem para quando em casa o mesmo fenómeno ocorrer, conferindo-lhe espectacular habilidade a fintar pingos e a mudar alguidares e baldes cheios, mais depressa que o Bota de Ouro a fazer um remate. Com este treino vocacional é extremamente difícil às escolas para alguns competirem com as de-todos, pelo que, e aproveitando também os protestos dos nabos-pais mais descontentes (desses nunca faltam), o ministério, querendo proteger a iniciativa privada e o direito de escolha dos nabos, decidiu dar um cheque a todos os pais que queiram meter o seu rebento nas escolas para-alguns. Como o cheque tem o mesmo valor que custaria ter um nabo na escola para-todos e a para-alguns é mais cara, sucederá que a meio dos estudos o nabo terá de sair desta para ir para a escola para-todos, apanhando um choque tão grande que se lhe murchará a rama e desistirá de vez de estudar. O que será óptimo para reduzir o défice. Quem disse que a crise não é um oceano de oportunidades?

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