Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A República Democrática do Nabal está mais uma vez de parabéns. Outro dos seus grandes economistas, o Ceguinho da Bica – assim chamado porque enquanto à frente do Banco dos Nabos… perdão, do Nabal, nunca viu uma única jogada menos limpa nos bancos que tinha de supervisionar – acaba de ser nomeado na Cidade do Tacho/Couve-de-Bruxelas para o importantíssimo cargo da Única e Aprovada (certificação de origem) Supervisão Bancária da União das Hortaliças. Foi também, pelos mesmos motivos de competência, indigitado para controlar o tráfego aéreo nas rotas de maior movimentação e normalmente engarrafadas do espaço aéreo da referida União. A Supervisão Bancária é uma instituição muito importante pois fiscaliza as práticas bancárias de toda União, efectua-lhes testes de stress nervoso e físico e em função dos resultados tenta identificar quais os bancos que copiaram pelo vizinho, quais estudaram a lição e quais ainda estão intoxicados pela descomunal bebedeira da noite anterior. Porque razão o humilde Nabal está a contribuir com tantos economistas para a boa saúde banqueira… bancária da União é algo que começa a confundir as economias e as mais conceituadas Schoools of Business and Administration/Management deste grande mercado de Hortaliças. Cremos porém estar na posse da explicação: é que como os economistas basicamente procuram é enriquecer-se a si próprios, ideia fixa de todos os nabos devido às suas paupérrimas condições de vida a caminharem sempre para um ainda mais paupérrimo estado, não é de estranhar que os nabos tenham uma queda natural para esta ciência. Além disso, a sua condição de nabos não os inclina para o pensamento científico mas para a filosofia e o devaneio quando não para a especulação vidente, que são também as pedras angulares da chamada ciência económica. Por fim, são especialistas em contornarem a lei – ou não vivessem num alfobre com leis para tudo até para o tamanho das raízes – o que é uma aptidão muito procurada em qualquer CEO de qualquer banco com brios internacionais. Portanto, não é de surpreender que os nabos estejam à frente da economia da União. Ora como o Ceguinho da Bica é mesmo ceguinho, como ficou demonstrado durante os seus anos à frente do banco local dos nabos, espera-se que este Mecanismo de Supervisão não detecte quaisquer bancos em falência técnica (ou outra), nem descubra casos de engenharia financeira criativa, que na vulgar linguagem dos ignorantes são chamadas de burlas. Deste modo, quando os bancos se auto-declararem em falência porque não podem pagar aos seus depositantes e estes estejam a partir as respectivas agências, pelo que necessitam de protecção urgente de fundos e de polícia de choque, quiçá mesmo do exército, o Mecanismo de Supervisão poderá estabelecer as regras de resgate bancário que serão profundamente divergentes consoante a nacionalidade dos bancos em causa. Para os situados a norte da fronteira mointanhosa entre o Potentado da Paelha e a República do Amor e do Queijo Gruyère, os bancos poderão pedir toda a massa de que necessitem de modo a envolver-se em desenfreados empréstimos aos bancos a sul dessa fronteira e poderem assim recapitalizar-se, sem terem de obedecer a regras, limites ou penalizações e mantendo as suas eficientes imagens de bancos honestíssimos e super-sólidos, ainda que em bancarrota. Para os bancos dos países a sul desta fronteira as regras serão diferentes: os países desses bancos deverão pagar com língua de palmo e arruinar no processo as suas economias, de modo a pagarem as jogatinas financeiras mirabolantes que os CEO’s desses bancos realizaram no período das vacas gordas, sendo que o importante é que os CEOs não sejam de modo algum prejudicados; se algum país mais tolo decidir refilar e dizer que não, aperta-se a torneira até o país inteiro entrar em bancarrota; como porém parte da massa potencialmente perdida por esta situação é dos bancos a norte, empresta-se dinheiro aos bancos falidos do sul a juto inferior àquele que eles exigem dos respectivos países que financiam para por eles serem financiados (se não perceberam, nãos e preocupem, não é para perceber) de modo a que o lucro excedente possa retornar aos bancos do norte como pagamento das dívidas a fundo descoberto que estes não tiveram qualquer problema em financiar aos do sul. Deste modo garante-se a solvabilidade da economia a norte desta montanhosa fronteira e a miséria absoluta a sul. Este estado de coisas trará grandes vantagens posi promoverá uma enorme união da União, com as gentes do sul a emigrar em barda para o norte à procura de comida. Isto por seu turno levará o pessoal do norte a aproveitar os famintos como mão-de-obra escrava até esta deixar de ser produtiva, altura em que será corrida a tiro de regresso ao sul, evitando deste modo a desertificação e a eventual fixação nesses territórios das ondas de emigrantes ainda mais desesperados que, também em geral nas ondas, dão à costa na Ilha dos Náufragos. Tão perfeita evolução económica apenas terá contrapartida na evolução do tráfego aéreo que é, como sabem, uma terrível dor de cabeça para quem tente viajar de avião através da União, em especial para os delicados passageiros de classe Executiva escalão AAA, como o das agências de rating, e que tanto sofrem se o ar condicionado estiver apenas a meio grau de diferença do óptimo climatológico. Com o Ceguinho da Bica a administrar a supervisão bancária e o espaço aéreo ao mesmo tempo espera-se que aconteça um acidente com aeronaves de 12 em 12 horas (como os antibióticos) e deste modo a congestão das rotas e do espaço aéreo em geral seja rapidamente resolvida. Se os potenciais aeronautas passarem a ter medo de voar e preferirem viajar de comboio ou de carro, a responsabilidade será imputada às hospedeiras e não ao Ceguinho da Bica. Espera-se deste modo um enorme incremento da indústria de automóveis, bate chapas e gesso para tratamento de fracturas e contusões cerebrais.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

1O Gabinete de Governação da União das Hortaliças, sito na Capital do Tacho/Couve-de-Bruxelas, acaba de abrir concurso para líderes da União das Hortaliças. São carreiras muito exigentes, e que por isso mesmo têm um importante incentivo salarial, fora ajudas de custo e representação… e gabinetes, carros e alojamentos a condizer. Têm o atractivo de permitirem imensas deslocações ao estrangeiro sem custos para o viajante, que terá sempre lugares em executiva cinco estrelas (ou pelo menos as que vir quando apanhar um soco da hospedeira por se estar a armar aos cucos e fazer por isso perigar o voo da aeronave). Requer-se uma imensa força de carácter – ser cego como um morcego pode ser condição alternativa – para não ver os erros, por mais colossais que sejam, e teimar em manter o rumo das políticas apesar de todos, incluindo até os parceiros no negócio dos empréstimos virem a cada quinze dias dizer que estão erradas. Também é necessária uma grande paz de espírito para não se perturbar com as notícias de rixas na via pública, apupos e bandeiras a serem queimadas nas fuças, ou suportarem com um sorriso a intervenção abrupta do exército de seguranças quando o retirarem dum parlamento ou cimeira por invasão de campo de manifestantes furiosos que desatam a partir tudo, na ânsia de chegarem ao líder para lhe demonstrar as vantagens da energia muscular no aquecimento dos corpos e formação de nódoas negras. Terão de ser certificadamente casmurros a cair para o autista, com taxa nunca inferior a 70%, para não reagirem a todos os sinais de desastre eminente e não arrepiarem caminho do rumo traçado. Deverão ser diplomados em Atirar-as-Culpas-Para-Cima-do-Outro em escola superior certificada da União (diplomas obtidos nos outros continentes ou Uniões similares não serão considerados por não serem suficientemente avançados no nível de especialização em atirar culpas para cima do vizinho). Também será importante um mestrado em obstinação, sendo preferidas as teses que desenvolvam o tema “Eu É Que Tenho Razão” e desenvolvam metodologias eficazes para ignorar os dados da realidade mesmo quando esta estilhaça as janelas com pedradas de manifestantes e entra pelos olhos dentro com algum soco ou fumo de cocktail molotov. Não é necessária qualquer experiência governativa embora se dê preferência a candidatos que hajam demonstrado completa, total e indubitável incompetência nos parlamentos e governos dos respectivos países. Não é necessário qualquer conhecimento de línguas estrangeiras, caso o candidato seja dos países do Norte da União, onde medra a couve e a batata de semente, devendo no entanto dominar todas as 27 línguas das hortaliças caso seja do sul. Não é necessário que conheça a fundo os dossiers da União ou a etiqueta das negociações de corredor e de hall de entrada – as de suite de hotel são sempre fora das horas de serviço – mas deverá ser um talento nato para negociação fora dos radares da opinião pública, dando-se preferência a quem já tem actividade estabelecida na vermelhinha e nos negócios de candonga e a fugir à polícia, exigindo-se que nunca haja sido apanhado nem sequer o seu nome ao de leve aflorado nos jornais e Rede-de-Pesca em ligação com comércios escusos. Os candidatos serão seleccionados por ordem de classificação nos vários items acima descritos sendo requisito obrigatório terem carreira de maquinistas de comboio com certificação em pelo menos 20 desastres de estampanço das composições contra paredes, muros e pontes (ou em alternativa barcos-draga que calhem de ir a passar por debaixo das ditas) apesar de terem tido todas as oportunidades de desviarem ou travarem a locomotiva antes do estampanço.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Resoluções de Ano Novo
Na União das Hortaliças está-se em balanço de Ano Velho e resoluções de Ano Novo, embora pareça o novo ser uma continuação do velho pois a crise está para ficar, apesar de todos dizerem que vêm sinais animadores e que ela, a crise, já não está aí. Os chefes de estado desunham-se em conversas de meia-noite – por vezes tão assustadoras quanto as sessões de cinema dessa hora – e discursos de Ano Novo, onde desenvolvem o que já tinham dito e desenvolvido nos anteriores 12 meses, não inovando nada porque a era de inovações acabou nas últimas idas a votos e agora é necessário retemperar forças porque isto de criar (quanto mais não seja só de palavras) também desgasta uma pessoa. Não inovando é como quem diz… A República Federal das Batatas voltou, como o tem feito nos últimos anos, a dar o exemplo. Desta vez pelo sábio discurso da sua líder e querida mãe Toutiço Despenteado, que explanou as novas linhas directoras de liderança da sua república e também da União das Hortaliças pois que são as batatas que mandam na caserna, dado serem as únicas com miolo. Neste sábio discurso da mamã Angie ficámos a saber que o ano novo é tradicionalmente um tempo de boas resoluções, em que talvez tenha decidido deixar de fumar, começar a praticar desporto ou passar mais tempo com a família. Tudo muito boas decisões e que interessam especialmente os súbditos dos chefes de estado que fazem este tipo de discurso pois sempre é importante saber onde o chefe vai passar as férias ou em que ginásio vai cuidar do cabedal, quanto mais não seja para organizar as manifs e assuadas para esses locais. Mas a gloriosa líder continuou e revelou as suas resoluções de ano novo mais importantes: Eu prometo sempre que vou passar mais tempo ao ar livre. Esta é uma excelente notícia que com certeza melhorará a situação dos nabos que são como se sabe uma hortaliça de ar livre. É uma espectacular decisão que resolverá miraculosamente todos os problemas económicos e sociais da União, e miraculosamente porque não se percebe como esta resolução fará por exemplo baixar o desemprego ou levar comida à boca dos famintos. No entanto, e sem cuidarem de milagres, alguns empreendedores estão já a ver nestes passeios campestres uma nova oportunidade para expandirem a sua influência e quiçá riqueza futura. Por exemplo o Sindicato Internacional dos Mosquitos Anofeles, Dengue, Moscas Tsé-Tsé e Similares começou já a atribuir quotas de mercado aos seus associados, até porque a resolutora é rechonchudinha e tem muito por onde se possa picar. Além disso espera-se que outros líderes mundiais sigam o seu exemplo e estes líderes são sempre anafados (ou pelo menos passam a sê-lo em apenas 12 meses de cargo) logo também terão muito por onde se picarem. Nem todos estão porém contentes com estas resoluções e o Sindicato das Carraças e Pulgas Lda. apresentou já uma queixa-crime ao Tribunal Internacional da Bicharada, por se considerar vítima de discriminação dado que os tais líderes passearão vestidos e de botas ou sapatos de cano alto, impedindo os seus associados de ferrarem o dente onde devem ou dito de outro modo: quando o líder passeia a chupadela não é p’ra todos.
Jogar Na Rua  P’ró Ronaldo
O Potentado da Paelha, liderado pelo duro Rói-Rói amante de charutos com aromas especiais para poder ver recuperações económicas em situações onde em alguns milhões de desempregados passou a haver 1 (sim, um, não mais que um) desempregado a menos, entrou numa fúria legislativa, que é seguramente fruto da última formação profissional subordinada ao tema Magias e Feitiços dado que no estado em que anda a economia daquele Potentado só com poderosa magia aquilo lá irá ao sítio. Assim, e obedecendo aos ensinamentos da Ti Verruga, especialista em feitiços e encantamentos e principal formadora do elenco governativo, este desatou a legislar sobre tudo, de modo a que por efeito de magia por simpatia, o PIB do país aumenta qualquer coisinha. E tem legislado à farta, desde o número de cães – os de quatro patas e os no merceeiro e nas lojas de conveniência – ao tamanho dos narizes e cigarrilhas que podem apresentar-se em público, sendo que no caso dos narizes, aqueles que possuam pencas acima do tamanho regulamentar terão de ou submeter-se a cirurgia plástica para as apararem ou reservar o excedente de dimensão para afixação da propaganda do governo, isto é, para afixar os editais e outras normas governativas que todos os dias saem para parametrizar, controlar e medir as vidas de cada cidadão. Isto motivou já queixas no Tribunal dos Surdos da União das Hortaliças por parte de minorias étnicas originárias ali do Meio do Oriente, que sentem ser esta medida dos narizes uma forma de perseguição. Também ao mesmo Tribunal foi apresentada queixa, mas agora pela Escola de Hogwarts porque, segundo o director Albus Dumbledore, a Ti Verruga não é uma feiticeira com carteira profissional e certificada dado que nunca foi aluna ou tirou qualquer curso das Novas Oportunidades na referida escola e não está portanto habilitada a praticar magia e muito menos a ensiná-la a outros muggles. O Tribunal indeferiu a queixa das minorias étnicas na base de que estas são minorias e portanto não têm o direito de protestar e está a estudar atentamente o caso interposto por Dumbledore para verificar se existe efectiva infracção à lei de prática de feitiçaria e se se deverá multar a Ti Verruga e punir o Potentado da Paelha com mais 20 anos de supervisão e desmandos da Tripeça. Com ou sem multa, o governo do Potentado continua a legislar a toda a velocidade, esperando que o PIB cresça, e a mais recente medida visa controlar as actividades terroristas das crianças, nomeadamente a perigosíssima jogatina de bola nas ruas. A partir de agora o puto charila que for apanhado na rua a dar uns toques na chincha leva multa de 1000 euros, não importando que no mealheiro não existam senão cerca de 10 ou que os pais não lhe dêem semanada superior a cinquenta. A partir de agora quem quiser ser um novo Ronaldo terá de nascer em casa em que os papás tenham dinheiro suficiente para o meter num clube para treinar os passes e os toques de mestre. A partir de agora pobre não tem direito a sonhar ser um craque do relvado nem tão pouco a ser passar apenas uma boa meia hora a jogar à bola com os amigos, sonhando-se no Maracanã até… o merceeiro da esquina correr atrás deles com o pau de vassoura porque a bola não atingiu as redes da equipa canarinha mas o vidro da loja. Esta é uma medida legislativa que assinala um grande marco civilizacional pois a partir de hoje podem os chapéus das senhoras da missa repousar descansados nas cabeças das donas e os vidreiros dormirem em paz nas horas de serviço pois já não terão trabalho a reparar montras partidas. O governo da Paelha estuda agora novas leis de revolucionário significado civilizacional como a interdição dos jogos da macaca, das escondidas e da apanhada, o fim do uso de jogos de telemóveis e Hi-fi nos espaços públicos. Também estuda já a proibição do comer caramelos e rebuçados, mascar pastilhas e lamber chupas, devendo os infractores pagar multas entre os 2000 e os 20 milhões de euros. Deste modo a economia da Paelha poderá não ressuscitar mas os miúdos terão de certeza grandes e poderosas razões para emigrar e assim pouparem ao estado o inútil gasto com escolas, professores e livros. São medidas destas que levarão a União das Hortaliças ao seu apogeu cultural… ou à sua ruína total, aposte no resultado na banca do Zé Zarolho, agente governamental para os jogos de batota e azar, às sextas-feiras (aos outros dias é por conta própria, na banca do mercado da vermelhinha).
Altas Tecnologias... São Sinais de Fumo
A República dos Fogos está em brasa pois um dos mais importantes serviços públicos – o de florestas e conservação da Natureza – está sem telefones desde o ano passado. Tal estado de coisas provoca grandes dores de cabeça aos cidadãos do braseiro, pois não os caçadores e pescadores furtivos, por exemplo, vêem-se impossibilitados de contactar este serviço para saber que espécies piscícolas ou cinegéticas é proibido pescar ou caçar, onde e quando e assim poderem planear as suas actividades sem problemas. Também as raposas estão a ter problemas com esta falha pois não conseguem saber onde andam os vigilantes da Natureza para fazerem coincidir com as deles as suas rondas venatórias a trabelos, musaranhos, gafanhotos, lebrachos e passarada em geral (OK, se toda esta bicharada estiver ainda em casa a ressacar do Ano Novo, então pilhe-se umas galinhas). Os lobos também se sentem afectados com este estado de coisas pois não sabem por onde se deverão meter no abocanhanço das ovelhas se não souberem onde andam os funcionários para registar os seus raides a rebanhos. Quanto aos linces, esses já fizeram saber pela sua associação sindical que, sem informações horárias sobre o paradeiro dos tais vigilantes e biólogos de serviço, não passearão no mato com vista ao seu esfumado avistamento. A questão é candente, como são todas as que se referem aos fogos e a este país em especial, porque os fogareiros são grandes aficionados das novas tecnologias, tendo normalmente cada um cerca de meia dúzia de novas geringonças, como por exemplo meia dúzia de smartphones, meia dúzia de tablets, meia dúzia de ipods, etc., sendo dos mais activos na utilização da Rede-de-Pesca, o que gerou todo um mercado de defesa dos outros internautas, as indispensáveis firewalls. Como não são um país especialmente quinado para andar nas bocas do mundo, nem para a publicidade, excepto por más razões, não são conhecidos por inventarem geringonças. No entanto inventam-nas e muitas com grande sucesso internacional, facto aproveitado por cidadãos de outros países para dizerem que foram eles os inventores e assim serem os nomes deles e não os dos fogareiros a entrarem na História. Inventaram por exemplo os sistemas e máquinas de multibanco, de inspecção de bagagens em aeroportos e várias outras pequenas coisas que fazem o quotidiano mais simples para toda a gente, mas seguem silenciosos, só chamando as atenções na altura do Verão, que é quando desatam a trabalhar em massa, pois os fogareiros o que gostam é do ar livre e de brasas na praia e na floresta. E porque a República dos Fogos está a arder com uma dívida pública tratada a esteróides, pensou-se que talvez a austeridade houvesse levado estes simpáticos nativos a abandonar os bites e os bytes. Porém nota acabada de sair da reunião de ministros dos Fogos veio esclarecer o equívoco. Não se trata do abandono das novas tecnologias mas sim de se manterem na vanguarda do conhecimento e resgatarem tecnologias revolucionárias que por o serem, e ainda mais no passado remoto em que foram descobertas, nunca puderam ser devidamente desenvolvidas. A ausência de telefones no serviço das florestas é assim, não uma falha austeritária mas o resultado de aturados estudos dos especialistas. E a nova tecnologia é… Sinais de fumo. Não, não se trata do nome dum livro nem duma editora mas dos verdadeiros, dos reais, absolutos, fumarentos… sinais de fumo. Lidos facilmente à distância, capazes de serem realizados até por um fogacho de colo (basta dar-lhe uns fósforos ou um isqueiro para as mãos e vocês vão ver…), entendíveis por humanos e bichos sem hesitações, estão a ser espalhados por todo o país, o que aliás se espera venha a abrir a actividade de verão ainda na época de Inverno. Como o Fogo-no-Palheiro, e presidente desta República disse aos jornalistas: se serviu para os romanos e índios americanos, também servirá para nós. Em resposta, a bicharada encavalitou-se no cimo dos montes para ver de onde vem o fogacho da capital e decidirem para onde fugir.
Cortei a Cabeça do Meu Tio?! Uups, Tiazinha, Desculpe  o Mau Jeito...
A corte da Dinastia Democrática da Fome está tremebunda, em alvoroço e com insónias devido ao mais recente sarrabulho na sala da corte, que envolveu o Imperador e o seu tio e preceptor desde a pré-primária. Sem mais nem ontem, assim do dia para a noite, o tio favorito do Imperador, um dos poucos com direito na Democracia da Fome a passear ao estrangeiro, foi arrancado ao banquete que estava a dar nos seus aposentos do palácio imperial para ser levado para um tribunal. Embora ninguém soubesse a razão da ordem de prisão, logo houve conversas entre os serviçais, à boca muito pequenininha ou iriam fazer companhia ao preso, de que talvez o tio tivesse sido forreta nas prendas trazidas da estranja para o sobrinho ou andasse em manobras dos bastidores com o grande vizinho do sul, o Império do Arroz, para gamar as concubinas imperiais. Esta das concubinas deve ter o seu fundo de verdade pois uma das acusações ao tio malfeitor foi a de ser mulherengo, o que fez os eunucos do palácio suspirar de alívio pois pelo menos esse era um crime de que nunca poderiam ser acusados e muitos súbditos, surpreendidos pelo novo código penal, correram aos cirurgiões para também realizarem a operação. Até porque, uma vez sem esses apetrechos, talvez possam ingressar ao serviço do palácio, onde apesar de tudo se passa menos fome do que no resto do país. Já o crime seguinte na lista da acusação fez eunucos e muitos outros cortesãos estremecerem de receio pois a traição é na Democracia da Fome um conceito muito flexível e em evolução contínua pelo que o que hoje não é traição amanhã já o pode ser, razão pela qual os súbditos, quando conseguem enganar a ideia da fome, se apressam a ler a última edição do Livro do Líder, para estarem a par das novas evoluções traiçoeiras. A acusação de corrupção também não serenou os ânimos dos cortesãos embora fosse uma acusação inexplicável para os súbditos pois para estes, não tendo nada de nada para corromper nem que seja um bicho da seca, não fazem ideia do que seja tal verbo, embora as necessidades que o promovam, as tenham e em alta carrada. A esta altura dos eventos já a tia se encolhia na sua cama, escudada por numerosas aias, temerosa de ser fosse a próxima, dado que na Democracia da Fome quando um erra, todos comem por tabela, ou antes, a todos salta a tola, p’ra não deixarem cá semente. Mas o sobrinho demonstrou bom coração e até deu à tia um presente de núpcias para celebrar o matrimónio com o morto e ingressar ela própria como concubina no harém do sobrinho, o que a boa senhora terá agradecido bastante já que o esposo estava agora… muito ausente. E com carácter definitivo dado que após a prisão o tio fora logo levado a tribunal e despachado para o carrasco, tudo em apenas duas horitas pois na Dinastia da Fome os tribunais não perdem tempo em julgados e alegações, uma vez que já têm a sentença atribuída ainda antes de se cometer o crime, e o só há advogado de acusação para se poupar nas despesas, sendo que este também poupa pois existem formulários de alegações finais já tabelados por crime, sendo apenas necessário o advogado em questão puxar do modelo em causa (no caso o modelo 3 “estado contra verme humano por alta traição à pátria”). Prático, barato e eficiente e os países decadentes deveriam copiar o modelo, assim nos dizem os sábios da democracia da Fome. A morte do tio imperial teve, além de libertar o país do perigo de “venda ao estrangeiro” (não se sabe muito bem o quê pois não há nada para vender, os famintos já comeram tudo), o bom efeito de reduzir a taxa de desemprego. De facto deu até origem a uma nova carreira com grande futuro. Dado que o tio malvado foi também acusado de “não bater palmas com suficiente entusiasmo”, todos os cortesãos se inscreveram já em aulas para bem aplaudir, e numerosos súbditos, experientes batedores de palmas para se aquecerem pois a lenha foi há muito desfeita em farripas para sopa, estão a aproveitar a oportunidade para ensinarem os familiares e amigos do Querido Líder. E como a nova profissão de professor de bater palmas tem um bom ordenado mensal, os médicos  estão também em grande procura pois os famintos professores, já desabituados de outra comida que não seja a lenha fervida, ao comerem migalhinhas de pão sofrem de imensas indigestões. O Querido Líder, aliás, pensando apenas no bem do seu amado povo, está a estudar a hipótese de declarar a profissão de professor de bater palmas uma profissão decadente e como tal perigosa para o país, sendo todos os seus profissionais decalrados traidores à pátria e portanto ficarem sem tola, o que será muito bom para combater a fome e as indigestões no país. Infelizmente, contam os mosquitos nossos infiltrados na corte, o grande imperador e Querido Líder acabou por desistir da ideia depois de ter morto os primeiros dez professores e verificado que nos festejos oficiais pela morte do querido papá a corte batia palmas com redobrado vigor e afinco mas infelizmente fora de compasso o que lhe deu uma terrível dor de cabeça (e como o carrasco estava perdido em parte incerta não foi possível decapitar os descompassados). Deste modo os professores de bater palmas voltaram a ser uma profissão muito popular, estando agora equiparados a Operários Heróicos da Democracia da Fome, com direito a raspas de troncos de bambu que deverão trocar por cupões de compra da fotografia do Querido Líder, a qual deverão colar na parede de casa (com cuspo pois o país não tem cola, essa terrível invenção do decadente ocidente), pois basta a visão do Querido Líder para tirar a fome a qualquer leal e dedicado súbdito.


Nota da redacção: como os redactores deste jornal obedecem aos calendários celta, hindu, budista, xinto, maia, chinês, inca, judaico e muçulmano, o Ano Novo para nós, já era…

Reflexões de Ano Novo (como o presente jornalista é ateu, não obedece ao calendário)

E com o novo ano chegam as novas resoluções que nos farão sentir mal durante os próximos 12 meses porque… são como as previsões dos indicadores económico feitos por imensos especialistas: jamais se cumprem. O que nos leva a pensar que a previsão económica funciona segundo regras semelhantes ao Totobola ou Euromilhões. O que é particularmente confuso porque sempre nos têm dito que a Economia é uma ciência exacta. Estamos a falar da Economia com letra grande, a dos especialistas, dos génios financeiros, dos Nóbeis, dos craques de Wall Streekt e Frankfurth (ou da City) e não a que fazemos quando somamos as contas dos gastos com o nosso salário, embora os resultados de uns e outros venham a dar no mesmo: não acertam por mais que nos estiquemos no balanço… embora no caso deles os resultados colaterais (património e contas bancárias) cresçam e levedem qual milagre da panificadora da Malveira. Mas a Economia é, estejam tranquilos, uma ciência exacta e prevê sempre com exactidão o que vai acontecer. Por exemplo, não existem crashes de bolsa nem bolhas de subprime ou imobiliárias ou depressões económicas porque simplesmente as teorias económicas dizem que… não acontecem. E portanto, se a teoria diz que não acontece, a realidade tem é de se ajustar à teoria e não o contrário, como fazem todos os outros cientistas, que tentam adaptar as teorias em função da realidade que vão observando. É na verdade uma ciência tão exacta que nunca acerta na evolução dos índices económicos. Diz que baixar as taxas de juros na actual conjuntura vai fazer disparar a inflacção e a inflacção teimosamente não dispara, que vai aumentar o PIB e acabar a recessão em 6 meses e nem um sobe nem a outra morre, que se vai voltar ao crescimento e o crescimento teima em manter-se lá muito ao fundo mas isso tem uma razão óbvia: é por causa dos eventos meteorológicos… E esta fabulosa ciência é exacta porque os mercados são racionais porque as pessoas são racionais. As pessoas nunca entram em pânico se os mercados de investimentos entram em queda, não perdem as estribeiras e desatam a fazer idiotices como pregar uma estalada num polícia, apanhar uma bebedeira quando era preciso ter a cabeça fria para enfrentar um colapso relacional, subornar um tipo (que afinal é fiscal de subornos) ou enfiar-se em esquemas financeiros estranhos para ganhar algum por fora sem que se saiba muito bem como pois a ganância é mesmo uma coisa do mais racional que há. Portanto se uma bela manhã ao caminharem pela rua virem um tipo a correr todo nu não fiquem a pensar que o dito endoidou mas antes foram os vossos olhos que vos pregaram uma partida – ou são os restos da vossa farra de ontem – pois as pessoas são sempre racionais e não cometem disparates destes (ou já agora outros). Também, se num cenário em que já não temos nada nos bolsos, vos anunciarem que o aumento das taxas de juro e a imposição de medidas de austeridade irão levar as pessoas a gastar mais porque se sentem mais ricas, dado que fazem projecções das taxas de juro a 10 anos quando pensam em namorar um vestido ou um par de ténis, acreditem piamente! Pois a Fada dos Dentes, os Elfos, os Gnomos, o Pássaro Trovão, os Dragões Arco-Íris e os Elefantes Cor-de-Rosa, o Pai Natal e o Palhaço que foi com ele no comboio ao circo existem mesmo e até descem pelas chaminés e tudo. Assim, e embalados nesta ciência que nos fala de um mundo feliz de contos de fadas onde os imprevistos e os sobressaltos não existem, sabemos que o Novo Ano será um ano de prosperidade miraculosa e sem fim para toda a gente, onde o desemprego atingirá os 0% e a dívida voará dos 131% para os -5% e todos darão abraços e beijinhos e irão passar férias em ilhas de sonho. E porque não? Se acreditarmos que os mercados são racionais também podemos acreditar no Pai Natal e nas renas voadoras. Com a diferença que neste último caso de crença isso não se reflecte no défice orçamental nem no que nos resta nos bolsos ao fim do mês (cotão). Se não conseguirem acreditar nisto tudo, ao menos, como dizia o Solnado… façam o favor de (tentar) ser felizes.