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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Cortei a Cabeça do Meu Tio?! Uups, Tiazinha, Desculpe  o Mau Jeito...
A corte da Dinastia Democrática da Fome está tremebunda, em alvoroço e com insónias devido ao mais recente sarrabulho na sala da corte, que envolveu o Imperador e o seu tio e preceptor desde a pré-primária. Sem mais nem ontem, assim do dia para a noite, o tio favorito do Imperador, um dos poucos com direito na Democracia da Fome a passear ao estrangeiro, foi arrancado ao banquete que estava a dar nos seus aposentos do palácio imperial para ser levado para um tribunal. Embora ninguém soubesse a razão da ordem de prisão, logo houve conversas entre os serviçais, à boca muito pequenininha ou iriam fazer companhia ao preso, de que talvez o tio tivesse sido forreta nas prendas trazidas da estranja para o sobrinho ou andasse em manobras dos bastidores com o grande vizinho do sul, o Império do Arroz, para gamar as concubinas imperiais. Esta das concubinas deve ter o seu fundo de verdade pois uma das acusações ao tio malfeitor foi a de ser mulherengo, o que fez os eunucos do palácio suspirar de alívio pois pelo menos esse era um crime de que nunca poderiam ser acusados e muitos súbditos, surpreendidos pelo novo código penal, correram aos cirurgiões para também realizarem a operação. Até porque, uma vez sem esses apetrechos, talvez possam ingressar ao serviço do palácio, onde apesar de tudo se passa menos fome do que no resto do país. Já o crime seguinte na lista da acusação fez eunucos e muitos outros cortesãos estremecerem de receio pois a traição é na Democracia da Fome um conceito muito flexível e em evolução contínua pelo que o que hoje não é traição amanhã já o pode ser, razão pela qual os súbditos, quando conseguem enganar a ideia da fome, se apressam a ler a última edição do Livro do Líder, para estarem a par das novas evoluções traiçoeiras. A acusação de corrupção também não serenou os ânimos dos cortesãos embora fosse uma acusação inexplicável para os súbditos pois para estes, não tendo nada de nada para corromper nem que seja um bicho da seca, não fazem ideia do que seja tal verbo, embora as necessidades que o promovam, as tenham e em alta carrada. A esta altura dos eventos já a tia se encolhia na sua cama, escudada por numerosas aias, temerosa de ser fosse a próxima, dado que na Democracia da Fome quando um erra, todos comem por tabela, ou antes, a todos salta a tola, p’ra não deixarem cá semente. Mas o sobrinho demonstrou bom coração e até deu à tia um presente de núpcias para celebrar o matrimónio com o morto e ingressar ela própria como concubina no harém do sobrinho, o que a boa senhora terá agradecido bastante já que o esposo estava agora… muito ausente. E com carácter definitivo dado que após a prisão o tio fora logo levado a tribunal e despachado para o carrasco, tudo em apenas duas horitas pois na Dinastia da Fome os tribunais não perdem tempo em julgados e alegações, uma vez que já têm a sentença atribuída ainda antes de se cometer o crime, e o só há advogado de acusação para se poupar nas despesas, sendo que este também poupa pois existem formulários de alegações finais já tabelados por crime, sendo apenas necessário o advogado em questão puxar do modelo em causa (no caso o modelo 3 “estado contra verme humano por alta traição à pátria”). Prático, barato e eficiente e os países decadentes deveriam copiar o modelo, assim nos dizem os sábios da democracia da Fome. A morte do tio imperial teve, além de libertar o país do perigo de “venda ao estrangeiro” (não se sabe muito bem o quê pois não há nada para vender, os famintos já comeram tudo), o bom efeito de reduzir a taxa de desemprego. De facto deu até origem a uma nova carreira com grande futuro. Dado que o tio malvado foi também acusado de “não bater palmas com suficiente entusiasmo”, todos os cortesãos se inscreveram já em aulas para bem aplaudir, e numerosos súbditos, experientes batedores de palmas para se aquecerem pois a lenha foi há muito desfeita em farripas para sopa, estão a aproveitar a oportunidade para ensinarem os familiares e amigos do Querido Líder. E como a nova profissão de professor de bater palmas tem um bom ordenado mensal, os médicos  estão também em grande procura pois os famintos professores, já desabituados de outra comida que não seja a lenha fervida, ao comerem migalhinhas de pão sofrem de imensas indigestões. O Querido Líder, aliás, pensando apenas no bem do seu amado povo, está a estudar a hipótese de declarar a profissão de professor de bater palmas uma profissão decadente e como tal perigosa para o país, sendo todos os seus profissionais decalrados traidores à pátria e portanto ficarem sem tola, o que será muito bom para combater a fome e as indigestões no país. Infelizmente, contam os mosquitos nossos infiltrados na corte, o grande imperador e Querido Líder acabou por desistir da ideia depois de ter morto os primeiros dez professores e verificado que nos festejos oficiais pela morte do querido papá a corte batia palmas com redobrado vigor e afinco mas infelizmente fora de compasso o que lhe deu uma terrível dor de cabeça (e como o carrasco estava perdido em parte incerta não foi possível decapitar os descompassados). Deste modo os professores de bater palmas voltaram a ser uma profissão muito popular, estando agora equiparados a Operários Heróicos da Democracia da Fome, com direito a raspas de troncos de bambu que deverão trocar por cupões de compra da fotografia do Querido Líder, a qual deverão colar na parede de casa (com cuspo pois o país não tem cola, essa terrível invenção do decadente ocidente), pois basta a visão do Querido Líder para tirar a fome a qualquer leal e dedicado súbdito.


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