
O Império do Arroz, que tanto tem
dado que falar nos últimos tempos, voltou a ser o centro da atençãointernacional,
agora a dos meios científicos pois acabou de revelar em directo e na TV estatal
que o smog – isto é a poluição atmosférica, tipo nevoeiro malcheiroso dos idos
novecentistas de Londres, ou seja, em que não se vê um palmo à frente do nariz
– é um grande benefício para a saúde. Sim senhor, leram bem, bom para a saúde!
É científico, oficial e indesmentível pois assim o disse a autoridade
partidária máxima do Império e as autoridades máximas estão acima de qualquer
contestação, mesmo que digam que o céu é castanho às riscas (o que, quando há
smog, até talvez seja). Com efeito disse a eminência científico-partidária
perante as câmaras, que, primeiro, o smog mostra às pessoas o custo do
desenvolvimento. O nosso corpo redactorial especializado em assuntos de ciência
subscreve esta afirmação: as pessoas claro que vêm, e apalpam (dado que durante
um smog não conseguem ver nada) os custos do desenvolvimento; quem parece não
ver são os donos das fábricas, que por acaso são na sua vasta maioria
governamentais, ou seja, os decisores políticos mas isso também não é novidade
pois os decisores políticos do mundo inteiro são selecionados entre os mais
ceguinhos que saem dos bancos das escolas. Também disse a mesma autoridade que
outro dos benefícios do smog é o de unir as pessoas. Sem dúvida! Primeiro
une-as pois têm de dar as mãos umas às outras para a da ponta da fila descobrir
o passeio ou a parede mais próxima e deste modo guiar em fila indiana todos os
outros perdidos no nevoeiro. Também as une quando chocam umas com as outras
pois não são capazes de ver o que têm à frente, o que por vezes faz com que se
unam a comboios ou camiões em andamento, juntando-as ainda mais aos passageiros
que dentro lá vão… e na sequência da(s) morte(s) os familiares e amigos unem-se
todos para o funeral. Finalmente e, porque por vezes as pessoas são mandadas
ficar em casa devido à elevada toxicidade do smog, se não ficam unidinhas nos
locais de trabalho (caso lá estejam quando os avisos são lançados) ficam
unidinhas em casa; há lá coisa mais bonita do que a união e convívio familiar,
de janelas fechadas e portas calafetadas com jornais para não deixar entrar o
ar nem os maus espíritos do fumo? Todas juntinhas no mesmo sofá a verem a TV,
que nesses dias apresenta imutável ecrã cinzento pois o smog uniformiza todas
as vistas? Então a união que se dá quando se faz o velório do velhote ou miúdo
que bateu a asa por ter inalado tão interessante atmosfera? Até os parentes
longínquos vêm visitar a enlutada família! O smog pode matar que se farta - contribuindo para o controlo da população - mas que é isso comparado com a união das pessoas e a felicidade das mesmas? Sim, felicidade! Podemos garantir, como foi afirmado
pela autoridade do Império do Arroz, que este fenómeno de poluição atmosférica
torna as pessoas mais alegres. Primeiro, com a família toda no lar, há mais
oportunidades para os casais se divertirem, aparecendo os resultados ao fim de
nove meses e para dar ainda mais alegria aos produtivos súbditos o governo vai
abrandar a regra de “um casal, um filho” que até agora tem vigorado no Império.
Finalmente, e podemos garanti-lo em primeira mão, o governo do Império do Arroz
aumentou já a quota de importação de cocaína e gás hilariante, de modo a não
haver quebras no fornecimento às chaminés das fábricas durante o próximo smog e
deste modo manter aas quotas de felicidade dos súbditos. Ganzados e
melancólicos do mundo, mantenham-se ligados à página oficial do Império do
Arroz e participem no próximo evento.


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