Por Favor Não nos Dêem
Desse Perfume!
No Condado
dos Perfumes a juventude politizada que costuma dançar a quadrilha e a mazurca
a virar sempre para a direita, entontecendo as noivas e namoradas nos bailes
semanais da realeza local, anunciou ao rei que pretende uma revisão
constitucional que obedeça a um mínimo de parâmetros aromáticos em consonância
apenas com as suas sensibilidades perfumistas, devendo ignorar as dos incultos
súbditos e em especial as dos adversários que nos bailes reais dos sábados têm
o costume de os provocar dançando as mesmas quadrilha e mazurcas mas virando
para a esquerda ou batendo ao centro, entontecendo de igual modo as namoradas e
noivas mas causando a confusão geral no bailarico, o que muito diverte o rei e
a família real – que tem de se rir do mesmo que o rei ou ele mete cara de pau
(alias é a sua alcunha por passar todo o santo dia com essa cara) – e por vezes
deitando abaixo o estado dos músicos com músicos e tudo. Os jovens das direitas
pedem encarecidamente ao monarca e à comissão que ele nomear para a revisão da
constituição, ou Carta Constitucional (vulgo Cartola porque é tão pouco
respeitada que já só serve para tapar a cabeça dos ministros) para eliminarem
todo e qualquer perfume a Abril pois são alérgicos às flores rosadas de
cerejeira, às brancas de macieira, às coloridas e redilhadas dos jardins e aos
pólens e fenos em geral, pelo que costumam passar todo o mês de Abril de
lágrimas nos olhos, a lamentar-se pelos outros tempos, quando eram meninos e as
criadas os protegiam das horríveis flores e fenos enfiando-lhes os queridos
narizes em cantos só delas sabidos. Claro que antes dos Abris os jovens em
questão obedeciam ao professor (que temiam por causa da menina-de-nove-olhos)
ao confessor (que os aterrava com o fogo do Inferno por terem jogado à bola no
recreio) e aos perceptores pois estes tinham meios de os enfiarem na linha. Mas
depois vieram as Primaveras e os Verões Quentes, cheios de praia, passeatas e
pinturas rabinas nas paredes e os rapazinhos emanciparam-se. E agora,
esquecidas as pinturas rabinas nas paredes, as palavras de ordem das passeatas
e outras quenturas, os jovens sofrem com os aromas de Abril, pedindo todos os
anos, entre crises alérgicas de ranho e choro, que se cortem as flores e os
fenos. Por fim comovido com o sofrimento destes seus leais súbditos o conde e
senhor feudal do país pôs já os seus perfumistas a trabalhar numa nova fórmula
para impregnar as páginas da futura Constituição/Cartola, a qual deverá ter
cheio a cera, incenso não indiano, água benta e charutos, no que deverá
constituir um delicado perfume a funeral.



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