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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Por Favor Não nos Dêem Desse Perfume!
No Condado dos Perfumes a juventude politizada que costuma dançar a quadrilha e a mazurca a virar sempre para a direita, entontecendo as noivas e namoradas nos bailes semanais da realeza local, anunciou ao rei que pretende uma revisão constitucional que obedeça a um mínimo de parâmetros aromáticos em consonância apenas com as suas sensibilidades perfumistas, devendo ignorar as dos incultos súbditos e em especial as dos adversários que nos bailes reais dos sábados têm o costume de os provocar dançando as mesmas quadrilha e mazurcas mas virando para a esquerda ou batendo ao centro, entontecendo de igual modo as namoradas e noivas mas causando a confusão geral no bailarico, o que muito diverte o rei e a família real – que tem de se rir do mesmo que o rei ou ele mete cara de pau (alias é a sua alcunha por passar todo o santo dia com essa cara) – e por vezes deitando abaixo o estado dos músicos com músicos e tudo. Os jovens das direitas pedem encarecidamente ao monarca e à comissão que ele nomear para a revisão da constituição, ou Carta Constitucional (vulgo Cartola porque é tão pouco respeitada que já só serve para tapar a cabeça dos ministros) para eliminarem todo e qualquer perfume a Abril pois são alérgicos às flores rosadas de cerejeira, às brancas de macieira, às coloridas e redilhadas dos jardins e aos pólens e fenos em geral, pelo que costumam passar todo o mês de Abril de lágrimas nos olhos, a lamentar-se pelos outros tempos, quando eram meninos e as criadas os protegiam das horríveis flores e fenos enfiando-lhes os queridos narizes em cantos só delas sabidos. Claro que antes dos Abris os jovens em questão obedeciam ao professor (que temiam por causa da menina-de-nove-olhos) ao confessor (que os aterrava com o fogo do Inferno por terem jogado à bola no recreio) e aos perceptores pois estes tinham meios de os enfiarem na linha. Mas depois vieram as Primaveras e os Verões Quentes, cheios de praia, passeatas e pinturas rabinas nas paredes e os rapazinhos emanciparam-se. E agora, esquecidas as pinturas rabinas nas paredes, as palavras de ordem das passeatas e outras quenturas, os jovens sofrem com os aromas de Abril, pedindo todos os anos, entre crises alérgicas de ranho e choro, que se cortem as flores e os fenos. Por fim comovido com o sofrimento destes seus leais súbditos o conde e senhor feudal do país pôs já os seus perfumistas a trabalhar numa nova fórmula para impregnar as páginas da futura Constituição/Cartola, a qual deverá ter cheio a cera, incenso não indiano, água benta e charutos, no que deverá constituir um delicado perfume a funeral.

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