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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Na Confederação dos Livros de Cordel as revoluções no ensino sucedem-se. E este ano promete ser absolutamente revolucionário. Antes de mais, os professores vão fazer provas de conhecimentos, onde serão avaliados por pais e alunos, embora as provas sejam apenas uma praxe, dado que não contarão para efeitos de contratação ou de classificação dos docentes. Mas servirão para os humilhar e fazer baixar a bolinha pois é uma classe de trabalhadores muito convencida. Também se mudaram novamente os programas das disciplinas, o que aliás é tradição anual mas desta vez os manuais, mudados outra vez à última hora para que os pais possam gastar por duas vezes o orçamento livreiro e promovam assim a recuperação das editoras, não estão conformes aos novos programas, pelo que se terão de trocar terceira vez, com nova interessante corrida de pais às livrarias para encomendar os novos manuais. Como o que se quer é alunos bem preparados e com capacidade de resistência a situações de stress, sem com isso perderem as suas capacidades produtivas, foi aumentado o número e importância dos exames, que passarão agora a contar 100% para a nota final, ignorando o trabalho realizado ao longo do ano. A Associação dos Cábula Profissionais Especializados em Copianço veio já saudar a medida, que irá beneficiar os seus associados e promover a profissão e actividades paralelas. E como o que conta para nota é apenas o exame ao fim de 3 anos, a novidade do aumento de horas de aulas não perturba os cábulas que podem continuar a dormitar, jogar à batalha naval, passarem papelinhos às namoradas, ouvir música no mp3, smsar nos telemóveis e fazer jogos no tablet ou, quando se cansarem das distracções tecnológicas, pregarem mensagens idiotas nas costas dos colegas. Com efeito o aumento do número de aulas destina-se, como o Ministro Livro Aberto da Educação explicou, não a melhorar os conhecimentos das criancinhas mas a habituá-las desde logo a vergarem a mola para não estranharem quando chegarem ao mercado de trabalho, e caso sejam sortudos em serem contratados à semana, não se queixarem por serem obrigados a trabalhar não as oito horas do contrato mas as 16 de qualquer real e vulgar horário de trabalho. Também serão apagadas dos currículos as Aulas de Ensino Acompanhado (não precisamos de tolinhos nas escolas, esses podemos pô-los a fazer buracos nas obras) nem as Aulas de Enriquecimento Curricular pois é pernicioso meter nas cabeças dos petizes a ideia de enriquecimento, já para não falar nos ainda mais perniciosos conhecimentos que aí poderiam absorver como línguas estrangeiras, música, artes plásticas e outras palermices que só o deixam de ser quando os meninos são ricos. Também se incentivará o ensino de profissões, mas reduzindo o número de professores de tais cursos, pois os putos têm de aprender por eles como antigamente qualquer bom aprendiz fazia e ainda hoje o fazem os doutorandos nas Universidades. Do mesmo modo, e para incentivar o auto-didactismo, serão reduzidos os efectivos – mesmo que contratados a tempo parcial – de professores. Para o mesmo efeito será reduzido o número de escolas, agora aglutinadas em mega-centros escolares, e o número de turmas por escola, não sendo permitidas turmas-desperdício de apenas 20 alunos, mesmo no caso de delinquentes confirmados e a precisarem de atenção especial; o número mínimo de alunos é agora de 60, o que tem o benefício adicional de proteger a saúde dos professores, os quais poderão exercitar-se enquanto correm de um lado para o outro da sala de aulas, a separar brigas entre alunos, esclarecer dúvidas ou interceptar papelinhos românticos. No caso das turmas de ensino vocacional, as profissões a serem leccionadas serão sujeitas a sorteio, pelo que os alunos que hajam escolhido uma profissão não sorteada, deverão ir procurá-la no mercado de trabalho, perdendo deste modo o direito de voltar à preguiça escolar. E porque o mundo lá fora é uma selva, será também reduzido o número de funcionários, auxiliares pedagógicos, empregadas da limpeza, porteiros, senhores das reparações e outros, para que os alunos aprendam a desenrascar-se por si e se tornem auto-suficientes desde bem cedinho. Finalmente, a novidade mais revolucionária: reintroduziu-se a prática antiga de na mesma turma co-existirem 4 e mais níveis de ensino (‘tá bem, antigamente só havia 4 níveis porque quem estudava depois disso era rico e andava nos colégios). Esta medida inovadora pretende gerar o caos na cabeça dos alunos e a morte por exaustão dos professores. É uma excelente e comprovada estratégia para os alunos se ensinarem uns aos outros, permitindo ao Ministério arrecadar mais uns milhões de conquilhas não contratando professores, pois os alunos trabalham de borla. O facto dos alunos também não saberem muito mais do que os colegas que irão ensinar não é problema pois as crianças estão na escola não para aprender mas para não fazerem disparates na rua enquanto os pais estão no trabalho. A Confederação dos Livros de Cordel pretende exportar estas novas metodologias para o resto do mundo quando na próxima época de exames se comprovar o seu sucesso com 98% de chumbos.

domingo, 6 de outubro de 2013

 Acaba de terminar o mês sagrado da República (Às Vezes) dos Papiros, que foi este ano encerrado com uma festividade para ficar na História da região. Como se sabe, o mês sagrado muito exige aos devotos da religião Amo-te Muito pois não só têm de participar em todas as inúmeras celebrações religiosas, como ao mesmo tempo assegurar a vida quotidiana, ou seja o trabalho, que neste país é ao preço da uva mijona, duas tarefas já por si quase impossíveis de conciliar. Além disso, todos os crentes têm de se abster de declarações de amores públicos e privados, o que é um grande sacrifício para uns pinga-amores como os papirenses. No entanto o sacrificial mês sagrado tem também muitas alegrias para estes cidadãos. Há exibições de fogo de artifício e actividades guerreiras à saída dos templos, logo após os cultos, com rebentamento de carros, canalizações e por vezes até de passeantes nas proximidades, com vista a levar para o céu o maior número de fiéis que venham a sair e, aos que conseguirem escapar às explosões, fazê-los correr para fugir aos estragos e transportar ao mesmo tempo aqueles que não conseguem. Embora os líderes espirituais da religião Amo-te Muito se oponham a esta tradição popular por acharem que não só reduz o número de fiéis como poderão colocar ideias menos amorosas nas cabeças dos parentes das vítimas, o que é contrário a todos os mandamentos, os responsáveis pelos actos opõem-se a esta interpretação das palavras do Divino. Para os responsáveis pelas explosões – que geralmente ficam em casa, mandando os fiéis que os seguem rebentarem com carros e com eles próprios – este costume enraizado na tradição é a prova mais sublime de amor pois quando os fiéis saem dos cultos vêm mais do que purificados e portanto se morrerem nesse instante têm entrada directa no Paraíso, que melhor pode alguém oferecer como prova de amor ao seu semelhante? Porque razão os organizadores destes eventos declinam a suprema honra de mostrar amor aos outros e mandam terceiros realizar tais actos de fé, ninguém pôde ainda explicar, até porque os organizadores são pessoas discretas, com moradas desconhecidas na maior parte do tempo. Portanto nesta altura do ano, na República dos Papiros, as divergências entre os líderes espirituais da religião do estado e estas facções mais radicais costuma explodir… literalmente. Há quem diga até que estes são sinais duma imparável luta pelo poder no seio da estrutura eclesiástica, com os radicais quererem tornar-se os líderes incontestados. Lutas internas àparte, este ano o governo dos Papiros – e quebrando uma tradição de muitas décadas – decidiu juntar-se aos festejos. Com efeito, este ano durante o mês sagrado os papirenses fartaram-se encher as ruas com danças, cantares, concursos de pedrada, fogos lançados em casas e distribuição de panfletos eleitorais retirados das sedes de campanha sem consentimento dos donos, além de diários concertos de palavras de ordem, entoadas em coros polifónicos e contra-coros, uns a dizer “abaixo, abaixo, abaixo” e os contras a cantar “acima, acima, acima”, oferecendo um permanente espectáculo musical e de arremesso de pedras que foi um encanto. Perante todos os sinais de que o arraial não iria encerrar-se no fim do mês sagrado, o governo decidiu, num espírito demonstrativo do seu respeito pelos sentimentos religiosos do povo, juntar-se às celebrações, enviando para as ruas helicópteros, tanques, carros de assalto, tropas de choque, devidamente armadas de metralhadoras com balas a sério, granadas, e armas químicas que fazem no mínimo chorar. Do lado dos manifestantes apresentaram-se em cena as habituais pedras, fisgas e fundas, assim como os intemporais cocktails molotov e alguns com mais iniciativa exibiram até o poder de fogo das suas automáticas. A capital transformou-se num palco de guerra, com rebentamentos de engenhos explosivos, casas incendiadas, barricadas demolidas, lojas reduzidas a entulho pelo tiroteio e avanço dos carros de assalto e, como seria aliás de bom tom, vários cadáveres estendidos nas ruas ou a serem transportados para morgues improvisadas que o génio desenrrascador dos papirenses já vem de longe, como os próprios monumentos locais o atestam. Os países vizinhos ficaram todos muito perturbados e apelaram à calma, os líderes religiosos locais da facção pacifista “Vamos Lá a Respirar Fundo” também mas os ânimos estavam todos tão em brasa, no sentido mais ardente do termo, que ninguém chegou a ouvir os pacifistas. Aliás, com o barulho dos disparos, dos rebentamentos e das pás dos helicópteros seria muito difícil ouvir fosse quem fosse. Contra as acusações da comunidade internacional o governo papirense reponta que, sendo o fim das celebrações e estando todas as pessoas purificadas, que melhor prova de amor se podia apresentar do que mandar uns quantos milhares para os anjinhos, livrando-os até a uma vida dificílima nas ruas e empregos (àqueles que por um imenso milagre os possuam). A comunidade internacional, em manifesta ignorância dos ditames religiosos do Amo-te Muito, continuou a protestar, o que se espera aliás que faça sempre. Dentro da República (Às Vezes) dos Pairos os protestos são agora porque o governo só entrega os mortos à terra se as famílias assinarem uma declaração a afirmar que estes se suicidaram, o que talvez seja verdade pois quem enfrenta tanques com pedras só pode mesmo estar a cometer suicídio. No entanto as famílias recusam-se às assinaturas pois este é o maior pecado que interdita aos fiéis a entrada no Paraíso, mesmo se o dito cujo fiel estiver devidamente purificado. Embora as autoridades religiosas assegurem aos fiéis que documentos assinados na terra não têm qualquer validade no céu, que não se deixa enganar por burocracias, as famílias não se conformam, não assinam e os seus entes-queridos continuam a ocupar espaço. Isto está a estrangular os serviços de recolha de “suicidas” e forçou já o governo a vir fazer uma declaração pública que passamos a citar: “assinem lá, meus casmurros, a causa da morte ser suicídio é apenas um pró-forma exigido pelos nossos inimigos infiéis do Oeste, que como se sabe passam a vida armados em cowboys em cima de cavalos e atrás das vacas, mas são eles que têm a massa e os canhões. Nós sabemos que não são suicidas, vocês também o sabem e os próprios ainda melhor mas é para agradar aos cowboys, para eles nos darem o guito”. A comunicação governamental parece não ter surtido qualquer efeito, segundo o nosso correspondente no centro da acção. A guerra segue dentro de momentos.

sábado, 5 de outubro de 2013

Ilha dos Cocos Implementa Turismo Luxury Para Fugitivos a Julgamentos     
A Ilha dos Cocos inaugurou um novo serviço turístico luxury exclusivo para grandes magnatas e financeiros em apuros judiciais. Este serviço, que garantirá mesmo uma companhia aérea expresso apenas de 1ª classe, para evitar aos selectos passageiros o incómodo de aturarem a presença dos pobretões da Executiva ou Turística nas suas proximidades, será disponibilizado mediante critérios de admissão muito restritos. O primeiro critério exige que os clientes tenham praticado crimes de colarinho branco no valor mínimo de várias dezenas de milhões de dólares ou euros, preferencialmente na ordem dos milhares de milhões, ou que as suas falcatruas tenham sido responsáveis pelo colapso de bancos ou de economias de países inteiros. O segundo critério exige que o cliente falcatruante tenha processos a decorrer em tribunal onde é constituído arguido, sendo preferidos aqueles que se encontrarem envolvidos em vários destes processos. É exigida prova documental do seu estatuto de arguido, com documentos dos tribunais que claramente o comprovem, não fazendo prova recortes de jornais ou declarações de amigos, inimigos e vizinhos. Terceiro critério: exige que todos os prazos de prisão preventiva, medidas de coacção, restrições de circulação e outras chatices estejam devidamente caducadas, com comprovação do tribunal. Quarto: que os arguidos tenham sistematicamente faltado às audiências dos casos em que são réus por “problemas de saúde”, “ausência em parte incerta” ou interposição contínua avalanche de adiamentos, prorrogações, contestações e recursos por parte dos eus advogados de defesa. Quinto: apesar de terem estado sob termo de identidade e residência possuam actualmente passaporte válido e devidamente certificado pelos serviços oficiais responsáveis pela emissão deste tipo de documentos. Tenham decidido fugir, e com a massa toda num offshore dos muitos sedeados na Ilha dos Cocos. Esta nova joint-venture turística foi inaugurada ontem em aparatosa cerimónia em que compareceram o chefe de estado e todos os ministros e ricaços coquenses e está já com bookings superlotados até daqui a 3 anos, com clientes de todos os pontos do mundo, na sua grande maioria donos e CEOs de bancos, consultores financeiros, grandes multinacionais da área dos seguros, crédito, accounting criativo e outras importantes actividades financeiras. Perante a avalanche de clientes, a Ilha dos Cocos entrou já em negociações com as repúblicas das bananas vizinhas para expandir o negócio para outros destinos paradisíacos soem acordos de extradição para a União das Hortaliças ou a República dos Hambúrgueres. Este tão espectacular sucesso faz-nos acreditar que o fim da crise mundial está à vista, basta haver governos e grandes operadoras turísticas com ousadia suficiente para implementar estes e outros negócios de grande futuro.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Acabou de entrar em funcionamento o novo sistema de serviço de urgência da capital dos nabos. É um serviço revolucionário que funciona segundo o princípio da roleta… russa e tem a vantagem de levar o doente c’os pés p’rá cova a fazer turismo através da cidade, pois os serviços de urgência são agora rotativos – tal e qual como o tambor do revólver desta roleta – e ora os politraumatismos estão no hospital da Nabiça-Norte, ora no do Grelo-de-Couve-Naba Sul. Louva-se desde já esta iniciativa, pois o que se leva de bom da vida são estes pequenos prazeres e sendo suposto o doente em questão não ressuscitar (os fazedores oficiais de milagres estão em greve há pelo menos 2000 anos), pode-se bem dar-lhe este último carinho, cortesia dos seus impostos. Este novo serviço de urgências fomentará igualmente o turismo, tendo sido já lançada a campanha “Venha Curtir o Sol, as Bebidas, as Praias e as Típicas Tascas. Carregue no Acelerador e Venha Morrer ao Nabal!”. O novo sistema também promete emoções fortes pois os serviços de ambulâncias só serão informados da localização das urgências no momento exacto em que chegarem ao hospital, onde serão agraciados com a declaração“hoje não é aqui e não sabemos onde é”, dado que como as mudanças serão diárias nem os médicos ou enfermeiros conseguirão acompanhar o calendário da rotatividade. O que poderá gerar interessantes confusões quando chegar um tipo com os ossos todos partidinhos e o médico de banco ser o de oftalmologia, que por acaso devia estar no outro hospital. Pode-se assim incentivar o mercado de apostas ente o pessoal médico, de enfermagem e auxiliar, nas vertentes “quem é que está no hospital errado”, “onde é que fica hoje o meu turno”, e “quantos vão aparecer para o óbito”. Não só se melhora a indispensável alegria no trabalho como se promovem as receitas do Estado pois as apostas serão acrescidas de 23%, de imposto sobre a economia paralela vulgo “mercado negro”. A indústria automóvel e oficinas de bate-chapas serão também beneficiadas pois prevêm-se interessantes cortejos de familiares aflitos a percorrem a cidade em filas pressurosas e buzinantes como as dos casamentos, tentando por tudo acertar no hospital certo e preferencialmente antes do parente ter batido a bota. Estas procissões de veículos angustiados serão também aproveitadas para organizar novas diversões para os turistas, que poderão fotografar estes pré-funerais nabenses très tipiques. E à medida que a crise se agravar tornar-se-ão ainda mais típicos pois os automóveis serão progressivamente substituídos por carroças, mulas e burros devidamente ajoujados de enfeites e berloques para se distinguirem das mulas dos vizinhos, altura em que se assemelharão em muito aos corsos carnavalescos e às caravanas de vendedeiras e lavadeiras da província em dia de mercado. Só coisas boas para alegrar o coração do turista… Contudo, e antevendo já alguns congestionamentos de ambulâncias que, dados os cortes orçamentais é muito possível que morram a meio do caminho, solidárias com o doente – outra oportunidade de investimento no mercado das apostas: “a ambulância chega ou não chega”, “ela morre antes ou depois do doente”, “morre por falta de gasolina, velas gripadas ou estoiro do radiador” – o previdente Serviço Nacional da Doença abriu candidaturas para Transportes Alternativos de Doentes (o TADinho) e até ao momento estão inscritos dez carrinhos de mão fanados ali das obras do lado, uma brigada de skates, três equipas de patins em linha, doze pares de muletas e vários jericos. Contudo o TADinho foi adjudicado a um grupo multifamiliar de pterossauros, cuja capacidade de sobrevivência às turbulências do período Cretácico é garante da sua operacionalidade e eficiência nesta nova urgêncio-balbúrdia. O único óbice é que os pterossauros não apresentaram qualquer candidatura nem se vislumbra ao longe a mais ténue mancha do seu aparecimento. Sabemos que nos separam deste período geológico pelo menos cerca de 60 milhões de anos mas não é caso para se atrasarem tanto, rapazes!



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

 Turistas Indesejados no Califado das Sardinhas (isto está a virar um baile de alforrecas!, dizem os cidadãos indignados)
Notícia importuna – tal como os seus causadores – levantou-se do califado das Sardinhas, que comobem sabem todos os felizardos que ainda o podem fazer, vive do turismo e, com muito esforço e pouca ou nenhuma recompensa, dumas minguadas pescas pois as traineiras do Potentado da Paelha e de outros menos notórios mas tanto ou ainda mais devoradores de bancos de pesca, têm arraiais e redes mais do que assentes nas águas do Califado. Vá que ao menos os súbditos da Paelha costumavam fazer a maior parte das compras nas lojas dos vizinhos califeiros, até que deu a crise, as portagens e gasolinas subiram em flecha apesar dos poços de petróleo no quintal, e agora… só se atravessarem o rio fronteiriço a nado, coisa que, convenhamos, não é muito prática quando se transportam edredons, atoalhados, objectos de decoração e espanta-espíritos. Como se não bastasse esta má onda da “crise”, mesmo com todos os espanta-espíritos pendurados à porta das casas para afugentar o azar, o Califado recebeu este ano pela primeira vez em números maciços, tão maciços que por vezes se deslocam em nuvem, uns novos e incomodativos turistas, da República do Pica-Pica. Já não eram de todo estranhos ao Califado estes turistas, que se chamam a si mesmos de mosquitos mas quem com eles trava conhecimento apoda-os de “chatos do caraças” e o primeiro instinto que tem ao ver outro é dar-lhe logo nas fuças, o que, tem de se reconhecer, não é a atitude ideal para cidadãos que vivem do turismo. Os “chatos” que têm andado em turismo pelo Califado nos anos anteriores devem ter sido uma espécie de batedores da República do Pica-Pica, pois este ano apareceram em massa no Califado. Isto poderiam ser boas notícias para a moribunda economia local não fossem os hábitos estranhos, insolentes e incomodativos dos turistas que vêm com a atitude de “isto é tudo nosso e se vos pagamos pela comida e pela cama, toca lá a serem nossos servos e darem-nos todos o vosso sangue”. São, como diz uma habitante local, a senhora Viva-da-Costa, e com café-quarto.restaurante-discoteca-e-o-que-mais-houver, uns turistas muito irritantes. Para começo, só entram em actividade quanto todos os outros estão a relaxar nas esplanadas ou a pensar em ferrar o olho, e quando entram é em nuvem como um exército invasor. Depois têm a mania de se chegarem aos outros turistas e zás, mal os apanham desprevenidos, não só lhes palmam as carteiras “por recuerdo”, explicam quando são apanhados com a mão na massa… carteira, picam-nos e não é de mansinho mas à bruta, que os pica-piquenses não sabem o que são delicadezas. Como se não bastasse, adoram sugar o sangue dos vizinhos, dando exemplos de fazer corar todos os dignos Ministros dos Carcanhóis de qualquer reino em crise na União das Hortaliças. E esta mania de falarem em “recuerdos” quando são apanhados de fuças no sangue já causou vários incidentes com os paelhenses, resolvidos à estalada, com a consequente morte dos mosquitos piquenses, o a que se segue auto de crime e consequentes trapalhadas diplomáticas com a Paelha. Os paelhenses vão às do cabo, que aliás não fica longe, quando ouvem os piqueiros usar a sua querida palavra “recuerdo” em tão desprezível actividade, justamente uma palavra que no passado abria as portas das lojas, uns “descontozinhos” e os sorrisos dos vizinhos do Califado. As noites têm sido tão preenchidas de arraiais de chapada que neste momento os turistas do califado ou rumam a destinos mais pacatos ou fecham-se em casa ao anoitecer, para descalabro das contas dos cafés, cujos donos têm de dar todo o dinheiro apurado ao fisco, no final da época dos banhos, e o montante está já tabelado, tenham ou não esse dinheiro nos cofres para, diz o ministro local “evitar as fugas, os califenses são uns danados para fugir com o rabo à pica”. Nada mais verdadeiro no presente estado de coisas. Porém, o descalabro económico que está a ser a época alta por causa da invasão dos mosquitos, sem contar com o sarrabulho nocturno entre estes e os paelhenses e outros turistas menos pacatos que, tendo descoberto a técnica do estalo, estão a adoptá-la para esmagar os picadores, levou o governo local a agir. Não podiam correr o risco duma guerra civil entre turistas. Assim, começaram por distribuir copos de sumo com relaxantes e laxantes, para ver se punham os mosquitos grogues e depois os enfardavam em comboio para o país de origem. Mas os nossos caros mosquitos, vivendo em condições muito insalubres na sua pátria, engoliram os sumos gratuitos e ainda exigiram mais, não tendo sequer um dado baixa por doença. Claro que a manobra já deu origem a protestos diplomáticos dos governantes da república do Pica-Pica, que acham intolerável um tratamento tão vil dos seus cidadãos numa estância turística, ainda por cima uma tão pindérica como o Califado (palavras textuais dos ditos governantes). Impedidos de usar o veneno pois o incidente diplomático já subiu ao Conselho de Segurança da Assembleia Internacional das Frutas, Hortaliças, Secos e Molhados, que como se sabe existe para tomar decisões a que ninguém dá importância, os califas decidiram, reunidos em jirga, correr com os incomodativos turistas por processos menos “violentos”. A jirga, que congrega todos os sábios em leis e forças de segurança, e que desta vez e pela primeira em séculos apresentou quórum logo à abertura dos trabalhos, resolveu espantar os pica-piquenses, abaixo designados por mosquitos, com grandes rabanadas de vento. De facto o vento forte tem por hábito varrer os turistas das praias do califado. Contratou-se assim uma aeronave poderosíssima que tem andado a combater fogos despejando toneladas de água para cima das chamas e ao mesmo tempo provocando vendavais que espalham as chamas para outros pontos das matas, para os voluntários poderem ter trabalho durante todo o Verão e poderem viver emoções fortes, podendo ainda contar com o disputado prémio de morrer em grande ardor e, por serem mártires das chamas, seguirem direitinhos ao céu dos califenses, onde poderão encontrar belas virgens (ou belos mocetões, no caso dos mortos serem femininos), lindos jardins e comidas maravilhosas, prémio tanto mais tentador como é sabido que durante todo o ano os califenses passam quanta fome querem e até quanta já não podem aguentar, tal é a fartura. Ora veio a dita aeronave fazer vento para junto dos mosquitos (o que deu a que no fogo da serra próxima morressem mais vinte e sete voluntários, mortes desejadas pois são menos vinte e sete para estarem no desemprego, a pesarem nos cofres do estado, mal acabe a época dos fogos… perdão, turismo), qual monstro de aço e morte de filme de guerra futurista. Rugiu, ergueu-se no ar, baixou rasando as praias e as esplanadas, deu às pás com todo o vigor, originou diversos tornados que deitaram abaixo as barraquinhas de mudança de roupa e de venda de farturas, pipis e bifanas, destruiu os andaimes onde estavam os nadadores-salvadores que com as contusões no corpo não puderam salva ninguém no resto do dia (morreram 45 pessoas, apenas 10 delas califenses, o que apesar de tudo não foi um mau resultado, menos 10 nas estatísticas do astronómico desemprego do califado) nas os mosquitos adooooraram! Nenhum mosquito morreu ou foi embora, pelo contrário, aproveitaram a ventania e foram viajar a pontos no interior da costa, para eles até então desconhecidos (já compraram diversos charcos e barragens semi-secas no interior para implantarem futuras colónias de férias para as crianças piquenses). Também foi um bom refrigério da intensa caloraça que se tem abatido sobre o califado, disseram, quando interrogados pela imprensa. Aliás, e esta é informação exclusiva, os turistas piquenses, perdão mosquitos, estão já a fazer circular um abaixo-assinado para que as operações da aeronave se repitam e o mais importante deles, o Dr. Melga-com-Doença-do-Dengue, e ministro da saúde da República Pica-Pica, estão em conversações com as autoridades do Califado para o estabelecimento de laços culturais e turísticos, que garantam aos mosquitos o alojamento preferencial no Califado pelos próximos 50 anos. Os habitantes locais desmaiaram ao saber deste novo tratado, isto já depois de desmaiarem por diversas vezes ao constatarem o estado de destruição das suas casas após partida da imponente aeronave, que regressava ao combate aos fogos.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Notícias do nosso correspondente económico (porque não lhe pagamos salário) na Feira dos Caídos dão conta duma grande barafunda entre vendedores e compradores de nabos com bicho e pilecas velhas engraxadas para parecerem novas. Até hoje de manhã todos diziam que os nabos estavam em franca recuperação e podiam de novo ser apresentados ao mercado, o que aliviaria em muito as contas da República dos Nabos. Era o que se dizia. Agora já ninguém sabe o que se deve dizer ou o que se deve esperar da cotação dos nabos e respectivos bichos. É que os mercadores do Arquipélago do Chá e da República Federal das Batatas, que têm andado a comprar nabos e bichos como se fosse esta a última safra do mundo, e por isso têm levado os outros comerciantes a pensar que a crise já saiu do nabal e agora vale a pena apostar nos nabos, chegaram à Feira dos Caídos e venderam todos os nabos e bichos que tinham em carteira, isto é, nos seirões e alforjes dos burros. Foi um choque para os mercados! Alguns mercadores mais dados aos jogos de azar e especulação desataram a comprar a mercadoria dos batatenses e dos súbditos do chá mas os outros estão agora a ver se se desfazem da safra de nabos que tinham comprado nos leilões anteriores. Pela calada, para não darem nas vistas e afastarem a clientela, que já começa a interrogar-se se o bicho no nabal não se tornou praga para ficar. Prevêem-se grandes sobressaltos nas próximas feiras e mercados locais, estejam atentos aos boletins de pancadaria. Porque isto vai aquecer, ah vai…

A escassos dias da chegada à linha de meta na corrida eleitoral na República das Batatas, a antiga-
nova líder Totiço Despenteado/Mãos de Diamante proferiu um discurso onde foram enunciados os novos planos de governo, não da República das Batatas mas da União das Hortaliças, pois quem manda no pilim é quem manda na casa. Tem sido uma corrida cheia de acidentes e incidentes, em que um dos maiores problemas que se colocam aos eleitores não são os mini-jobs nem a confusão geral na União das Hortaliças mas… as mãos de diamante da Totiço Despenteado. Além disso, como noticiámos, também um dos candidatos surpreendeu de repente tudo e todos ao esclarecer a sua equipa de atletismo que não estava a correr para se tornar chanceler mas para ser palhaço, o que provocou embaraços aos eleitores e a necessidade de uma reestruturação urgente da equipa competidora, tal e qual como a dita equipa tem aconselhado às economias de toda a União e que origina sempre o encerramento de fábricas ou o despedimento sem aviso de milhares de operários; claro que, quando chegou a vez de aplicar a receita a eles próprios o processo se verificou de repente muito mais complicado e neste momento mantêm ainda o candidato a palhaço na corrida, esperando fazer os reajustamentos depois do encerramento da competição. Contudo, indiferente a tudo isto, a seríssima Totiço Despenteado, para mostrar que não vai em palhaçadas e é uma pessoa séria que conhece bem o peso das suas responsabildiades, decidiu dar um sermão à União das Hortaliças e em especial aos anarcas sulistas, até porque teve já grande prática, dado que lá em casa o pai os oferecia aos paroquianos todos os domingos. Depois do sermão, subordinado ao tema: “Estou convencida de que não faremos uma Europa mais forte se formos indulgentes uns com os outros”, a União das Hortaliças reuniu em plenário e decidiu aprovar legislação em conformidade com este lema, a qual entra de imediato em vigor. Assim, a partir de hoje passarão os cidadãos – e também os infra-cidadãos – da União das Hortaliças a transportar obrigatoriamente consigo, varas de jogo do pau, pistolas automáticas ou AK-47 (dependendo dos gostos e da dimensão da carteira), catanas e navalhas de ponta-e-mola, para que não caiam na tentação de serem indulgentes com algum outro cidadão mais necessitado, menos activo muscularmente, mais lerdo das ideias ou simplesmente preguiçoso. Nesta União das Hortaliças, onde o novo mote é a desunião e cada um tem de ser por si, já que Deus há muito foi para férias e não pretende regressar, tornou-se a partir de hoje ilegal qualquer sentimento de boa-vontade, solidariedade ou indulgência. Haverá contudo importantes excepções, para descanso dos modestos, labutadores e honestos e cidadãos da República Federal das Batatas. Assim, na República dos Nabos, recreio de férias da União, os nabos, embora estando todos ansiosamente à espera de limpar os grelos e esfregar a pele das batatas, estão proibidos de possuir qualquer arma, mesmo que seja apenas uma carteira recheada de notas. Do mesmo modo, para não causar perturbações à lei nem incomodarem as visitas, os nabos pobres e escanzelados serão acantonados em campos de concentração e aí trabalharem finalmente para o bem comum. O governo do nabal, tendo em mente a felicidade dos futuros turistas, requereu já um subsídio para a criação dos campos de concentração. Mas como na União é agora proibido ser indulgente até com os santos, da Capital do Tacho veio já a resposta de que não haverá subsídio e terão de ser os próprios prisioneiros a construir os campos e a encarcerar-se lá dentro.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os Sinais da Recuperação Económica: Está Tudo Maduro (ou deu o bicho?) na Monarquia das Frutas 
Movimento certo
Na Monarquia das Frutas vai grande euforia com os sinais da recuperação económica que já anda pelo vale das sombras há mais de uma década. Com efeito as taxas de podridão dos citrinos baixaram 0,0001% comparativamente aos valores de há 15 dias embora se se comparar com a mesma data do ano passado a podridão haja aumentado 150%. Também o importante índice dos pícaros de uva, que mede as exportações, aumentou significativamente, embora não tanto como esperavam as previsões, do que resulta um Produto Interno de Graínhas positivo (+0,000001%), coisa que não acontecia há 9 anos. É claro que este resultado positivo resulta mais da contração em massa das importações do que propriamente dum grande salto na exportação de produtos de ponta como por exemplo bananas afiladas, bróculos-fractais, kiabos doces, caroços de manga e outras mercadorias. A contracção das importações também não resulta da melhoria da oferta no mercado interno mas do facto de que os cidadãos frutenses já não têm muitas parras e portanto não as gastam, razão pela qual as feiras estão normalmente às moscas a partir das 7 da manhã, tendo aberto aí às 6:50. Ao mesmo tempo e dado que a Monarquia das Frutas é um país soalheiro, cheio de bons petiscos a preços da chuva – porque de facto é preciso vir chuva para se poder comer alguma coisa e as alterações climáticas não ajudam – e praias cheias de caricas, o turismo é desde há muito uma tradição dos frutenses. Os turistas estrangeiros são quase a única fonte de receitas, pelo que todos os indicadores relacionados com esta actividade são devotamente seguidos pelos cidadãos locais, que chegam a fazer longas filas atrás deles. A segunda mais importante fonte de receita é a dos turistas frutenses que cavam do país e nunca mais lá voltam, com a vantagem de deixarem de ser fonte de despesa. Assim sendo, os frutenses vieram todos para a rua comemorar a descida do desemprego em 0,002%, face ao mês anterior, devida à abertura da época da Caça aos Turistas. Não de relevância digna de nota que muitos frutenses celebrassem estendidos no chão por falta de alimento pois não têm trabalho há mais de 2 anos, e do número de estendidos ser agora maior do que há 15 dias (sendo que quando se estendem já não se voltam a erguer, os valores são sempre aditivos). O enorme aumento de estendidos não perturbou aliás os que ainda se mexem, pois aproveitam as pernas tesas dos ditos para gincanas de pé-coxinho, estendais da roupa ou como apoio para se aguentarem nas gâmbias. O rei do país, Melão-com-Bicho veio à varanda do palácio anunciar ao público reunido – e que não lhe prestava atenção, ocupado à séria a enfardar os caixotes do lixo palaciano e a beber uma mistela alcoólica e de composição dependente da classe de frutos que é mensalmente exterminada – que desta vez é que era, desta vez é que a economia das Frutas estava a ver a luz ao fundo do túnel (não se via luz nenhuma no túnel nem aliás na praça ou em lugar algum pois os calotes às multinacionais fizeram-nas cortar a electricidade produzida nas barragens locais). É aliás já a 5947ª vez que o monarca anuncia o fim dos maus tempos, sendo já só preciso mais um pequeno e perseverante esforço para voltarmos aos dias em que os pícaros andavam todos para cima e o grelo nem ousava aparecer na nossa excelsa pátria, tenho dito. E foi para dentro, onde a rainha, a senhora Melancia-Ensoada, estava a fazer um grande esforço para botar as suas novas sete pevides ao mundo. Onde, por causa de estar tudo às escuras, se agarrou não à rainha mas ao pícaro do chanceler-mor, incidente que fez vender febrilmente os tabloides do mundo inteiro. Recuperação ou deu mesmo o bicho no pícaro do Melão?