Número total de visualizações de páginas

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Na Confederação dos Livros de Cordel as revoluções no ensino sucedem-se. E este ano promete ser absolutamente revolucionário. Antes de mais, os professores vão fazer provas de conhecimentos, onde serão avaliados por pais e alunos, embora as provas sejam apenas uma praxe, dado que não contarão para efeitos de contratação ou de classificação dos docentes. Mas servirão para os humilhar e fazer baixar a bolinha pois é uma classe de trabalhadores muito convencida. Também se mudaram novamente os programas das disciplinas, o que aliás é tradição anual mas desta vez os manuais, mudados outra vez à última hora para que os pais possam gastar por duas vezes o orçamento livreiro e promovam assim a recuperação das editoras, não estão conformes aos novos programas, pelo que se terão de trocar terceira vez, com nova interessante corrida de pais às livrarias para encomendar os novos manuais. Como o que se quer é alunos bem preparados e com capacidade de resistência a situações de stress, sem com isso perderem as suas capacidades produtivas, foi aumentado o número e importância dos exames, que passarão agora a contar 100% para a nota final, ignorando o trabalho realizado ao longo do ano. A Associação dos Cábula Profissionais Especializados em Copianço veio já saudar a medida, que irá beneficiar os seus associados e promover a profissão e actividades paralelas. E como o que conta para nota é apenas o exame ao fim de 3 anos, a novidade do aumento de horas de aulas não perturba os cábulas que podem continuar a dormitar, jogar à batalha naval, passarem papelinhos às namoradas, ouvir música no mp3, smsar nos telemóveis e fazer jogos no tablet ou, quando se cansarem das distracções tecnológicas, pregarem mensagens idiotas nas costas dos colegas. Com efeito o aumento do número de aulas destina-se, como o Ministro Livro Aberto da Educação explicou, não a melhorar os conhecimentos das criancinhas mas a habituá-las desde logo a vergarem a mola para não estranharem quando chegarem ao mercado de trabalho, e caso sejam sortudos em serem contratados à semana, não se queixarem por serem obrigados a trabalhar não as oito horas do contrato mas as 16 de qualquer real e vulgar horário de trabalho. Também serão apagadas dos currículos as Aulas de Ensino Acompanhado (não precisamos de tolinhos nas escolas, esses podemos pô-los a fazer buracos nas obras) nem as Aulas de Enriquecimento Curricular pois é pernicioso meter nas cabeças dos petizes a ideia de enriquecimento, já para não falar nos ainda mais perniciosos conhecimentos que aí poderiam absorver como línguas estrangeiras, música, artes plásticas e outras palermices que só o deixam de ser quando os meninos são ricos. Também se incentivará o ensino de profissões, mas reduzindo o número de professores de tais cursos, pois os putos têm de aprender por eles como antigamente qualquer bom aprendiz fazia e ainda hoje o fazem os doutorandos nas Universidades. Do mesmo modo, e para incentivar o auto-didactismo, serão reduzidos os efectivos – mesmo que contratados a tempo parcial – de professores. Para o mesmo efeito será reduzido o número de escolas, agora aglutinadas em mega-centros escolares, e o número de turmas por escola, não sendo permitidas turmas-desperdício de apenas 20 alunos, mesmo no caso de delinquentes confirmados e a precisarem de atenção especial; o número mínimo de alunos é agora de 60, o que tem o benefício adicional de proteger a saúde dos professores, os quais poderão exercitar-se enquanto correm de um lado para o outro da sala de aulas, a separar brigas entre alunos, esclarecer dúvidas ou interceptar papelinhos românticos. No caso das turmas de ensino vocacional, as profissões a serem leccionadas serão sujeitas a sorteio, pelo que os alunos que hajam escolhido uma profissão não sorteada, deverão ir procurá-la no mercado de trabalho, perdendo deste modo o direito de voltar à preguiça escolar. E porque o mundo lá fora é uma selva, será também reduzido o número de funcionários, auxiliares pedagógicos, empregadas da limpeza, porteiros, senhores das reparações e outros, para que os alunos aprendam a desenrascar-se por si e se tornem auto-suficientes desde bem cedinho. Finalmente, a novidade mais revolucionária: reintroduziu-se a prática antiga de na mesma turma co-existirem 4 e mais níveis de ensino (‘tá bem, antigamente só havia 4 níveis porque quem estudava depois disso era rico e andava nos colégios). Esta medida inovadora pretende gerar o caos na cabeça dos alunos e a morte por exaustão dos professores. É uma excelente e comprovada estratégia para os alunos se ensinarem uns aos outros, permitindo ao Ministério arrecadar mais uns milhões de conquilhas não contratando professores, pois os alunos trabalham de borla. O facto dos alunos também não saberem muito mais do que os colegas que irão ensinar não é problema pois as crianças estão na escola não para aprender mas para não fazerem disparates na rua enquanto os pais estão no trabalho. A Confederação dos Livros de Cordel pretende exportar estas novas metodologias para o resto do mundo quando na próxima época de exames se comprovar o seu sucesso com 98% de chumbos.

Sem comentários:

Enviar um comentário