Na Confederação dos Livros de
Cordel as revoluções no ensino sucedem-se. E este ano promete ser absolutamente
revolucionário. Antes de mais, os professores vão fazer provas de
conhecimentos, onde serão avaliados por pais e alunos, embora as provas sejam
apenas uma praxe, dado que não contarão para efeitos de contratação ou de
classificação dos docentes. Mas servirão para os humilhar e fazer baixar a
bolinha pois é uma classe de trabalhadores muito convencida. Também se mudaram
novamente os programas das disciplinas, o que aliás é tradição anual mas desta
vez os manuais, mudados outra vez à última hora para que os pais possam gastar
por duas vezes o orçamento livreiro e promovam assim a recuperação das
editoras, não estão conformes aos novos programas, pelo que se terão de trocar
terceira vez, com nova interessante corrida de pais às livrarias para
encomendar os novos manuais. Como o que se quer é alunos bem preparados e com
capacidade de resistência a situações de stress, sem com isso perderem as suas
capacidades produtivas, foi aumentado o número e importância dos exames, que
passarão agora a contar 100% para a nota final, ignorando o trabalho realizado
ao longo do ano. A Associação dos Cábula Profissionais Especializados em
Copianço veio já saudar a medida, que irá beneficiar os seus associados e
promover a profissão e actividades paralelas. E como o que conta para nota é
apenas o exame ao fim de 3 anos, a novidade do aumento de horas de aulas não
perturba os cábulas que podem continuar a dormitar, jogar à batalha naval, passarem
papelinhos às namoradas, ouvir música no mp3, smsar nos telemóveis e fazer
jogos no tablet ou, quando se cansarem das distracções tecnológicas, pregarem
mensagens idiotas nas costas dos colegas. Com efeito o aumento do número de
aulas destina-se, como o Ministro Livro Aberto da Educação explicou, não a
melhorar os conhecimentos das criancinhas mas a habituá-las desde logo a
vergarem a mola para não estranharem quando chegarem ao mercado de trabalho, e
caso sejam sortudos em serem contratados à semana, não se queixarem por serem
obrigados a trabalhar não as oito horas do contrato mas as 16 de qualquer real
e vulgar horário de trabalho. Também serão apagadas dos currículos as Aulas de
Ensino Acompanhado (não precisamos de tolinhos nas escolas, esses podemos
pô-los a fazer buracos nas obras) nem as Aulas de Enriquecimento Curricular
pois é pernicioso meter nas cabeças dos petizes a ideia de enriquecimento, já
para não falar nos ainda mais perniciosos conhecimentos que aí poderiam
absorver como línguas estrangeiras, música, artes plásticas e outras palermices
que só o deixam de ser quando os meninos são ricos. Também se incentivará o
ensino de profissões, mas reduzindo o número de professores de tais cursos,
pois os putos têm de aprender por eles como antigamente qualquer bom aprendiz
fazia e ainda hoje o fazem os doutorandos nas Universidades. Do mesmo modo, e
para incentivar o auto-didactismo, serão reduzidos os efectivos – mesmo que
contratados a tempo parcial – de professores. Para o mesmo efeito será reduzido
o número de escolas, agora aglutinadas em mega-centros escolares, e o número de
turmas por escola, não sendo permitidas turmas-desperdício de apenas 20 alunos,
mesmo no caso de delinquentes confirmados e a precisarem de atenção especial; o
número mínimo de alunos é agora de 60, o que tem o benefício adicional de
proteger a saúde dos professores, os quais poderão exercitar-se enquanto correm
de um lado para o outro da sala de aulas, a separar brigas entre alunos,
esclarecer dúvidas ou interceptar papelinhos românticos. No caso das turmas de
ensino vocacional, as profissões a serem leccionadas serão sujeitas a sorteio,
pelo que os alunos que hajam escolhido uma profissão não sorteada, deverão ir
procurá-la no mercado de trabalho, perdendo deste modo o direito de voltar à
preguiça escolar. E porque o mundo lá fora é uma selva, será também reduzido o
número de funcionários, auxiliares pedagógicos, empregadas da limpeza,
porteiros, senhores das reparações e outros, para que os alunos aprendam a
desenrascar-se por si e se tornem auto-suficientes desde bem cedinho.
Finalmente, a novidade mais revolucionária: reintroduziu-se a prática antiga de
na mesma turma co-existirem 4 e mais níveis de ensino (‘tá bem, antigamente só
havia 4 níveis porque quem estudava depois disso era rico e andava nos
colégios). Esta medida inovadora pretende gerar o caos na cabeça dos alunos e a
morte por exaustão dos professores. É uma excelente e comprovada estratégia
para os alunos se ensinarem uns aos outros, permitindo ao Ministério arrecadar
mais uns milhões de conquilhas não contratando professores, pois os alunos
trabalham de borla. O facto dos alunos também não saberem muito mais do que os
colegas que irão ensinar não é problema pois as crianças estão na escola não
para aprender mas para não fazerem disparates na rua enquanto os pais estão no
trabalho. A Confederação dos Livros de Cordel pretende exportar estas novas
metodologias para o resto do mundo quando na próxima época de exames se
comprovar o seu sucesso com 98% de chumbos.Número total de visualizações de páginas
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Na Confederação dos Livros de
Cordel as revoluções no ensino sucedem-se. E este ano promete ser absolutamente
revolucionário. Antes de mais, os professores vão fazer provas de
conhecimentos, onde serão avaliados por pais e alunos, embora as provas sejam
apenas uma praxe, dado que não contarão para efeitos de contratação ou de
classificação dos docentes. Mas servirão para os humilhar e fazer baixar a
bolinha pois é uma classe de trabalhadores muito convencida. Também se mudaram
novamente os programas das disciplinas, o que aliás é tradição anual mas desta
vez os manuais, mudados outra vez à última hora para que os pais possam gastar
por duas vezes o orçamento livreiro e promovam assim a recuperação das
editoras, não estão conformes aos novos programas, pelo que se terão de trocar
terceira vez, com nova interessante corrida de pais às livrarias para
encomendar os novos manuais. Como o que se quer é alunos bem preparados e com
capacidade de resistência a situações de stress, sem com isso perderem as suas
capacidades produtivas, foi aumentado o número e importância dos exames, que
passarão agora a contar 100% para a nota final, ignorando o trabalho realizado
ao longo do ano. A Associação dos Cábula Profissionais Especializados em
Copianço veio já saudar a medida, que irá beneficiar os seus associados e
promover a profissão e actividades paralelas. E como o que conta para nota é
apenas o exame ao fim de 3 anos, a novidade do aumento de horas de aulas não
perturba os cábulas que podem continuar a dormitar, jogar à batalha naval, passarem
papelinhos às namoradas, ouvir música no mp3, smsar nos telemóveis e fazer
jogos no tablet ou, quando se cansarem das distracções tecnológicas, pregarem
mensagens idiotas nas costas dos colegas. Com efeito o aumento do número de
aulas destina-se, como o Ministro Livro Aberto da Educação explicou, não a
melhorar os conhecimentos das criancinhas mas a habituá-las desde logo a
vergarem a mola para não estranharem quando chegarem ao mercado de trabalho, e
caso sejam sortudos em serem contratados à semana, não se queixarem por serem
obrigados a trabalhar não as oito horas do contrato mas as 16 de qualquer real
e vulgar horário de trabalho. Também serão apagadas dos currículos as Aulas de
Ensino Acompanhado (não precisamos de tolinhos nas escolas, esses podemos
pô-los a fazer buracos nas obras) nem as Aulas de Enriquecimento Curricular
pois é pernicioso meter nas cabeças dos petizes a ideia de enriquecimento, já
para não falar nos ainda mais perniciosos conhecimentos que aí poderiam
absorver como línguas estrangeiras, música, artes plásticas e outras palermices
que só o deixam de ser quando os meninos são ricos. Também se incentivará o
ensino de profissões, mas reduzindo o número de professores de tais cursos,
pois os putos têm de aprender por eles como antigamente qualquer bom aprendiz
fazia e ainda hoje o fazem os doutorandos nas Universidades. Do mesmo modo, e
para incentivar o auto-didactismo, serão reduzidos os efectivos – mesmo que
contratados a tempo parcial – de professores. Para o mesmo efeito será reduzido
o número de escolas, agora aglutinadas em mega-centros escolares, e o número de
turmas por escola, não sendo permitidas turmas-desperdício de apenas 20 alunos,
mesmo no caso de delinquentes confirmados e a precisarem de atenção especial; o
número mínimo de alunos é agora de 60, o que tem o benefício adicional de
proteger a saúde dos professores, os quais poderão exercitar-se enquanto correm
de um lado para o outro da sala de aulas, a separar brigas entre alunos,
esclarecer dúvidas ou interceptar papelinhos românticos. No caso das turmas de
ensino vocacional, as profissões a serem leccionadas serão sujeitas a sorteio,
pelo que os alunos que hajam escolhido uma profissão não sorteada, deverão ir
procurá-la no mercado de trabalho, perdendo deste modo o direito de voltar à
preguiça escolar. E porque o mundo lá fora é uma selva, será também reduzido o
número de funcionários, auxiliares pedagógicos, empregadas da limpeza,
porteiros, senhores das reparações e outros, para que os alunos aprendam a
desenrascar-se por si e se tornem auto-suficientes desde bem cedinho.
Finalmente, a novidade mais revolucionária: reintroduziu-se a prática antiga de
na mesma turma co-existirem 4 e mais níveis de ensino (‘tá bem, antigamente só
havia 4 níveis porque quem estudava depois disso era rico e andava nos
colégios). Esta medida inovadora pretende gerar o caos na cabeça dos alunos e a
morte por exaustão dos professores. É uma excelente e comprovada estratégia
para os alunos se ensinarem uns aos outros, permitindo ao Ministério arrecadar
mais uns milhões de conquilhas não contratando professores, pois os alunos
trabalham de borla. O facto dos alunos também não saberem muito mais do que os
colegas que irão ensinar não é problema pois as crianças estão na escola não
para aprender mas para não fazerem disparates na rua enquanto os pais estão no
trabalho. A Confederação dos Livros de Cordel pretende exportar estas novas
metodologias para o resto do mundo quando na próxima época de exames se
comprovar o seu sucesso com 98% de chumbos.
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