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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A República Militar dos Papiros, que recentemente tem andado nos holofotes da imprensa internacional por mor da guerra civil que ainda não tem esse nome, acaba de dar à Humanidade mais um contributo da sua civilização multimilenar. Desta vez no capítulo da literatura. Como se sabe, a República Militar dos Papiros contribuiu já com a adição semântica “guerra-civil-disfarçada”, que é a situação actualmente vigente no país. Com efeito, pelas leis internacionais, na Península das Areias apenas um país por ano pode entrar em traulitada caseira e tal estatuto tem sido já há dois anos açambarcado com especial sucesso pelo País dos Turbantes. A República dos Papiros vê-se assim no original estado de guerra civil que o não é, paradoxo que teria deliciado os seus reis de há 5000 anos, famosos por mandarem erigir pirâmides para se lançarem na aventura espacial, embora na ausência de foguetões viajassem apenas as almas dos defuntos até às estrelas do Cão Maior. Relaciona-se este contributo com a redefinição do conceito de liberdade, o qual tem até agora sofrido imensas divergências de interpretação, que vão do “podes fazer, dizer e pensar tudo o que te apetece” ao “tens a liberdade de pensar que sou Deus e de te vestires como te mando” e originado numerosos conflitos em nome da defesa da dita. A República Militar dos Papiros clarificou definitivamente este conceito, encerrando o negro período de guerras libertárias, dado que aí a liberdade passou a ser “podes fazer tudo o que quiseres desde que o faças como eu quero”. Como o nosso repórter especial antes noticiou, o novo líder Perdeu a Tola, zangou-se com “Os Irmãos Unidos”, grupo coral e político especializado em cânticos religiosos, cujo rei eleito era o Nã ‘Tás Bom da Tola. Em consequência, Perdeu a Tola prendeu-o e substituiu-o pelo Onde É Que Tenho a Tola. Este último goza de grande respeito mundial pois ganhou o Prémio das Pombas por ter paziguado vários conflitos com o Potentado dos Véus o qual teima em vender milho radioactivo aos pombos. Como os adeptos do orfeão “Irmãos Unidos” e seu líder Nã ‘Tás Bom da Tola discordaram da substituição e desataram à pedrada, o Perdeu a Tola não esteve com meias medidas e proibiu o orfeão de cantar ou de distribuir as suas músicas pelas portas e cafés, prendeu todos os seus primeiros solistas e anda agora a caçar os restantes membros dos sete naipes vocais. A coisa foi de tal modo sangrenta que o bom Onde É Que Tenho a Tola a deve ter mesmo perdido pois demitiu-se de chefe da banda. O Perdeu a Tola não gostou da deserção e mandou prender o auto-demitido. Contudo, parece que não saber onde se tem a tola apresenta as suas vantagens nesta curiosa república pois ao mesmo tempo que não sabe onde a meteu o demissionário deve também ter-se perdido ele próprio, dado que os homens do Perdeu a Tola não o encontram. Seja como for, o distraído, se for achado, já tem ordem do juiz para se apresentar a julgado, como réu. Talvez não se recordem mas toda esta barafunda começou porque o velho Marado da Tola dera de mandar prender e fazer desaparecer os súbditos que se manifestavam contra ele numa praça interessantemente chamada Liberdade. Como o Perdeu a Tola anda muito ocupado a prender toda a gente que discorda dele e a enviar os seus homens para testarem ao vivo a virgindade das súbditas desavergonhadas que metem o pé na rua, acabou por concluir (num intervalo um tanto ou quanto mal-cheiroso) que não tinha tempo para governar o país. Ora governar um país não é exactamente cargo para estagiários. Até porque numa república tão perigosa não haverá candidatos, ainda para mais a receberem metade do salário mínimo local. Era urgente encontrar um com experiência, provas dadas, enfim… perfil. Consultados os seus gestores de pessoal, foi descoberto um candidato à medida: o velho Marado da Tola. Havia apenas um pequenino problema: o Marado da Tola estava em julgamento, o que dificultava o exercício do cargo, já que é um bocadinho difícil gerir um país a partir da prisão, embora com as novas tecnologias se encare a possibilidade de se gerir uma autarquia (vide caso Camaleão da Naifa, República dos Nabos). Muito bem, se o busílis era esse, então cortava-se o julgamento e devolvia-se a liberdade ao Marado da Tola. E ao juiz que tentou levantar uma, mínima, objecção “quem paga as custas do processo arquivado”, Perdeu a Tola só respondeu: Onde É Que Eu Tenho a Tola?, esclarecendo deste modo todas as dúvidas. O regresso de Marado da Tola ao trono está agendado para a semana e decorrem já os preparativos para a solene ocasião. Para a celebrar, a Praça Liberdade, que continua a ser ponto de encontro dos descontentes, passará a chamar-se Praça do Glorioso Líder Perdeu a Tola, ou abreviadamente na língua local: ‘Tás Aqui ‘Tás a Perder a Tola. Foi entretanto promulgada a lei das liberdades civis que ordena o seguinte: art. 1º - no final de cada uma das cinco orações diárias deverá o fiel clamar “saúde e vida a ti, Perdeu a Tola”; art. 2º - todos os cidadãos terão inteira liberdade de opinar e escrever desde que opinem de acordo com o líder e escrevam aquilo que ele mandar escrever. As cidadãs não estão contempladas na lei pois não se espera que, e a curto prazo, saibam ainda ler e escrever, dado a nova legislação proibir a sua admissão nas escolas, esses antros de perdição feminina, seja como alunas, professoras ou mesmo empregadas da limpeza. Nas escolas religiosas do país estão já a reescrever-se todos os poemas, romances e outras manifestações da arte escrita sancionadas pelos eclesiásticos – as outras são interditas, sob pena de morte aos abelhudos que as lerem – para mudar a palavra liberdade para “anseio do amado Perdeu a Tola”. Será um dia inesquecível para a literatura mundial quando tal revisão estiver concluída.

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