A República Militar dos Papiros,
que recentemente tem andado nos holofotes da imprensa internacional por mor da
guerra civil que ainda não tem esse nome, acaba de dar à Humanidade mais um
contributo da sua civilização multimilenar. Desta vez no capítulo da literatura.
Como se sabe, a República Militar dos Papiros contribuiu já com a adição
semântica “guerra-civil-disfarçada”, que é a situação actualmente vigente no país.
Com efeito, pelas leis internacionais, na Península das Areias apenas um país por
ano pode entrar em traulitada caseira e tal estatuto tem sido já há dois anos
açambarcado com especial sucesso pelo País dos Turbantes. A República dos
Papiros vê-se assim no original estado de guerra civil que o não é, paradoxo
que teria deliciado os seus reis de há 5000 anos, famosos por mandarem erigir
pirâmides para se lançarem na aventura espacial, embora na ausência de
foguetões viajassem apenas as almas dos defuntos até às estrelas do Cão Maior. Relaciona-se
este contributo com a redefinição do conceito de liberdade, o qual tem até
agora sofrido imensas divergências de interpretação, que vão do “podes fazer,
dizer e pensar tudo o que te apetece” ao “tens a liberdade de pensar que sou
Deus e de te vestires como te mando” e originado numerosos conflitos em nome da
defesa da dita. A República Militar dos Papiros clarificou definitivamente este
conceito, encerrando o negro período de guerras libertárias, dado que aí a
liberdade passou a ser “podes fazer tudo o que quiseres desde que o faças como
eu quero”. Como o nosso repórter especial antes noticiou, o novo líder Perdeu a
Tola, zangou-se com “Os Irmãos Unidos”, grupo coral e político especializado em
cânticos religiosos, cujo rei eleito era o Nã ‘Tás Bom da Tola. Em
consequência, Perdeu a Tola prendeu-o e substituiu-o pelo Onde É Que Tenho a
Tola. Este último goza de grande respeito mundial pois ganhou o Prémio das
Pombas por ter paziguado vários conflitos com o Potentado dos Véus o qual teima
em vender milho radioactivo aos pombos. Como os adeptos do orfeão “Irmãos
Unidos” e seu líder Nã ‘Tás Bom da Tola discordaram da substituição e desataram
à pedrada, o Perdeu a Tola não esteve com meias medidas e proibiu o orfeão de
cantar ou de distribuir as suas músicas pelas portas e cafés, prendeu todos os
seus primeiros solistas e anda agora a caçar os restantes membros dos sete
naipes vocais. A coisa foi de tal modo sangrenta que o bom Onde É Que Tenho a
Tola a deve ter mesmo perdido pois demitiu-se de chefe da banda. O Perdeu a
Tola não gostou da deserção e mandou prender o auto-demitido. Contudo, parece
que não saber onde se tem a tola apresenta as suas vantagens nesta curiosa
república pois ao mesmo tempo que não sabe onde a meteu o demissionário deve
também ter-se perdido ele próprio, dado que os homens do Perdeu a Tola não o encontram.
Seja como for, o distraído, se for achado, já tem ordem do juiz para se
apresentar a julgado, como réu. Talvez não se recordem mas toda esta barafunda
começou porque o velho Marado da Tola dera de mandar prender e fazer
desaparecer os súbditos que se manifestavam contra ele numa praça interessantemente
chamada Liberdade. Como o Perdeu a Tola anda muito ocupado a prender toda a
gente que discorda dele e a enviar os seus homens para testarem ao vivo a
virgindade das súbditas desavergonhadas que metem o pé na rua, acabou por
concluir (num intervalo um tanto ou quanto mal-cheiroso) que não tinha tempo
para governar o país. Ora governar um país não é exactamente cargo para
estagiários. Até porque numa república tão perigosa não haverá candidatos,
ainda para mais a receberem metade do salário mínimo local. Era urgente
encontrar um com experiência, provas dadas, enfim… perfil. Consultados os seus
gestores de pessoal, foi descoberto um candidato à medida: o velho Marado da
Tola. Havia apenas um pequenino problema: o Marado da Tola estava em
julgamento, o que dificultava o exercício do cargo, já que é um bocadinho
difícil gerir um país a partir da prisão, embora com as novas tecnologias se
encare a possibilidade de se gerir uma autarquia (vide caso Camaleão da Naifa,
República dos Nabos). Muito bem, se o busílis era esse, então cortava-se o
julgamento e devolvia-se a liberdade ao Marado da Tola. E ao juiz que tentou
levantar uma, mínima, objecção “quem paga as custas do processo arquivado”,
Perdeu a Tola só respondeu: Onde É Que Eu Tenho a Tola?, esclarecendo deste
modo todas as dúvidas. O regresso de Marado da Tola ao trono está agendado para
a semana e decorrem já os preparativos para a solene ocasião. Para a celebrar,
a Praça Liberdade, que continua a ser ponto de encontro dos descontentes,
passará a chamar-se Praça do Glorioso Líder Perdeu a Tola, ou abreviadamente na
língua local: ‘Tás Aqui ‘Tás a Perder a Tola. Foi entretanto promulgada a lei
das liberdades civis que ordena o seguinte: art. 1º - no final de cada uma das
cinco orações diárias deverá o fiel clamar “saúde e vida a ti, Perdeu a Tola”;
art. 2º - todos os cidadãos terão inteira liberdade de opinar e escrever desde
que opinem de acordo com o líder e escrevam aquilo que ele mandar escrever. As
cidadãs não estão contempladas na lei pois não se espera que, e a curto prazo,
saibam ainda ler e escrever, dado a nova legislação proibir a sua admissão nas
escolas, esses antros de perdição feminina, seja como alunas, professoras ou
mesmo empregadas da limpeza. Nas escolas religiosas do país estão já a
reescrever-se todos os poemas, romances e outras manifestações da arte escrita
sancionadas pelos eclesiásticos – as outras são interditas, sob pena de morte
aos abelhudos que as lerem – para mudar a palavra liberdade para “anseio do
amado Perdeu a Tola”. Será um dia inesquecível para a literatura mundial quando
tal revisão estiver concluída.Número total de visualizações de páginas
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
A República Militar dos Papiros,
que recentemente tem andado nos holofotes da imprensa internacional por mor da
guerra civil que ainda não tem esse nome, acaba de dar à Humanidade mais um
contributo da sua civilização multimilenar. Desta vez no capítulo da literatura.
Como se sabe, a República Militar dos Papiros contribuiu já com a adição
semântica “guerra-civil-disfarçada”, que é a situação actualmente vigente no país.
Com efeito, pelas leis internacionais, na Península das Areias apenas um país por
ano pode entrar em traulitada caseira e tal estatuto tem sido já há dois anos
açambarcado com especial sucesso pelo País dos Turbantes. A República dos
Papiros vê-se assim no original estado de guerra civil que o não é, paradoxo
que teria deliciado os seus reis de há 5000 anos, famosos por mandarem erigir
pirâmides para se lançarem na aventura espacial, embora na ausência de
foguetões viajassem apenas as almas dos defuntos até às estrelas do Cão Maior. Relaciona-se
este contributo com a redefinição do conceito de liberdade, o qual tem até
agora sofrido imensas divergências de interpretação, que vão do “podes fazer,
dizer e pensar tudo o que te apetece” ao “tens a liberdade de pensar que sou
Deus e de te vestires como te mando” e originado numerosos conflitos em nome da
defesa da dita. A República Militar dos Papiros clarificou definitivamente este
conceito, encerrando o negro período de guerras libertárias, dado que aí a
liberdade passou a ser “podes fazer tudo o que quiseres desde que o faças como
eu quero”. Como o nosso repórter especial antes noticiou, o novo líder Perdeu a
Tola, zangou-se com “Os Irmãos Unidos”, grupo coral e político especializado em
cânticos religiosos, cujo rei eleito era o Nã ‘Tás Bom da Tola. Em
consequência, Perdeu a Tola prendeu-o e substituiu-o pelo Onde É Que Tenho a
Tola. Este último goza de grande respeito mundial pois ganhou o Prémio das
Pombas por ter paziguado vários conflitos com o Potentado dos Véus o qual teima
em vender milho radioactivo aos pombos. Como os adeptos do orfeão “Irmãos
Unidos” e seu líder Nã ‘Tás Bom da Tola discordaram da substituição e desataram
à pedrada, o Perdeu a Tola não esteve com meias medidas e proibiu o orfeão de
cantar ou de distribuir as suas músicas pelas portas e cafés, prendeu todos os
seus primeiros solistas e anda agora a caçar os restantes membros dos sete
naipes vocais. A coisa foi de tal modo sangrenta que o bom Onde É Que Tenho a
Tola a deve ter mesmo perdido pois demitiu-se de chefe da banda. O Perdeu a
Tola não gostou da deserção e mandou prender o auto-demitido. Contudo, parece
que não saber onde se tem a tola apresenta as suas vantagens nesta curiosa
república pois ao mesmo tempo que não sabe onde a meteu o demissionário deve
também ter-se perdido ele próprio, dado que os homens do Perdeu a Tola não o encontram.
Seja como for, o distraído, se for achado, já tem ordem do juiz para se
apresentar a julgado, como réu. Talvez não se recordem mas toda esta barafunda
começou porque o velho Marado da Tola dera de mandar prender e fazer
desaparecer os súbditos que se manifestavam contra ele numa praça interessantemente
chamada Liberdade. Como o Perdeu a Tola anda muito ocupado a prender toda a
gente que discorda dele e a enviar os seus homens para testarem ao vivo a
virgindade das súbditas desavergonhadas que metem o pé na rua, acabou por
concluir (num intervalo um tanto ou quanto mal-cheiroso) que não tinha tempo
para governar o país. Ora governar um país não é exactamente cargo para
estagiários. Até porque numa república tão perigosa não haverá candidatos,
ainda para mais a receberem metade do salário mínimo local. Era urgente
encontrar um com experiência, provas dadas, enfim… perfil. Consultados os seus
gestores de pessoal, foi descoberto um candidato à medida: o velho Marado da
Tola. Havia apenas um pequenino problema: o Marado da Tola estava em
julgamento, o que dificultava o exercício do cargo, já que é um bocadinho
difícil gerir um país a partir da prisão, embora com as novas tecnologias se
encare a possibilidade de se gerir uma autarquia (vide caso Camaleão da Naifa,
República dos Nabos). Muito bem, se o busílis era esse, então cortava-se o
julgamento e devolvia-se a liberdade ao Marado da Tola. E ao juiz que tentou
levantar uma, mínima, objecção “quem paga as custas do processo arquivado”,
Perdeu a Tola só respondeu: Onde É Que Eu Tenho a Tola?, esclarecendo deste
modo todas as dúvidas. O regresso de Marado da Tola ao trono está agendado para
a semana e decorrem já os preparativos para a solene ocasião. Para a celebrar,
a Praça Liberdade, que continua a ser ponto de encontro dos descontentes,
passará a chamar-se Praça do Glorioso Líder Perdeu a Tola, ou abreviadamente na
língua local: ‘Tás Aqui ‘Tás a Perder a Tola. Foi entretanto promulgada a lei
das liberdades civis que ordena o seguinte: art. 1º - no final de cada uma das
cinco orações diárias deverá o fiel clamar “saúde e vida a ti, Perdeu a Tola”;
art. 2º - todos os cidadãos terão inteira liberdade de opinar e escrever desde
que opinem de acordo com o líder e escrevam aquilo que ele mandar escrever. As
cidadãs não estão contempladas na lei pois não se espera que, e a curto prazo,
saibam ainda ler e escrever, dado a nova legislação proibir a sua admissão nas
escolas, esses antros de perdição feminina, seja como alunas, professoras ou
mesmo empregadas da limpeza. Nas escolas religiosas do país estão já a
reescrever-se todos os poemas, romances e outras manifestações da arte escrita
sancionadas pelos eclesiásticos – as outras são interditas, sob pena de morte
aos abelhudos que as lerem – para mudar a palavra liberdade para “anseio do
amado Perdeu a Tola”. Será um dia inesquecível para a literatura mundial quando
tal revisão estiver concluída.
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