durante a
última comissão de coscuvilhice. Estas comissões são o desporto nacional dos
dirigentes políticos da República dos Nabos, que nelas se reúnem para dizerem
mal uns dos outros, falar da vida alheia e tentar descobrir quem é que tem mais
telhados de vidro; quem mais tiver é seleccionado como alvo do campeonato da
pedrada, que é assim como a segunda ronda do campeonato mas onde o objectivo é
não marcar golos e sim fingir que se mudam os maus hábitos, sem que de facto se
mude seja o que for das tradições e usos da vida pessoal e paralamentar. Sim,
para_lamentar, escrevemos bem. Dito de outro modo, as comissões de coscuvilhice
são assim a modos que um ritual para soltar tensões e dar, felizmente, trabalho
à nossa redacção. De outra forma teríamos já emigrado, como vários autarcas que
nem mesmo à frente de canteiros do nabal se safam na vida e têm de rumar a
outras paragens para meter a bucha na rama. Pois bem, na última sessão da
comissão da coscuvilhice que avaliava o potencial de arremesso dos sapos
tóxicos, o Ministro dos Carcanhóis declarou que nunca lidara com sapos tóxicos
ou dos outros, que nunca fora ao charco apanhá-los ou comerciá-los no mercado e
que aliás, até nem conseguia distinguir sapos de rãs e relas, que para si eram
tudo bichos viscosos, peganhentos e demasiado ruidosos, não deixavam ninguém
dormir de noite. Sabia que alguns diziam serem animais muito úteis para apanhar
mosquitos e similares mas ele, Ministro dos Carcanhóis nunca lhes descobrira
qualquer utilidade e aliás, embora alguns mais dados a jogos de apostas os
usassem em corridas de sapos, sempre achara serem fauna peçonhenta da qual era
melhor não se ter trato nem contacto algum. O problema foi que logo a seguir se
levantou um colega do Ministro que declarou sob juramento por sua honra e
lealdade que o ex-colega não só conhecia muito bem os sapos tóxicos como no
passado ambos se haviam entretido tardes inteiras a caçá-los nos charcos e a
vendê-los aos parvalhões no mercado da bicharada. Aliás faziam enormes caçadas
aos fins de semana, para não pequena fúria do pároco da aldeia, que vociferava
todos os domingos no púlpito sobre “os faltosos que vão apanhar os bichos das
bruxas”, o que conjurava no geral lágrimas de riso da congregação. E, mais
disse, e apresentou, fotografias de ambos de botas de pescador até à cintura,
posando ao lado dos baldes cheios de sapos, redes de caça nas mãos, braços nos ombros
um do outro, a sorrir para as câmara das namoradas. Isto causou um enorme
sururú, até porque todos queriam ver a colecção de fotografias, começando logo
a comparar galochas, baldes, redes de pesca, vestuário e namoradas. Uns mais
exaltados, ao descobrirem quem eram as namoradas, sentiram a velha dor de cotovelo
por mor das ditas lhes terem sido roubadas pelos dois atrevidos e gritavam
“Mentiroso! Mentiroso! Queremos a tua demissão!”. Naturalmente, o primeiro
ministro-só-de-nome veio pôr água na fervura e declarar que não demitia o
Ministro dos sapos e se alguém voltasse a chamar-lhe mentiroso, ao seu amigo
pessoal e co-companheiro nas caçadas a sapos (foi o silêncio na sala pois
ninguém sabia ainda destas actividades secretas do
primeiro-ministro-só-de-nome) ia-lhe às fuças e depois iam para tribunal. Como
ir a tribunal é uma imensa perda de tempo pois são sempre absolvidos aqueles
que a gente sabe, todos os presentes na comissão da coscuvilhice e depois no
hemiciclo, estendendo-se rapidamente o uso aos meios de comunicação e nabos em
geral, passaram a usar deliciosas alternativas ao vocábulo “mentira”. Assim,
agora nos mercados, é normal as nabas donas-de-casa chamarem às vendedeiras,
faltadoras à verdade, lapsadoras involuntárias, criativas dos acontecimentos, e
outros mimos do género. Conclui-se assim que a verdade sobre os sapos poderá
nunca ser apurada, nem a República do Nabal vir jamais a sair da crise, mas a
sua contribuição para o léxico do nabês e da riqueza de vocabulário mundial,
isso é que ninguém lhes tira (aos nabos).

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