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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Os sapos tóxicos continuam a fazer baixas. Desta vez foi a memória do Ministro dos Carcanhóis,
durante a última comissão de coscuvilhice. Estas comissões são o desporto nacional dos dirigentes políticos da República dos Nabos, que nelas se reúnem para dizerem mal uns dos outros, falar da vida alheia e tentar descobrir quem é que tem mais telhados de vidro; quem mais tiver é seleccionado como alvo do campeonato da pedrada, que é assim como a segunda ronda do campeonato mas onde o objectivo é não marcar golos e sim fingir que se mudam os maus hábitos, sem que de facto se mude seja o que for das tradições e usos da vida pessoal e paralamentar. Sim, para_lamentar, escrevemos bem. Dito de outro modo, as comissões de coscuvilhice são assim a modos que um ritual para soltar tensões e dar, felizmente, trabalho à nossa redacção. De outra forma teríamos já emigrado, como vários autarcas que nem mesmo à frente de canteiros do nabal se safam na vida e têm de rumar a outras paragens para meter a bucha na rama. Pois bem, na última sessão da comissão da coscuvilhice que avaliava o potencial de arremesso dos sapos tóxicos, o Ministro dos Carcanhóis declarou que nunca lidara com sapos tóxicos ou dos outros, que nunca fora ao charco apanhá-los ou comerciá-los no mercado e que aliás, até nem conseguia distinguir sapos de rãs e relas, que para si eram tudo bichos viscosos, peganhentos e demasiado ruidosos, não deixavam ninguém dormir de noite. Sabia que alguns diziam serem animais muito úteis para apanhar mosquitos e similares mas ele, Ministro dos Carcanhóis nunca lhes descobrira qualquer utilidade e aliás, embora alguns mais dados a jogos de apostas os usassem em corridas de sapos, sempre achara serem fauna peçonhenta da qual era melhor não se ter trato nem contacto algum. O problema foi que logo a seguir se levantou um colega do Ministro que declarou sob juramento por sua honra e lealdade que o ex-colega não só conhecia muito bem os sapos tóxicos como no passado ambos se haviam entretido tardes inteiras a caçá-los nos charcos e a vendê-los aos parvalhões no mercado da bicharada. Aliás faziam enormes caçadas aos fins de semana, para não pequena fúria do pároco da aldeia, que vociferava todos os domingos no púlpito sobre “os faltosos que vão apanhar os bichos das bruxas”, o que conjurava no geral lágrimas de riso da congregação. E, mais disse, e apresentou, fotografias de ambos de botas de pescador até à cintura, posando ao lado dos baldes cheios de sapos, redes de caça nas mãos, braços nos ombros um do outro, a sorrir para as câmara das namoradas. Isto causou um enorme sururú, até porque todos queriam ver a colecção de fotografias, começando logo a comparar galochas, baldes, redes de pesca, vestuário e namoradas. Uns mais exaltados, ao descobrirem quem eram as namoradas, sentiram a velha dor de cotovelo por mor das ditas lhes terem sido roubadas pelos dois atrevidos e gritavam “Mentiroso! Mentiroso! Queremos a tua demissão!”. Naturalmente, o primeiro ministro-só-de-nome veio pôr água na fervura e declarar que não demitia o Ministro dos sapos e se alguém voltasse a chamar-lhe mentiroso, ao seu amigo pessoal e co-companheiro nas caçadas a sapos (foi o silêncio na sala pois ninguém sabia ainda destas actividades secretas do primeiro-ministro-só-de-nome) ia-lhe às fuças e depois iam para tribunal. Como ir a tribunal é uma imensa perda de tempo pois são sempre absolvidos aqueles que a gente sabe, todos os presentes na comissão da coscuvilhice e depois no hemiciclo, estendendo-se rapidamente o uso aos meios de comunicação e nabos em geral, passaram a usar deliciosas alternativas ao vocábulo “mentira”. Assim, agora nos mercados, é normal as nabas donas-de-casa chamarem às vendedeiras, faltadoras à verdade, lapsadoras involuntárias, criativas dos acontecimentos, e outros mimos do género. Conclui-se assim que a verdade sobre os sapos poderá nunca ser apurada, nem a República do Nabal vir jamais a sair da crise, mas a sua contribuição para o léxico do nabês e da riqueza de vocabulário mundial, isso é que ninguém lhes tira (aos nabos).

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