A Luz ao Fundo do Túnel Apagou-se Há Muito (ou o sucesso
económico do Continente Apagado)
Por causa das alterações
climáticas e dos terríveis gases de efeito de estufa pede-se agora à parte do
mundo que quase nunca provou os benefícios da civilização ocidental que se
deixe de lérias e tentem é viver com menos e sem os luxos do 1º mundo porque,
afinal, estão já a isso habituados. E se é preciso poupar, nada mais natural,
portanto, que as poupanças comecem entre o pessoal que nunca se habituou a
luxos, e devam aí ser impostas com maior afinco. Afinal, quem nunca teve
electricidade em casa nem sabe o que são as delícias dum fogão a gás ou dum
micro-ondas, pode continuar alegremente a viver sem essas comodidades; não é
tão divertido o jogo de sufocar a cozinheira a dona de casa e família com
fogueiras na cozinha alimentadas a lenha? Ou que há de melhor para a saúde do
que o mulherio transportar bidões de água à cabeça durante 60 kms (30 de ida e
30 à volta) e a corta-mato, correndo para se safar a violadores, guerrilheiros,
polícias ou vizinhos bêbados, todos apostados em enfiarem-lhes o “bico”? Como
se pode dizer que ninguém se preocupa com a saúde feminina se se lhes oferece
este exercício em troca da escola sedentarizadora e criadora dos pecaminosos
hábitos de usar a cabeça para pensar? Afinal é para carregar água, homens e ter
meninos que o mulherio serve. Pedir a um honesto cidadão da República das
Batatas que passe sem o seu micro-ondas ou o seu televisor de plasma de 1000 e
tal milímetros de ecrã… é sem dúvida exigir um sacrifício muito mais doloroso
do que pedir aos pobres que se mantenham na pobreza, pois esses não estranharão
tal “evolução na continuidade”. Por isso serão a partir de hoje apagadas todas
as luzes de todos nos túneis, aldeias, jardins e bairros de barracas no 2º, 3º,
4º e 5º mundo e mais alguns outros que porventura por aí haja e não tenhamos
ainda descoberto. Naturalmente, os terroristas que habitam nos bairros da lata
desses mundos irão dizer que a luz ao fundo do túnel nunca se chegou a acender
mas não acreditem. Pois que há demais romântico do que uma tenda de plástico
com bonitos dísticos das misericórdias internacionais, dividida com cinco
outras famílias num campo de refugiados? Campismo o ano inteiro e com refeições
servidas e tudo! Ou o tipismo único dum bairro de lata onde os homens se
colocam em linha para defecar ao ar livre pois como são só meios cidadãos, não
precisam de latrinas. Sem contar que estas condições são excelentes para as
economias desses países, que podem poupar em luxos como saúde e educação dos
seus habitantes e ver crescer fábricas e plantações de óleo de palma e biofúel,
onde os nativos têm o privilégio de trabalhar em regime escravo, tal e qual
como os seus antepassados e pioneiros da globalização. Das suas mãos saem para
o 1º mundo todas as delícias das pessoas civilizadas, como calças, sapatos,
cintos, ouro, telemóveis, bluetoots, metais raros, prata, diamantes, petróleo, Ipods,
acessórios e tantas outras maravilhas tecnológicas que, é claro, só são tocadas
pelos nativos se porventura trabalharem nas fábricas que as produzem. Não pode
haver assim maior ordem no mundo: uns produzem e vivem pobrezinhos e
maneirinhos para não terem maus hábitos, e outros enriquecem e generosamente
colocam as suas fábricas poluidoras nos bairros dos operários, pois para quem é
bacalhau basta. O imenso sucesso económico deste modelo é atestado pelos
índices macroeconómicos, embora para a maioria da população local esses índices
talvez sejam os dum universo paralelo pois as suas condições de vida estão cada
vez mais na mesma, em especial se calharem de terem um campo petrolífero nas
proximidades que lhes suja os rios onde por milhares de anos puderam pescar e
agora também podem mas morrem a seguir, de cancro e essas coisitas, por o peixe
estar contaminado. Em alternativa podem sempre receber os misericordiosos tiros
à queima-roupa dos seguranças se se armam em parvos e se lembram de protestar
pela poluição. Talvez o melhor exemplo deste bem fazer seja ilustrado pelo
Continente dos Elefantes, onde o Fundo Mundial da Agiotagem tem ajudado os
países a entrar no mercado global, impondo as suas regras económicas
fundamentadas nas folhas de cálculo falsificadas do merceeiro-burlão Madoff e
que leva as economias locais à morgue. Com desempregos nos píncaros, serviços
públicos proibidos porque tem de ser tudo privado, incluindo ar, sol e água,
normas alimentares tão assépticas que mesmo hortaliça criada em laboratório não
pode ser vendida, os nativos, muito dançarinos, muito alegres, muito
folclóricos e garridos, viraram-se à tarefa de se matarem uns aos outros, pois
é a única actividade que tem subsídios e ferramentas de trabalho amavelmente
cedidas por almas beneméritas em troca de pequenas contribuições em géneros:
diamantes, ouro, super-petroleiros cheios, etc. Estas guerras são obviamente um
bom investimento pois são os mais fortes, ou seja, os melhor armados e com
maior espírito de iniciativa que ficam a controlar estes bens comerciáveis e
deste modo o comércio mundial ganha mais dinamismo, enquanto ficam garantidos
os subsídios defensivos dos conquistadores. Do mesmo modo quantos mais
morrerem, menos são os competidores na hora da distribuição de alimentos doados
por outras, às vezes as mesmas, almas beneméritas. Além disso, respondendo ao
apelo da espécie os sobreviventes desatam a fazer muitos meninos, o que é
excelente pois garante mão-de-obra sempre renovada nas fábricas que as empresas
do 1º mundo decidiam aí instalar por os gastos de produção serem tão baixos. Os
cidadãos apanhados no meio do tiroteio, apenas podem recorrer ao Divino e este
faz-lhes a vontade, enviando mais outra horda de guerrilheiros: os “combatentes
por Deus”. Estes combatentes, cujo objectivo primeiro e único é converter as
populações, a bem ou a mal e exterminar os teimosos que se recusam à conversão
é uma grande mais-valia para a economia mundial por ser um eficiente meio de
escoar o material de guerra e alguns outros apetrechos do 1º mundo, estimulando
assim o comércio internacional. Mas ultimamente têm-se registado uma
perturbadora evolução neste combate teológico. É que os “guerreiros de Deus”
deixaram de matar nas terras deles, onde o seu mister faz muita falta, e
decidiram “deslocalizar-se” para o 1º mundo. Isto está mal. Só o 1º mundo
deveria ter o direito de se deslocalizar para outros lados, o que está já a ser
corrigido em sede própria. É que estes “guerreiros de Deus”, quando se
deslocalizam não é para pacatamente viverem dos rendimentos da sua guerra mas,
apaixonados pela profissão, continuam a matar. Agora nas nossas belas e
civilizadas cidades. Até quando se permitirá tão grande atentado à
civilização?!
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