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sábado, 26 de outubro de 2013

Foi hoje apresentado ao público a nova constituição e figurinos do rancho folclórico Austeridade, ex-libris da República Democrática (às vezes) dos Nabos e que aos ditos tantas alegrias tem dado. Não é que o rancho acerte uma mas não é à falta de mandador e sim por ter mandadores a mais. São pelo menos dois e mandam sempre ao contrário um do outro: um diz “aperta a cintura à rapariga”, ou outro “vai de largo, vai de largo”; um: “bate fininho e à voz do mandador”, o outro: “bate pé com força e eriça a moça”, um: “roda p’rá direita, bate o passo, tudo certo”, e o logo outro: “salta c’a moça ao centro, roda na viração”, um: “aperta o cinto, aperta o cinto, aperta o cinto” e o outro nã se fica atrás e: “agora não, agora não, agora não”. Os dançadores não se entendem, pisam os calos uns dos outros e está o baile armado, para delírio dos espectadores que já não sabem a quantas andam. A última sarrafusca ocorreu no S. Bento Folclore Festival Internacional (perdoem o inglês dos organizadores mas foi assim mesmo o baptismo), por causa das farpelas do rancho. O mandador com a mania de mandar sempre marcar ao centro disse às moças que as saias mantinham o tradicional tamanho abaixo das canelas e não seriam cortadas, isso de cortes era boato da reacção. As raparigas ficaram muito aliviadas, em especial as que têm namorados ciumentos e não são poucas. Só que logo a seguir apareceu o outro mandador, com a modista a reboque, mandou as moças alinharem trajadas e disse que as saias tinham de ser deitadas abaixo a partir da quarta barra de chita garrida. Ora o primeiro mandador ainda estava lá e para gáudio de todos, os dois desataram à lambada. Mas embora não se saíssem mal na dança nem na conta dos olhos negros, a Austeridade estava quase a entrar em palco e era preciso resolver o problema das saias. A modista sugeriu cortar aí uns 600 milímetros e nova carga de lambada se deu entre os dois lambões. Por fim o mandador do centro mandou cortar as saias mas apenas 2 palmos acima do saiote. O grande problema foi que nenhuma moça usa saiote porque com o orçamento da Austeridade não dá para comprar os acessórios interiores. As saias foram cortadas e as moças entraram em palco com esplêndidas minis tamanho cueca, o que gerou calorosa recepção por parte da plateia que irrompeu em palmas, assobios e bis, ao mais castiço concerto rock hibridado de kuduro. Alguns até acenderam isqueiros para verem melhor o que a Austeridade no seu novo figurino mal tapava. Os mandadores entraram, como é hábito, atrasados, e contribuíram para o brilho da exibição com o maior caos alguma vez registado no longo historial da Austeridade no nabal, pois nuca como neste festival se contradisseram, negaram e renegaram o que tinham dito. No final, já com os olhos à belenenses e uns dentes a menos, oferta dos tais namorados ciumentos que não gostaram de ver as moças com as suas coisinhas ao léu, os dois lambadores decidiram experimentar um aumento no orçamento da Austeridade. E deram a conhecer aos patrocinadores que as rendas de 50% nos lucros, que lhes são pagas pelos patrocínios, serão cortadas em 10%, 10% esses que entrarão nos cofres do rancho para as moças poderem comprar saias novas. Ignoram-se ainda as respostas dos patrocinadores, com a excepção do magnata do Império do Arroz que já fez saber que se lhe cortarem os 10% nos lucros retira os apoios e vai patrocinar para outra freguesia. Em face disto, os dois mandadores estão agora a considerar a hipótese de contratarem um batalhão de polícias de choque, em equipamento completo, para lhes servirem de guarda-costas. Infelizmente, com o actual orçamento da Austeridade, tal medida exigirá algumas alterações aos figurinos do rancho, pelo que os rapazes deixarão de usar camisa e colete, passando a dançar em calções de banho e tronco nu.
 

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