Foi hoje apresentado ao público a
nova constituição e figurinos do rancho folclórico Austeridade, ex-libris da
República Democrática (às vezes) dos Nabos e que aos ditos tantas alegrias tem
dado. Não é que o rancho acerte uma mas não é à falta de mandador e sim por ter
mandadores a mais. São pelo menos dois e mandam sempre ao contrário um do
outro: um diz “aperta a cintura à rapariga”, ou outro “vai de largo, vai de largo”;
um: “bate fininho e à voz do mandador”, o outro: “bate pé com força e eriça a
moça”, um: “roda p’rá direita, bate o passo, tudo certo”, e o logo outro:
“salta c’a moça ao centro, roda na viração”, um: “aperta o cinto, aperta o
cinto, aperta o cinto” e o outro nã se fica atrás e: “agora não, agora não,
agora não”. Os dançadores não se entendem, pisam os calos uns dos outros e está
o baile armado, para delírio dos espectadores que já não sabem a quantas andam.
A última sarrafusca ocorreu no S. Bento Folclore Festival Internacional
(perdoem o inglês dos organizadores mas foi assim mesmo o baptismo), por causa
das farpelas do rancho. O mandador com a mania de mandar sempre marcar ao
centro disse às moças que as saias mantinham o tradicional tamanho abaixo das
canelas e não seriam cortadas, isso de cortes era boato da reacção. As
raparigas ficaram muito aliviadas, em especial as que têm namorados ciumentos e
não são poucas. Só que logo a seguir apareceu o outro mandador, com a modista a
reboque, mandou as moças alinharem trajadas e disse que as saias tinham de ser
deitadas abaixo a partir da quarta barra de chita garrida. Ora o primeiro
mandador ainda estava lá e para gáudio de todos, os dois desataram à lambada.
Mas embora não se saíssem mal na dança nem na conta dos olhos negros, a Austeridade
estava quase a entrar em palco e era preciso resolver o problema das saias. A
modista sugeriu cortar aí uns 600 milímetros e nova carga de lambada se deu
entre os dois lambões. Por fim o mandador do centro mandou cortar as saias mas
apenas 2 palmos acima do saiote. O grande problema foi que nenhuma moça usa
saiote porque com o orçamento da Austeridade não dá para comprar os acessórios
interiores. As saias foram cortadas e as moças entraram em palco com
esplêndidas minis tamanho cueca, o que gerou calorosa recepção por parte da
plateia que irrompeu em palmas, assobios e bis, ao mais castiço concerto rock
hibridado de kuduro. Alguns até acenderam isqueiros para verem melhor o que a
Austeridade no seu novo figurino mal tapava. Os mandadores entraram, como é
hábito, atrasados, e contribuíram para o brilho da exibição com o maior caos
alguma vez registado no longo historial da Austeridade no nabal, pois nuca como
neste festival se contradisseram, negaram e renegaram o que tinham dito. No
final, já com os olhos à belenenses e uns dentes a menos, oferta dos tais
namorados ciumentos que não gostaram de ver as moças com as suas coisinhas ao
léu, os dois lambadores decidiram experimentar um aumento no orçamento da
Austeridade. E deram a conhecer aos patrocinadores que as rendas de 50% nos
lucros, que lhes são pagas pelos patrocínios, serão cortadas em 10%, 10% esses
que entrarão nos cofres do rancho para as moças poderem comprar saias novas. Ignoram-se
ainda as respostas dos patrocinadores, com a excepção do magnata do Império do
Arroz que já fez saber que se lhe cortarem os 10% nos lucros retira os apoios e
vai patrocinar para outra freguesia. Em face disto, os dois mandadores estão
agora a considerar a hipótese de contratarem um batalhão de polícias de choque,
em equipamento completo, para lhes servirem de guarda-costas. Infelizmente, com
o actual orçamento da Austeridade, tal medida exigirá algumas alterações aos
figurinos do rancho, pelo que os rapazes deixarão de usar camisa e colete,
passando a dançar em calções de banho e tronco nu.
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