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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Na República dos Livros recomeçou o folhetim das aulas. Nos últimos anos o início da época dos estudos tinha aberto com relativa normalidade, sem grandes protestos de pais, alunos, professores, seguranças, contínuos, senhor da electricidade e biscateiro plenário (mesmo sem constar no contrato de trabalho) ou empregadas da limpeza. E todos andavam já saudosos dos anos em que iniciar as aulas era um verdadeiro jogo de apostas pois apostavam os pais e livrarias em quais seriam os livros aprovados ou sequer se os teriam em armazém, apostavam os alunos contra toda a gente que “não, mãe, as aulas ainda não começaram, não há professores” até ao momento em que as mães descobriam que o professor estava a leccionar há pelo menos 1 mês, apostavam os professores se chegavam a ter alunos para ensinar ou tinham de ficar na secretaria a tratar de burocracias várias porque não tinham sido contemplados no sorteio das turmas, e apostava toda a gente se as aulas começavam no dia em que eram para começar ou porventura o fariam lá mais para o Verão. Era um período cheio de emoções fortes, que ficava indelevelmente marcado nas memórias dos petizes que, quando chegassem a velhos bem podiam contar “no meu tempo” e seguia-se um relato de aventuras que fazia inveja às dos avós dos petizes no tempo da guerra. Infelizmente a normalidade dos últimos anos estava a privar as novas gerações destas experiências e recordações, pelo que o sempre atento Ministério, que coloca acima de tudo o desenvolvimento dos cidadãos do amanhã, preparando-os para tudo, incluindo um futuro onde as escolas tenham ratos e telhados de zinco com buracos, decidiu restaurar estes eventos memoráveis e fê-lo com especial antecedência e cuidado planeamento. Primeiro exigiu tarde e a más horas e em plena época de férias que os professores saíssem do seu por fim descanso e fizessem uma série de trabalhos burocráticos, com um prazo “para ontem”, sendo que pouco tempo depois lhes mandou fazer o mesmo mas com novas regras. No meio deste jogo da berlinda foram enviadas para as escolas novas tarefas sempre com regras e objectivos diferentes de modo a causar o máximo de confusão na preparação do novo ano lectivo. Entretanto contrataram-se e foram colocados muito menos professores do que o número de turmas exigia para se garantir que várias turmas não os tivessem. Por seu lado, e feitas as listas de pessoal auxiliar de cada escola, deixou-se a marinar em Ministério, de modo a assegurar que as escolas não soubessem quantos auxiliares teriam ao longo do ano. De seguida aumentou-se a dimensão das turmas e mesmo à boca de cena mudaram-se as regras de avaliação, com a criação de novos exames entre outros pormenores técnicos. Finalmente deixou-se aos professores tempo mínimo para que só pudessem delinear os horários a menos de uma semana do início das aulas. Quando por fim foi garantido que as escolas não sabiam de facto quanto pessoal auxiliar teriam, que muitas turmas não tinham professores e que muitos professores tivessem de correr as maiores distâncias possíveis entre escolas (sendo a distância mínima de 60 km) foi dada ordem para o início das aulas. Estas puderam assim iniciar-se no meio da maior barafunda, assegurando mais um acervo de histórias para contar às gerações futuras, à luz da lareira porque nessa altura o cidadão comum não terá dinheiro nem para o petróleo quanto mais para electricidade. Para o Ministério a bagunça aconteceu conforme o pretendido e exigido pelo Acordo da Tripeça, pelo que a Ministra veio já declarar que o ano lectivo se iniciou na maior normalidade. É bom saber, neste mundo toldado pela mudança, que certas e queridas tradições ainda se mantêm.

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