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A agitação continua na República
Militar dos Papiros, na ponta ocidental da Península das Areias. Após quase um
ano de ajuntamentos públicos e pancada de criar bicho, para alegria dos
crocodilos em extinção que ainda passeiam pelo velho e largo rio do país, e que
vinham para as margens assistir às caroladas, esperando que algum incauto de
cabeça partida lhes caísse no prato (nunca aconteceu, declarou um crocodilo
choramingas ao nosso repórter), o pessoal conseguiu tirar da cadeira real o
senhor general Marado da Tola e até, espectáculo único e jamais visto na
arenosa Planície, levá-lo a tribunal. Entretanto, vários presos tinham
conseguido escapar, pensa-se que com a ajuda de guerrilheiros do Território
Independente Só no Papel e cujos naturais se especializaram em atentados,
sequestros e raides, tendo por alvos favoritos Ovos Estrelados e cidadãos da
República dos Hamburgers. Porque, argumentam os naturais, com o bloqueio
contínuo dos Ovos Estrelados só dá para contrabandear armas e ensinar os putos
a usá-las, no intervalo dos deveres da escola, qualquer outra actividade não dá
p’rá conquilha. Porque razão os guerrilheiros do Território Independente Só no
Papel decidiram meter narizes na República dos Papiros é um mistério mas
meteram e algum tempo depois os protestantes papirenses foram a votos e
elegeram um dos prisioneiros como novo rei. Este novo rei tinha ideias muito
próprias sobre como devia ser o país e decidiu armar-se monarca absoluto mas
esse tempo a modos que já era e o povo, cujo principal desporto nos últimos
tempos é o de protestar, saiu em massa para a rua, fazendo alegres
acampamentos, com garraiadas e concursos de pancada com a polícia, tendo-se iniciado
um novo desporto a céu aberto: o de rapto e violação colectiva de papiras,
“descaradas” o bastante para virem para a rua protestar em vez de estarem em
casa a fazer a comida e a cozer as meias e cafetãs dos maridos, que “o lugar
duma mulher é no gineceu, não na mesa dos homens da casa e muito menos na rua,
olh’ás desavergonhadas!”, conforme nos declarou o campeão nacional de
violações, ‘Tás Mesmo a Pedi-las. Ao fim de muitas semanas de protestos,
acampamentos, violações em massa e casas incendiadas – está a aproximar-se o
Inverno e o pessoal precisa de se aquecer, declarou um dos pirómanos que na
altura fugia com um computador fanado da casa em chamas – o prisioneiro-rei Nã
‘Tás Bom da Tola, foi arrancado da cadeira de rei por amigos do ex-rei, o tal Marado
da Tola, que entretanto estava ainda em julgamento. A comunidade internacional
aplaudiu o feito, tendo contudo o cuidado de nunca referir o golpe de estado
como golpe de estado, para não ofender susceptibilidades mais legalistas, que
isto há gente que se ofende com coisinhas de nada. É claro que os adeptos do
clube do Nã ‘Tás Bom da Tola, agora prisioneiro-rei-prisioneiro-em-parte-incerta,
não gostaram da festa, até porque nem foram convidados nem nada. Os outros
festejantes tentaram convidá-los à posteriori
mas os melindrados adeptos disseram que não senhor, não recebiam
convite-esmola, se os queriam no arraial tivessem-nos convidado antes. Amuados,
decidiram dedicar-se ao desporto nacional e vir para a rua acampar e cantar
protestos contra o novo rei e gritar “fora ao árbitro!”, que é como se sabe um
grito que irmana todos os protestantes neste nosso mundo descontente. Enquanto
se colectam apostas por todo o país (jogar é proibido pela lei religiosa local
mas quem é que se preocupa com isso em momentos como este?) sobre se o antigo
rei Marado da Tola é condenado, absolvido ou reposto na cadeira, as claques do
novo rei Perdeu a Tola, decidiram começar a varrer as praças e ruas dos adeptos
protestantes e foi um arraial tão bom que nem vos conto. Dum lado as santas pedras,
fisgas, fundas, molotovs e kalashnikovs e do outro, automáticas de miras laser,
tanques, helicópteros, granadas e bombas de fragmentação, que era para ganharem
a partida logo na 1ª parte. Só que o pessoal das pedras não se deixou bater e,
como esperam carregamentos secretos de armas a sério, vindas em
caravana-expresso do Potentado dos Véus, sito no extremo oriental da Península
das Areias, barricaram-se e vá de darem luta. As coisas têm estado acesas na
capital, onde há fogos por todo o lado nas ruas e até dentro das casas, que
ardem até ao tecto e passam para as dos vizinhos, e o rei Perdeu a Tola anda a
declarar a toda a gente que os tipos das pedras, que estavam apenas acampados
nas ruas a cantar slogans contra o rei – tão afinadinhos que, se concorressem,
limpavam o Festival das Cantigas da União das Hortaliças – são terríveis
terroristas e que os seus, que entraram a matar, são anjinhos celestiais. E
para acabar com as manifestações terroristas o nosso decidido Perdeu a Tola
mandou espalhar franco-atiradores com automáticas de longo alcance e miras
telescópicas, para causarem confusão na multidão que se possa juntar nas ruas,
mesmo que seja só para os mercados de peixe. Ninguém sabe onde estão os
franco-atiradores, donde agora nova vaga de apostas corre o reino, subordinadas
ao tema “quantas vezes podes sair à rua sem levares um tiro na tola?” Uma vez
gerado o caos com o tiroteio, como se ensina no mais clássico manual
terrorista, que se pode consultar aliás na Rede-de-Pesca, versão não censurada,
abate-se uma boa leva de terroristas, mesmo que sejam apenas mulheres com bebés
a fugirem do lar em chamas. Afinal quem manda as mulheres virem para as ruas se
não forem umas sediciosas? Esposa e mãe de família que se preze morre dentro de
casa, nas chamas, para não pôr na lama a honra dos homens do clã, ora essa!
Tomem nota, ocidentais decrépitos: para combater os terroristas a nova táctica
é… fazer atentados terroristas.Revisores de dicionários precisam-se.


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