Acaba de terminar o mês sagrado
da República (Às Vezes) dos Papiros, que foi este ano encerrado com uma
festividade para ficar na História da região. Como se sabe, o mês sagrado muito
exige aos devotos da religião Amo-te Muito pois não só têm de participar em
todas as inúmeras celebrações religiosas, como ao mesmo tempo assegurar a vida
quotidiana, ou seja o trabalho, que neste país é ao preço da uva mijona, duas
tarefas já por si quase impossíveis de conciliar. Além disso, todos os crentes
têm de se abster de declarações de amores públicos e privados, o que é um
grande sacrifício para uns pinga-amores como os papirenses. No entanto o
sacrificial mês sagrado tem também muitas alegrias para estes cidadãos. Há
exibições de fogo de artifício e actividades guerreiras à saída dos templos,
logo após os cultos, com rebentamento de carros, canalizações e por vezes até
de passeantes nas proximidades, com vista a levar para o céu o maior número de
fiéis que venham a sair e, aos que conseguirem escapar às explosões, fazê-los
correr para fugir aos estragos e transportar ao mesmo tempo aqueles que não
conseguem. Embora os líderes espirituais da religião Amo-te Muito se oponham a
esta tradição popular por acharem que não só reduz o número de fiéis como
poderão colocar ideias menos amorosas nas cabeças dos parentes das vítimas, o
que é contrário a todos os mandamentos, os responsáveis pelos actos opõem-se a
esta interpretação das palavras do Divino. Para os responsáveis pelas explosões
– que geralmente ficam em casa, mandando os fiéis que os seguem rebentarem com
carros e com eles próprios – este costume enraizado na tradição é a prova mais
sublime de amor pois quando os fiéis saem dos cultos vêm mais do que
purificados e portanto se morrerem nesse instante têm entrada directa no
Paraíso, que melhor pode alguém oferecer como prova de amor ao seu semelhante?
Porque razão os organizadores destes eventos declinam a suprema honra de
mostrar amor aos outros e mandam terceiros realizar tais actos de fé, ninguém
pôde ainda explicar, até porque os organizadores são pessoas discretas, com
moradas desconhecidas na maior parte do tempo. Portanto nesta altura do ano, na
República dos Papiros, as divergências entre os líderes espirituais da religião
do estado e estas facções mais radicais costuma explodir… literalmente. Há quem
diga até que estes são sinais duma imparável luta pelo poder no seio da
estrutura eclesiástica, com os radicais quererem tornar-se os líderes
incontestados. Lutas internas àparte, este ano o governo dos Papiros – e
quebrando uma tradição de muitas décadas – decidiu juntar-se aos festejos. Com
efeito, este ano durante o mês sagrado os papirenses fartaram-se encher as ruas
com danças, cantares, concursos de pedrada, fogos lançados em casas e
distribuição de panfletos eleitorais retirados das sedes de campanha sem
consentimento dos donos, além de diários concertos de palavras de ordem,
entoadas em coros polifónicos e contra-coros, uns a dizer “abaixo, abaixo,
abaixo” e os contras a cantar “acima, acima, acima”, oferecendo um permanente
espectáculo musical e de arremesso de pedras que foi um encanto. Perante todos
os sinais de que o arraial não iria encerrar-se no fim do mês sagrado, o
governo decidiu, num espírito demonstrativo do seu respeito pelos sentimentos
religiosos do povo, juntar-se às celebrações, enviando para as ruas helicópteros,
tanques, carros de assalto, tropas de choque, devidamente armadas de
metralhadoras com balas a sério, granadas, e armas químicas que fazem no mínimo
chorar. Do lado dos manifestantes apresentaram-se em cena as habituais pedras,
fisgas e fundas, assim como os intemporais cocktails molotov e alguns com mais
iniciativa exibiram até o poder de fogo das suas automáticas. A capital
transformou-se num palco de guerra, com rebentamentos de engenhos explosivos,
casas incendiadas, barricadas demolidas, lojas reduzidas a entulho pelo
tiroteio e avanço dos carros de assalto e, como seria aliás de bom tom, vários
cadáveres estendidos nas ruas ou a serem transportados para morgues
improvisadas que o génio desenrrascador dos papirenses já vem de longe, como os
próprios monumentos locais o atestam. Os países vizinhos ficaram todos muito
perturbados e apelaram à calma, os líderes religiosos locais da facção
pacifista “Vamos Lá a Respirar Fundo” também mas os ânimos estavam todos tão em
brasa, no sentido mais ardente do termo, que ninguém chegou a ouvir os
pacifistas. Aliás, com o barulho dos disparos, dos rebentamentos e das pás dos
helicópteros seria muito difícil ouvir fosse quem fosse. Contra as acusações da
comunidade internacional o governo papirense reponta que, sendo o fim das
celebrações e estando todas as pessoas purificadas, que melhor prova de amor se
podia apresentar do que mandar uns quantos milhares para os anjinhos,
livrando-os até a uma vida dificílima nas ruas e empregos (àqueles que por um
imenso milagre os possuam). A comunidade internacional, em manifesta ignorância
dos ditames religiosos do Amo-te Muito, continuou a protestar, o que se espera
aliás que faça sempre. Dentro da República (Às Vezes) dos Pairos os protestos
são agora porque o governo só entrega os mortos à terra se as famílias
assinarem uma declaração a afirmar que estes se suicidaram, o que talvez seja
verdade pois quem enfrenta tanques com pedras só pode mesmo estar a cometer
suicídio. No entanto as famílias recusam-se às assinaturas pois este é o maior
pecado que interdita aos fiéis a entrada no Paraíso, mesmo se o dito cujo fiel
estiver devidamente purificado. Embora as autoridades religiosas assegurem aos
fiéis que documentos assinados na terra não têm qualquer validade no céu, que
não se deixa enganar por burocracias, as famílias não se conformam, não assinam
e os seus entes-queridos continuam a ocupar espaço. Isto está a estrangular os
serviços de recolha de “suicidas” e forçou já o governo a vir fazer uma
declaração pública que passamos a citar: “assinem lá, meus casmurros, a causa
da morte ser suicídio é apenas um pró-forma exigido pelos nossos inimigos
infiéis do Oeste, que como se sabe passam a vida armados em cowboys em cima de
cavalos e atrás das vacas, mas são eles que têm a massa e os canhões. Nós
sabemos que não são suicidas, vocês também o sabem e os próprios ainda melhor
mas é para agradar aos cowboys, para eles nos darem o guito”. A comunicação
governamental parece não ter surtido qualquer efeito, segundo o nosso
correspondente no centro da acção. A guerra segue dentro de momentos.Número total de visualizações de páginas
domingo, 6 de outubro de 2013
Acaba de terminar o mês sagrado
da República (Às Vezes) dos Papiros, que foi este ano encerrado com uma
festividade para ficar na História da região. Como se sabe, o mês sagrado muito
exige aos devotos da religião Amo-te Muito pois não só têm de participar em
todas as inúmeras celebrações religiosas, como ao mesmo tempo assegurar a vida
quotidiana, ou seja o trabalho, que neste país é ao preço da uva mijona, duas
tarefas já por si quase impossíveis de conciliar. Além disso, todos os crentes
têm de se abster de declarações de amores públicos e privados, o que é um
grande sacrifício para uns pinga-amores como os papirenses. No entanto o
sacrificial mês sagrado tem também muitas alegrias para estes cidadãos. Há
exibições de fogo de artifício e actividades guerreiras à saída dos templos,
logo após os cultos, com rebentamento de carros, canalizações e por vezes até
de passeantes nas proximidades, com vista a levar para o céu o maior número de
fiéis que venham a sair e, aos que conseguirem escapar às explosões, fazê-los
correr para fugir aos estragos e transportar ao mesmo tempo aqueles que não
conseguem. Embora os líderes espirituais da religião Amo-te Muito se oponham a
esta tradição popular por acharem que não só reduz o número de fiéis como
poderão colocar ideias menos amorosas nas cabeças dos parentes das vítimas, o
que é contrário a todos os mandamentos, os responsáveis pelos actos opõem-se a
esta interpretação das palavras do Divino. Para os responsáveis pelas explosões
– que geralmente ficam em casa, mandando os fiéis que os seguem rebentarem com
carros e com eles próprios – este costume enraizado na tradição é a prova mais
sublime de amor pois quando os fiéis saem dos cultos vêm mais do que
purificados e portanto se morrerem nesse instante têm entrada directa no
Paraíso, que melhor pode alguém oferecer como prova de amor ao seu semelhante?
Porque razão os organizadores destes eventos declinam a suprema honra de
mostrar amor aos outros e mandam terceiros realizar tais actos de fé, ninguém
pôde ainda explicar, até porque os organizadores são pessoas discretas, com
moradas desconhecidas na maior parte do tempo. Portanto nesta altura do ano, na
República dos Papiros, as divergências entre os líderes espirituais da religião
do estado e estas facções mais radicais costuma explodir… literalmente. Há quem
diga até que estes são sinais duma imparável luta pelo poder no seio da
estrutura eclesiástica, com os radicais quererem tornar-se os líderes
incontestados. Lutas internas àparte, este ano o governo dos Papiros – e
quebrando uma tradição de muitas décadas – decidiu juntar-se aos festejos. Com
efeito, este ano durante o mês sagrado os papirenses fartaram-se encher as ruas
com danças, cantares, concursos de pedrada, fogos lançados em casas e
distribuição de panfletos eleitorais retirados das sedes de campanha sem
consentimento dos donos, além de diários concertos de palavras de ordem,
entoadas em coros polifónicos e contra-coros, uns a dizer “abaixo, abaixo,
abaixo” e os contras a cantar “acima, acima, acima”, oferecendo um permanente
espectáculo musical e de arremesso de pedras que foi um encanto. Perante todos
os sinais de que o arraial não iria encerrar-se no fim do mês sagrado, o
governo decidiu, num espírito demonstrativo do seu respeito pelos sentimentos
religiosos do povo, juntar-se às celebrações, enviando para as ruas helicópteros,
tanques, carros de assalto, tropas de choque, devidamente armadas de
metralhadoras com balas a sério, granadas, e armas químicas que fazem no mínimo
chorar. Do lado dos manifestantes apresentaram-se em cena as habituais pedras,
fisgas e fundas, assim como os intemporais cocktails molotov e alguns com mais
iniciativa exibiram até o poder de fogo das suas automáticas. A capital
transformou-se num palco de guerra, com rebentamentos de engenhos explosivos,
casas incendiadas, barricadas demolidas, lojas reduzidas a entulho pelo
tiroteio e avanço dos carros de assalto e, como seria aliás de bom tom, vários
cadáveres estendidos nas ruas ou a serem transportados para morgues
improvisadas que o génio desenrrascador dos papirenses já vem de longe, como os
próprios monumentos locais o atestam. Os países vizinhos ficaram todos muito
perturbados e apelaram à calma, os líderes religiosos locais da facção
pacifista “Vamos Lá a Respirar Fundo” também mas os ânimos estavam todos tão em
brasa, no sentido mais ardente do termo, que ninguém chegou a ouvir os
pacifistas. Aliás, com o barulho dos disparos, dos rebentamentos e das pás dos
helicópteros seria muito difícil ouvir fosse quem fosse. Contra as acusações da
comunidade internacional o governo papirense reponta que, sendo o fim das
celebrações e estando todas as pessoas purificadas, que melhor prova de amor se
podia apresentar do que mandar uns quantos milhares para os anjinhos,
livrando-os até a uma vida dificílima nas ruas e empregos (àqueles que por um
imenso milagre os possuam). A comunidade internacional, em manifesta ignorância
dos ditames religiosos do Amo-te Muito, continuou a protestar, o que se espera
aliás que faça sempre. Dentro da República (Às Vezes) dos Pairos os protestos
são agora porque o governo só entrega os mortos à terra se as famílias
assinarem uma declaração a afirmar que estes se suicidaram, o que talvez seja
verdade pois quem enfrenta tanques com pedras só pode mesmo estar a cometer
suicídio. No entanto as famílias recusam-se às assinaturas pois este é o maior
pecado que interdita aos fiéis a entrada no Paraíso, mesmo se o dito cujo fiel
estiver devidamente purificado. Embora as autoridades religiosas assegurem aos
fiéis que documentos assinados na terra não têm qualquer validade no céu, que
não se deixa enganar por burocracias, as famílias não se conformam, não assinam
e os seus entes-queridos continuam a ocupar espaço. Isto está a estrangular os
serviços de recolha de “suicidas” e forçou já o governo a vir fazer uma
declaração pública que passamos a citar: “assinem lá, meus casmurros, a causa
da morte ser suicídio é apenas um pró-forma exigido pelos nossos inimigos
infiéis do Oeste, que como se sabe passam a vida armados em cowboys em cima de
cavalos e atrás das vacas, mas são eles que têm a massa e os canhões. Nós
sabemos que não são suicidas, vocês também o sabem e os próprios ainda melhor
mas é para agradar aos cowboys, para eles nos darem o guito”. A comunicação
governamental parece não ter surtido qualquer efeito, segundo o nosso
correspondente no centro da acção. A guerra segue dentro de momentos.
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