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domingo, 6 de outubro de 2013

 Acaba de terminar o mês sagrado da República (Às Vezes) dos Papiros, que foi este ano encerrado com uma festividade para ficar na História da região. Como se sabe, o mês sagrado muito exige aos devotos da religião Amo-te Muito pois não só têm de participar em todas as inúmeras celebrações religiosas, como ao mesmo tempo assegurar a vida quotidiana, ou seja o trabalho, que neste país é ao preço da uva mijona, duas tarefas já por si quase impossíveis de conciliar. Além disso, todos os crentes têm de se abster de declarações de amores públicos e privados, o que é um grande sacrifício para uns pinga-amores como os papirenses. No entanto o sacrificial mês sagrado tem também muitas alegrias para estes cidadãos. Há exibições de fogo de artifício e actividades guerreiras à saída dos templos, logo após os cultos, com rebentamento de carros, canalizações e por vezes até de passeantes nas proximidades, com vista a levar para o céu o maior número de fiéis que venham a sair e, aos que conseguirem escapar às explosões, fazê-los correr para fugir aos estragos e transportar ao mesmo tempo aqueles que não conseguem. Embora os líderes espirituais da religião Amo-te Muito se oponham a esta tradição popular por acharem que não só reduz o número de fiéis como poderão colocar ideias menos amorosas nas cabeças dos parentes das vítimas, o que é contrário a todos os mandamentos, os responsáveis pelos actos opõem-se a esta interpretação das palavras do Divino. Para os responsáveis pelas explosões – que geralmente ficam em casa, mandando os fiéis que os seguem rebentarem com carros e com eles próprios – este costume enraizado na tradição é a prova mais sublime de amor pois quando os fiéis saem dos cultos vêm mais do que purificados e portanto se morrerem nesse instante têm entrada directa no Paraíso, que melhor pode alguém oferecer como prova de amor ao seu semelhante? Porque razão os organizadores destes eventos declinam a suprema honra de mostrar amor aos outros e mandam terceiros realizar tais actos de fé, ninguém pôde ainda explicar, até porque os organizadores são pessoas discretas, com moradas desconhecidas na maior parte do tempo. Portanto nesta altura do ano, na República dos Papiros, as divergências entre os líderes espirituais da religião do estado e estas facções mais radicais costuma explodir… literalmente. Há quem diga até que estes são sinais duma imparável luta pelo poder no seio da estrutura eclesiástica, com os radicais quererem tornar-se os líderes incontestados. Lutas internas àparte, este ano o governo dos Papiros – e quebrando uma tradição de muitas décadas – decidiu juntar-se aos festejos. Com efeito, este ano durante o mês sagrado os papirenses fartaram-se encher as ruas com danças, cantares, concursos de pedrada, fogos lançados em casas e distribuição de panfletos eleitorais retirados das sedes de campanha sem consentimento dos donos, além de diários concertos de palavras de ordem, entoadas em coros polifónicos e contra-coros, uns a dizer “abaixo, abaixo, abaixo” e os contras a cantar “acima, acima, acima”, oferecendo um permanente espectáculo musical e de arremesso de pedras que foi um encanto. Perante todos os sinais de que o arraial não iria encerrar-se no fim do mês sagrado, o governo decidiu, num espírito demonstrativo do seu respeito pelos sentimentos religiosos do povo, juntar-se às celebrações, enviando para as ruas helicópteros, tanques, carros de assalto, tropas de choque, devidamente armadas de metralhadoras com balas a sério, granadas, e armas químicas que fazem no mínimo chorar. Do lado dos manifestantes apresentaram-se em cena as habituais pedras, fisgas e fundas, assim como os intemporais cocktails molotov e alguns com mais iniciativa exibiram até o poder de fogo das suas automáticas. A capital transformou-se num palco de guerra, com rebentamentos de engenhos explosivos, casas incendiadas, barricadas demolidas, lojas reduzidas a entulho pelo tiroteio e avanço dos carros de assalto e, como seria aliás de bom tom, vários cadáveres estendidos nas ruas ou a serem transportados para morgues improvisadas que o génio desenrrascador dos papirenses já vem de longe, como os próprios monumentos locais o atestam. Os países vizinhos ficaram todos muito perturbados e apelaram à calma, os líderes religiosos locais da facção pacifista “Vamos Lá a Respirar Fundo” também mas os ânimos estavam todos tão em brasa, no sentido mais ardente do termo, que ninguém chegou a ouvir os pacifistas. Aliás, com o barulho dos disparos, dos rebentamentos e das pás dos helicópteros seria muito difícil ouvir fosse quem fosse. Contra as acusações da comunidade internacional o governo papirense reponta que, sendo o fim das celebrações e estando todas as pessoas purificadas, que melhor prova de amor se podia apresentar do que mandar uns quantos milhares para os anjinhos, livrando-os até a uma vida dificílima nas ruas e empregos (àqueles que por um imenso milagre os possuam). A comunidade internacional, em manifesta ignorância dos ditames religiosos do Amo-te Muito, continuou a protestar, o que se espera aliás que faça sempre. Dentro da República (Às Vezes) dos Pairos os protestos são agora porque o governo só entrega os mortos à terra se as famílias assinarem uma declaração a afirmar que estes se suicidaram, o que talvez seja verdade pois quem enfrenta tanques com pedras só pode mesmo estar a cometer suicídio. No entanto as famílias recusam-se às assinaturas pois este é o maior pecado que interdita aos fiéis a entrada no Paraíso, mesmo se o dito cujo fiel estiver devidamente purificado. Embora as autoridades religiosas assegurem aos fiéis que documentos assinados na terra não têm qualquer validade no céu, que não se deixa enganar por burocracias, as famílias não se conformam, não assinam e os seus entes-queridos continuam a ocupar espaço. Isto está a estrangular os serviços de recolha de “suicidas” e forçou já o governo a vir fazer uma declaração pública que passamos a citar: “assinem lá, meus casmurros, a causa da morte ser suicídio é apenas um pró-forma exigido pelos nossos inimigos infiéis do Oeste, que como se sabe passam a vida armados em cowboys em cima de cavalos e atrás das vacas, mas são eles que têm a massa e os canhões. Nós sabemos que não são suicidas, vocês também o sabem e os próprios ainda melhor mas é para agradar aos cowboys, para eles nos darem o guito”. A comunicação governamental parece não ter surtido qualquer efeito, segundo o nosso correspondente no centro da acção. A guerra segue dentro de momentos.

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