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| Movimento certo |
Na Monarquia das Frutas vai grande
euforia com os sinais da recuperação económica que já anda pelo vale das
sombras há mais de uma década. Com efeito as taxas de podridão dos citrinos
baixaram 0,0001% comparativamente aos valores de há 15 dias embora se se
comparar com a mesma data do ano passado a podridão haja aumentado 150%. Também
o importante índice dos pícaros de uva, que mede as exportações, aumentou
significativamente, embora não tanto como esperavam as previsões, do que
resulta um Produto Interno de Graínhas positivo (+0,000001%), coisa que não
acontecia há 9 anos. É claro que este resultado positivo resulta mais da
contração em massa das importações do que propriamente dum grande salto na
exportação de produtos de ponta como por exemplo bananas afiladas,
bróculos-fractais, kiabos doces, caroços de manga e outras mercadorias. A contracção
das importações também não resulta da melhoria da oferta no mercado interno mas
do facto de que os cidadãos frutenses já não têm muitas parras e portanto não
as gastam, razão pela qual as feiras estão normalmente às moscas a partir das 7
da manhã, tendo aberto aí às 6:50. Ao mesmo tempo e dado que a Monarquia das
Frutas é um país soalheiro, cheio de bons petiscos a preços da chuva – porque
de facto é preciso vir chuva para se poder comer alguma coisa e as alterações
climáticas não ajudam – e praias cheias de caricas, o turismo é desde há muito
uma tradição dos frutenses. Os turistas estrangeiros são quase a única fonte de
receitas, pelo que todos os indicadores relacionados com esta actividade são
devotamente seguidos pelos cidadãos locais, que chegam a fazer longas filas
atrás deles. A segunda mais importante fonte de receita é a dos turistas frutenses
que cavam do país e nunca mais lá voltam, com a vantagem de deixarem de ser
fonte de despesa. Assim sendo, os frutenses vieram todos para a rua comemorar a
descida do desemprego em 0,002%, face ao mês anterior, devida à abertura da época
da Caça aos Turistas. Não de relevância digna de nota que muitos frutenses
celebrassem estendidos no chão por falta de alimento pois não têm trabalho há
mais de 2 anos, e do número de estendidos ser agora maior do que há 15 dias
(sendo que quando se estendem já não se voltam a erguer, os valores são sempre
aditivos). O enorme aumento de estendidos não perturbou aliás os que ainda se
mexem, pois aproveitam as pernas tesas dos ditos para gincanas de pé-coxinho,
estendais da roupa ou como apoio para se aguentarem nas gâmbias. O rei do país,
Melão-com-Bicho veio à varanda do palácio anunciar ao público reunido – e que
não lhe prestava atenção, ocupado à séria a enfardar os caixotes do lixo
palaciano e a beber uma mistela alcoólica e de composição dependente da classe
de frutos que é mensalmente exterminada – que desta vez é que era, desta vez é
que a economia das Frutas estava a ver a luz ao fundo do túnel (não se via luz
nenhuma no túnel nem aliás na praça ou em lugar algum pois os calotes às
multinacionais fizeram-nas cortar a electricidade produzida nas barragens
locais). É aliás já a 5947ª vez que o monarca anuncia o fim dos maus tempos, sendo
já só preciso mais um pequeno e perseverante esforço para voltarmos aos dias em
que os pícaros andavam todos para cima e o grelo nem ousava aparecer na nossa excelsa
pátria, tenho dito. E foi para dentro, onde a rainha, a senhora Melancia-Ensoada,
estava a fazer um grande esforço para botar as suas novas sete pevides ao
mundo. Onde, por causa de estar tudo às escuras, se agarrou não à rainha mas ao
pícaro do chanceler-mor, incidente que fez vender febrilmente os tabloides do
mundo inteiro. Recuperação ou deu mesmo o bicho no pícaro do Melão?
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