Número total de visualizações de páginas

sábado, 28 de setembro de 2013

No Principado do Não Sei Para Onde Vou apresentou-se a nova moda Outono-Inverno escolar  em celebradas passagens de modelos que contaram com os mirones habituais, os paparazzi do costume e as top-models mais escaldantes da saison (quanto mais não seja nos cachets que exigem). Um lindo saia-casaco longo, em versão saia ou calça, com cores outonais, chamado Avaliação de Desempenho abriu a passagem de modelos, mas estava ainda na fase dos alinhavos e o costureiro assegurou que seriam introduzidas diversas alterações até ao modelo final. No entanto, mesmo nesta fase inacabada já deu grandes comoções aos professores presentes no público, causando desmaios e colapsos por exaustão. Seguiu-se um vestido bordeux de folhos subidos no pescoço e envolventes da cabeça do manequim, chamado Exames Obrigatórios. O cinto Critérios de Classificação não estava ainda sequer na prancha do criador, tendo sido substituído por um cordel encontrado num canto dos bastidores mas mesmo assim causou sensação, dando ao conjunto um ar retro que muito animou os avós das criancinhas e foi de imediato encomendado pelo Ministério da Educação, para servir de ornamento para os próximos cinquenta anos. Seguiu-se o conjunto de Inverno, designado por Professores em Falta nos Agrupamentos Problemáticos, com cachecol negro, capa castanho-escura de burel com berloques, enfeitada com Assistentes Insuficientes, tendo os berloques bordado a branco e negro a cara do Ministro Educativo, vestido de lã tufada até aos pés, com saia de roda, trabalhada com padrões de Turmas King Size. Rematava o conjunto um par de botas modelo Turmas com Vários Níveis de Ensino na Mesma Sala e que causaram o espanto generalizado na assistência. Trata-se de um modelo económico, em material elástico e couro rasca que o criativo da casa Aguentem-se à Bronca garante ir manter-se em voga durante pelo menos os próximos 30 anos e este vosso humilde cronista de moda concorda. Mas o furor da noite revelou ser o curioso conjunto vestido de noite feminino, casaco de gala masculino chamado Aulas de Inglês no 1º Ciclo. Numa primeira passagem o vestido, comprido, de tons rosa-cereja e branco neve, debruado a pele de coelho branco no decote e falsa pele de raposa nas mangas, bordado com petizes com livros nas mãos, chamado Inglês Como Actividade de Enriquecimento Curricular, recebeu numerosos aplausos e várias encomendas por parte de casas de ensino de prestígio mundial. Mas as emoções estavam apenas a começar. Com um golpe da bonita écharpe estampada com bandeiras francesas, espanholas, chinesas e alemãs a manequim virou o vestido do avesso e surgiu um fato de homem completo, incluindo chapéu à anos 30 do século passado e capa para a chuva, em sóbrio preto, cachecol em tartan escocês, botas de elástico de cano curto com polainas brancas, sendo o conjunto chamado Inglês Só Para Quem Paga. Chegado ao fim da passerele o modelo masculino volteou a capa para a chuva, surgindo como que por magia um vestido de noite estampado com bandeirinhas inglesas em padrões caleidoscópicos, muito elegante, de cintura apertada com espartilho e saia longa travada, com sensual racha em viés subida até meio da coxa, chamado pelo seu criador de Exame Obrigatório de Inglês. Neste momento já havia grande confusão no público que não sabia bem se ainda estava a ver o Inglês Obrigatório ou o Exame ou o Inglês para Alguns. A confusão foi total quando mais uma vez o manequim se sacudiu todo e abrindo a racha até ao pescoço volteou novamente o vestido, surgindo agora um mui sóbrio casaco preto masculino em legítima fazenda inglesa, chapéu de coco negro de feltro, camisa branca e gravata escura de seda, calças negras bem vincadas e sapatos de couro negro brilhante, sendo o conjunto rematado pelo bonito acessório de bengala de ébano encastoada com cabeça de prata com um leão e um grifo. O conjunto foi designado pelo criador como Inglês Obrigatório a Partir do Primeiro Ciclo e o conjunto de sucessivos modelos que se transmutam uns nos outros dependendo do sexo ou preferência do cliente, foi chamado de Lotaria do Inglês, nome evocativo das belas tradições desportivas da insular Albion. Infelizmente a sucessão de modelos transmutáveis foi excessivamente original para o público, que acabou a vaiar e a fazer pateada, em demonstração da sua frustração. Na causa de tão invulgar comportamento em passagens de modelos esteve o facto de que os potenciais clientes, quando tentaram fazer as respectivas encomendas foram informados que não poderiam escolher o modelo pois este seria atribuído por lotaria, embora os modelos que fossem atribuídos após sorteio – e que ainda precisavam de numerosas alterações secretas a serem criadas no momento da entrega – seriam devidamente dimensionados à medida de cada freguês. A empresa responsável pelo espaço onde decorreu a exibição veio já anunciar que fechava para obras pois o caos na sala após a intervenção da Polícia de Choque e subsequente expulsão de todos os presentes, manequins meio despidos incluídos, era indescritível e ninguém se acusava para pagar as despesas.
 

Sem comentários:

Enviar um comentário