No Principado do Não Sei Para
Onde Vou apresentou-se a nova moda Outono-Inverno escolar em celebradas passagens de modelos que contaram com os mirones habituais, os paparazzi do costume e as top-models mais escaldantes da saison (quanto mais não seja nos cachets que exigem). Um lindo
saia-casaco longo, em versão saia ou calça, com cores outonais, chamado Avaliação
de Desempenho abriu a passagem de modelos, mas estava ainda na fase dos alinhavos
e o costureiro assegurou que seriam introduzidas diversas alterações até ao
modelo final. No entanto, mesmo nesta fase inacabada já deu grandes comoções
aos professores presentes no público, causando desmaios e colapsos por
exaustão. Seguiu-se um vestido bordeux
de folhos subidos no pescoço e envolventes da cabeça do manequim, chamado
Exames Obrigatórios. O cinto Critérios de Classificação não estava ainda sequer
na prancha do criador, tendo sido substituído por um cordel encontrado num
canto dos bastidores mas mesmo assim causou sensação, dando ao conjunto um ar
retro que muito animou os avós das criancinhas e foi de imediato encomendado
pelo Ministério da Educação, para servir de ornamento para os próximos
cinquenta anos. Seguiu-se o conjunto de Inverno, designado por Professores em
Falta nos Agrupamentos Problemáticos, com cachecol negro, capa castanho-escura
de burel com berloques, enfeitada com Assistentes Insuficientes, tendo os
berloques bordado a branco e negro a cara do Ministro Educativo, vestido de lã
tufada até aos pés, com saia de roda, trabalhada com padrões de Turmas King Size. Rematava o conjunto um par de
botas modelo Turmas com Vários Níveis de Ensino na Mesma Sala e que causaram o
espanto generalizado na assistência. Trata-se de um modelo económico, em
material elástico e couro rasca que o criativo da casa Aguentem-se à Bronca
garante ir manter-se em voga durante pelo menos os próximos 30 anos e este
vosso humilde cronista de moda concorda. Mas o furor da noite revelou ser o
curioso conjunto vestido de noite feminino, casaco de gala masculino chamado
Aulas de Inglês no 1º Ciclo. Numa primeira passagem o vestido, comprido, de
tons rosa-cereja e branco neve, debruado a pele de coelho branco no decote e
falsa pele de raposa nas mangas, bordado com petizes com livros nas mãos, chamado
Inglês Como Actividade de Enriquecimento Curricular, recebeu numerosos aplausos
e várias encomendas por parte de casas de ensino de prestígio mundial. Mas as
emoções estavam apenas a começar. Com um golpe da bonita écharpe estampada com bandeiras francesas, espanholas, chinesas e
alemãs a manequim virou o vestido do avesso e surgiu um fato de homem completo,
incluindo chapéu à anos 30 do século passado e capa para a chuva, em sóbrio
preto, cachecol em tartan escocês,
botas de elástico de cano curto com polainas brancas, sendo o conjunto chamado
Inglês Só Para Quem Paga. Chegado ao fim da passerele
o modelo masculino volteou a capa para a chuva, surgindo como que por magia um
vestido de noite estampado com bandeirinhas inglesas em padrões
caleidoscópicos, muito elegante, de cintura apertada com espartilho e saia
longa travada, com sensual racha em viés subida até meio da coxa, chamado pelo
seu criador de Exame Obrigatório de Inglês. Neste momento já havia grande
confusão no público que não sabia bem se ainda estava a ver o Inglês
Obrigatório ou o Exame ou o Inglês para Alguns. A confusão foi total quando
mais uma vez o manequim se sacudiu todo e abrindo a racha até ao pescoço
volteou novamente o vestido, surgindo agora um mui sóbrio casaco preto
masculino em legítima fazenda inglesa, chapéu de coco negro de feltro, camisa
branca e gravata escura de seda, calças negras bem vincadas e sapatos de couro
negro brilhante, sendo o conjunto rematado pelo bonito acessório de bengala de
ébano encastoada com cabeça de prata com um leão e um grifo. O conjunto foi
designado pelo criador como Inglês Obrigatório a Partir do Primeiro Ciclo e o
conjunto de sucessivos modelos que se transmutam uns nos outros dependendo do
sexo ou preferência do cliente, foi chamado de Lotaria do Inglês, nome evocativo
das belas tradições desportivas da insular Albion. Infelizmente a sucessão de
modelos transmutáveis foi excessivamente original para o público, que acabou a
vaiar e a fazer pateada, em demonstração da sua frustração. Na causa de tão
invulgar comportamento em passagens de modelos esteve o facto de que os
potenciais clientes, quando tentaram fazer as respectivas encomendas foram
informados que não poderiam escolher o modelo pois este seria atribuído por
lotaria, embora os modelos que fossem atribuídos após sorteio – e que ainda
precisavam de numerosas alterações secretas a serem criadas no momento da
entrega – seriam devidamente dimensionados à medida de cada freguês. A empresa
responsável pelo espaço onde decorreu a exibição veio já anunciar que fechava
para obras pois o caos na sala após a intervenção da Polícia de Choque e
subsequente expulsão de todos os presentes, manequins meio despidos incluídos,
era indescritível e ninguém se acusava para pagar as despesas.Número total de visualizações de páginas
sábado, 28 de setembro de 2013
No Principado do Não Sei Para
Onde Vou apresentou-se a nova moda Outono-Inverno escolar em celebradas passagens de modelos que contaram com os mirones habituais, os paparazzi do costume e as top-models mais escaldantes da saison (quanto mais não seja nos cachets que exigem). Um lindo
saia-casaco longo, em versão saia ou calça, com cores outonais, chamado Avaliação
de Desempenho abriu a passagem de modelos, mas estava ainda na fase dos alinhavos
e o costureiro assegurou que seriam introduzidas diversas alterações até ao
modelo final. No entanto, mesmo nesta fase inacabada já deu grandes comoções
aos professores presentes no público, causando desmaios e colapsos por
exaustão. Seguiu-se um vestido bordeux
de folhos subidos no pescoço e envolventes da cabeça do manequim, chamado
Exames Obrigatórios. O cinto Critérios de Classificação não estava ainda sequer
na prancha do criador, tendo sido substituído por um cordel encontrado num
canto dos bastidores mas mesmo assim causou sensação, dando ao conjunto um ar
retro que muito animou os avós das criancinhas e foi de imediato encomendado
pelo Ministério da Educação, para servir de ornamento para os próximos
cinquenta anos. Seguiu-se o conjunto de Inverno, designado por Professores em
Falta nos Agrupamentos Problemáticos, com cachecol negro, capa castanho-escura
de burel com berloques, enfeitada com Assistentes Insuficientes, tendo os
berloques bordado a branco e negro a cara do Ministro Educativo, vestido de lã
tufada até aos pés, com saia de roda, trabalhada com padrões de Turmas King Size. Rematava o conjunto um par de
botas modelo Turmas com Vários Níveis de Ensino na Mesma Sala e que causaram o
espanto generalizado na assistência. Trata-se de um modelo económico, em
material elástico e couro rasca que o criativo da casa Aguentem-se à Bronca
garante ir manter-se em voga durante pelo menos os próximos 30 anos e este
vosso humilde cronista de moda concorda. Mas o furor da noite revelou ser o
curioso conjunto vestido de noite feminino, casaco de gala masculino chamado
Aulas de Inglês no 1º Ciclo. Numa primeira passagem o vestido, comprido, de
tons rosa-cereja e branco neve, debruado a pele de coelho branco no decote e
falsa pele de raposa nas mangas, bordado com petizes com livros nas mãos, chamado
Inglês Como Actividade de Enriquecimento Curricular, recebeu numerosos aplausos
e várias encomendas por parte de casas de ensino de prestígio mundial. Mas as
emoções estavam apenas a começar. Com um golpe da bonita écharpe estampada com bandeiras francesas, espanholas, chinesas e
alemãs a manequim virou o vestido do avesso e surgiu um fato de homem completo,
incluindo chapéu à anos 30 do século passado e capa para a chuva, em sóbrio
preto, cachecol em tartan escocês,
botas de elástico de cano curto com polainas brancas, sendo o conjunto chamado
Inglês Só Para Quem Paga. Chegado ao fim da passerele
o modelo masculino volteou a capa para a chuva, surgindo como que por magia um
vestido de noite estampado com bandeirinhas inglesas em padrões
caleidoscópicos, muito elegante, de cintura apertada com espartilho e saia
longa travada, com sensual racha em viés subida até meio da coxa, chamado pelo
seu criador de Exame Obrigatório de Inglês. Neste momento já havia grande
confusão no público que não sabia bem se ainda estava a ver o Inglês
Obrigatório ou o Exame ou o Inglês para Alguns. A confusão foi total quando
mais uma vez o manequim se sacudiu todo e abrindo a racha até ao pescoço
volteou novamente o vestido, surgindo agora um mui sóbrio casaco preto
masculino em legítima fazenda inglesa, chapéu de coco negro de feltro, camisa
branca e gravata escura de seda, calças negras bem vincadas e sapatos de couro
negro brilhante, sendo o conjunto rematado pelo bonito acessório de bengala de
ébano encastoada com cabeça de prata com um leão e um grifo. O conjunto foi
designado pelo criador como Inglês Obrigatório a Partir do Primeiro Ciclo e o
conjunto de sucessivos modelos que se transmutam uns nos outros dependendo do
sexo ou preferência do cliente, foi chamado de Lotaria do Inglês, nome evocativo
das belas tradições desportivas da insular Albion. Infelizmente a sucessão de
modelos transmutáveis foi excessivamente original para o público, que acabou a
vaiar e a fazer pateada, em demonstração da sua frustração. Na causa de tão
invulgar comportamento em passagens de modelos esteve o facto de que os
potenciais clientes, quando tentaram fazer as respectivas encomendas foram
informados que não poderiam escolher o modelo pois este seria atribuído por
lotaria, embora os modelos que fossem atribuídos após sorteio – e que ainda
precisavam de numerosas alterações secretas a serem criadas no momento da
entrega – seriam devidamente dimensionados à medida de cada freguês. A empresa
responsável pelo espaço onde decorreu a exibição veio já anunciar que fechava
para obras pois o caos na sala após a intervenção da Polícia de Choque e
subsequente expulsão de todos os presentes, manequins meio despidos incluídos,
era indescritível e ninguém se acusava para pagar as despesas.
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