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domingo, 15 de setembro de 2013

O Sentido Adeus ao Serviço Nacional das Esmolas (mas nem todos estavam lá)
Foi ontem a enterrar o Serviço Nacional de Esmolas, como resultado da última medida promulgada pelo antigo Ministro dos Carcanhóis, antes do seu irrevogável (no sentido expresso nos dicionários antigos) enlouquecimento, embora o paciente brade aos céus que agora é que está lúcido. O funeral, que saiu da Igreja dos Mártires da Carteira, teve enorme comparência, enchendo-se todas as ruas da capital com cidadãos que queriam prestar as sentidas e últimas homenagens ao defunto. Não apenas os velhinhos, inválidos e outros pensionistas marcaram presença em massa para chorar e lamentarem a perda do seu benfeitor (amparados por almas caridosas pois a fome que passam não lhes permite aguentarem-se de pé), mas também os adultos e até os jovens e crianças de colo, que agora não mais terão esperança em que o ilustre benemérito lhes possa adoçar um pouco as agruras da velhice, quando lá chegarem. Com efeito, muito se falava nos últimos anos da diminuição da fortuna deste ilustre cidadão, havendo não poucos que murmuravam cada vez mais alto que o antigo multimilionário estava agora na mais absoluta ruína, murmuração que talvez não seja de todo verdadeira já que numerosos sobrinhos e afilhados estão já em acesa disputa para deitarem a unha ao património do defunto. Os pobrezinhos lamentavam a perda, o que significa que os seus rendimentos estão agora reduzidos a mais de 90% visto a ocupação de ir pedir para a porta das igrejas já não dá nem p’ró pitroil, como disse um reformado experiente em portas de igreja. Por seu lado os ainda trabalhadores (aceitam-se apostas sobre durante quanto tempo o serão) indignavam-se com o facto da fortuna para a qual contribuíam generosamente todos os meses, parecer agora desaparecida. E lançavam as culpas para cima dos sobrinhos e afilhados “esses bandidos que só sabiam viver às custas do tio”, segundo uma irada operária têxtil que apanhara do quintal todas as rosas e flores silvestres que lá cresciam e fizera com elas uma singela coroa que depositou aos pés do esquife. Aliás a morte do famoso benemérito está escondida em mistério e fumos de más aplicações de fundos e golpes baixos dos sobrinhos. Soube-se apenas que, ontem de manhã, quando a empregada chegou ao palacete para fazer a lida habitual da casa, como o patrão não lhe viesse abrir a porta e dar os sorridentes bons-dias (uma diferença como do dia para noite com os trombudos dos afilhados!, declarou a própria) meteu ela a chave na fechadura e deu com o patrão estendido na sala, com o jornal económico nas mãos e uma marretada no alto da peúga. Embora a empregada declare há 10 horas que está inocente, os sobrinhos e afilhados, conhecedores do meio, até porque são quase todos advogados e gestores, conseguiram que os autos do crime a culpassem a ela pela falência e posterior assassinato do patrão e emérito Serviço Nacional de Esmolas. Como nota de rodapé fica o reparo de que, embora o país em peso tenha comparecido ao funeral, e importantes dignitários, reis e chefes de estado da comunidade internacional tenham enviado os seus telegramas de pêsames e ramos de flores, estiveram notoriamente ausentes os parentes mais chegados do benemérito. De facto, à hora de saída do féretro para o cemitério, onde foi devidamente cremado com todas as honras, para não deixar vestígio da sua terrena existência, não se viam em lado algum os referidos sobrinhos e afilhados, que aliás marcaram pela ausência a missa de corpo presente. Tanto quanto a nossa equipa de reportagem pôde averiguar, os sobrinhos e afilhados estavam reunidos no escritório de advocacia onde será lido o testamento, fazendo já a divisão dos bens. Assim, foi acordado entre eles que continuarão a receber integralmente a mesada que o padrinho e tio lhes dava, ao passo que as obras de caridade, velhinhos, inválidos, desempregados e outros desvalidos verão as esmolas mensais reduzidas a 95%. Porque, justificam, a fortuna do excelso Serviço Nacional de Esmolas já não é o que era. Será?

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