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terça-feira, 10 de setembro de 2013


A revolução da imagem chegou finalmente ao Paraíso. Sim, revolução da imagem, porque o culto da dita, esse já existe desde que o Mundo inventou a religião. Verificando que entre os mortais as coisas estavam a mudar e já ninguém ligava grande coisa aos paradisíacos habitantes, em especial ao seu habitante-chefe – que é por vezes um bocadinho temperamental e quando se chateia com a clientela atira uma relâmpagos para cima dos prevaricadores ou sacode o tridente e lá se vai meio país abaixo com um terramoto – decidiu-se em Conselho Angelical que estava na altura de adoptar as técnicas de merchandising dos humanos quando precisam vender produtos de que ninguém precisa ou que ameaçam ultrapassar o prazo de validade. Porque, como nos declarou o arcanjo-mor e responsável por espetar dragões para oferecer aos turistas como paliteiros-recuerdos, temos de acompanhar o andar dos tempos. Foram assim votadas por unanimidade (quem quiser votar contra é imediatamente despedido e enviado para fazer de fogueiro no Inferno) várias propostas delineadas pelo Big Boss. A primeira refere-se à manutenção da mulher – esse erro da Criação – no escalão de “pecadora imunda” e como tal, disponível saco de pancada e de outras actividades conducentes à libertação das frustrações e maus fígados dos seus senhores masculinos; esta medida estende-se a todas as religiões e quadrantes geográficos. Seguiu-se a de ordenar aos representantes terrenos que façam o mais intensivo uso possível das novas tecnologias de comunicação, e um email expresso foi enviado para o líder religioso com assento na Cidade Eterna para acordar de vez e ao menos passar a usar essa invenção demoníaca da Imprensa e dos livros para promover a sua imagem junto dos crentes e candidatos a, já que até os líderes da religião dos turbantes fazem amplo uso da pecaminosa Televisão e da ainda mais desbragada Rede-de-Pesca e seus Caras-Larocas e Teus-Tubos para veicularem as suas mensagens, tidas como exacta interpretação das palavras do Big Boss. Aliás esta questão das interpretações levantou o sobrolho do dito Boss que perguntou ao serafim responsável pelo telégrafo celestial o que se passava para as suas mensagens estarem a chegar tão deturpadas à Terra, Ele nunca dissera “matem-se uns aos outros” mas “amem-se uns aos outros, com mil raios!” Interjeição que levou os anjos a lançarem-se todos para debaixo das cadeiras, temendo uma tempestade fulminante. Pacificados os anjos quanto aos humores do Boss, e tendo regressado aos assentos com asas amolgadas e uma ou outra entorse nas penas, prosseguiram os trabalhos e após definida uma quota de livros à razão de 4 por mês a serem editados pelo líder da Cidade Eterna, chegou-se ao ardente tema das ofertas aos crentes. A primeira sugestão foi a das bulas – pequenos papelinhos tipo tira-nódoas que limpam os pecados das pessoas apenas por umas comissõezitas em monetário – mas um dos arcanjos, que o Boss começa a pensar enviar para o Inimigo pois está sempre a armar-se em esperto, lembrou que aqui há uns séculos um maduro causou um sarrabulho de todo o tamanho e criou até uma nova religião, fanando adeptos à Cidade Eterna por causa das bulas. O Big Boss lançou um olhar reprovador ao arcanjo que se encolheu todo e temeu ser despromovido a anjo (o que calharia muito mal no seu orçamento) e avançou para a proposta seguinte. E caríssimos, esta é revolucionária! (apesar de, diz-nos o nosso especialista em História da Religião, ter sido muito popular na Idade Média ou de como a tradição religiosa se renova). Pois bem, após longo debate em que apenas o Big Boss falou, e analisando os crescentes problemas de obesidade mundial que muitos danos causam nas nuvens quando os falecidos chegam ao céu, decidiu Este que a partir de agora os pecados serão todos perdoados se as pessoas fizerem turismo religioso. Esta decisão tem não só o bom efeito de contribuir para o combate à obesidade como ataca a crise nos países onde se situem os santuários da lista comunicada já por telégrafo celestial à Cidade Eterna. As condições a serem cumpridas para obter descontos nos pecados são as seguintes: 1. Peregrinação a santuários dentro do país de origem do peregrino e a menos de 100 km de distância da residência: desconto de 25%; a mais de 100 km: desconto de 40%. 2. Peregrinação a santuários fora do país de origem do peregrino, independentemente da distância: desconto de 50%. 3. Peregrinação e participação em romaria: 75%. As peregrinações deverão ser feitas a pé, não se oferecendo descontos a quem peregrine de avião, helicóptero, asa-delta, planador, comboio, automóvel, motorizada, bicicleta, trotineta, skate, triciclo, carroça ou besta de montar. Acresce um desconto de 15% nos pecados se as peregrinações forem realizadas a correr (toda a jornada, se houver interrupções a meio caminho perde-se a oferta) e 25% se forem de joelhos. O apoio à economia local do santuário será também agraciado. Assim para compras individuais por peregrino até ao montante de 600 conquilhas, que incluam imagens e esculturas de santinho: desconto de 10%; entre 600 e 1000 conquilhas: 20%; mais de 1000 conquilhas: 30%. Naturalmente, haverá pequenas atenções como happy hours e descontos especiais para grupos. Para aqueles que no final da peregrinação hajam descontado mais dos 100%, o excedente será acumulado contra os pecados a serem realizados na próxima reencarnação.

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