
A revolução da imagem chegou
finalmente ao Paraíso. Sim, revolução da imagem, porque o culto da dita, esse
já existe desde que o Mundo inventou a religião. Verificando que entre os
mortais as coisas estavam a mudar e já ninguém ligava grande coisa aos
paradisíacos habitantes, em especial ao seu habitante-chefe – que é por vezes
um bocadinho temperamental e quando se chateia com a clientela atira uma
relâmpagos para cima dos prevaricadores ou sacode o tridente e lá se vai meio
país abaixo com um terramoto – decidiu-se em Conselho Angelical que estava na
altura de adoptar as técnicas de
merchandising
dos humanos quando precisam vender produtos de que ninguém precisa ou que
ameaçam ultrapassar o prazo de validade. Porque, como nos declarou o
arcanjo-mor e responsável por espetar dragões para oferecer aos turistas como
paliteiros-recuerdos, temos de acompanhar o andar dos tempos. Foram assim
votadas por unanimidade (quem quiser votar contra é imediatamente despedido e
enviado para fazer de fogueiro no Inferno) várias propostas delineadas pelo Big
Boss. A primeira refere-se à manutenção da mulher – esse erro da Criação – no
escalão de “pecadora imunda” e como tal, disponível saco de pancada e de outras
actividades conducentes à libertação das frustrações e maus fígados dos seus
senhores masculinos; esta medida estende-se a todas as religiões e quadrantes
geográficos. Seguiu-se a de ordenar aos representantes terrenos que façam o
mais intensivo uso possível das novas tecnologias de comunicação, e um email
expresso foi enviado para o líder religioso com assento na Cidade Eterna para
acordar de vez e ao menos passar a usar essa invenção demoníaca da Imprensa e
dos livros para promover a sua imagem junto dos crentes e candidatos a, já que
até os líderes da religião dos turbantes fazem amplo uso da pecaminosa
Televisão e da ainda mais desbragada Rede-de-Pesca e seus Caras-Larocas e Teus-Tubos
para veicularem as suas mensagens, tidas como exacta interpretação das palavras
do Big Boss. Aliás esta questão das interpretações levantou o sobrolho do dito
Boss que perguntou ao serafim responsável pelo telégrafo celestial o que se
passava para as suas mensagens estarem a chegar tão deturpadas à Terra, Ele
nunca dissera “matem-se uns aos outros” mas “amem-se uns aos outros, com mil
raios!” Interjeição que levou os anjos a lançarem-se todos para debaixo das
cadeiras, temendo uma tempestade fulminante. Pacificados os anjos quanto aos
humores do Boss, e tendo regressado aos assentos com asas amolgadas e uma ou
outra entorse nas penas, prosseguiram os trabalhos e após definida uma quota de
livros à razão de 4 por mês a serem editados pelo líder da Cidade Eterna,
chegou-se ao ardente tema das ofertas aos crentes. A primeira sugestão foi a
das bulas – pequenos papelinhos tipo tira-nódoas que limpam os pecados das
pessoas apenas por umas comissõezitas em monetário – mas um dos arcanjos, que o
Boss começa a pensar enviar para o Inimigo pois está sempre a armar-se em esperto,
lembrou que aqui há uns séculos um maduro causou um sarrabulho de todo o
tamanho e criou até uma nova religião, fanando adeptos à Cidade Eterna por
causa das bulas. O Big Boss lançou um olhar reprovador ao arcanjo que se
encolheu todo e temeu ser despromovido a anjo (o que calharia muito mal no seu
orçamento) e avançou para a proposta seguinte. E caríssimos, esta é
revolucionária! (apesar de, diz-nos o nosso especialista em História da
Religião, ter sido muito popular na Idade Média ou de como a tradição religiosa
se renova). Pois bem, após longo debate em que apenas o Big Boss falou, e
analisando os crescentes problemas de obesidade mundial que muitos danos causam
nas nuvens quando os falecidos chegam ao céu, decidiu Este que a partir de
agora os pecados serão todos perdoados se as pessoas fizerem turismo religioso.
Esta decisão tem não só o bom efeito de contribuir para o combate à obesidade
como ataca a crise nos países onde se situem os santuários da lista comunicada
já por telégrafo celestial à Cidade Eterna. As condições a serem cumpridas para
obter descontos nos pecados são as seguintes: 1. Peregrinação a santuários
dentro do país de origem do peregrino e a menos de 100 km de distância da
residência: desconto de 25%; a mais de 100 km: desconto de 40%. 2. Peregrinação
a santuários fora do país de origem do peregrino, independentemente da
distância: desconto de 50%. 3. Peregrinação e participação em romaria: 75%. As
peregrinações deverão ser feitas a pé, não se oferecendo descontos a quem
peregrine de avião, helicóptero, asa-delta, planador, comboio, automóvel,
motorizada, bicicleta, trotineta, skate, triciclo, carroça ou besta de montar. Acresce
um desconto de 15% nos pecados se as peregrinações forem realizadas a correr
(toda a jornada, se houver interrupções a meio caminho perde-se a oferta) e 25%
se forem de joelhos. O apoio à economia local do santuário será também agraciado.
Assim para compras individuais por peregrino até ao montante de 600 conquilhas,
que incluam imagens e esculturas de santinho: desconto de 10%; entre 600 e 1000
conquilhas: 20%; mais de 1000 conquilhas: 30%. Naturalmente, haverá pequenas
atenções como
happy hours e descontos
especiais para grupos. Para aqueles que no final da peregrinação hajam
descontado mais dos 100%, o excedente será acumulado contra os pecados a serem
realizados na próxima reencarnação.
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