No Reino das Colheres de Pau
abriu a época de caça ao tacho, a qual tem muito variáveis tempos de abertura e
fecho consoante a catadura dos legisladores do momento. Desta feita a época
venatória vai até 2014, altura em que talvez os legisladores decidam qualquer
outra coisa ou renovem as cédulas de caça a apenas alguns caçadores, atribuam
cédulas a caçadores novos, retirando para esse efeito as de caçadores de cuja
pinta não apreciem, os quais passarão a ter de ir caçar para outro lado. A caça
ao tacho é um desporto nacional deste reino, e que acende fortes e ferozes
paixões entre a população local, do avô ao menino e à menina, da mamã à tia,
prima e primo. Ninguém fica de fora e todos tentam deitar a unha a um tacho,
que é ave d’arribação de mui difícil apanha pois é muito arguta e bate a asa ao
menor ruído. Na verdade, os melhores tachos são apanhados pela calada, longe
dos mirones dos populares e das coscuvilhices dos jornalistas. Embora todos
tentem ir aos tachos, a sua caça é estritamente regulamentada e só os cidadãos
abastados têm direito a cédula de caçador e autorização de caça em espera, em
batida e com cães de fila. Os populares tentam apanhar tachos mas essas
capturas são ilegais e no geral acabam por dar cadeia. Já quem tem cédulas de
caça tem garantia de que pode apanhar todos os tachos que quiser,
inclusivamente as crias recém-nascidas. Existe aliás uma profunda discussão no
Reino das Colheres de Pau sobre quem será o culpado das continuadas reduções
dos efectivos venatórios, que de ano para ano se registam. Os ricaços e donos
dos direitos de caça dizem que são os populares que invadem as coutadas e
dispersam os tachos, assustando-os ou abatendo-os ilegalmente e é necessária
maior repressão desta actividade furtiva. Para esse efeito o governo fez já
aprovar um decreto que força à expulsão dos seus empregos, e em consequência do
direito de cidadania, a pelo menos ¼ da população, com especial destaque para
os trafulhas que fingem trabalhar nos serviços do Estado e são responsáveis, no
ver dos grandes caçadores, por falsificações grosseiras das cédulas de caça ou
então, como maus couteiros, fecham os olhos quando os furtivos famintos tentam
invadir as coutadas e apanhar um tachinho mesmo que esquelético e com furos no
fundo. Por outro lado o povo refila e reclama nas paragens das carroças, os
poucos felizardos que ainda têm emprego (trabalhos têm-nos cada vez mais, empregados
e desempregados), que a razão da extinção progressiva dos tachos se deve aos
senhores ricos e com direitos de caça, que açambarcam tudo para eles, não
permitindo que os dinheiros investidos na sua reprodução aumentem os efectivos
venatórios. O governo, naturalmente, concorda com a tese dos caçadores
encartados e promoveu já o despedimento de 30 000 professores, de modo a que, tendo
estes assim perdido a cidadania, os possa expulsar do país. A posição
governativa deve com efeito ser a correcta – ao contrário do que acusa o
ignorante povo – pois após estes despedimentos em massa verificou-se um aumento
de tachos na coutada particular do governo, com especial destaque para os
efectivos das espécies Tacho-Subsecretário, Tacho-Acessor, Tacho-Especialista,
além de várias outras sub-espécies mais raras e ainda não devidamente
identificadas. Espera-se assim que este ano a época de caça no Reino das Colheres
de Pau seja uma das melhores da década.Número total de visualizações de páginas
domingo, 22 de setembro de 2013
No Reino das Colheres de Pau
abriu a época de caça ao tacho, a qual tem muito variáveis tempos de abertura e
fecho consoante a catadura dos legisladores do momento. Desta feita a época
venatória vai até 2014, altura em que talvez os legisladores decidam qualquer
outra coisa ou renovem as cédulas de caça a apenas alguns caçadores, atribuam
cédulas a caçadores novos, retirando para esse efeito as de caçadores de cuja
pinta não apreciem, os quais passarão a ter de ir caçar para outro lado. A caça
ao tacho é um desporto nacional deste reino, e que acende fortes e ferozes
paixões entre a população local, do avô ao menino e à menina, da mamã à tia,
prima e primo. Ninguém fica de fora e todos tentam deitar a unha a um tacho,
que é ave d’arribação de mui difícil apanha pois é muito arguta e bate a asa ao
menor ruído. Na verdade, os melhores tachos são apanhados pela calada, longe
dos mirones dos populares e das coscuvilhices dos jornalistas. Embora todos
tentem ir aos tachos, a sua caça é estritamente regulamentada e só os cidadãos
abastados têm direito a cédula de caçador e autorização de caça em espera, em
batida e com cães de fila. Os populares tentam apanhar tachos mas essas
capturas são ilegais e no geral acabam por dar cadeia. Já quem tem cédulas de
caça tem garantia de que pode apanhar todos os tachos que quiser,
inclusivamente as crias recém-nascidas. Existe aliás uma profunda discussão no
Reino das Colheres de Pau sobre quem será o culpado das continuadas reduções
dos efectivos venatórios, que de ano para ano se registam. Os ricaços e donos
dos direitos de caça dizem que são os populares que invadem as coutadas e
dispersam os tachos, assustando-os ou abatendo-os ilegalmente e é necessária
maior repressão desta actividade furtiva. Para esse efeito o governo fez já
aprovar um decreto que força à expulsão dos seus empregos, e em consequência do
direito de cidadania, a pelo menos ¼ da população, com especial destaque para
os trafulhas que fingem trabalhar nos serviços do Estado e são responsáveis, no
ver dos grandes caçadores, por falsificações grosseiras das cédulas de caça ou
então, como maus couteiros, fecham os olhos quando os furtivos famintos tentam
invadir as coutadas e apanhar um tachinho mesmo que esquelético e com furos no
fundo. Por outro lado o povo refila e reclama nas paragens das carroças, os
poucos felizardos que ainda têm emprego (trabalhos têm-nos cada vez mais, empregados
e desempregados), que a razão da extinção progressiva dos tachos se deve aos
senhores ricos e com direitos de caça, que açambarcam tudo para eles, não
permitindo que os dinheiros investidos na sua reprodução aumentem os efectivos
venatórios. O governo, naturalmente, concorda com a tese dos caçadores
encartados e promoveu já o despedimento de 30 000 professores, de modo a que, tendo
estes assim perdido a cidadania, os possa expulsar do país. A posição
governativa deve com efeito ser a correcta – ao contrário do que acusa o
ignorante povo – pois após estes despedimentos em massa verificou-se um aumento
de tachos na coutada particular do governo, com especial destaque para os
efectivos das espécies Tacho-Subsecretário, Tacho-Acessor, Tacho-Especialista,
além de várias outras sub-espécies mais raras e ainda não devidamente
identificadas. Espera-se assim que este ano a época de caça no Reino das Colheres
de Pau seja uma das melhores da década.
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