Número total de visualizações de páginas

domingo, 22 de setembro de 2013

No Reino das Colheres de Pau abriu a época de caça ao tacho, a qual tem muito variáveis tempos de abertura e fecho consoante a catadura dos legisladores do momento. Desta feita a época venatória vai até 2014, altura em que talvez os legisladores decidam qualquer outra coisa ou renovem as cédulas de caça a apenas alguns caçadores, atribuam cédulas a caçadores novos, retirando para esse efeito as de caçadores de cuja pinta não apreciem, os quais passarão a ter de ir caçar para outro lado. A caça ao tacho é um desporto nacional deste reino, e que acende fortes e ferozes paixões entre a população local, do avô ao menino e à menina, da mamã à tia, prima e primo. Ninguém fica de fora e todos tentam deitar a unha a um tacho, que é ave d’arribação de mui difícil apanha pois é muito arguta e bate a asa ao menor ruído. Na verdade, os melhores tachos são apanhados pela calada, longe dos mirones dos populares e das coscuvilhices dos jornalistas. Embora todos tentem ir aos tachos, a sua caça é estritamente regulamentada e só os cidadãos abastados têm direito a cédula de caçador e autorização de caça em espera, em batida e com cães de fila. Os populares tentam apanhar tachos mas essas capturas são ilegais e no geral acabam por dar cadeia. Já quem tem cédulas de caça tem garantia de que pode apanhar todos os tachos que quiser, inclusivamente as crias recém-nascidas. Existe aliás uma profunda discussão no Reino das Colheres de Pau sobre quem será o culpado das continuadas reduções dos efectivos venatórios, que de ano para ano se registam. Os ricaços e donos dos direitos de caça dizem que são os populares que invadem as coutadas e dispersam os tachos, assustando-os ou abatendo-os ilegalmente e é necessária maior repressão desta actividade furtiva. Para esse efeito o governo fez já aprovar um decreto que força à expulsão dos seus empregos, e em consequência do direito de cidadania, a pelo menos ¼ da população, com especial destaque para os trafulhas que fingem trabalhar nos serviços do Estado e são responsáveis, no ver dos grandes caçadores, por falsificações grosseiras das cédulas de caça ou então, como maus couteiros, fecham os olhos quando os furtivos famintos tentam invadir as coutadas e apanhar um tachinho mesmo que esquelético e com furos no fundo. Por outro lado o povo refila e reclama nas paragens das carroças, os poucos felizardos que ainda têm emprego (trabalhos têm-nos cada vez mais, empregados e desempregados), que a razão da extinção progressiva dos tachos se deve aos senhores ricos e com direitos de caça, que açambarcam tudo para eles, não permitindo que os dinheiros investidos na sua reprodução aumentem os efectivos venatórios. O governo, naturalmente, concorda com a tese dos caçadores encartados e promoveu já o despedimento de 30 000 professores, de modo a que, tendo estes assim perdido a cidadania, os possa expulsar do país. A posição governativa deve com efeito ser a correcta – ao contrário do que acusa o ignorante povo – pois após estes despedimentos em massa verificou-se um aumento de tachos na coutada particular do governo, com especial destaque para os efectivos das espécies Tacho-Subsecretário, Tacho-Acessor, Tacho-Especialista, além de várias outras sub-espécies mais raras e ainda não devidamente identificadas. Espera-se assim que este ano a época de caça no Reino das Colheres de Pau seja uma das melhores da década.

Sem comentários:

Enviar um comentário