Época de Saldos dos Armazéns Populares da
Ameijoa: Compre e Receba Integralmente o Dinheiro do que Comprou (com a possibilidade de receber ainda mais do dobro,
caso lhe calhe a vaquinha na lotaria)
Não, não se trata de publicidade
mas de seriíssima estratégia económica para atrair capitais estrangeiros à perna-esticante
economia do Principado do Mexilhoal. Como se sabe, o Mexilhoal tem levado com
todas as marés adversas da economia mundial – os crashes, as emergências, os
sapos tóxicos, etc. – e como acontece de cada vez que o mar bate na rocha… Pois
bem, os mexilhões decidiram em assembleia geral, regada a bom regar com vinho
verde e branco do melhor, colocar os falidos Armazéns da Ameijoa à venda. Os
Armazéns Populares da Ameijoa são um dos grandes motores da economia do
Mexilhoal, pois por decreto de uma das últimas assembleias-gerais de Mexilhões-Graúdos
todos onde os mexilhões, em especial os mais pequenos, foram obrigados a
colocar lá todas as suas economias. Não será difícil imaginar o efeito que causou
a descoberta de que os Armazéns estavam falidos. Também se descobriu que tinham
minhocas por todos os lados e até ao momento ninguém conseguiu ainda apurar de
onde vieram as sabotadoras ou quem lá as terá posto. Mistérios da Economia…
Talvez fosse efeito do vinho verde e branco (ou do tinto de contrabando), a
assembleia deliberou pôr os Armazéns à venda, com generosas contrapartidas para
os investidores internacionais. Assim, o Tesouro dos mexilhões irá pagar todas
as dívidas e custos da falência dos Armazéns, assim como as compensações por
despedimento que os novos donos dos Armazéns venham a realizar (não precisando
estes de pagar coisa alguma). Serão ainda pagos incentivos aos compradores pela
aquisição e assegura-se um desconto especial caso estes se interessem também pela
eminente venda ao desbarato (não precisam de comprar de facto, basta só mostrar
interesse) dos Correios do Mexilhoal, que actualmente são muito pouco
lucrativos pois dependem das marés. Além disso assegura-se que os compradores poderão
ainda solicitar o pagamento de diversas mais-valias, alcavalas e comissões
diversas, não sendo necessário estabelecê-las no acto da venda pois o papel de
espuma de alga dissolve-se no ar, sendo inútil assinar qualquer contrato. Estes
pagamentos serão duplicados caso os investidores apostem na lotaria especial de
Lua Cheia do Mexilhoal e ganhem a sempre desejada vaquinha (assegura-se manipulação das máquinas para a vaquinha sair aos investidores que, como
o nome indica, tendo necessidade de investir, precisam de vacas). A nossa
repórter de investigação está em condições de nos indicar que a compra já foi
efectuada, embora os mexilhões-depositantes ainda não o saibam nem venham a
saber pelos 3 anos mais próximos, altura em que o banco decretará nova falência,
a ocorrer logo a seguir a todo o dinheiro dos depositantes ter sido transferido
para o Cantão dos Queijos, sem o conhecimento destes e com os seus nomes devidamente
eliminados das contas transferidas. A nossa repórter pode também assegurar –
com fotografias e imagens de satélite – que o Principado do Mexilhoal recebeu o
cheque de 20 milhões de conquilhas pelos Armazéns, pagando de seguida aos
compradores 20 milhões de conquilhas, como estava previsto no contrato. O
Mexilhão-Chefe recebeu ainda dois outros cheques, mas a nossa repórter não
conseguiu apurar porque foram entregues, quem os passou, quais seriam os
montantes envolvidos nem onde seriam depositados, mas confirmou que não
entraram nas contas públicas. Seria por trabalho de assessoria aos compradores
da República Popular da Mandioca, com vista a estes se entenderem nos
complicados e intermináveis procedimentos legais das vendas no Principado do
Mexilhoal? O Ministro-Chefe dos Mexilhões declarou enfastiada e enfaticamente,
quando aberto pelas perguntas da nossa repórter, que “esses cheques são
inexistentes, resultam da visão dupla da repórter que se deve ter metido no
tinto carrascão atamancado produzido pelo meu tio Mexilhão-Estriado”. Como se
sabe, este desmentido prova que os cheques existem, pois a etiqueta dos mexilhões
ordena que se diga o oposto da realidade em tudo o que se relacione com
negócios. Espera-se agora que sejam postos à venda, por similares condições, a
Caixa Nacional das Anémonas, o Armazém Popular das Algas e o Armazém Rocha dos
Investimentos, que também acabaram de falir. Conta-se em breve acrescentar
novas Caixas e Armazéns à lista de falências e vendas a preço de saldo no
Principado do Mexilhoal.
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