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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

 Turistas Indesejados no Califado das Sardinhas (isto está a virar um baile de alforrecas!, dizem os cidadãos indignados)
Notícia importuna – tal como os seus causadores – levantou-se do califado das Sardinhas, que comobem sabem todos os felizardos que ainda o podem fazer, vive do turismo e, com muito esforço e pouca ou nenhuma recompensa, dumas minguadas pescas pois as traineiras do Potentado da Paelha e de outros menos notórios mas tanto ou ainda mais devoradores de bancos de pesca, têm arraiais e redes mais do que assentes nas águas do Califado. Vá que ao menos os súbditos da Paelha costumavam fazer a maior parte das compras nas lojas dos vizinhos califeiros, até que deu a crise, as portagens e gasolinas subiram em flecha apesar dos poços de petróleo no quintal, e agora… só se atravessarem o rio fronteiriço a nado, coisa que, convenhamos, não é muito prática quando se transportam edredons, atoalhados, objectos de decoração e espanta-espíritos. Como se não bastasse esta má onda da “crise”, mesmo com todos os espanta-espíritos pendurados à porta das casas para afugentar o azar, o Califado recebeu este ano pela primeira vez em números maciços, tão maciços que por vezes se deslocam em nuvem, uns novos e incomodativos turistas, da República do Pica-Pica. Já não eram de todo estranhos ao Califado estes turistas, que se chamam a si mesmos de mosquitos mas quem com eles trava conhecimento apoda-os de “chatos do caraças” e o primeiro instinto que tem ao ver outro é dar-lhe logo nas fuças, o que, tem de se reconhecer, não é a atitude ideal para cidadãos que vivem do turismo. Os “chatos” que têm andado em turismo pelo Califado nos anos anteriores devem ter sido uma espécie de batedores da República do Pica-Pica, pois este ano apareceram em massa no Califado. Isto poderiam ser boas notícias para a moribunda economia local não fossem os hábitos estranhos, insolentes e incomodativos dos turistas que vêm com a atitude de “isto é tudo nosso e se vos pagamos pela comida e pela cama, toca lá a serem nossos servos e darem-nos todos o vosso sangue”. São, como diz uma habitante local, a senhora Viva-da-Costa, e com café-quarto.restaurante-discoteca-e-o-que-mais-houver, uns turistas muito irritantes. Para começo, só entram em actividade quanto todos os outros estão a relaxar nas esplanadas ou a pensar em ferrar o olho, e quando entram é em nuvem como um exército invasor. Depois têm a mania de se chegarem aos outros turistas e zás, mal os apanham desprevenidos, não só lhes palmam as carteiras “por recuerdo”, explicam quando são apanhados com a mão na massa… carteira, picam-nos e não é de mansinho mas à bruta, que os pica-piquenses não sabem o que são delicadezas. Como se não bastasse, adoram sugar o sangue dos vizinhos, dando exemplos de fazer corar todos os dignos Ministros dos Carcanhóis de qualquer reino em crise na União das Hortaliças. E esta mania de falarem em “recuerdos” quando são apanhados de fuças no sangue já causou vários incidentes com os paelhenses, resolvidos à estalada, com a consequente morte dos mosquitos piquenses, o a que se segue auto de crime e consequentes trapalhadas diplomáticas com a Paelha. Os paelhenses vão às do cabo, que aliás não fica longe, quando ouvem os piqueiros usar a sua querida palavra “recuerdo” em tão desprezível actividade, justamente uma palavra que no passado abria as portas das lojas, uns “descontozinhos” e os sorrisos dos vizinhos do Califado. As noites têm sido tão preenchidas de arraiais de chapada que neste momento os turistas do califado ou rumam a destinos mais pacatos ou fecham-se em casa ao anoitecer, para descalabro das contas dos cafés, cujos donos têm de dar todo o dinheiro apurado ao fisco, no final da época dos banhos, e o montante está já tabelado, tenham ou não esse dinheiro nos cofres para, diz o ministro local “evitar as fugas, os califenses são uns danados para fugir com o rabo à pica”. Nada mais verdadeiro no presente estado de coisas. Porém, o descalabro económico que está a ser a época alta por causa da invasão dos mosquitos, sem contar com o sarrabulho nocturno entre estes e os paelhenses e outros turistas menos pacatos que, tendo descoberto a técnica do estalo, estão a adoptá-la para esmagar os picadores, levou o governo local a agir. Não podiam correr o risco duma guerra civil entre turistas. Assim, começaram por distribuir copos de sumo com relaxantes e laxantes, para ver se punham os mosquitos grogues e depois os enfardavam em comboio para o país de origem. Mas os nossos caros mosquitos, vivendo em condições muito insalubres na sua pátria, engoliram os sumos gratuitos e ainda exigiram mais, não tendo sequer um dado baixa por doença. Claro que a manobra já deu origem a protestos diplomáticos dos governantes da república do Pica-Pica, que acham intolerável um tratamento tão vil dos seus cidadãos numa estância turística, ainda por cima uma tão pindérica como o Califado (palavras textuais dos ditos governantes). Impedidos de usar o veneno pois o incidente diplomático já subiu ao Conselho de Segurança da Assembleia Internacional das Frutas, Hortaliças, Secos e Molhados, que como se sabe existe para tomar decisões a que ninguém dá importância, os califas decidiram, reunidos em jirga, correr com os incomodativos turistas por processos menos “violentos”. A jirga, que congrega todos os sábios em leis e forças de segurança, e que desta vez e pela primeira em séculos apresentou quórum logo à abertura dos trabalhos, resolveu espantar os pica-piquenses, abaixo designados por mosquitos, com grandes rabanadas de vento. De facto o vento forte tem por hábito varrer os turistas das praias do califado. Contratou-se assim uma aeronave poderosíssima que tem andado a combater fogos despejando toneladas de água para cima das chamas e ao mesmo tempo provocando vendavais que espalham as chamas para outros pontos das matas, para os voluntários poderem ter trabalho durante todo o Verão e poderem viver emoções fortes, podendo ainda contar com o disputado prémio de morrer em grande ardor e, por serem mártires das chamas, seguirem direitinhos ao céu dos califenses, onde poderão encontrar belas virgens (ou belos mocetões, no caso dos mortos serem femininos), lindos jardins e comidas maravilhosas, prémio tanto mais tentador como é sabido que durante todo o ano os califenses passam quanta fome querem e até quanta já não podem aguentar, tal é a fartura. Ora veio a dita aeronave fazer vento para junto dos mosquitos (o que deu a que no fogo da serra próxima morressem mais vinte e sete voluntários, mortes desejadas pois são menos vinte e sete para estarem no desemprego, a pesarem nos cofres do estado, mal acabe a época dos fogos… perdão, turismo), qual monstro de aço e morte de filme de guerra futurista. Rugiu, ergueu-se no ar, baixou rasando as praias e as esplanadas, deu às pás com todo o vigor, originou diversos tornados que deitaram abaixo as barraquinhas de mudança de roupa e de venda de farturas, pipis e bifanas, destruiu os andaimes onde estavam os nadadores-salvadores que com as contusões no corpo não puderam salva ninguém no resto do dia (morreram 45 pessoas, apenas 10 delas califenses, o que apesar de tudo não foi um mau resultado, menos 10 nas estatísticas do astronómico desemprego do califado) nas os mosquitos adooooraram! Nenhum mosquito morreu ou foi embora, pelo contrário, aproveitaram a ventania e foram viajar a pontos no interior da costa, para eles até então desconhecidos (já compraram diversos charcos e barragens semi-secas no interior para implantarem futuras colónias de férias para as crianças piquenses). Também foi um bom refrigério da intensa caloraça que se tem abatido sobre o califado, disseram, quando interrogados pela imprensa. Aliás, e esta é informação exclusiva, os turistas piquenses, perdão mosquitos, estão já a fazer circular um abaixo-assinado para que as operações da aeronave se repitam e o mais importante deles, o Dr. Melga-com-Doença-do-Dengue, e ministro da saúde da República Pica-Pica, estão em conversações com as autoridades do Califado para o estabelecimento de laços culturais e turísticos, que garantam aos mosquitos o alojamento preferencial no Califado pelos próximos 50 anos. Os habitantes locais desmaiaram ao saber deste novo tratado, isto já depois de desmaiarem por diversas vezes ao constatarem o estado de destruição das suas casas após partida da imponente aeronave, que regressava ao combate aos fogos.

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