Turistas Indesejados no Califado das Sardinhas (isto está a virar um baile de alforrecas!,
dizem os cidadãos indignados)
Notícia importuna – tal como os
seus causadores – levantou-se do califado das Sardinhas, que comobem sabem todos os felizardos que ainda o podem fazer, vive do turismo e, com muito esforço e pouca ou nenhuma recompensa, dumas minguadas pescas pois as traineiras do Potentado da Paelha e de outros menos notórios mas tanto ou ainda mais devoradores de bancos de pesca, têm arraiais e redes mais do que assentes nas águas do Califado. Vá que ao menos os súbditos da Paelha costumavam fazer a
maior parte das compras nas lojas dos vizinhos califeiros, até que deu a crise,
as portagens e gasolinas subiram em flecha apesar dos poços de petróleo no
quintal, e agora… só se atravessarem o rio fronteiriço a nado, coisa que,
convenhamos, não é muito prática quando se transportam edredons, atoalhados,
objectos de decoração e espanta-espíritos. Como se não bastasse esta má onda da
“crise”, mesmo com todos os espanta-espíritos pendurados à porta das casas para
afugentar o azar, o Califado recebeu este ano pela primeira vez em números
maciços, tão maciços que por vezes se deslocam em nuvem, uns novos e
incomodativos turistas, da República do Pica-Pica. Já não eram de todo
estranhos ao Califado estes turistas, que se chamam a si mesmos de mosquitos
mas quem com eles trava conhecimento apoda-os de “chatos do caraças” e o
primeiro instinto que tem ao ver outro é dar-lhe logo nas fuças, o que, tem de
se reconhecer, não é a atitude ideal para cidadãos que vivem do turismo. Os
“chatos” que têm andado em turismo pelo Califado nos anos anteriores devem ter
sido uma espécie de batedores da República do Pica-Pica, pois este ano
apareceram em massa no Califado. Isto poderiam ser boas notícias para a
moribunda economia local não fossem os hábitos estranhos, insolentes e
incomodativos dos turistas que vêm com a atitude de “isto é tudo nosso e se vos
pagamos pela comida e pela cama, toca lá a serem nossos servos e darem-nos
todos o vosso sangue”. São, como diz uma habitante local, a senhora
Viva-da-Costa, e com café-quarto.restaurante-discoteca-e-o-que-mais-houver, uns
turistas muito irritantes. Para começo, só entram em actividade quanto todos os
outros estão a relaxar nas esplanadas ou a pensar em ferrar o olho, e quando
entram é em nuvem como um exército invasor. Depois têm a mania de se chegarem
aos outros turistas e zás, mal os apanham desprevenidos, não só lhes palmam as
carteiras “por recuerdo”, explicam quando são apanhados com a mão na massa…
carteira, picam-nos e não é de mansinho mas à bruta, que os pica-piquenses não
sabem o que são delicadezas. Como se não bastasse, adoram sugar o sangue dos
vizinhos, dando exemplos de fazer corar todos os dignos Ministros dos
Carcanhóis de qualquer reino em crise na União das Hortaliças. E esta mania de
falarem em “recuerdos” quando são apanhados de fuças no sangue já causou vários
incidentes com os paelhenses, resolvidos à estalada, com a consequente morte
dos mosquitos piquenses, o a que se segue auto de crime e consequentes
trapalhadas diplomáticas com a Paelha. Os paelhenses vão às do cabo, que aliás
não fica longe, quando ouvem os piqueiros usar a sua querida palavra “recuerdo”
em tão desprezível actividade, justamente uma palavra que no passado abria as
portas das lojas, uns “descontozinhos” e os sorrisos dos vizinhos do Califado.
As noites têm sido tão preenchidas de arraiais de chapada que neste momento os
turistas do califado ou rumam a destinos mais pacatos ou fecham-se em casa ao
anoitecer, para descalabro das contas dos cafés, cujos donos têm de dar todo o
dinheiro apurado ao fisco, no final da época dos banhos, e o montante está já
tabelado, tenham ou não esse dinheiro nos cofres para, diz o ministro local
“evitar as fugas, os califenses são uns danados para fugir com o rabo à pica”.
Nada mais verdadeiro no presente estado de coisas. Porém, o descalabro
económico que está a ser a época alta por causa da invasão dos mosquitos, sem
contar com o sarrabulho nocturno entre estes e os paelhenses e outros turistas
menos pacatos que, tendo descoberto a técnica do estalo, estão a adoptá-la para
esmagar os picadores, levou o governo local a agir. Não podiam correr o risco
duma guerra civil entre turistas. Assim, começaram por distribuir copos de sumo
com relaxantes e laxantes, para ver se punham os mosquitos grogues e depois os
enfardavam em comboio para o país de origem. Mas os nossos caros mosquitos,
vivendo em condições muito insalubres na sua pátria, engoliram os sumos
gratuitos e ainda exigiram mais, não tendo sequer um dado baixa por doença.
Claro que a manobra já deu origem a protestos diplomáticos dos governantes da
república do Pica-Pica, que acham intolerável um tratamento tão vil dos seus
cidadãos numa estância turística, ainda por cima uma tão pindérica como o
Califado (palavras textuais dos ditos governantes). Impedidos de usar o veneno
pois o incidente diplomático já subiu ao Conselho de Segurança da Assembleia
Internacional das Frutas, Hortaliças, Secos e Molhados, que como se sabe existe
para tomar decisões a que ninguém dá importância, os califas decidiram,
reunidos em jirga, correr com os incomodativos turistas por processos menos
“violentos”. A jirga, que congrega todos os sábios em leis e forças de
segurança, e que desta vez e pela primeira em séculos apresentou quórum logo à
abertura dos trabalhos, resolveu espantar os pica-piquenses, abaixo designados
por mosquitos, com grandes rabanadas de vento. De facto o vento forte tem por
hábito varrer os turistas das praias do califado. Contratou-se assim uma
aeronave poderosíssima que tem andado a combater fogos despejando toneladas de
água para cima das chamas e ao mesmo tempo provocando vendavais que espalham as
chamas para outros pontos das matas, para os voluntários poderem ter trabalho
durante todo o Verão e poderem viver emoções fortes, podendo ainda contar com o
disputado prémio de morrer em grande ardor e, por serem mártires das chamas,
seguirem direitinhos ao céu dos califenses, onde poderão encontrar belas
virgens (ou belos mocetões, no caso dos mortos serem femininos), lindos jardins
e comidas maravilhosas, prémio tanto mais tentador como é sabido que durante
todo o ano os califenses passam quanta fome querem e até quanta já não podem
aguentar, tal é a fartura. Ora veio a dita aeronave fazer vento para junto dos
mosquitos (o que deu a que no fogo da serra próxima morressem mais vinte e sete
voluntários, mortes desejadas pois são menos vinte e sete para estarem no
desemprego, a pesarem nos cofres do estado, mal acabe a época dos fogos…
perdão, turismo), qual monstro de aço e morte de filme de guerra futurista.
Rugiu, ergueu-se no ar, baixou rasando as praias e as esplanadas, deu às pás
com todo o vigor, originou diversos tornados que deitaram abaixo as
barraquinhas de mudança de roupa e de venda de farturas, pipis e bifanas,
destruiu os andaimes onde estavam os nadadores-salvadores que com as contusões
no corpo não puderam salva ninguém no resto do dia (morreram 45 pessoas, apenas
10 delas califenses, o que apesar de tudo não foi um mau resultado, menos 10
nas estatísticas do astronómico desemprego do califado) nas os mosquitos adooooraram!
Nenhum mosquito morreu ou foi embora, pelo contrário, aproveitaram a ventania e
foram viajar a pontos no interior da costa, para eles até então desconhecidos
(já compraram diversos charcos e barragens semi-secas no interior para
implantarem futuras colónias de férias para as crianças piquenses). Também foi
um bom refrigério da intensa caloraça que se tem abatido sobre o califado,
disseram, quando interrogados pela imprensa. Aliás, e esta é informação
exclusiva, os turistas piquenses, perdão mosquitos, estão já a fazer circular
um abaixo-assinado para que as operações da aeronave se repitam e o mais
importante deles, o Dr. Melga-com-Doença-do-Dengue, e ministro da saúde da República
Pica-Pica, estão em conversações com as autoridades do Califado para o
estabelecimento de laços culturais e turísticos, que garantam aos mosquitos o
alojamento preferencial no Califado pelos próximos 50 anos. Os habitantes
locais desmaiaram ao saber deste novo tratado, isto já depois de desmaiarem por
diversas vezes ao constatarem o estado de destruição das suas casas após
partida da imponente aeronave, que regressava ao combate aos fogos.
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