Acabou de entrar em funcionamento o novo sistema de serviço de urgência da capital dos nabos. É um serviço revolucionário que funciona segundo o princípio da roleta… russa e tem a vantagem de levar o doente c’os pés p’rá cova a fazer turismo através da cidade, pois os serviços de urgência são agora rotativos – tal e qual como o tambor do revólver desta roleta – e ora os politraumatismos estão no hospital da Nabiça-Norte, ora no do Grelo-de-Couve-Naba Sul. Louva-se desde já esta iniciativa, pois o que se leva de bom da vida são estes pequenos prazeres e sendo suposto o doente em questão não ressuscitar (os fazedores oficiais de milagres estão em greve há pelo menos 2000 anos), pode-se bem dar-lhe este último carinho, cortesia dos seus impostos. Este novo serviço de urgências fomentará igualmente o turismo, tendo sido já lançada a campanha “Venha Curtir o Sol, as Bebidas, as Praias e as Típicas Tascas. Carregue no Acelerador e Venha Morrer ao Nabal!”. O novo sistema também promete emoções fortes pois os serviços de ambulâncias só serão informados da localização das urgências no momento exacto em que chegarem ao hospital, onde serão agraciados com a declaração“hoje não é aqui e não sabemos onde é”, dado que como as mudanças serão diárias nem os médicos ou enfermeiros conseguirão acompanhar o calendário da rotatividade. O que poderá gerar interessantes confusões quando chegar um tipo com os ossos todos partidinhos e o médico de banco ser o de oftalmologia, que por acaso devia estar no outro hospital. Pode-se assim incentivar o mercado de apostas ente o pessoal médico, de enfermagem e auxiliar, nas vertentes “quem é que está no hospital errado”, “onde é que fica hoje o meu turno”, e “quantos vão aparecer para o óbito”. Não só se melhora a indispensável alegria no trabalho como se promovem as receitas do Estado pois as apostas serão acrescidas de 23%, de imposto sobre a economia paralela vulgo “mercado negro”. A indústria automóvel e oficinas de bate-chapas serão também beneficiadas pois prevêm-se interessantes cortejos de familiares aflitos a percorrem a cidade em filas pressurosas e buzinantes como as dos casamentos, tentando por tudo acertar no hospital certo e preferencialmente antes do parente ter batido a bota. Estas procissões de veículos angustiados serão também aproveitadas para organizar novas diversões para os turistas, que poderão fotografar estes pré-funerais nabenses très tipiques. E à medida que a crise se
agravar tornar-se-ão ainda mais típicos pois os automóveis serão
progressivamente substituídos por carroças, mulas e burros devidamente
ajoujados de enfeites e berloques para se distinguirem das mulas dos vizinhos,
altura em que se assemelharão em muito aos corsos carnavalescos e às caravanas
de vendedeiras e lavadeiras da província em dia de mercado. Só coisas boas para
alegrar o coração do turista… Contudo, e antevendo já alguns congestionamentos
de ambulâncias que, dados os cortes orçamentais é muito possível que morram a
meio do caminho, solidárias com o doente – outra oportunidade de investimento
no mercado das apostas: “a ambulância chega ou não chega”, “ela morre antes ou
depois do doente”, “morre por falta de gasolina, velas gripadas ou estoiro do
radiador” – o previdente Serviço Nacional da Doença abriu candidaturas para Transportes
Alternativos de Doentes (o TADinho) e até ao momento estão inscritos dez
carrinhos de mão fanados ali das obras do lado, uma brigada de skates, três
equipas de patins em linha, doze pares de muletas e vários jericos. Contudo o TADinho
foi adjudicado a um grupo multifamiliar de pterossauros, cuja capacidade de
sobrevivência às turbulências do período Cretácico é garante da sua
operacionalidade e eficiência nesta nova urgêncio-balbúrdia. O único óbice é
que os pterossauros não apresentaram qualquer candidatura nem se vislumbra ao
longe a mais ténue mancha do seu aparecimento. Sabemos que nos separam deste
período geológico pelo menos cerca de 60 milhões de anos mas não é caso para se
atrasarem tanto, rapazes!


Sem comentários:
Enviar um comentário