
Definitivamente, a República dos
Nabos está mergulhada num processo revolucionário, não dos habituais com
tanques nas ruas, tropas emboscadas às esquinas e jornalistas free-lancers a
cobrir o acontecimento enquanto vendedeiras roliças, como se espera de boas
nabiças, põem cravos nas boinas dos combatentes, mas uma revolução mais calma,
mais serena, mais paciente mas que nem por isso deixará de modificar
profundamente a sociedade dos nabos. Após as alterações profundas na economia –
que está, finalmente!, moribunda – e das leis do trabalho que tornam esta
República das Banan… dos Nabos muito atractivas para o investimento
estrangeiro, com a revolucionária lei que exige que os trabalhadores não
recebam salário mas o paguem aos seus empregadores, chegou a vez do ensino e
espera-se para breve a revolução nas liberdades civis, de que já se têm vindo a
fazer ensaios, com a supressão ocasional de dissidentes, que são enviados para
o tribunal ou ameaçados disso, quando calham de lançar uns piropos mais fortes
ao Nabo-Mor ou de criticarem demais esta revolução em curso. A revolução do
ensino permite agora a todos os cidadãos nabenses escolher se querem os filhos
a aprender em escolas ao ar livre, à sombra dos feijoais, ou em recintos
fechados, tipo
estufas de morangos do
canteiro vizinho. Os nabos-pais, ilustrando a sua nabice, já vieram apoiar
publicamente a medida, felizes por os seus filhos agora não terem de estudar
com os chungas dos vizinhos pindéricos das águas furtadas. Segundo as novas
leis, os pais dos nabinhos podem inscrever os filhos nas escolas que quiserem,
quando quiserem e ao preço a que quiserem. Podem inscrever. Depois logo se verá
se
entram ou não, tudo dependendo, no
caso das escolas-estufa, da carinha dos rebentos e no caso das escolas ao ar
livre, de se existem ramadas de árvore suficientes para servir de tectos
esburacados que melhor deixem cair a chuva para cima dos alunos. Do mesmo modo os
pais que optem por inscrever os filhos nas escolas-estufa, com o garante
evidente de que os seus nabos se desenvolverão melhor do que os educados à
rabaldaria das intempéries, receberão um subsídio do governo (os outros não
precisam de subsídios para nada) correspondente ao que os pais gastariam se
deixassem os filhos a vegetar nas escolas ao ar livre. Como as propinas nas
escolas-estufa são mais elevadas, os subsídios não chegarão para o nabinho ir
até ao final dos estudos nas escolas-estufa, pelo que haverá uma altura em que
terão de regressar às escolas ao ar livre (isto se os pais ainda tiverem
emprego e dinheiro para estes luxos de mandar ensinar os petizes). Nesta
altura, que coincidirá com o período mais sensível do desenvolvimento dos
nabinhos, espera-se que grande parte deles perca o viço e lhes murche o grelo,
passando a integrar o mercado de trabalho, que bem precisa de gentinha de corpo
novo e cabeças vazias para dar no duro como deve ser. O dinheiro pago aos
nabos-pais que inscrevam os seus filhos nas escolas-estufa, e que antes da
aprovação das novas leis ia para as escolas ao ar livre, não passará a ir pois
o dinheiro não dá para tudo nem se multiplica como os pães. Deste modo as
escolas ao ar livre passarão a ter menos bancos para os nabos se sentarem, mais
ramagens furadas e com garantia de encharcamento total dos alunos no Inverno, menos
professores e menos material para ensinar, pois são tudo excessos
desnecessários e despesistas, que ficam bem numa escola-estufa mas não nas
escolas ar-livre destinadas aos pelintras. Garante-se assim a degradação contínua
das escolas ar-livre e a igualdade de analfabetismo para todos os alunos, tanto
os que nelas estão desde o início, como os que posteriormente para lá vão
porque os pais afinal também são pindéricos e não podem pagar as escolas-estufa
até ao fim do ciclo escolar. Do mesmo modo, e como as escolas-estufa são antes
de mais para dar lucro, tendo-se cortado nos salários dos preguiçosos dos
professores, e também em muito do material pedagógico, há a garantia de que
estas escolas formarão igualmente a sua quota-parte de analfabetos. Está assim
assegurada a estupidificação em todas as frentes das gerações futuras de nabos.
Quanto mais analfabetos forem os nabos menos se desenvolverá a República mas
mais dóceis serão os seus cidadãos, o que aliviará em muito as dores de cabeça
dos políticos que no futuro liderarem o país. “Os nabos analfabetos são o amanhã
do Nabal”, declarou o Ministro da Educação nabense na sacra conferência diária
onde ministros, secretários, assessores, assessores-adjuntos, adjuntos e especialistas
vão mostrar à comunicação social os fatos novos que vestem a cada dia, e que
ficam a dever no alfaiate para assim apoiarem a indústria de confecção do
nabal.
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