O exclusivo Clube da
Solidariedade da União das Hortaliças, cujos membros têm de ter pedegree até à sétima geração e
contribuírem regularmente para missões solidárias, chás de caridade, e
peditórios para os lacinhos dos smokings
dos governantes que calhem de ir à ópera para mostrarem que são cultos, tem
neste momento um sério problema de infestação, que se lhe acumula aos portões,
com manifestações enormes de furiosos pedintes e, na porta das traseiras,
longas filas de limousines de
candidatos a membros, em particular dos seus órgão sociais e executivos pois é
algo muito bom para pôr nos currículos. A razão do bizarro fenómeno de duas
manifs. de humores opostos convergirem para o até agora muito discreto e
selecto clube reside no facto dos seus membros estarem a emprestar dinheiro
solidariamente aos países do sul, cujas dívidas já sobem à magnetosfera. A
manifestação da frente, contra a solidariedade, diz que a ajuda é como um
pelotão de fuzilamento: somos obrigados a marchar até à parede, dão-nos a
escolher se queremos venda ou não mas a escolha que queremos fazer
(pisgarmo-nos dali) não no-la deixam e só resta apanhar com o balázio todo e
rezar para que as primeiras acertem logo na mouche.
E avançam com exemplos: por exemplo o nabal, quando pediu ajuda, tinha uma
dívida de 90 e muitos % do PIB mas agora, após o empréstimo para pagar essa
dívida… tem-na em cerca de 127% do PIB, mais coisa menos coisa, e não apenas
porque o PIB evoluiu como um pára-quedista sem pára-quedas e com o mesmo
espectacular esmigalhanço contra a realidade, mas por causa dos juros; e
note-se, sublinham os ingratos gritadores e agitadores de cartazes, que nem foi
dado ainda todo o empréstimo… Por seu lado, os directores do clube contradizem
estas afirmações, no seu ver aleivosas. Em declarações prestadas à nossa
repórter Entra-Por-Um-Ouvido-Sai-Por-Outro, o CEO do clube rectificou que os
seus empréstimos são de solidariedade, evidentemente, mas têm de cobrar taxas
de agiota porque o dinheiro está caro e é também uma medida educativa para
ensinar os pobrezinhos a darem o devido valor à esmola, pois todos os tratados
o afirmam: os pobrezinhos não sabem poupar, mal têm dinheiro vão gastá-lo todo
em ninharias como sapatos e comida melhorada ou penduricalhos para falarem com
amigos e conhecidos horas a fio no caminho para o trabalho, em vez de irem a
pensar como irão poupar o salário e como irão cumprir com os seus deveres de
trabalhadores, que são os de vergar a mola sempre e em quaisquer condições que
lhes sejam impostas, agradecendo ao fim da jorna a bondade dos empregadores,
que lhes dão um lugar para trabalhar e um salário tão pequenino que merece ser
emoldurado para a colecção de miniaturas da família, ao lado do táxi de lata do
Zézinho. Os protestantes aos portões são apenas uns terroristas revolucionários
que serão em breve corridos por tropas de assalto, para as quais aliás já
telefonaram e lhes garantiram virem de imediato “limpar os pratos”. Na porta
dos fundos decorre entretanto a selecção dos candidatos a membros do clube. A
selecção é muito rigorosa, constando entre outros aspectos a probidade moral e
da robustez das contas bancárias, não sendo importante a forma como se obteve a
fortuna. É mais do que apenas querer parecer bem nos chás das tias ou apressar
o passo para receber uma comenda no dia da pátria, que são já de si razões
muito meritórias para fazer solidariedade. É que, como explicou a mui elegante
e, dizem as intrigas, venenosa Cobra-Malhada, uma das mais aristocráticas
candidatas, se eu der em solidariedade com os pobrezinhos 100 notas e os
pobrezinhos forem obrigados a devolver-me 1500 notas iguais… quem é que assim
não quer ser solidária, querida?

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