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sábado, 12 de outubro de 2013

O Director-Geral das Finanças do Céu expressou ontem a sua indignação com o fisco da República dos Nabos, desencadeando uma tempestade das antigas sobre o nabal, por mor do ofício das Finanças Nabense que exige a todos os mortos que compareçam na respectiva repartição de finanças para regularizarem as suas contribuições de IRS, IRC, IVA, IMI, IUC, IMT, Imposto de Selo, Imposto Especial de Consumo, Segurança Social, Direito Sucessório, Tributação Autónoma e diversos outros impostos e taxas, nacionais e autárquicas, dado estarem a baldar-se às ditas mais de um ano. Se não comparecerem, avisa o ofício, as esposas, filhos deficientes e outros dependentes terão integralmente cortadas as pensões de sobrevivência e também as próprias até perfazer o montante em falta. Caso as reformas sejam de miséria, os conjugues dos mortos faltosos serão obrigados a trabalhar em regime forçado – como os médicos, enfermeiros e alunos do Uzbekistão na apanha do algodão – até o seu trabalho, após desconto dos gastos do Estado com o seu alojamento, comida (que contudo os forçados deverão arranjar do seu bolso, mesmo que nada tenham no dito) e utensílios de trabalho, perfazer os montantes em falta. Esta comunicação causou grande indignação nas nuvens pois é suposto os habitantes celestiais serem exemplares em tudo, até mesmo nas suas contas com o fisco, por mais rapace que este último seja. Pior ainda, no topo da lista vinham os nomes de alguns carismáticos líderes, como Moisés (a quem, além dos supra-citados impostos, era taxado o Imposto Devido ao Templo, Imposto de Uso de Material Combustível e Sarças Ardentes, Imposto Por Ter Casado e Vivido no Estrangeiro, etc.), Maomé que, entre outros impostos tinha de regularizar o Imposto de Comércio, Imposto por Caravanas de Camelos, Imposto por Proteger Gatos, Imposto por Posse de Exército Pessoal “como aliás também Moisés”, etc.) e Buda, o qual além de numerosos impostos exóticos, tem em atraso o Imposto do Elefante Branco. Cristo foi taxado com o Imposto por Fazer Milagres, Imposto de Sudário, Imposto por Exercer Ofício de Padeiro e de Pescador Sem Licença, Imposto por Vandalizar Bancas de Cambistas. Com a excepção de Buda, que encolheu os ombros e disse para não se preocuparem pois tudo é ilusão e mudança, continuando calmamente sentado na sua flor de lótus a falar para os doze animais do Zodíaco, que são os únicos que o ouvem, os restantes líderes ficaram muito indignados e pediram uma audiência ao chefe do Paraíso. Maomé declarou que era um homem de paz mas estavam a insultar os seus muitos milhões de seguidores, donde ia promulgar uma fatwa a exigir uma jihad. Moisés elevou mãos e bastão ao alto, queixando-se que andavam mais uma vez a perseguir deliberadamente os judeus e Cristo disse que já dera a César o que era de César, não tinha nada que dar aos nabos aquilo que era do Pai e se continuassem a chateá-lo com impostos ia lá abaixo e punha tudo em cacos, momento em que Moisés se meteu ao barulho, para dizer que não podia fazê-lo pois se ele era o Messias, quando regressasse à terra tinha era de pacificar tudo e dar a comer aos povos o leviatã e o grande touro vermelho, era o que estava nas escrituras sobre o Olam Ha-Bav. Cristo e Moisés pegaram-se de razões em aramaico antigo sobre os estatutos do Olam Ha-Bav, o que pôs Maomé fora de terreiro porque não fala aramaico antigo. Deus viu-se aflito para acalmar os seus profetas e ainda mais à rasca se viu com o resto dos súbditos, pois até os nabos seguidores de Buda estão muito melindrados, ignorando em absoluto os conselhos do Mestre. Xiva é que ficou todo feliz e pôs-se dançar a dança da destruição enquanto abria o seu terceiro olho, embora o fechasse logo a seguir porque Deus lhe deu uma lambada em cheio na pupila, o fim do mundo ainda não é p’ra já. O tumulto, que tem gerado tornados, trovadas, tufões, quedas de granizo e sapos e outros desmandos climáticos, ainda não foi aplacado. No Inferno a mesma pretensão do fisco nabense causou gargalhada geral entre diabos e hóspedes e o chefe da banda enviou o seguinte email que atravessou todas as firewalls: “Acusamos a recepção do vosso ofício e vimos por este meio declarar toda a nossa colaboração para satisfazer a vossa lunática exigência. Mas como os transportes estão caros e antes que por aqui também chegue a crise decidimos começar a poupar, façam o favor de vir cá recolher o guito. Estaremos ansiosamente à vossa espera com forquilhas, aguilhões, instrumentos de tortura ao gosto do freguês, baldes de pez ardente, bombas de napalm, lança-chamas e outros objectos contundentes para no melhor dos nossos esforços vos oferecer a hospitalidade do nosso ardente reino. Tragam por favor bifanas de porco e um bom tinto para fazermos uma churrascada. Caso não haja bifanas, podemos grelhar-vos a vós próprios. Com os nossos reconhecidos e sinceros votos de vos ver por cá em breve, Satã”.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

As autoridades sanitárias encontram-se em estado de alerta, temendo uma epidemia ou, na mais salutar hipótese, adulteração de especialidades alimentares e de prazer, nestes inclusos cigarros, charutos, vinhos pedigree e whiskys velhos de reconhecida reputação, consumidos pelos líderes de estado da União das Hortaliças. É que nos últimos tempos os chefes de estado da União têm proferido umas singulares afirmações sobre o estado do mundo que só por mero acaso coincidem com a realidade. A líder da República Federal das Batatas, apoiando o estranho discurso do seu ministro das finanças disse pouco antes de ganhar as eleições, que as políticas de destruição económica que têm sido aplicadas na União estavam a dar os seus resultados e via-se já um crescimento económico assinalável na Zona da Moeda Única para Pategos. Toda a gente achou esta declaração muito estranha, pois todos os indicadores económicos mostram exactamente o oposto, mas como se estava em campanha eleitoral e os políticos são especialmente sensíveis à bactéria februm votaricum que os leva a proferir afirmações inverosímeis (afecção que felizmente desaparece mal se contam os votos, regressando os afectados à sua consciência normal) pesumiu-se que a pobre líder estivesse a ser vítima dessa epidemia algo benigna. De facto só se torna problemática quando o político afectado, mostrando perturbantes pudores morais e deslocadas honras à sua palavra, tenta depois da eleição cumprir as promessas e diatribes mirabolantes proferidas durante a fase mais aguda de febre votárica. Só que a seguir o chefe em exercício – e é um duro exercício – do Potentado da Paelha, que é outro país nas lonas, veio garantir e jurar e bater o pé de que desta é que o Potentado ia sair da crise, e que o crescimento… para o ano… seria de 0,001% positivo, dado que este ano ainda estava em queda mas era uma queda menos trambolhona do que há 2 meses, e a taxa de desemprego estava já a baixar (altura em que os jornalistas viraram câmaras e cabeças ao contrário, a tentarem apanhar o ponto de vista do chefe de estado pois o desemprego mantém-se acima dos valores do ano passado). Sabemos que a líder das Batatas, a querida e amada Toutiço Despenteado, adora bolinhos e o chefe do Potentado gosta duns bons havanos, tendo um fraquinho especial pelos que forem embrulhados em bom pilim da República dos Hambúrgueres embora também se aceitem contribuições em pasta do Cantão dos Queijos. Hoje foi a vez do representante da República dos Nabos, o excelso Nabo-Maior, surpreender a opinião pública e os mercados com as suas declarações quando visitava a Monarquia das Renas. Nabo-Maior foi durante vários anos professor de economia numa das mais reputadas universidades da República do Nabal e acumulou este trabalho com vários cargos de direcção em alguns dos mais importantes bancos do nabal, incluindo aquele que é polícia dos outros todos. Após um simpático almoço com a família real das Renas, foi o catedrático entrevistado em conferência de imprensa onde, falando em nabês, que é a única língua que domina em condições, se declarou muito surpreendido com os mercados de cebolas, nabos, rábanos, cenouras, couves e outras hortaliças dado que a cotação do nabal nesses mercados estava para esquecer, e não havia razões para isso. Aliás, continuou, não percebia porque tantos bancos internacionais diziam que o nabal estava a afundar-se, prontinho para segunda transfusão vampírica. Não havia crise, a economia estava a crescer, a recessão acabara, os juros da dívida – que durante todo o ano o senhor Nabo-Maior dissera estar em níveis insustentáveis – eram perfeitamente comportáveis, ele sentia-se imensamente perplexo por tantas previsões negativas. Perplexo também se sentiram os jornalistas presentes e até a família real não conseguiu evitar preocupados olhares de soslaio sobre o convidado. Porque no caso a dívida continua a subir pois os juros da mesma vão adicionando aos anteriores e… bem, porque se seu excelentíssimo líder dos nabos, catedrático de economia, dizia não compreender os mercados e seus mercadores, então quem compreenderá? Então, onde está a racionalidade dos mercados que os teóricos e práticos do assunto garantem ser a base de funcionamento dos ditos? Para evitar mais embaraços, a família real das renas arrastou o excelso Nabo-Maior para as traseiras do palácio com o pretexto de terem de realizar a importantíssima missão de inaugurarem uma estátua, descerrarem uma placa comemorativa, e partirem para a caça. Intrigados com estas declarações, os nossos enviados foram investigar o caso. E encontrámos o fornecedor dos charutos do presidente do Potentado da Paelha, dos bolinhos da Toutiço despenteado e do catering dos jantares de gala da União das Hortaliças, que nos confessou que além destes negócios legítimos tinha um pequeno trabalhinho colateral, “por baixo dos panos” e sem descontos à segurança social ou nos impostos, para arredondar o orçamento lá de casa. Todos os seus produtos são docemente condimentados com pozinhos brancos e licores vindos do produtor, sedeado no Charco do Milho. Os ditos pozinhos e licores têm, confessou-nos, por vezes uns pequenos efeitos viciantes (o que é bom para manter a clientela) e dão ao consumidor várias horas de separação deste triste mundo, deliciando-o em coloridas ondas de prazer. Infelizmente a Organização Mundial da Doença, e por conseguinte todos os estados da União das Hortaliças, proíbem os condimentos em questão mas ele tem de dar vazão ao produto. Informados destes desenvolvimentos a nossa cara Toutiço despenteado pôs as mãos em diamante e declarou que não podia preocupar-se com isso, tinha um governo para formar e os colegas de coligação estavam muito renitentes em casar-se com ela, que era uma devoradora de coligantes. O excelso presidente Nabo-Maior informou que não comentava e somente o líder em exercício do Potentado da Paelha se dispôs a prestar declarações, exclamando perante as provas: “oh, infelizmente não sei que charutos são, não prestei atenção à marca pois entrei logo em órbita. Mas que são muito bons, são. Podem dar-me o contacto pessoal do fornecedor?”

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Os sapos tóxicos continuam a fazer baixas. Desta vez foi a memória do Ministro dos Carcanhóis,
durante a última comissão de coscuvilhice. Estas comissões são o desporto nacional dos dirigentes políticos da República dos Nabos, que nelas se reúnem para dizerem mal uns dos outros, falar da vida alheia e tentar descobrir quem é que tem mais telhados de vidro; quem mais tiver é seleccionado como alvo do campeonato da pedrada, que é assim como a segunda ronda do campeonato mas onde o objectivo é não marcar golos e sim fingir que se mudam os maus hábitos, sem que de facto se mude seja o que for das tradições e usos da vida pessoal e paralamentar. Sim, para_lamentar, escrevemos bem. Dito de outro modo, as comissões de coscuvilhice são assim a modos que um ritual para soltar tensões e dar, felizmente, trabalho à nossa redacção. De outra forma teríamos já emigrado, como vários autarcas que nem mesmo à frente de canteiros do nabal se safam na vida e têm de rumar a outras paragens para meter a bucha na rama. Pois bem, na última sessão da comissão da coscuvilhice que avaliava o potencial de arremesso dos sapos tóxicos, o Ministro dos Carcanhóis declarou que nunca lidara com sapos tóxicos ou dos outros, que nunca fora ao charco apanhá-los ou comerciá-los no mercado e que aliás, até nem conseguia distinguir sapos de rãs e relas, que para si eram tudo bichos viscosos, peganhentos e demasiado ruidosos, não deixavam ninguém dormir de noite. Sabia que alguns diziam serem animais muito úteis para apanhar mosquitos e similares mas ele, Ministro dos Carcanhóis nunca lhes descobrira qualquer utilidade e aliás, embora alguns mais dados a jogos de apostas os usassem em corridas de sapos, sempre achara serem fauna peçonhenta da qual era melhor não se ter trato nem contacto algum. O problema foi que logo a seguir se levantou um colega do Ministro que declarou sob juramento por sua honra e lealdade que o ex-colega não só conhecia muito bem os sapos tóxicos como no passado ambos se haviam entretido tardes inteiras a caçá-los nos charcos e a vendê-los aos parvalhões no mercado da bicharada. Aliás faziam enormes caçadas aos fins de semana, para não pequena fúria do pároco da aldeia, que vociferava todos os domingos no púlpito sobre “os faltosos que vão apanhar os bichos das bruxas”, o que conjurava no geral lágrimas de riso da congregação. E, mais disse, e apresentou, fotografias de ambos de botas de pescador até à cintura, posando ao lado dos baldes cheios de sapos, redes de caça nas mãos, braços nos ombros um do outro, a sorrir para as câmara das namoradas. Isto causou um enorme sururú, até porque todos queriam ver a colecção de fotografias, começando logo a comparar galochas, baldes, redes de pesca, vestuário e namoradas. Uns mais exaltados, ao descobrirem quem eram as namoradas, sentiram a velha dor de cotovelo por mor das ditas lhes terem sido roubadas pelos dois atrevidos e gritavam “Mentiroso! Mentiroso! Queremos a tua demissão!”. Naturalmente, o primeiro ministro-só-de-nome veio pôr água na fervura e declarar que não demitia o Ministro dos sapos e se alguém voltasse a chamar-lhe mentiroso, ao seu amigo pessoal e co-companheiro nas caçadas a sapos (foi o silêncio na sala pois ninguém sabia ainda destas actividades secretas do primeiro-ministro-só-de-nome) ia-lhe às fuças e depois iam para tribunal. Como ir a tribunal é uma imensa perda de tempo pois são sempre absolvidos aqueles que a gente sabe, todos os presentes na comissão da coscuvilhice e depois no hemiciclo, estendendo-se rapidamente o uso aos meios de comunicação e nabos em geral, passaram a usar deliciosas alternativas ao vocábulo “mentira”. Assim, agora nos mercados, é normal as nabas donas-de-casa chamarem às vendedeiras, faltadoras à verdade, lapsadoras involuntárias, criativas dos acontecimentos, e outros mimos do género. Conclui-se assim que a verdade sobre os sapos poderá nunca ser apurada, nem a República do Nabal vir jamais a sair da crise, mas a sua contribuição para o léxico do nabês e da riqueza de vocabulário mundial, isso é que ninguém lhes tira (aos nabos).

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Definitivamente, a República dos Nabos está mergulhada num processo revolucionário, não dos habituais com tanques nas ruas, tropas emboscadas às esquinas e jornalistas free-lancers a cobrir o acontecimento enquanto vendedeiras roliças, como se espera de boas nabiças, põem cravos nas boinas dos combatentes, mas uma revolução mais calma, mais serena, mais paciente mas que nem por isso deixará de modificar profundamente a sociedade dos nabos. Após as alterações profundas na economia – que está, finalmente!, moribunda – e das leis do trabalho que tornam esta República das Banan… dos Nabos muito atractivas para o investimento estrangeiro, com a revolucionária lei que exige que os trabalhadores não recebam salário mas o paguem aos seus empregadores, chegou a vez do ensino e espera-se para breve a revolução nas liberdades civis, de que já se têm vindo a fazer ensaios, com a supressão ocasional de dissidentes, que são enviados para o tribunal ou ameaçados disso, quando calham de lançar uns piropos mais fortes ao Nabo-Mor ou de criticarem demais esta revolução em curso. A revolução do ensino permite agora a todos os cidadãos nabenses escolher se querem os filhos a aprender em escolas ao ar livre, à sombra dos feijoais, ou em recintos fechados, tipo  estufas de morangos do canteiro vizinho. Os nabos-pais, ilustrando a sua nabice, já vieram apoiar publicamente a medida, felizes por os seus filhos agora não terem de estudar com os chungas dos vizinhos pindéricos das águas furtadas. Segundo as novas leis, os pais dos nabinhos podem inscrever os filhos nas escolas que quiserem, quando quiserem e ao preço a que quiserem. Podem inscrever. Depois logo se verá se  entram ou não, tudo dependendo, no caso das escolas-estufa, da carinha dos rebentos e no caso das escolas ao ar livre, de se existem ramadas de árvore suficientes para servir de tectos esburacados que melhor deixem cair a chuva para cima dos alunos. Do mesmo modo os pais que optem por inscrever os filhos nas escolas-estufa, com o garante evidente de que os seus nabos se desenvolverão melhor do que os educados à rabaldaria das intempéries, receberão um subsídio do governo (os outros não precisam de subsídios para nada) correspondente ao que os pais gastariam se deixassem os filhos a vegetar nas escolas ao ar livre. Como as propinas nas escolas-estufa são mais elevadas, os subsídios não chegarão para o nabinho ir até ao final dos estudos nas escolas-estufa, pelo que haverá uma altura em que terão de regressar às escolas ao ar livre (isto se os pais ainda tiverem emprego e dinheiro para estes luxos de mandar ensinar os petizes). Nesta altura, que coincidirá com o período mais sensível do desenvolvimento dos nabinhos, espera-se que grande parte deles perca o viço e lhes murche o grelo, passando a integrar o mercado de trabalho, que bem precisa de gentinha de corpo novo e cabeças vazias para dar no duro como deve ser. O dinheiro pago aos nabos-pais que inscrevam os seus filhos nas escolas-estufa, e que antes da aprovação das novas leis ia para as escolas ao ar livre, não passará a ir pois o dinheiro não dá para tudo nem se multiplica como os pães. Deste modo as escolas ao ar livre passarão a ter menos bancos para os nabos se sentarem, mais ramagens furadas e com garantia de encharcamento total dos alunos no Inverno, menos professores e menos material para ensinar, pois são tudo excessos desnecessários e despesistas, que ficam bem numa escola-estufa mas não nas escolas ar-livre destinadas aos pelintras. Garante-se assim a degradação contínua das escolas ar-livre e a igualdade de analfabetismo para todos os alunos, tanto os que nelas estão desde o início, como os que posteriormente para lá vão porque os pais afinal também são pindéricos e não podem pagar as escolas-estufa até ao fim do ciclo escolar. Do mesmo modo, e como as escolas-estufa são antes de mais para dar lucro, tendo-se cortado nos salários dos preguiçosos dos professores, e também em muito do material pedagógico, há a garantia de que estas escolas formarão igualmente a sua quota-parte de analfabetos. Está assim assegurada a estupidificação em todas as frentes das gerações futuras de nabos. Quanto mais analfabetos forem os nabos menos se desenvolverá a República mas mais dóceis serão os seus cidadãos, o que aliviará em muito as dores de cabeça dos políticos que no futuro liderarem o país. “Os nabos analfabetos são o amanhã do Nabal”, declarou o Ministro da Educação nabense na sacra conferência diária onde ministros, secretários, assessores, assessores-adjuntos, adjuntos e especialistas vão mostrar à comunicação social os fatos novos que vestem a cada dia, e que ficam a dever no alfaiate para assim apoiarem a indústria de confecção do nabal.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Na Confederação dos Livros de Cordel as revoluções no ensino sucedem-se. E este ano promete ser absolutamente revolucionário. Antes de mais, os professores vão fazer provas de conhecimentos, onde serão avaliados por pais e alunos, embora as provas sejam apenas uma praxe, dado que não contarão para efeitos de contratação ou de classificação dos docentes. Mas servirão para os humilhar e fazer baixar a bolinha pois é uma classe de trabalhadores muito convencida. Também se mudaram novamente os programas das disciplinas, o que aliás é tradição anual mas desta vez os manuais, mudados outra vez à última hora para que os pais possam gastar por duas vezes o orçamento livreiro e promovam assim a recuperação das editoras, não estão conformes aos novos programas, pelo que se terão de trocar terceira vez, com nova interessante corrida de pais às livrarias para encomendar os novos manuais. Como o que se quer é alunos bem preparados e com capacidade de resistência a situações de stress, sem com isso perderem as suas capacidades produtivas, foi aumentado o número e importância dos exames, que passarão agora a contar 100% para a nota final, ignorando o trabalho realizado ao longo do ano. A Associação dos Cábula Profissionais Especializados em Copianço veio já saudar a medida, que irá beneficiar os seus associados e promover a profissão e actividades paralelas. E como o que conta para nota é apenas o exame ao fim de 3 anos, a novidade do aumento de horas de aulas não perturba os cábulas que podem continuar a dormitar, jogar à batalha naval, passarem papelinhos às namoradas, ouvir música no mp3, smsar nos telemóveis e fazer jogos no tablet ou, quando se cansarem das distracções tecnológicas, pregarem mensagens idiotas nas costas dos colegas. Com efeito o aumento do número de aulas destina-se, como o Ministro Livro Aberto da Educação explicou, não a melhorar os conhecimentos das criancinhas mas a habituá-las desde logo a vergarem a mola para não estranharem quando chegarem ao mercado de trabalho, e caso sejam sortudos em serem contratados à semana, não se queixarem por serem obrigados a trabalhar não as oito horas do contrato mas as 16 de qualquer real e vulgar horário de trabalho. Também serão apagadas dos currículos as Aulas de Ensino Acompanhado (não precisamos de tolinhos nas escolas, esses podemos pô-los a fazer buracos nas obras) nem as Aulas de Enriquecimento Curricular pois é pernicioso meter nas cabeças dos petizes a ideia de enriquecimento, já para não falar nos ainda mais perniciosos conhecimentos que aí poderiam absorver como línguas estrangeiras, música, artes plásticas e outras palermices que só o deixam de ser quando os meninos são ricos. Também se incentivará o ensino de profissões, mas reduzindo o número de professores de tais cursos, pois os putos têm de aprender por eles como antigamente qualquer bom aprendiz fazia e ainda hoje o fazem os doutorandos nas Universidades. Do mesmo modo, e para incentivar o auto-didactismo, serão reduzidos os efectivos – mesmo que contratados a tempo parcial – de professores. Para o mesmo efeito será reduzido o número de escolas, agora aglutinadas em mega-centros escolares, e o número de turmas por escola, não sendo permitidas turmas-desperdício de apenas 20 alunos, mesmo no caso de delinquentes confirmados e a precisarem de atenção especial; o número mínimo de alunos é agora de 60, o que tem o benefício adicional de proteger a saúde dos professores, os quais poderão exercitar-se enquanto correm de um lado para o outro da sala de aulas, a separar brigas entre alunos, esclarecer dúvidas ou interceptar papelinhos românticos. No caso das turmas de ensino vocacional, as profissões a serem leccionadas serão sujeitas a sorteio, pelo que os alunos que hajam escolhido uma profissão não sorteada, deverão ir procurá-la no mercado de trabalho, perdendo deste modo o direito de voltar à preguiça escolar. E porque o mundo lá fora é uma selva, será também reduzido o número de funcionários, auxiliares pedagógicos, empregadas da limpeza, porteiros, senhores das reparações e outros, para que os alunos aprendam a desenrascar-se por si e se tornem auto-suficientes desde bem cedinho. Finalmente, a novidade mais revolucionária: reintroduziu-se a prática antiga de na mesma turma co-existirem 4 e mais níveis de ensino (‘tá bem, antigamente só havia 4 níveis porque quem estudava depois disso era rico e andava nos colégios). Esta medida inovadora pretende gerar o caos na cabeça dos alunos e a morte por exaustão dos professores. É uma excelente e comprovada estratégia para os alunos se ensinarem uns aos outros, permitindo ao Ministério arrecadar mais uns milhões de conquilhas não contratando professores, pois os alunos trabalham de borla. O facto dos alunos também não saberem muito mais do que os colegas que irão ensinar não é problema pois as crianças estão na escola não para aprender mas para não fazerem disparates na rua enquanto os pais estão no trabalho. A Confederação dos Livros de Cordel pretende exportar estas novas metodologias para o resto do mundo quando na próxima época de exames se comprovar o seu sucesso com 98% de chumbos.

domingo, 6 de outubro de 2013

 Acaba de terminar o mês sagrado da República (Às Vezes) dos Papiros, que foi este ano encerrado com uma festividade para ficar na História da região. Como se sabe, o mês sagrado muito exige aos devotos da religião Amo-te Muito pois não só têm de participar em todas as inúmeras celebrações religiosas, como ao mesmo tempo assegurar a vida quotidiana, ou seja o trabalho, que neste país é ao preço da uva mijona, duas tarefas já por si quase impossíveis de conciliar. Além disso, todos os crentes têm de se abster de declarações de amores públicos e privados, o que é um grande sacrifício para uns pinga-amores como os papirenses. No entanto o sacrificial mês sagrado tem também muitas alegrias para estes cidadãos. Há exibições de fogo de artifício e actividades guerreiras à saída dos templos, logo após os cultos, com rebentamento de carros, canalizações e por vezes até de passeantes nas proximidades, com vista a levar para o céu o maior número de fiéis que venham a sair e, aos que conseguirem escapar às explosões, fazê-los correr para fugir aos estragos e transportar ao mesmo tempo aqueles que não conseguem. Embora os líderes espirituais da religião Amo-te Muito se oponham a esta tradição popular por acharem que não só reduz o número de fiéis como poderão colocar ideias menos amorosas nas cabeças dos parentes das vítimas, o que é contrário a todos os mandamentos, os responsáveis pelos actos opõem-se a esta interpretação das palavras do Divino. Para os responsáveis pelas explosões – que geralmente ficam em casa, mandando os fiéis que os seguem rebentarem com carros e com eles próprios – este costume enraizado na tradição é a prova mais sublime de amor pois quando os fiéis saem dos cultos vêm mais do que purificados e portanto se morrerem nesse instante têm entrada directa no Paraíso, que melhor pode alguém oferecer como prova de amor ao seu semelhante? Porque razão os organizadores destes eventos declinam a suprema honra de mostrar amor aos outros e mandam terceiros realizar tais actos de fé, ninguém pôde ainda explicar, até porque os organizadores são pessoas discretas, com moradas desconhecidas na maior parte do tempo. Portanto nesta altura do ano, na República dos Papiros, as divergências entre os líderes espirituais da religião do estado e estas facções mais radicais costuma explodir… literalmente. Há quem diga até que estes são sinais duma imparável luta pelo poder no seio da estrutura eclesiástica, com os radicais quererem tornar-se os líderes incontestados. Lutas internas àparte, este ano o governo dos Papiros – e quebrando uma tradição de muitas décadas – decidiu juntar-se aos festejos. Com efeito, este ano durante o mês sagrado os papirenses fartaram-se encher as ruas com danças, cantares, concursos de pedrada, fogos lançados em casas e distribuição de panfletos eleitorais retirados das sedes de campanha sem consentimento dos donos, além de diários concertos de palavras de ordem, entoadas em coros polifónicos e contra-coros, uns a dizer “abaixo, abaixo, abaixo” e os contras a cantar “acima, acima, acima”, oferecendo um permanente espectáculo musical e de arremesso de pedras que foi um encanto. Perante todos os sinais de que o arraial não iria encerrar-se no fim do mês sagrado, o governo decidiu, num espírito demonstrativo do seu respeito pelos sentimentos religiosos do povo, juntar-se às celebrações, enviando para as ruas helicópteros, tanques, carros de assalto, tropas de choque, devidamente armadas de metralhadoras com balas a sério, granadas, e armas químicas que fazem no mínimo chorar. Do lado dos manifestantes apresentaram-se em cena as habituais pedras, fisgas e fundas, assim como os intemporais cocktails molotov e alguns com mais iniciativa exibiram até o poder de fogo das suas automáticas. A capital transformou-se num palco de guerra, com rebentamentos de engenhos explosivos, casas incendiadas, barricadas demolidas, lojas reduzidas a entulho pelo tiroteio e avanço dos carros de assalto e, como seria aliás de bom tom, vários cadáveres estendidos nas ruas ou a serem transportados para morgues improvisadas que o génio desenrrascador dos papirenses já vem de longe, como os próprios monumentos locais o atestam. Os países vizinhos ficaram todos muito perturbados e apelaram à calma, os líderes religiosos locais da facção pacifista “Vamos Lá a Respirar Fundo” também mas os ânimos estavam todos tão em brasa, no sentido mais ardente do termo, que ninguém chegou a ouvir os pacifistas. Aliás, com o barulho dos disparos, dos rebentamentos e das pás dos helicópteros seria muito difícil ouvir fosse quem fosse. Contra as acusações da comunidade internacional o governo papirense reponta que, sendo o fim das celebrações e estando todas as pessoas purificadas, que melhor prova de amor se podia apresentar do que mandar uns quantos milhares para os anjinhos, livrando-os até a uma vida dificílima nas ruas e empregos (àqueles que por um imenso milagre os possuam). A comunidade internacional, em manifesta ignorância dos ditames religiosos do Amo-te Muito, continuou a protestar, o que se espera aliás que faça sempre. Dentro da República (Às Vezes) dos Pairos os protestos são agora porque o governo só entrega os mortos à terra se as famílias assinarem uma declaração a afirmar que estes se suicidaram, o que talvez seja verdade pois quem enfrenta tanques com pedras só pode mesmo estar a cometer suicídio. No entanto as famílias recusam-se às assinaturas pois este é o maior pecado que interdita aos fiéis a entrada no Paraíso, mesmo se o dito cujo fiel estiver devidamente purificado. Embora as autoridades religiosas assegurem aos fiéis que documentos assinados na terra não têm qualquer validade no céu, que não se deixa enganar por burocracias, as famílias não se conformam, não assinam e os seus entes-queridos continuam a ocupar espaço. Isto está a estrangular os serviços de recolha de “suicidas” e forçou já o governo a vir fazer uma declaração pública que passamos a citar: “assinem lá, meus casmurros, a causa da morte ser suicídio é apenas um pró-forma exigido pelos nossos inimigos infiéis do Oeste, que como se sabe passam a vida armados em cowboys em cima de cavalos e atrás das vacas, mas são eles que têm a massa e os canhões. Nós sabemos que não são suicidas, vocês também o sabem e os próprios ainda melhor mas é para agradar aos cowboys, para eles nos darem o guito”. A comunicação governamental parece não ter surtido qualquer efeito, segundo o nosso correspondente no centro da acção. A guerra segue dentro de momentos.

sábado, 5 de outubro de 2013

Ilha dos Cocos Implementa Turismo Luxury Para Fugitivos a Julgamentos     
A Ilha dos Cocos inaugurou um novo serviço turístico luxury exclusivo para grandes magnatas e financeiros em apuros judiciais. Este serviço, que garantirá mesmo uma companhia aérea expresso apenas de 1ª classe, para evitar aos selectos passageiros o incómodo de aturarem a presença dos pobretões da Executiva ou Turística nas suas proximidades, será disponibilizado mediante critérios de admissão muito restritos. O primeiro critério exige que os clientes tenham praticado crimes de colarinho branco no valor mínimo de várias dezenas de milhões de dólares ou euros, preferencialmente na ordem dos milhares de milhões, ou que as suas falcatruas tenham sido responsáveis pelo colapso de bancos ou de economias de países inteiros. O segundo critério exige que o cliente falcatruante tenha processos a decorrer em tribunal onde é constituído arguido, sendo preferidos aqueles que se encontrarem envolvidos em vários destes processos. É exigida prova documental do seu estatuto de arguido, com documentos dos tribunais que claramente o comprovem, não fazendo prova recortes de jornais ou declarações de amigos, inimigos e vizinhos. Terceiro critério: exige que todos os prazos de prisão preventiva, medidas de coacção, restrições de circulação e outras chatices estejam devidamente caducadas, com comprovação do tribunal. Quarto: que os arguidos tenham sistematicamente faltado às audiências dos casos em que são réus por “problemas de saúde”, “ausência em parte incerta” ou interposição contínua avalanche de adiamentos, prorrogações, contestações e recursos por parte dos eus advogados de defesa. Quinto: apesar de terem estado sob termo de identidade e residência possuam actualmente passaporte válido e devidamente certificado pelos serviços oficiais responsáveis pela emissão deste tipo de documentos. Tenham decidido fugir, e com a massa toda num offshore dos muitos sedeados na Ilha dos Cocos. Esta nova joint-venture turística foi inaugurada ontem em aparatosa cerimónia em que compareceram o chefe de estado e todos os ministros e ricaços coquenses e está já com bookings superlotados até daqui a 3 anos, com clientes de todos os pontos do mundo, na sua grande maioria donos e CEOs de bancos, consultores financeiros, grandes multinacionais da área dos seguros, crédito, accounting criativo e outras importantes actividades financeiras. Perante a avalanche de clientes, a Ilha dos Cocos entrou já em negociações com as repúblicas das bananas vizinhas para expandir o negócio para outros destinos paradisíacos soem acordos de extradição para a União das Hortaliças ou a República dos Hambúrgueres. Este tão espectacular sucesso faz-nos acreditar que o fim da crise mundial está à vista, basta haver governos e grandes operadoras turísticas com ousadia suficiente para implementar estes e outros negócios de grande futuro.