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sábado, 12 de outubro de 2013
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
As autoridades sanitárias
encontram-se em estado de alerta, temendo uma epidemia ou, na mais salutar
hipótese, adulteração de especialidades alimentares e de prazer, nestes inclusos
cigarros, charutos, vinhos pedigree e
whiskys velhos de reconhecida reputação, consumidos pelos líderes de estado da
União das Hortaliças. É que nos últimos tempos os chefes de estado da União têm
proferido umas singulares afirmações sobre o estado do mundo que só por mero
acaso coincidem com a realidade. A líder da República Federal das Batatas,
apoiando o estranho discurso do seu ministro das finanças disse pouco antes de
ganhar as eleições, que as políticas de destruição económica que têm sido
aplicadas na União estavam a dar os seus resultados e via-se já um crescimento
económico assinalável na Zona da Moeda Única para Pategos. Toda a gente achou
esta declaração muito estranha, pois todos os indicadores económicos mostram
exactamente o oposto, mas como se estava em campanha eleitoral e os políticos
são especialmente sensíveis à bactéria februm
votaricum que os leva a proferir afirmações inverosímeis (afecção que
felizmente desaparece mal se contam os votos, regressando os afectados à sua
consciência normal) pesumiu-se que a pobre líder estivesse a ser vítima dessa
epidemia algo benigna. De facto só se torna problemática quando o político
afectado, mostrando perturbantes pudores morais e deslocadas honras à sua
palavra, tenta depois da eleição cumprir as promessas e diatribes mirabolantes
proferidas durante a fase mais aguda de febre votárica. Só que a seguir o chefe
em exercício – e é um duro exercício – do Potentado da Paelha, que é outro país
nas lonas, veio garantir e jurar e bater o pé de que desta é que o Potentado ia
sair da crise, e que o crescimento… para o ano… seria de 0,001% positivo, dado
que este ano ainda estava em queda mas era uma queda menos trambolhona do que
há 2 meses, e a taxa de desemprego estava já a baixar (altura em que os
jornalistas viraram câmaras e cabeças ao contrário, a tentarem apanhar o ponto
de vista do chefe de estado pois o desemprego mantém-se acima dos valores do
ano passado). Sabemos que a líder das Batatas, a querida e amada Toutiço
Despenteado, adora bolinhos e o chefe do Potentado gosta duns bons havanos,
tendo um fraquinho especial pelos que forem embrulhados em bom pilim da
República dos Hambúrgueres embora também se aceitem contribuições em pasta do
Cantão dos Queijos. Hoje foi a vez do representante da República dos Nabos, o
excelso Nabo-Maior, surpreender a opinião pública e os mercados com as suas
declarações quando visitava a Monarquia das Renas. Nabo-Maior foi durante
vários anos professor de economia numa das mais reputadas universidades da
República do Nabal e acumulou este trabalho com vários cargos de direcção em
alguns dos mais importantes bancos do nabal, incluindo aquele que é polícia dos
outros todos. Após um simpático almoço com a família real das Renas, foi o
catedrático entrevistado em conferência de imprensa onde, falando em nabês, que
é a única língua que domina em condições, se declarou muito surpreendido com os
mercados de cebolas, nabos, rábanos, cenouras, couves e outras hortaliças dado
que a cotação do nabal nesses mercados estava para esquecer, e não havia razões
para isso. Aliás, continuou, não percebia porque tantos bancos internacionais
diziam que o nabal estava a afundar-se, prontinho para segunda transfusão
vampírica. Não havia crise, a economia estava a crescer, a recessão acabara, os
juros da dívida – que durante todo o ano o senhor Nabo-Maior dissera estar em
níveis insustentáveis – eram perfeitamente comportáveis, ele sentia-se
imensamente perplexo por tantas previsões negativas. Perplexo também se
sentiram os jornalistas presentes e até a família real não conseguiu evitar
preocupados olhares de soslaio sobre o convidado. Porque no caso a dívida
continua a subir pois os juros da mesma vão adicionando aos anteriores e… bem,
porque se seu excelentíssimo líder dos nabos, catedrático de economia, dizia
não compreender os mercados e seus mercadores, então quem compreenderá? Então,
onde está a racionalidade dos mercados que os teóricos e práticos do assunto
garantem ser a base de funcionamento dos ditos? Para evitar mais embaraços, a
família real das renas arrastou o excelso Nabo-Maior para as traseiras do
palácio com o pretexto de terem de realizar a importantíssima missão de inaugurarem
uma estátua, descerrarem uma placa comemorativa, e partirem para a caça.
Intrigados com estas declarações, os nossos enviados foram investigar o caso. E
encontrámos o fornecedor dos charutos do presidente do Potentado da Paelha, dos
bolinhos da Toutiço despenteado e do catering
dos jantares de gala da União das Hortaliças, que nos confessou que além destes
negócios legítimos tinha um pequeno trabalhinho colateral, “por baixo dos
panos” e sem descontos à segurança social ou nos impostos, para arredondar o
orçamento lá de casa. Todos os seus produtos são docemente condimentados com
pozinhos brancos e licores vindos do produtor, sedeado no Charco do Milho. Os
ditos pozinhos e licores têm, confessou-nos, por vezes uns pequenos efeitos
viciantes (o que é bom para manter a clientela) e dão ao consumidor várias
horas de separação deste triste mundo, deliciando-o em coloridas ondas de
prazer. Infelizmente a Organização Mundial da Doença, e por conseguinte todos
os estados da União das Hortaliças, proíbem os condimentos em questão mas ele
tem de dar vazão ao produto. Informados destes desenvolvimentos a nossa cara
Toutiço despenteado pôs as mãos em diamante e declarou que não podia
preocupar-se com isso, tinha um governo para formar e os colegas de coligação
estavam muito renitentes em casar-se com ela, que era uma devoradora de
coligantes. O excelso presidente Nabo-Maior informou que não comentava e
somente o líder em exercício do Potentado da Paelha se dispôs a prestar declarações,
exclamando perante as provas: “oh, infelizmente não sei que charutos são, não
prestei atenção à marca pois entrei logo em órbita. Mas que são muito bons,
são. Podem dar-me o contacto pessoal do fornecedor?” quinta-feira, 10 de outubro de 2013
durante a
última comissão de coscuvilhice. Estas comissões são o desporto nacional dos
dirigentes políticos da República dos Nabos, que nelas se reúnem para dizerem
mal uns dos outros, falar da vida alheia e tentar descobrir quem é que tem mais
telhados de vidro; quem mais tiver é seleccionado como alvo do campeonato da
pedrada, que é assim como a segunda ronda do campeonato mas onde o objectivo é
não marcar golos e sim fingir que se mudam os maus hábitos, sem que de facto se
mude seja o que for das tradições e usos da vida pessoal e paralamentar. Sim,
para_lamentar, escrevemos bem. Dito de outro modo, as comissões de coscuvilhice
são assim a modos que um ritual para soltar tensões e dar, felizmente, trabalho
à nossa redacção. De outra forma teríamos já emigrado, como vários autarcas que
nem mesmo à frente de canteiros do nabal se safam na vida e têm de rumar a
outras paragens para meter a bucha na rama. Pois bem, na última sessão da
comissão da coscuvilhice que avaliava o potencial de arremesso dos sapos
tóxicos, o Ministro dos Carcanhóis declarou que nunca lidara com sapos tóxicos
ou dos outros, que nunca fora ao charco apanhá-los ou comerciá-los no mercado e
que aliás, até nem conseguia distinguir sapos de rãs e relas, que para si eram
tudo bichos viscosos, peganhentos e demasiado ruidosos, não deixavam ninguém
dormir de noite. Sabia que alguns diziam serem animais muito úteis para apanhar
mosquitos e similares mas ele, Ministro dos Carcanhóis nunca lhes descobrira
qualquer utilidade e aliás, embora alguns mais dados a jogos de apostas os
usassem em corridas de sapos, sempre achara serem fauna peçonhenta da qual era
melhor não se ter trato nem contacto algum. O problema foi que logo a seguir se
levantou um colega do Ministro que declarou sob juramento por sua honra e
lealdade que o ex-colega não só conhecia muito bem os sapos tóxicos como no
passado ambos se haviam entretido tardes inteiras a caçá-los nos charcos e a
vendê-los aos parvalhões no mercado da bicharada. Aliás faziam enormes caçadas
aos fins de semana, para não pequena fúria do pároco da aldeia, que vociferava
todos os domingos no púlpito sobre “os faltosos que vão apanhar os bichos das
bruxas”, o que conjurava no geral lágrimas de riso da congregação. E, mais
disse, e apresentou, fotografias de ambos de botas de pescador até à cintura,
posando ao lado dos baldes cheios de sapos, redes de caça nas mãos, braços nos ombros
um do outro, a sorrir para as câmara das namoradas. Isto causou um enorme
sururú, até porque todos queriam ver a colecção de fotografias, começando logo
a comparar galochas, baldes, redes de pesca, vestuário e namoradas. Uns mais
exaltados, ao descobrirem quem eram as namoradas, sentiram a velha dor de cotovelo
por mor das ditas lhes terem sido roubadas pelos dois atrevidos e gritavam
“Mentiroso! Mentiroso! Queremos a tua demissão!”. Naturalmente, o primeiro
ministro-só-de-nome veio pôr água na fervura e declarar que não demitia o
Ministro dos sapos e se alguém voltasse a chamar-lhe mentiroso, ao seu amigo
pessoal e co-companheiro nas caçadas a sapos (foi o silêncio na sala pois
ninguém sabia ainda destas actividades secretas do
primeiro-ministro-só-de-nome) ia-lhe às fuças e depois iam para tribunal. Como
ir a tribunal é uma imensa perda de tempo pois são sempre absolvidos aqueles
que a gente sabe, todos os presentes na comissão da coscuvilhice e depois no
hemiciclo, estendendo-se rapidamente o uso aos meios de comunicação e nabos em
geral, passaram a usar deliciosas alternativas ao vocábulo “mentira”. Assim,
agora nos mercados, é normal as nabas donas-de-casa chamarem às vendedeiras,
faltadoras à verdade, lapsadoras involuntárias, criativas dos acontecimentos, e
outros mimos do género. Conclui-se assim que a verdade sobre os sapos poderá
nunca ser apurada, nem a República do Nabal vir jamais a sair da crise, mas a
sua contribuição para o léxico do nabês e da riqueza de vocabulário mundial,
isso é que ninguém lhes tira (aos nabos).
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Na Confederação dos Livros de
Cordel as revoluções no ensino sucedem-se. E este ano promete ser absolutamente
revolucionário. Antes de mais, os professores vão fazer provas de
conhecimentos, onde serão avaliados por pais e alunos, embora as provas sejam
apenas uma praxe, dado que não contarão para efeitos de contratação ou de
classificação dos docentes. Mas servirão para os humilhar e fazer baixar a
bolinha pois é uma classe de trabalhadores muito convencida. Também se mudaram
novamente os programas das disciplinas, o que aliás é tradição anual mas desta
vez os manuais, mudados outra vez à última hora para que os pais possam gastar
por duas vezes o orçamento livreiro e promovam assim a recuperação das
editoras, não estão conformes aos novos programas, pelo que se terão de trocar
terceira vez, com nova interessante corrida de pais às livrarias para
encomendar os novos manuais. Como o que se quer é alunos bem preparados e com
capacidade de resistência a situações de stress, sem com isso perderem as suas
capacidades produtivas, foi aumentado o número e importância dos exames, que
passarão agora a contar 100% para a nota final, ignorando o trabalho realizado
ao longo do ano. A Associação dos Cábula Profissionais Especializados em
Copianço veio já saudar a medida, que irá beneficiar os seus associados e
promover a profissão e actividades paralelas. E como o que conta para nota é
apenas o exame ao fim de 3 anos, a novidade do aumento de horas de aulas não
perturba os cábulas que podem continuar a dormitar, jogar à batalha naval, passarem
papelinhos às namoradas, ouvir música no mp3, smsar nos telemóveis e fazer
jogos no tablet ou, quando se cansarem das distracções tecnológicas, pregarem
mensagens idiotas nas costas dos colegas. Com efeito o aumento do número de
aulas destina-se, como o Ministro Livro Aberto da Educação explicou, não a
melhorar os conhecimentos das criancinhas mas a habituá-las desde logo a
vergarem a mola para não estranharem quando chegarem ao mercado de trabalho, e
caso sejam sortudos em serem contratados à semana, não se queixarem por serem
obrigados a trabalhar não as oito horas do contrato mas as 16 de qualquer real
e vulgar horário de trabalho. Também serão apagadas dos currículos as Aulas de
Ensino Acompanhado (não precisamos de tolinhos nas escolas, esses podemos
pô-los a fazer buracos nas obras) nem as Aulas de Enriquecimento Curricular
pois é pernicioso meter nas cabeças dos petizes a ideia de enriquecimento, já
para não falar nos ainda mais perniciosos conhecimentos que aí poderiam
absorver como línguas estrangeiras, música, artes plásticas e outras palermices
que só o deixam de ser quando os meninos são ricos. Também se incentivará o
ensino de profissões, mas reduzindo o número de professores de tais cursos,
pois os putos têm de aprender por eles como antigamente qualquer bom aprendiz
fazia e ainda hoje o fazem os doutorandos nas Universidades. Do mesmo modo, e
para incentivar o auto-didactismo, serão reduzidos os efectivos – mesmo que
contratados a tempo parcial – de professores. Para o mesmo efeito será reduzido
o número de escolas, agora aglutinadas em mega-centros escolares, e o número de
turmas por escola, não sendo permitidas turmas-desperdício de apenas 20 alunos,
mesmo no caso de delinquentes confirmados e a precisarem de atenção especial; o
número mínimo de alunos é agora de 60, o que tem o benefício adicional de
proteger a saúde dos professores, os quais poderão exercitar-se enquanto correm
de um lado para o outro da sala de aulas, a separar brigas entre alunos,
esclarecer dúvidas ou interceptar papelinhos românticos. No caso das turmas de
ensino vocacional, as profissões a serem leccionadas serão sujeitas a sorteio,
pelo que os alunos que hajam escolhido uma profissão não sorteada, deverão ir
procurá-la no mercado de trabalho, perdendo deste modo o direito de voltar à
preguiça escolar. E porque o mundo lá fora é uma selva, será também reduzido o
número de funcionários, auxiliares pedagógicos, empregadas da limpeza,
porteiros, senhores das reparações e outros, para que os alunos aprendam a
desenrascar-se por si e se tornem auto-suficientes desde bem cedinho.
Finalmente, a novidade mais revolucionária: reintroduziu-se a prática antiga de
na mesma turma co-existirem 4 e mais níveis de ensino (‘tá bem, antigamente só
havia 4 níveis porque quem estudava depois disso era rico e andava nos
colégios). Esta medida inovadora pretende gerar o caos na cabeça dos alunos e a
morte por exaustão dos professores. É uma excelente e comprovada estratégia
para os alunos se ensinarem uns aos outros, permitindo ao Ministério arrecadar
mais uns milhões de conquilhas não contratando professores, pois os alunos
trabalham de borla. O facto dos alunos também não saberem muito mais do que os
colegas que irão ensinar não é problema pois as crianças estão na escola não
para aprender mas para não fazerem disparates na rua enquanto os pais estão no
trabalho. A Confederação dos Livros de Cordel pretende exportar estas novas
metodologias para o resto do mundo quando na próxima época de exames se
comprovar o seu sucesso com 98% de chumbos.domingo, 6 de outubro de 2013
Acaba de terminar o mês sagrado
da República (Às Vezes) dos Papiros, que foi este ano encerrado com uma
festividade para ficar na História da região. Como se sabe, o mês sagrado muito
exige aos devotos da religião Amo-te Muito pois não só têm de participar em
todas as inúmeras celebrações religiosas, como ao mesmo tempo assegurar a vida
quotidiana, ou seja o trabalho, que neste país é ao preço da uva mijona, duas
tarefas já por si quase impossíveis de conciliar. Além disso, todos os crentes
têm de se abster de declarações de amores públicos e privados, o que é um
grande sacrifício para uns pinga-amores como os papirenses. No entanto o
sacrificial mês sagrado tem também muitas alegrias para estes cidadãos. Há
exibições de fogo de artifício e actividades guerreiras à saída dos templos,
logo após os cultos, com rebentamento de carros, canalizações e por vezes até
de passeantes nas proximidades, com vista a levar para o céu o maior número de
fiéis que venham a sair e, aos que conseguirem escapar às explosões, fazê-los
correr para fugir aos estragos e transportar ao mesmo tempo aqueles que não
conseguem. Embora os líderes espirituais da religião Amo-te Muito se oponham a
esta tradição popular por acharem que não só reduz o número de fiéis como
poderão colocar ideias menos amorosas nas cabeças dos parentes das vítimas, o
que é contrário a todos os mandamentos, os responsáveis pelos actos opõem-se a
esta interpretação das palavras do Divino. Para os responsáveis pelas explosões
– que geralmente ficam em casa, mandando os fiéis que os seguem rebentarem com
carros e com eles próprios – este costume enraizado na tradição é a prova mais
sublime de amor pois quando os fiéis saem dos cultos vêm mais do que
purificados e portanto se morrerem nesse instante têm entrada directa no
Paraíso, que melhor pode alguém oferecer como prova de amor ao seu semelhante?
Porque razão os organizadores destes eventos declinam a suprema honra de
mostrar amor aos outros e mandam terceiros realizar tais actos de fé, ninguém
pôde ainda explicar, até porque os organizadores são pessoas discretas, com
moradas desconhecidas na maior parte do tempo. Portanto nesta altura do ano, na
República dos Papiros, as divergências entre os líderes espirituais da religião
do estado e estas facções mais radicais costuma explodir… literalmente. Há quem
diga até que estes são sinais duma imparável luta pelo poder no seio da
estrutura eclesiástica, com os radicais quererem tornar-se os líderes
incontestados. Lutas internas àparte, este ano o governo dos Papiros – e
quebrando uma tradição de muitas décadas – decidiu juntar-se aos festejos. Com
efeito, este ano durante o mês sagrado os papirenses fartaram-se encher as ruas
com danças, cantares, concursos de pedrada, fogos lançados em casas e
distribuição de panfletos eleitorais retirados das sedes de campanha sem
consentimento dos donos, além de diários concertos de palavras de ordem,
entoadas em coros polifónicos e contra-coros, uns a dizer “abaixo, abaixo,
abaixo” e os contras a cantar “acima, acima, acima”, oferecendo um permanente
espectáculo musical e de arremesso de pedras que foi um encanto. Perante todos
os sinais de que o arraial não iria encerrar-se no fim do mês sagrado, o
governo decidiu, num espírito demonstrativo do seu respeito pelos sentimentos
religiosos do povo, juntar-se às celebrações, enviando para as ruas helicópteros,
tanques, carros de assalto, tropas de choque, devidamente armadas de
metralhadoras com balas a sério, granadas, e armas químicas que fazem no mínimo
chorar. Do lado dos manifestantes apresentaram-se em cena as habituais pedras,
fisgas e fundas, assim como os intemporais cocktails molotov e alguns com mais
iniciativa exibiram até o poder de fogo das suas automáticas. A capital
transformou-se num palco de guerra, com rebentamentos de engenhos explosivos,
casas incendiadas, barricadas demolidas, lojas reduzidas a entulho pelo
tiroteio e avanço dos carros de assalto e, como seria aliás de bom tom, vários
cadáveres estendidos nas ruas ou a serem transportados para morgues
improvisadas que o génio desenrrascador dos papirenses já vem de longe, como os
próprios monumentos locais o atestam. Os países vizinhos ficaram todos muito
perturbados e apelaram à calma, os líderes religiosos locais da facção
pacifista “Vamos Lá a Respirar Fundo” também mas os ânimos estavam todos tão em
brasa, no sentido mais ardente do termo, que ninguém chegou a ouvir os
pacifistas. Aliás, com o barulho dos disparos, dos rebentamentos e das pás dos
helicópteros seria muito difícil ouvir fosse quem fosse. Contra as acusações da
comunidade internacional o governo papirense reponta que, sendo o fim das
celebrações e estando todas as pessoas purificadas, que melhor prova de amor se
podia apresentar do que mandar uns quantos milhares para os anjinhos,
livrando-os até a uma vida dificílima nas ruas e empregos (àqueles que por um
imenso milagre os possuam). A comunidade internacional, em manifesta ignorância
dos ditames religiosos do Amo-te Muito, continuou a protestar, o que se espera
aliás que faça sempre. Dentro da República (Às Vezes) dos Pairos os protestos
são agora porque o governo só entrega os mortos à terra se as famílias
assinarem uma declaração a afirmar que estes se suicidaram, o que talvez seja
verdade pois quem enfrenta tanques com pedras só pode mesmo estar a cometer
suicídio. No entanto as famílias recusam-se às assinaturas pois este é o maior
pecado que interdita aos fiéis a entrada no Paraíso, mesmo se o dito cujo fiel
estiver devidamente purificado. Embora as autoridades religiosas assegurem aos
fiéis que documentos assinados na terra não têm qualquer validade no céu, que
não se deixa enganar por burocracias, as famílias não se conformam, não assinam
e os seus entes-queridos continuam a ocupar espaço. Isto está a estrangular os
serviços de recolha de “suicidas” e forçou já o governo a vir fazer uma
declaração pública que passamos a citar: “assinem lá, meus casmurros, a causa
da morte ser suicídio é apenas um pró-forma exigido pelos nossos inimigos
infiéis do Oeste, que como se sabe passam a vida armados em cowboys em cima de
cavalos e atrás das vacas, mas são eles que têm a massa e os canhões. Nós
sabemos que não são suicidas, vocês também o sabem e os próprios ainda melhor
mas é para agradar aos cowboys, para eles nos darem o guito”. A comunicação
governamental parece não ter surtido qualquer efeito, segundo o nosso
correspondente no centro da acção. A guerra segue dentro de momentos.sábado, 5 de outubro de 2013
Ilha dos Cocos Implementa Turismo Luxury Para Fugitivos a Julgamentos
A Ilha dos Cocos inaugurou um novo serviço turístico luxury exclusivo para grandes magnatas e financeiros em apuros judiciais. Este serviço, que
garantirá mesmo uma companhia aérea expresso apenas de 1ª classe, para evitar aos selectos passageiros o incómodo de aturarem a presença dos pobretões da Executiva ou Turística nas suas proximidades, será disponibilizado mediante critérios de admissão muito restritos. O primeiro critério exige que os clientes tenham praticado crimes de colarinho branco no valor mínimo de várias dezenas de milhões de dólares ou euros, preferencialmente na ordem dos milhares de milhões, ou que as suas falcatruas tenham sido responsáveis pelo colapso de bancos ou de economias de países inteiros. O segundo critério exige que o cliente falcatruante tenha processos a decorrer em tribunal onde é constituído arguido, sendo preferidos aqueles que se encontrarem envolvidos em vários destes processos. É exigida prova documental do seu estatuto de arguido, com documentos dos tribunais que claramente o comprovem, não fazendo prova recortes de jornais ou declarações de amigos, inimigos e vizinhos. Terceiro critério: exige que todos os prazos de prisão preventiva, medidas de coacção, restrições de circulação e outras chatices estejam devidamente caducadas, com comprovação do tribunal. Quarto: que os arguidos tenham sistematicamente faltado às audiências dos casos em que são réus por “problemas de saúde”, “ausência em parte incerta” ou interposição contínua avalanche de adiamentos, prorrogações, contestações e recursos por parte dos eus advogados de defesa. Quinto: apesar de terem estado sob termo de identidade e residência possuam actualmente passaporte válido e devidamente certificado pelos serviços oficiais responsáveis pela emissão deste tipo de documentos. Tenham decidido fugir, e com a massa toda num offshore dos muitos sedeados na Ilha dos Cocos. Esta nova joint-venture turística foi inaugurada ontem em aparatosa cerimónia em que compareceram o chefe de estado e todos os ministros e ricaços coquenses e está já com bookings superlotados até daqui a 3 anos, com clientes de todos os pontos do mundo, na sua grande maioria donos e CEOs de bancos, consultores financeiros, grandes multinacionais da área dos seguros, crédito, accounting criativo e outras importantes actividades financeiras. Perante a avalanche de clientes, a Ilha dos Cocos entrou já em negociações com as repúblicas das bananas vizinhas para expandir o negócio para outros destinos paradisíacos soem acordos de extradição para a União das Hortaliças ou a República dos Hambúrgueres. Este tão espectacular sucesso faz-nos acreditar que o fim da crise mundial está à vista, basta haver governos e grandes operadoras turísticas com ousadia suficiente para implementar estes e outros negócios de grande futuro.
garantirá mesmo uma companhia aérea expresso apenas de 1ª classe, para evitar aos selectos passageiros o incómodo de aturarem a presença dos pobretões da Executiva ou Turística nas suas proximidades, será disponibilizado mediante critérios de admissão muito restritos. O primeiro critério exige que os clientes tenham praticado crimes de colarinho branco no valor mínimo de várias dezenas de milhões de dólares ou euros, preferencialmente na ordem dos milhares de milhões, ou que as suas falcatruas tenham sido responsáveis pelo colapso de bancos ou de economias de países inteiros. O segundo critério exige que o cliente falcatruante tenha processos a decorrer em tribunal onde é constituído arguido, sendo preferidos aqueles que se encontrarem envolvidos em vários destes processos. É exigida prova documental do seu estatuto de arguido, com documentos dos tribunais que claramente o comprovem, não fazendo prova recortes de jornais ou declarações de amigos, inimigos e vizinhos. Terceiro critério: exige que todos os prazos de prisão preventiva, medidas de coacção, restrições de circulação e outras chatices estejam devidamente caducadas, com comprovação do tribunal. Quarto: que os arguidos tenham sistematicamente faltado às audiências dos casos em que são réus por “problemas de saúde”, “ausência em parte incerta” ou interposição contínua avalanche de adiamentos, prorrogações, contestações e recursos por parte dos eus advogados de defesa. Quinto: apesar de terem estado sob termo de identidade e residência possuam actualmente passaporte válido e devidamente certificado pelos serviços oficiais responsáveis pela emissão deste tipo de documentos. Tenham decidido fugir, e com a massa toda num offshore dos muitos sedeados na Ilha dos Cocos. Esta nova joint-venture turística foi inaugurada ontem em aparatosa cerimónia em que compareceram o chefe de estado e todos os ministros e ricaços coquenses e está já com bookings superlotados até daqui a 3 anos, com clientes de todos os pontos do mundo, na sua grande maioria donos e CEOs de bancos, consultores financeiros, grandes multinacionais da área dos seguros, crédito, accounting criativo e outras importantes actividades financeiras. Perante a avalanche de clientes, a Ilha dos Cocos entrou já em negociações com as repúblicas das bananas vizinhas para expandir o negócio para outros destinos paradisíacos soem acordos de extradição para a União das Hortaliças ou a República dos Hambúrgueres. Este tão espectacular sucesso faz-nos acreditar que o fim da crise mundial está à vista, basta haver governos e grandes operadoras turísticas com ousadia suficiente para implementar estes e outros negócios de grande futuro.
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