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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sou Finalmente Califa no Lugar do Califa!
Está de parabéns o malvado grão-vizir Iznogood pois conseguiu finalmente realizar a ambição da sua vida: tornar-se califa no lugar do califa! Não por ter substituído o bondoso Harun Al Poussa que só pensa em dormir e não fazer mal a uma mosca mas o não tão benévolo Harun al-Malik, que diz que é o califa e canta para os amigos o bonito gezzel: daqui não saio, daqui ninguém me tira!, e de facto está de pedra e cal na cadeira do poder, embora o país esteja a ficar cada vez menos pedra sobre pedra (outro ilustre exemplo do: as pessoas estão muito pior mas o país, isto é, eu, estamos muito melhor) recusando partilhar bola e ceptro com quaisquer outros conterrâneos que não sejam os da sua tribo. Mas estes pequenos pormenores técnicos não preocupam Iznogood que, assim que viu os seus rapazes assenhorearem-se pelas armas duma mão cheia de cidades e vários campos petrolíferos na região, se proclamou califa em lugar do Al-Malik, apesar de não ser nem de longe aparentado com o Profeta, como competiria a um legítimo califa, mas quem se preocupa com legitimidades quando se têm as armas e os petrodólares nas mãos? Seja como for, não contente por andar a espalhar o caos em duas guerras civis em dois países diferentes e com sucursais abertas em vários outros, o auto-promovido califa decidiu proclamar-se o único e legítimo líder dos crentes, exortando estes em todo o mundo a segui-lo e obedecer-lhe. Foi a proclamação, como é de bom tom em todo o legítimo califa, proferida num recinto sagrado. Porém, antes de poder fazer a sua proclamação, teve de resolver um pequenino problema de dissidência religiosa e para esse efeito matou o imã responsável pelo referido lugar de culto. Um acto de evidente piedade e respeito religioso pois assassinando os que discordam da sua palavra, purificam-se os lugares santos… e outros nem assim tanto. Ao mesmo tempo, nas áreas do novo califado passou a ser proibido ouvir ou fazer música, excepto a religiosa, pois toda a gente sabe que o que dá alegria à vida e abertura de alma às gentes é pecado e a música não sacra é, evidentemente, uma das piores obras de Satã. Também foi instituído no califado uma hierarquização dos cidadãos em 1ª, 2ª, 3 categorias e por aí fora, classificação de especial importância quando se trata de obter comida ou aceder a tratamento médico. Assim, os cidadãos de 1ª, isto é aqueles que combatem nos exércitos do califa, mesmo sendo mercenários estrangeiros, têm prioridade de tratamento nos hospitais sobre todos os outros súbditos, sejam ou não nativos da terrinha onde o hospital está implantado. A lógica desta discriminação é simples: os combatentes combatem, logo precisam de cuidados médicos, os civis são os alvos a abater quando as coisas começam a ficar para o aborrecido ou se falha no confronto com o(s) inimigo(s) e deste modo, não sendo combatentes apesar de estarem no centro da guerra, não necessitam de tratamentos para coisa nenhuma. Os civis devem ficar contentes se puderem morrer em casa ou, no caso das crianças, na bicha para o pão ou a caminho da escola. O activo califa está também envolvido num ambicioso projecto imobiliário para o califado, a ser implementado em 3 fases: 1ª . destruição do maior número de casas e infra-estruturas, de modo a levar as pessoas a conhecerem o lado da existência mais simples, humilde e sem tentações ocidentais que lhes simplifiquem a vida, 2º - expulsar das casas, mesmo se em ruínas, todos os seus donos ou arrendatários que não concordem a 100% com a linha religiosa do califa, 3º - distribuir as casas assim vagas pelos seus mais queridos combatentes, fazendo a promessa para todos os outros combatentes menos preferidos que, se matarem mais uns milhares por dia, não importa idade, sexo, religião ou etnia, entrarão na lista de escolhidos para terem uma casa só sua, a oferecer no final da guerra. Este empreendimento espera-se que dê diversos frutos que levarão a paz, o progresso e o desenvolvimento ao novo califado (ou pelo menos aos bolsos do califa e amigos), razão pela qual o califa está a apelar a engenheiros e afins estrangeiros, para virem trabalhar para o califado, onde haverá numerosas oportunidades de enriquecer desde que se concorde sempre com o califa, se professe a religião do califa e se tenha poucos escrúpulos. Assim, a expulsão das pessoas das suas casa, por mais ancestral que seja a sua presença nesse lugar, permitirá reescrever o mapa étnico do califado e realizar uma purga dos elementos perniciosos e conspurcadores da pureza religiosa do califado, com especial destaque para os infiéis (que são todos os que não concordam com o califa). Além disso, a expulsão permite poupar um ror de balas que, de outro modo teriam de ser gastas nos infiéis pois as leis da guerra santa dizem que os infiéis têm de ser todos passados a fio de espada ou, em alternativa, a rajada de metralhadora. O facto de se atribuírem casas aos combatentes resolve desde logo o eventual problema da escassez de efectivos das tropas do califa; com a miséria que vai nesse mundo, qualquer desesperado estará pronto a alistar-se pois salvará a alma, poderá ao entrar no Paraíso escolher 70 familiares para lhe irem fazer companhia (não importando os pecados que estes tenham cometido), e se tiver o azar de não se tornar um mártir apesar de todas as oportunidades que a guerra oferece, poderá esperar com alma serena na palavra do califa, de que terá uma casa quando a guerra acabar. O que ele talvez não saiba é que o califa quer conquistar o mundo conhecido – ou pelo menos o que rodeia o Mare Nostrum – e portanto a guerra não acabará nos 100 anos mais próximos. Sendo que o califa é um líder religioso por inerência do cargo, e sendo que a sua religião é a única verdadeira, e a única que permite que tais violências sejam actos santificados, não admira que dos pecadores seja o Reino dos Céus.


terça-feira, 8 de julho de 2014

L’État, perdão, a Justiça Sou Eu
No Potentado da Paelha o rei João, mais conhecido por “Tarzan, o Caçador de Elefantes”, que diga-se a verdade têm sido muitos nos últimos tempos e não apenas dos de tromba e quatro patas, acaba de receber um gracioso presente de despedida, ao abdicar do trono para o único filho que até ao momento não se viu ainda implicado em escândalos financeiros e de tráfico de influências. Consistiu a dádiva numa campanha promocional (apenas para pessoas de sangue azul, fase experimental) designada por “Justiça à Medida do Freguês” que promete revolucionar a jurisprudência local e, com um bocadinho de lobbying e de cifrões, também a do mundo inteiro. Vem o pack de subscrição da promoção envolvido em linguagem de jurista e promulgado no Jornal das Cortes, de cor azul-bebé e papel couché 20 gr., para estar conforme aos figurinos da moda e sair bem nas capas da revista HOLA. O núcleo duro da promoção consiste numa alteração ao código civil, feita a contra-mão e no segredo dos corredores do Paço, com um decreto específico para o agora ex-rei, a ser a ele apenas aplicado, ou aos reis que lhe sucederem, o qual impede que este venha a ser julgado por quaisquer actos ilícitos durante ou após o seu reinado, incluindo o tráfico de marfim e contas em offshores. O que é uma medida muito sensata, dado o recente rosário – que ainda só vai no adro – de jogos financeiros pouco claros da família real. Pode até ficar descansado pois não será multado ou condenado por andar a matar elefantes, espécie em perigo de extinção e protegidas (pelos vistos, mal) pela CITES. Seria muito desconfortável o rei ir parar à prisão e ter de comer na cantina com os outros plebeus de más maneiras e pés a cheirar a chulé por algum pecadilho que a qualquer outro cidadão do reino valeria um quarto em hospedaria partilhada, a ver o sol aos quadradinhos. A campanha promocional “Justiça à Medida do Freguês” foi saudada com grande alegria pela família real e descontentamento geral da plebe mas as coisas são assim mesmo, esta é a ordem do mundo. Entretanto os criadores da promoção, tendo de acertar as contas da Paelha e perante o vasto número de monarcas, ditadores e presidentes vitalícios embrulhados em trapalhadas legais até ao tutano, decidiram estender a campanha a este selecto mercado internacional, usando o apelativo slogan “Justice R’Us Your Majesty” (promoção só disponível para clientes de comprovado sangue azul ou astronómicas contas bancárias que azulem o plebeísmo dos candidatos a clientes, garante-se total discrição quanto à lista de ofensas à lei a serem esquecidas). A nossa mais recente consulta ao site da campanha mostrou que a afluência foi tanta que o site está neste momento em baixo. Considerando também que esta ilibação de imputação de crimes às augustas personagens passará a vigorar já a partir de amanhã, as monarquias parlamentares definiram – já que nos outros regimes envolvidos não há direito a definições – que para se ser rei não basta agora ser o primogénito do ex-rei mas apresentar também no acto de tomada de posse (perdão, etronização) a declaração de IRS, a caderneta militar em dia, o registo criminal limpo, assim como ser desconhecido das bases de dados da Interpol, Europol e NSA. Entretanto o nosso jornalista de assuntos régios, em entrevista ao rei João e cliente n.º 1, perguntou como se sentia em ter uma lei feita à medida só para si que o iliba de quaisquer crimes passados e futuros. O rei na reforma sorriu e declarou que não percebia a razão do alarido que varria o reino, porque era evidente que “L’État c’est moi”. Poder-se-á pensar que o pober homem sofrerá de alguma megalomania mas não é o caso: simplesmente os tempos é que recuaram para o período anterior à Revolução Francesa.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Acidente Que é Ministro
No País das Vacas Sagradas, a braços com uma inflacção de violações e assassinato das vítimas, ao ponto duma mulher já não poder “ir lá fora sozinha para aliviar a tripa”, o novo Ministro da Justiça veio declarar que a partir de agora já não havia problema pois que as violações não eram crime mas simplesmente acidentes – do violador – e que “os rapazes serão sempre rapazes, portanto deixem-nos divertir-se”. Quando em conferência de imprensa foi instado por uma jornalista um pouco zangada sobre a razão da epidemia de estupros, o ministro perguntou-lhe se ela já o fora e se o não fora, agradecesse ao milhão de deuses do Olimpo local e não se preocupasse muito pois ele iria providenciar um grupo de rapazes para a colocar em pé de igualdade com as outras. Na mesma conferência de imprensa, o ministro anunciou um conjunto de medidas para acabar com esta epidemia de protestos femininos. Assim, a partir de agora, o mulherio vai passar a andar com uma tabuleta de trânsito pendurada do pescoço, com uma seta vermelha em tons fosforescentes tem escrito por cima “Cuidado Com os Acidentes”. As mulheres que se recusem a usar a placa de aviso serão severamente punidas, inclusive com a pena de morte por enforcamento após os “rapazes” terem feito o “serviço”. Aquelas que não areei e dêem polimento à placa, fazendo com que a sinalização seja deficiente durante a noite, altura em que estes “acidentes” mais ocorrem, terá de aguentar o “serviço” de boca calada ou vai presa e multada por não ter a sinalização de trânsito nas condições devidas. Por seu turno os violadores, perdão, os acidentados, terão direito a pedir indemnização à mulher violada, já que foi ela a causa do sinistro. E se isto não parecer sinistro, também não parecerá que um ministro diga que a violação é um acidente e que os rapazes serão sempre rapazes e que quando inquirido sobre o problema só perguntasse à repórter se ela fora violada, e como não fora, dissera um “então obrigado” por cima da burra e lhe virasse as costas. Com uma justiça assim, o maior acidente é o ministro mas para esse não é possível arranjar placa de sinalização, pois não caberia nas portas do Audi.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Aclarações da Novilíngua
Se o caro leitor tem tido dificuldades nos últimos anos em seguir o fluxo das notícias e por vezes sentido que estava no estrangeiro pois não percebia o que lhe estava a ser dito, acontece que se distraiu e não deu conta de que com o novo Acordo Ortográfico ocorreu uma revolução profunda da língua. E não é tanto em pérolas como o país árabe Catar, que deixou de ser Qatar porque os seus habitantes, vítimas de uma praga como as do Moisés, abandonaram a actividade petrolífera, passando a catar-se uns aos outros… Mas não desespere pois o nosso filólogo e chato de serviço vai desbravar-lhe as maravilhas da novilíngua, apetrechando-o para fazer um brilharete na pausa da bica, qual doutor encartado (e entalado). Eis aqui então o novo dicionário:
Aclaração – clarificar, esclarecer, em versão VIP.
Ajuda externa – ficar com dívida maior do que a que se tinha antes de pedir ajuda. Você fica mais esfolado e falido mas quem emprestou fica muito mais rico.
Ajustamento – forma de implosão económica, ou de engenharia social, consoante os especialistas, em que se corta rigorosamente tudo, incluindo os direitos laborais, sociais e civis do pessoal, de modo a que os 1% possam enriquecer mais um bocadinho. Estratégia a ser aplicada sempre que um país pede “ajuda externa”.
Austeridade – forma de destruir a economia em 3 passos, de modo a que quem provocou o colapso da dita saia a ganhar e se safe sem engulhos, deixando as facturas do calote para os outros pagarem (ex.: bancos).
Deflacçãoaquilo que está a acontecer mas todos juram que não está: a economia em estado de coma vegetativo. Fenómeno também conhecido por “avestruz com cabeça na areia”
Deslocalizaçãomudança de armas e bagagens duma indústria ou investimento para países onde é mais fácil encontrar mão-de-obra escrava (no sentido mais literal do termo) enquanto a sede da companhia se muda para paraísos fiscais para não pagar impostos e os antigos trabalhadores vão para o olho da rua.
Idoneidade – aquela virtude de honestidade e rectidão que uma pessoa de posses tem até se descobrirem os escândalos financeiros em que andou metido. Normalmente, mesmo depois de descobertos, a pessoal em causa continua a ser idónea. Pelo menos na sua apreciação pessoal. Quando a idoneidade é extremamente elevada costuma levar à falência de bancos.
Irrevogável – tomada de decisão que não é passível de ser abandonada… excepto se o seu abandono fornecer um tacho maior, com ordenado a condizer.
Linha vermelha – limite que não pode ser ultrapassado, excepto se estiver no caminho para o próximo “tacho”.
Mercados – grupo de agiotas que empresta dinheiro a juros muito altos e quando as coisas dão p’ró torto exige o seu de volta mesmo que isso viole a lei de vários dos países envolvidos.
Milagre económicoaquela coisa que todos dizem que está a acontecer mas não está. E que se acontecer será mesmo um milagre.
Offshore – paraíso, no geral tropical e de bonitas praias calmas, para todos aqueles que acham que os impostos são uma chatice e precisam de se ver livres do fiscal do Fisco por algum (muito, talvez eternamente) tempo. Nesses paraísos localizam-se anti-buracos negros: devolvem o dinheiro desaparecido no resto do mundo aos seus donos, mesmo que estes tenham outros nomes e moradas. Os investigadores em física das cordas acham que estes anti-buracos negros estão unidos por tubos de vermes a micro-buracos negros espalhados pelos bancos do mundo inteiro para fazerem desaparecer o dinheiro, o qual transitando pelos tubos de verme vai reaparecer no paraíso. É ou não milagre?
Reacção vagal – desmaio, mas apenas para viajantes em classe Executiva.
Recuperar da crise processo económico sintetizado na frase “o país está muito melhor, as pessoas é que estão pior” e que prática se pode descrever como após você levar um tiro no pé, recebe outro nos joelhos e finalmente um na cabeça. Quando o terceiro tiro foi dado, e se acertou no alvo, você recuperou da crise.
Reestruturação – modo simpático de dizer “despedimento colectivo”. Na prática uma reestruturação significa mandar umas centenas ou milhares de trabalhadores (perdão, colaboradores) para a rua, atirando-os para o desemprego eterno, de modo a tornar os lucros da empresa ainda maiores do que os actuais.
Reformas estruturais – algo com resultado parecido a disparar um morteiro contra uma habitação de madeira e taipa. Pegue-se numa economia com alguns problemas, aplique-se-lhe uma reforma estrutural e o resultado final será uma economia em cacos. A reforma estrutural tem como principal objectivo colocar toda a gente no desemprego, que para os mais sortudos será substituído por estágios de 6 meses seguidos de novos longos períodos de desemprego. O segundo objectivo é destruir todos os apoios e protecções sociais e direitos humanos básicos (como o da educação ou o simples direito a água potável) para os transaccionar no mercado livre dado que a vida, a saúde e o desenvolvimento humano são commodities (mercadorias).
Resgate – ao invés dos resgates de reféns, em que se paga uma maquia para o prisioneiro sair em liberdade, este é um resgate em que o “resgatado” fica refém e cativo dos interesses financeiros dos países “resgatadores”, nomeadamente salvar-lhe a economia e os bancos à conta dos juros agiotários que o “resgatado” tem de pagar. A soberania do país “resgatado” também vai à vida neste processo e os direitos básicos das pessoas são executados no pelotão de fuzilamento.
Shadow banking (ou banco sombra) – todos aqueles interessantes movimentos de capitais e investimentos sem regulação chamados “instrumentos financeiros”, que se fazem por debaixo dos panos e ficam fora das contas oficiais dos bancos. Costuma fazer falir países inteiros.
Swapsconhecidos no resto do mundo por CDS (credit default swaps) são uma espécie de seguro contra incumprimentos de dívidas com a especial atracção de que se você comprar um e a seguir apostar que o segurado vai entrar em incumprimento – e até der um empurrãozinho para isso acontecer – será você a receber a massa e nenhum dos directamente envolvidos. Dito de outro modo, um seguro contra fogo sobre a casa do seu vizinho, de que você receberá o prémio se a casa dele arder.
Tratado Orçamental – acordo odiado por todos os signatários excepto por quem o redigiu (talvez) e que oferece a quem o ratifica miséria eterna e a bênção dos mercados, com extrema-unção económica a ser decretada em conformidade com os desejos desses mesmos mercados.
Troikatriunvirato de uma saga de vampiros, em que as três partes nunca sabem para onde vão nem porque é que acontecem as coisas que acontecem, e também discordam de tudo excepto na máxima “sugá-los até ao tutano”. Também uma boa desculpa para os governos não parecerem tão maus quanto o são.
Tribunal Constitucional – a segunda boa desculpa de um governo para não parecer tão mau quanto o é. Com a diferença que, ao invés da Troika, este parece fazer a economia aguentar-se mais uns dias nos cuidados intensivos. A Troika, mais eficiente, provoca-lhe morte súbita.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Futebol Também É Obra de Satã, Por Isso… Vamos Fazer-vos em Pedacinhos

Na Democracia Popular dos Raptos foi proclamada uma fatwa, do grupo de Fatwas Alucinadas, que se fez circular por todas as casas e tendas de campos de refugiados da dita república e na qual consta: Por ordem do grande misericordioso Fornecedor da Ganza, foi definido após apaixonada discussão com os doutores da Lei e vários elefantes cor-de-rosa, que o futebol é obra de Satã, deliberação que teve sete votos a favor e três contra, sendo esses três jogadores de futebol no estrangeiro. Sabemos que vocês gostam muito de futebol, como aliás de todas as coisas de Satã pois são essas as apetecíveis, e estão a preparar-se para apoiar a selecção nacional. Dizemo-vos meus filhos, em nome do Misericordioso que não o façam pois sereis punidos com o fogo dos homens e o fogo do Inferno e não há necessidade de gastar tanto combustível e dinamite. Apelamos desde já a todos os combatentes da jihad para se mobilizarem, rebentando com tudo quanto seja ajuntamento de fãs para verem o futebol, estádios, vendedores ambulantes de camisolas e cachecóis com as cores nacionais, casa com bandeira pendurada á janela, e outras manifestações desta perniciosa cegueira. Já sabem, se matarem muita gente e morrerem no processo vão para o Céu sem sequer passar pela burocracia do tribunal celestial e terão muitas angelicais raparigas à vossa escolha, virgindade garantida com selo de fábrica. As bombas e cintos de explosivos, assim como as armas de fogo estão por vossa conta pois somos homens de religião e não nos dedicamos à venda de instrumentos de destruição maciça. Aos loucos com a teimosa mania de conhecerem os porquês das coisas (um destes dias lançaremos uma fatwa a proclamar que a curiosidade e o raciocínio também são obra de Satã) dizemos e declaramos, tendo o Misericordioso por nosso pilar de que o futebol é uma invenção de Satã… porque sim. A fatwa alcançou um enorme sucesso entre os leitores, tendo o grupo armado É Tudo Proibido Menos Matar, começado já a fazer rebentar casas e cafés onde o pessoal estava reunido a ver os jogos. Na sequência da devoção demonstrada pelo Tudo Proibido Menos Matar, que esperam assim alcançar o Paraíso sem enfrentarem julgamentos celestiais, metade da população local fugiu para os países vizinhos que, embora não estando muito melhores, pelo menos deixam o pessoal assistir aos jogos sem os fazer explodir ou cobrar imposto. Os redactores da fatwa, por via das dúvidas, decidiram viajar para outro continente para poderem ver todos os jogos de futebol sem que um maluco lhes ponha uma bomba debaixo das cadeiras e a detone à distância.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As Vossas Vaginas Pertencem-nos!
Está em discussão o Projecto de Lei de Regulação dos Nascimentos dos Nabos. O Nabal tem tido uma crise de nascimentos e o governo decidiu atacar o problema com um pacote troikano de medidas drásticas. Esta nova lei obriga a que as nabiças tenham pelo menos dez filhos, quem tiver menos paga multa, o que dá muito jeito para pagar a massa aos credores internacionais. Esta lei promulga ao mesmo tempo a proibição de quem esteja a trabalhar de engravidar, pelo que a oposição designou esta lei de Missão Maternidade Impossível. A lei funciona assim: o patrão garante que a empregada não engravida, com testes periódicos p’ra ver se há lá alguma coisa; se estiver, esta é de imediato despedida, sem direito a indemnização; ao mesmo tempo cada empregada tem de ter ao longo da sua vida activa pelo menos dez filhos para repovoar o contingente. Como estas duas obrigações são mutuamente exclusivas, a empregada a única coisa que tem a fazer é despedir-se por iniciativa própria para poder botar ao mundo a quota de rebentos atribuída por decreto. Assim, como o mulherio é obrigado a ir para casa, podem os locais de trabalho respirar finalmente em sã ética pois não há distracções para o sexo forte. A ideia, segundo o nosso espia nos Passos Perdidos que acompanhou os trabalhos do governo atrás da porta, é a de pouco a pouco instaurar um regime tipo talibã pois aí é garantido que a miséria é mais que muita mas se há coisa em que nesse regime os pobres não o são é de filharada. Deste modo resolve-se o problema dos nascimentos e garante-se que os salários da rapaziada sejam sempre de fome pois a competição para arranjar um trabalho será mais que muita. Graças a esta radical lei, serão agora proibidos todos os métodos contraceptivos e as penas por os usar estão em conformidade com a Escola Ceausesco. O debate desta lei deu origem a um evento inédito no Nabal: em vez de serem os trabalhadores a sair para a rua, foram os patrões que bieram manifestar o seu firme apoio à nova legislação que, de acordo com o Sr. Porcas e Parafusos, venda por Grosso e Atacado, se pode resumir em: Querem trabalho? Então as vossas vaginas pertencem-nos!
Meditação da Redacção: Ainda acreditam que vivem numa sociedade livre e igualitária?


sexta-feira, 20 de junho de 2014

É a nova campanha de desenvolvimento dos nabos, baseada na sábia premissa de que “se funciona lá fora, também deve funcionar cá dentro”, mesmo que os nativos do “lá fora” específico onde esta campanha foi buscar exemplo sejam ridicularizados em toda a parte pela sua geral falta de conhecimentos, quando não analfabetismo puro e duro. Mas o Nabal não se deixa assustar por estes pequenos danos colaterais e avançou em força, qual desembarque em Gallipolli, pois nada trava esta pequena pátria de bravos aventureiros e empreendedores que tantos alfobres novos deram ao mundo. A campanha centra-se na educação e pretende desenvolvê-la… para baixo. Porque para baixo é que está o petróleo e quando se descobrir o petróleo no Beato acaba-se a crise. Para que a educação venha por aí abaixo é primeiro necessário cortar na despesa: salários cortados, turmas cortadas (encaixotando os alunos todos em meia dúzia de turmas, de preferência com vários níveis na mesma para alargar a confusão), escolas fechadas ou aglomeradas em ajuntamentos muito grandes qu’é p’ra professores e alunos não se sentirem tão sozinhos nem criarem vínculos afectivos com o edifício onde trabalham e se darem na ideia de melhorar alguma coisinha. Este aglomeranço tem ganhos económicos extra que muito contribuirão para baixar o défice, pois turmas de 40 alunos em salas só de vinte podem ser ecologicamente aquecidas a calor humano, o que traz ainda a vantagem de que os alunos assim juntinhos (para os pais medricas podemos voltar à velha segregação de sexos), começam desde bem cedo a desenvolver as capacidades sociais necessárias para lidar com comboios com crises de identidade (pensam que são latas de sardinhas). Ao mesmo tempo é promovido o desporto, não pela construção de pavilhões para a Educação Física mas ensarilhando de tal modo os acessos à escola com remodelações, passadiços e outras obras, que os alunos ficam em forma mesmo sem darem por isso; tais acrescentos fornecem também vasto leque de distracções que os alunos acabam por ir para todos os lados menos para a escola, as taxas de absentismo escolar aumentam e melhora-se o analfabetismo funcional dos catraios, tornando-os mais aptos a entrar no mundo do trabalho que não deseja gente de estudos mas malta de cabedal para aguentar com o que tiver de ser, tal e qual como manda o acordo da Tripeça. Lá que os alunos, e em particular as alunas, possam ser atacados no caminho para a escola, bom, acidentes acontecem, não é verdade? É claro que há alunos e alunos. E para os alunos com direito a ser alunos estão a ser construídas várias escolas exclusivas, ao lado das que já existem e que são para todos (os com e os sem direito a serem alunos) com pastel que devia ir para… as escolas de todos. Porque razão o pastel dos impostos de todos vai não para as escolas de todos mas para as exclusivas, deve-se à solidariedade mesmo se à força, pois se o nabal quer alguns nabos com estudos, todos têm de fazer o sacrifício, logo todos têm de pagar… para alguns. E pagam. As carrinhas privadas e as obras nestas escolas exclusivas, os pequenos enriquecimentos de currículo como equitação, bailado ou ténis, enquanto as escolas para todos se vão parecendo cada vez mais, para gáudio da garotada, com versões modernas da “Casa dos Horrores”, ensinando desde logo aos petizes as possibilidades do negócio de apostas: é hoje ou amanhã que o tecto cai em cima da mola do stôr? Somos borrifados pelo cano rebentado das escadas agora ou logo?... Aliás esta escola de “Horrores” traz outras interessantes apostas na formação para a vida, como sejam: (1) buracos nas paredes – dão estágios gratuitos da carreira de espião, estimulando os nabinhos a espreitar por qualquer frincha ou abertura, sendo de especial nota os buracos nos balneários e WCs das raparigas que calhem ser paredes meias com os dos rapazes; (2) degraus partidos – iniciam à prática do surf ou da astronáutica, servindo de rampa de lançamento para os nabos distraídos que assim se podem transformar em múmias, para felicidade dos colegas que terão mais algumas superfícies onde treinar graffitis sem ouvirem da directora; (3) paredes a cair – estágio gratuito de empreendedorismo em que os alunos são estimulados a venderem bocados de caliça, tijolos e outros objectos mais ou menos contundentes, para serem usados em tiro ao professor; (4) telhados a meter água – material experimental de bombeiro especializado em cheias, que prepara o jovem para quando em casa o mesmo fenómeno ocorrer, conferindo-lhe espectacular habilidade a fintar pingos e a mudar alguidares e baldes cheios, mais depressa que o Bota de Ouro a fazer um remate. Com este treino vocacional é extremamente difícil às escolas para alguns competirem com as de-todos, pelo que, e aproveitando também os protestos dos nabos-pais mais descontentes (desses nunca faltam), o ministério, querendo proteger a iniciativa privada e o direito de escolha dos nabos, decidiu dar um cheque a todos os pais que queiram meter o seu rebento nas escolas para-alguns. Como o cheque tem o mesmo valor que custaria ter um nabo na escola para-todos e a para-alguns é mais cara, sucederá que a meio dos estudos o nabo terá de sair desta para ir para a escola para-todos, apanhando um choque tão grande que se lhe murchará a rama e desistirá de vez de estudar. O que será óptimo para reduzir o défice. Quem disse que a crise não é um oceano de oportunidades?