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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sou Finalmente Califa no Lugar do Califa!
Está de parabéns o malvado grão-vizir Iznogood pois conseguiu finalmente realizar a ambição da sua vida: tornar-se califa no lugar do califa! Não por ter substituído o bondoso Harun Al Poussa que só pensa em dormir e não fazer mal a uma mosca mas o não tão benévolo Harun al-Malik, que diz que é o califa e canta para os amigos o bonito gezzel: daqui não saio, daqui ninguém me tira!, e de facto está de pedra e cal na cadeira do poder, embora o país esteja a ficar cada vez menos pedra sobre pedra (outro ilustre exemplo do: as pessoas estão muito pior mas o país, isto é, eu, estamos muito melhor) recusando partilhar bola e ceptro com quaisquer outros conterrâneos que não sejam os da sua tribo. Mas estes pequenos pormenores técnicos não preocupam Iznogood que, assim que viu os seus rapazes assenhorearem-se pelas armas duma mão cheia de cidades e vários campos petrolíferos na região, se proclamou califa em lugar do Al-Malik, apesar de não ser nem de longe aparentado com o Profeta, como competiria a um legítimo califa, mas quem se preocupa com legitimidades quando se têm as armas e os petrodólares nas mãos? Seja como for, não contente por andar a espalhar o caos em duas guerras civis em dois países diferentes e com sucursais abertas em vários outros, o auto-promovido califa decidiu proclamar-se o único e legítimo líder dos crentes, exortando estes em todo o mundo a segui-lo e obedecer-lhe. Foi a proclamação, como é de bom tom em todo o legítimo califa, proferida num recinto sagrado. Porém, antes de poder fazer a sua proclamação, teve de resolver um pequenino problema de dissidência religiosa e para esse efeito matou o imã responsável pelo referido lugar de culto. Um acto de evidente piedade e respeito religioso pois assassinando os que discordam da sua palavra, purificam-se os lugares santos… e outros nem assim tanto. Ao mesmo tempo, nas áreas do novo califado passou a ser proibido ouvir ou fazer música, excepto a religiosa, pois toda a gente sabe que o que dá alegria à vida e abertura de alma às gentes é pecado e a música não sacra é, evidentemente, uma das piores obras de Satã. Também foi instituído no califado uma hierarquização dos cidadãos em 1ª, 2ª, 3 categorias e por aí fora, classificação de especial importância quando se trata de obter comida ou aceder a tratamento médico. Assim, os cidadãos de 1ª, isto é aqueles que combatem nos exércitos do califa, mesmo sendo mercenários estrangeiros, têm prioridade de tratamento nos hospitais sobre todos os outros súbditos, sejam ou não nativos da terrinha onde o hospital está implantado. A lógica desta discriminação é simples: os combatentes combatem, logo precisam de cuidados médicos, os civis são os alvos a abater quando as coisas começam a ficar para o aborrecido ou se falha no confronto com o(s) inimigo(s) e deste modo, não sendo combatentes apesar de estarem no centro da guerra, não necessitam de tratamentos para coisa nenhuma. Os civis devem ficar contentes se puderem morrer em casa ou, no caso das crianças, na bicha para o pão ou a caminho da escola. O activo califa está também envolvido num ambicioso projecto imobiliário para o califado, a ser implementado em 3 fases: 1ª . destruição do maior número de casas e infra-estruturas, de modo a levar as pessoas a conhecerem o lado da existência mais simples, humilde e sem tentações ocidentais que lhes simplifiquem a vida, 2º - expulsar das casas, mesmo se em ruínas, todos os seus donos ou arrendatários que não concordem a 100% com a linha religiosa do califa, 3º - distribuir as casas assim vagas pelos seus mais queridos combatentes, fazendo a promessa para todos os outros combatentes menos preferidos que, se matarem mais uns milhares por dia, não importa idade, sexo, religião ou etnia, entrarão na lista de escolhidos para terem uma casa só sua, a oferecer no final da guerra. Este empreendimento espera-se que dê diversos frutos que levarão a paz, o progresso e o desenvolvimento ao novo califado (ou pelo menos aos bolsos do califa e amigos), razão pela qual o califa está a apelar a engenheiros e afins estrangeiros, para virem trabalhar para o califado, onde haverá numerosas oportunidades de enriquecer desde que se concorde sempre com o califa, se professe a religião do califa e se tenha poucos escrúpulos. Assim, a expulsão das pessoas das suas casa, por mais ancestral que seja a sua presença nesse lugar, permitirá reescrever o mapa étnico do califado e realizar uma purga dos elementos perniciosos e conspurcadores da pureza religiosa do califado, com especial destaque para os infiéis (que são todos os que não concordam com o califa). Além disso, a expulsão permite poupar um ror de balas que, de outro modo teriam de ser gastas nos infiéis pois as leis da guerra santa dizem que os infiéis têm de ser todos passados a fio de espada ou, em alternativa, a rajada de metralhadora. O facto de se atribuírem casas aos combatentes resolve desde logo o eventual problema da escassez de efectivos das tropas do califa; com a miséria que vai nesse mundo, qualquer desesperado estará pronto a alistar-se pois salvará a alma, poderá ao entrar no Paraíso escolher 70 familiares para lhe irem fazer companhia (não importando os pecados que estes tenham cometido), e se tiver o azar de não se tornar um mártir apesar de todas as oportunidades que a guerra oferece, poderá esperar com alma serena na palavra do califa, de que terá uma casa quando a guerra acabar. O que ele talvez não saiba é que o califa quer conquistar o mundo conhecido – ou pelo menos o que rodeia o Mare Nostrum – e portanto a guerra não acabará nos 100 anos mais próximos. Sendo que o califa é um líder religioso por inerência do cargo, e sendo que a sua religião é a única verdadeira, e a única que permite que tais violências sejam actos santificados, não admira que dos pecadores seja o Reino dos Céus.


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