Impostos?! Por Favor, Eu Sou Rico, Não Posso Pagar
Impostos!
Há um enorme escândalo nos nossos mercados, não pelo preço das
sardinhas ou pela frescura da pescada de Moçambique, mas porque alguns
terríveis hereges terroristas que andam a exigir que os ricos paguem impostos. Ou
mais impostos, no caso dos ricos suficientemente honestos para fugirem aos
ditos com apenas 2/3 dos seus dividendos em vez dos 90% dos demais (os
verdadeiramente geniais fogem a 100% e ainda conseguem empréstimos a preço de
desconto). A fúria é de tal modo grande que os mercados pensam já em fechar, às
6ª e 2ª feiras durante um mês, como forma de luta contra a cobrança dos ditos
cujos às grandes empresas multinacionais, que o mesmo é dizer aos seus donos ou
aos clientes de hedge funds, CDS’s (vulgo
swaps) e outros instrumentos
financeiros criados para dar lucros colossais e rebentar com a carteira e a
vida do pacato cidadão que é parvo e pindérico o bastante para não se poder
abalançar a tais primores negociáticos. No centro desta tempestade está a
grande empresa e motor de busca da Rede-de-Pesca, a conhecida Goo-guu-gogle,
que tem usado offshores em todo o
lado, como é de bom tom numa empresa tão internacional, para se escapar ao
pagamento de nem mais nem menos do que 330 milhares de milhões de dólares de
lucros, ao que foi possível apurar, fora o resto que deve andar algures pelo shadow banking, que como se sabe é um
Reino das Sombras da saga Nicolas Flamel do Michael Scott. Mas como se pode
compreender, 330 milhares de milhões de lucros não é lucro bastante vai a
Goo-guu-gogle despedir algumas centenas de trabalhadores – perdão,
colaboradores, pois colaboram apenas quando à Goo-guu-gogle dá jeito – e
investir os lucros não na empresa mas nos offshores
e produtos financeiros especulativos mais rentáveis pois é aí que está o ganho
imediato, o que não pode ser levado a mal pois sendo a Goo-guu-gogle um motor
de busca, é natural que busque o melhor para os seus gestores de topo. Além
disso, devem ser os plebeus a pagar pelos serviços básicos de educação, saúde e
afins dos quais depois a Goo-guu-gole beneficia apesar de não ter pago os
impostos, quando mais não seja porque empregam os tolos que tiveram de estudar
para lá trabalhar ou porque quando a sede arder, serão os bombeiros, cujos
salários não pagou com os seus impostos (que não foram pagos) que virão de
graça e a seco apagar o fogo. Isto já para não falar das estradas, também pagas
com os impostos a que fugimos, e que servem para trazer os trabalhadores –
perdão, colaboradores – até aos open
offices da Goo-guu-gogle, para aí darem o litro e gerarem os lucros deste
global motor de busca. E como 300 milhares de milhões de lucros não são
naturalmente suficientes, os CEOs da Goo-guu-gogle estão a pensar reescrever a
tradição das relações laborais e passar a pagar meio salário aos colaboradores,
os quais passarão a trabalhar a meio tempo (se não for necessário, e é sempre,
ficar a trabalhar a tempo inteiro por causa de novas actualizações de rede). O
racional é simples: para que querem os trabalhadores, uma casa, uma refeição,
um autocarro, etc., quando podem muito bem sobreviver com meia casa, meio
médico, meio autocarro, meio sapato, meia roupa, meia comida, meia conta da
água, meia lâmpada, meio telefone, etc., etc., isto é que é viver dentro das
possibilidades!, que é a forma desta gentinha poder viver uma meia vidinha
honrada, não sejam ingratos e compreendam o grande serviço social que a
Goo-guu-gogle está a gerar com estas
decisões. Infelizmente alguns decisores não compreendem o alcance benemérito de
se fugir aos impostos, levando os pobres a pagá-los com maior língua de palmo e
deste modo não apenas passarem a valorizar mais o dinheiro como o que os
impostos pagam, nem o de despedir empregados quando se tem milhares de milhões
de lucros e decidiram colocar a Goo-guu-gogle em tribunal. A Goo-guu-gogle,
naturalmente, como defensora da liberdade e da justiça, qual paladina do Graal
dos novos tempos, decidiu enfrentar as acusações e além de apresentar em arena
a mais cara e reputada troupe de advogados, abriu a sua ronda de testemunhos,
citando os seus contributos para as sociedades de shadow banking, para os buscadores de toda e qualquer informação
(não classificada) na Rede-de-Pesca.embora os responsáveis pelo sucesso do
serviço sejam os servidores da empresa, os tais colaboradores, que esses sim,
esses têm de pagar impostos apesar do salário poder ser… atómico, e enfim, se a
Goo-guu-gogle for pagar impostos, o que é feito então dos privilégios dos
demasiado grandes para falir, hem? O que é feito dos privilégios dos 1%, ou
melhor dos 0,1%? Por favor, nós somos ricos, como querem que paguemos
impostos?! O juiz concordou, absolveu a Goo-guu-gogle e intimou os estados
queixinhas a deixarem os muito grandes para falir em paz e obrigarem antes os
pelintras a pagar mais impostos se precisam de equilibrar o orçamento, pois os
pelintras aguentam, aguentam… e se não aguentam vão viver para a lixeira, que
não lhes faz mal nenhum, ora essa!

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