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terça-feira, 8 de julho de 2014

L’État, perdão, a Justiça Sou Eu
No Potentado da Paelha o rei João, mais conhecido por “Tarzan, o Caçador de Elefantes”, que diga-se a verdade têm sido muitos nos últimos tempos e não apenas dos de tromba e quatro patas, acaba de receber um gracioso presente de despedida, ao abdicar do trono para o único filho que até ao momento não se viu ainda implicado em escândalos financeiros e de tráfico de influências. Consistiu a dádiva numa campanha promocional (apenas para pessoas de sangue azul, fase experimental) designada por “Justiça à Medida do Freguês” que promete revolucionar a jurisprudência local e, com um bocadinho de lobbying e de cifrões, também a do mundo inteiro. Vem o pack de subscrição da promoção envolvido em linguagem de jurista e promulgado no Jornal das Cortes, de cor azul-bebé e papel couché 20 gr., para estar conforme aos figurinos da moda e sair bem nas capas da revista HOLA. O núcleo duro da promoção consiste numa alteração ao código civil, feita a contra-mão e no segredo dos corredores do Paço, com um decreto específico para o agora ex-rei, a ser a ele apenas aplicado, ou aos reis que lhe sucederem, o qual impede que este venha a ser julgado por quaisquer actos ilícitos durante ou após o seu reinado, incluindo o tráfico de marfim e contas em offshores. O que é uma medida muito sensata, dado o recente rosário – que ainda só vai no adro – de jogos financeiros pouco claros da família real. Pode até ficar descansado pois não será multado ou condenado por andar a matar elefantes, espécie em perigo de extinção e protegidas (pelos vistos, mal) pela CITES. Seria muito desconfortável o rei ir parar à prisão e ter de comer na cantina com os outros plebeus de más maneiras e pés a cheirar a chulé por algum pecadilho que a qualquer outro cidadão do reino valeria um quarto em hospedaria partilhada, a ver o sol aos quadradinhos. A campanha promocional “Justiça à Medida do Freguês” foi saudada com grande alegria pela família real e descontentamento geral da plebe mas as coisas são assim mesmo, esta é a ordem do mundo. Entretanto os criadores da promoção, tendo de acertar as contas da Paelha e perante o vasto número de monarcas, ditadores e presidentes vitalícios embrulhados em trapalhadas legais até ao tutano, decidiram estender a campanha a este selecto mercado internacional, usando o apelativo slogan “Justice R’Us Your Majesty” (promoção só disponível para clientes de comprovado sangue azul ou astronómicas contas bancárias que azulem o plebeísmo dos candidatos a clientes, garante-se total discrição quanto à lista de ofensas à lei a serem esquecidas). A nossa mais recente consulta ao site da campanha mostrou que a afluência foi tanta que o site está neste momento em baixo. Considerando também que esta ilibação de imputação de crimes às augustas personagens passará a vigorar já a partir de amanhã, as monarquias parlamentares definiram – já que nos outros regimes envolvidos não há direito a definições – que para se ser rei não basta agora ser o primogénito do ex-rei mas apresentar também no acto de tomada de posse (perdão, etronização) a declaração de IRS, a caderneta militar em dia, o registo criminal limpo, assim como ser desconhecido das bases de dados da Interpol, Europol e NSA. Entretanto o nosso jornalista de assuntos régios, em entrevista ao rei João e cliente n.º 1, perguntou como se sentia em ter uma lei feita à medida só para si que o iliba de quaisquer crimes passados e futuros. O rei na reforma sorriu e declarou que não percebia a razão do alarido que varria o reino, porque era evidente que “L’État c’est moi”. Poder-se-á pensar que o pober homem sofrerá de alguma megalomania mas não é o caso: simplesmente os tempos é que recuaram para o período anterior à Revolução Francesa.


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