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sábado, 19 de julho de 2014

A Terceira Pessoa da Santíssima Trindade Vai Realizar o Sonho da Sua Vida
Pois é verdade, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, vai alcançar o sonho de há várias gerações: brincar aos pobrezinhos. Desta vez a sério, de verdade, verdadinha. Bom, e daí… talvez não. Lembram-se certamente da Quicas Espírito-Santo, filha dilecta da Santíssima Trindade, ter declarado às revistas da especialidade (vidas privilegiadas, festas e escândalos) há pouco mais de 1 ano que adorava ir passar os fins de semana à propriedade e empreendimento turístico da família nas Comportas do Castelo, pois era como se “fosse brincar aos pobrezinhos”, tão fresca, alegre, terra-à-terra, trovante e heróis do mar eram esses dias no meio da simplicidade campestre e daquilo que (na imaginação dos ricos e poderosos) é a idílica vida dos pobrezinhos, que é claro também bebem Moet et Chandon, devoram caviar iraniano e as mais exóticas carnes e peixes e têm a ser entregues por estafeta especial às portas das suas castiças barracas, os últimos modelos de Paris e Londres e vão é claro às badaladas recepções da moda, sem contar com os bonitos pópós topo de gama, comparando a beleza destes com os dos vizinhos entre duas bjecas na esplanada da taberna de bairro S’És do Benfica Paga, Hojá Caracoletas. Então temos a grata função de anunciar que o sonho de Quicas Espírito-Santo poderá, talvez cumprir-se de forma muito real e já não  no idílico cenário das Comportas do Castelo. Sucede que, em consequência de desaguisados e brigas internas pelo controlo do assento à esquerda do Pai (já que o lugar à direita está ocupado pelo Filho), se veio a descobrir uma gigantesca falta de fundos no banco, holdings, empresas, grupos, offshores, e bancos sedeados no estrangeiro que funcionavam mais ou menos como uma matrioska de vinte níveis, isto é, uma boneca que na verdade são vinte bonecas todas embutidas umas nas outras, embora só pareça uma. O pequeno problema é que o banco do céu de todos os regimes, porque o paraíso, ao invés dos seus defensores humanos, não é sectário, ao fazer as transferências de divisas celestiais entre as diferentes matrioskas, porque entre estas existem vazios para que os respectivos encaixes se possam realizar, foi perdendo um continuado produto de óbulos, bulas e outras celestiais divisas, acabando estas perdidas em offshores de localização incerta e ainda mais incertos donos, naquilo a que se deveria chamar um proveitoso e prolífico milagre económico. Infelizmente os anjos da ordem dos serafins afinaram com as jogadas das bonecas do Espírito Santo e decidiram iniciar uma guerra pelo controle do banco enquanto o Pai e supervisor bancário serenava os restantes habitantes do Paraíso, assegurando que estava tudo em ordem, era apenas uma pequena briga familiar, o banco celestial estava mais do que sólido e seguro. Infelizmente, para desgraça dos habitantes do paraíso, o pai, apesar de omnisciente, estava errado e veio agora a descobrir-se, por intermédio do arcanjo Gabriel o mensageiro, que as contas do celestial banco andavam a ser embelezadas de modo a tapar os buracos financeiros e que os empréstimos que circulavam entre bancos, holdings, empresas, grupos e offshores eram uma forma da família da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade emprestar a si mesma, dando como garantia do empréstimo os dividendos do negócio para que pedia o empréstimo e que eram de tão grande solidez financeira quanto um jogo de roleta num casino. Com entre estas estruturas todas havia os tais espaços vazios das matrioskas, uma significativa parte do dinheiro foi desaparecendo, daí os buracos que o arcanjo Gabriel veio mostrar na praça pública. O Pai não conseguiu acreditar que tivessem andado a fazer tais negociatas nas Suas Divinas costas, ficou furioso que tivessem dado cabo da Sua palavra e declarou que agora o que viesse à rede era peixe, não como os do milagre no Mar da Galileia pois não esperava que tais peixes se multiplicassem (mas manteve as mãos cruzadas me figas atrás das costas por via das dúvidas) e portanto o que aparecesse de dinheiro vivo ou apenas virtual era para ser penhorado para poder pagar aos clientes que havia financiado o falido banco, ordem para ser cumprida a partir de já e porque não era possível fazê-lo a partir de ontem. Ficou o povo paradisíaco tranquilo pois assim sendo as suas poupanças de boas acções não iriam desaparecer num buraco negro. Donde todos se prepararam para ver a família da Terceira Pessoa da Santíssima trindade cumprir o sonho da sua vida e ir brincar definitivamente aos pobrezinhos e com carácter de realidade na sua bonita casa das Comportas do Castelo. Mas os nossos abelhudos anjos caídos, que têm o defeito de passar a vida a escutar às portas e travessas, informaram já o nosso jornal de que infelizmente a Quicas Espírito-Santo irá ter uma triste surpresa: é que não irá poder brincar a sério aos pobrezinhos pois que a sua família era uma das financiadoras do banco, irá receber o dinheiro que nele investiu, além de ver perdoados todos os empréstimos contraídos no celestial banco que geria. Como bónus poderá também usar o dinheiro que foi caindo pelos buracos das matrioskas para as contas bancárias secretas em offshores e que oficialmente ninguém sabe quem são os titulares nem quanto dinheiro nelas está a repousar. Os outros habitantes do Paraíso, que são apenas simples e meros depositantes, não sendo portanto investidores e financiadores do banco, apesar de porem lá o seu dinheirinho, podem ficar descansados que para eles haverá a parte de leão do resgate: pagar as colossais dívidas e buracos financeiros do banco falido. Nas praças financeiras do Purgatório e Inferno vai ao rubro a revolta pelas perdas devidas à contaminação sistémica das bolsas por mor dos buracos do banco do Espírito Santo Ámen e os diabos já começaram a preparar os processos, pois advogados é o que mais há pelos infernos, a exigir a indemnização pelos prejuízos. O Paraíso, para manter a paz entre os três reinos espirituais, já se comprometeu a pagar todos os danos e prejuízos, sendo os habitantes do Paraíso chamados a pagar dos seus esmifrados bolsos os prejuízos que os investidores venham a declarar, mesmo aqueles que nunca ocorreram. Não será a família da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a brincar aos pobrezinhos mas os ingénuos cidadãos do Éden. É pena é que estas coisas só se descubram quando estala a guerra entre amigos e familiares que gerem os bancos, o que nos leva a perguntar: o que é que mais há por aí roído das traças?

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