A Terceira Pessoa da Santíssima Trindade Vai Realizar
o Sonho da Sua Vida
Pois é verdade, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito
Santo, vai alcançar o sonho de há várias gerações: brincar aos pobrezinhos.
Desta vez a sério, de verdade, verdadinha. Bom, e daí… talvez não. Lembram-se
certamente da Quicas Espírito-Santo, filha dilecta da Santíssima Trindade, ter
declarado às revistas da especialidade (vidas privilegiadas, festas e
escândalos) há pouco mais de 1 ano que adorava ir passar os fins de semana à
propriedade e empreendimento turístico da família nas Comportas do Castelo,
pois era como se “fosse brincar aos pobrezinhos”, tão fresca, alegre,
terra-à-terra, trovante e heróis do mar eram esses dias no meio da simplicidade
campestre e daquilo que (na imaginação dos ricos e poderosos) é a idílica vida
dos pobrezinhos, que é claro também bebem Moet et Chandon, devoram caviar
iraniano e as mais exóticas carnes e peixes e têm a ser entregues por estafeta
especial às portas das suas castiças barracas, os últimos modelos de Paris e
Londres e vão é claro às badaladas recepções da moda, sem contar com os bonitos
pópós topo de gama, comparando a beleza destes com os dos vizinhos entre duas
bjecas na esplanada da taberna de bairro S’És do Benfica Paga, Hojá
Caracoletas. Então temos a grata função de anunciar que o sonho de Quicas
Espírito-Santo poderá, talvez cumprir-se de forma muito real e já não no idílico cenário das Comportas do Castelo.
Sucede que, em consequência de desaguisados e brigas internas pelo controlo do
assento à esquerda do Pai (já que o lugar à direita está ocupado pelo Filho),
se veio a descobrir uma gigantesca falta de fundos no banco, holdings,
empresas, grupos, offshores, e bancos
sedeados no estrangeiro que funcionavam mais ou menos como uma matrioska de vinte níveis, isto é, uma boneca
que na verdade são vinte bonecas todas embutidas umas nas outras, embora só
pareça uma. O pequeno problema é que o banco do céu de todos os regimes, porque
o paraíso, ao invés dos seus defensores humanos, não é sectário, ao fazer as
transferências de divisas celestiais entre as diferentes matrioskas, porque entre estas existem vazios para que os
respectivos encaixes se possam realizar, foi perdendo um continuado produto de
óbulos, bulas e outras celestiais divisas, acabando estas perdidas em offshores de localização incerta e ainda
mais incertos donos, naquilo a que se deveria chamar um proveitoso e prolífico
milagre económico. Infelizmente os anjos da ordem dos serafins afinaram com as
jogadas das bonecas do Espírito Santo e decidiram iniciar uma guerra pelo
controle do banco enquanto o Pai e supervisor bancário serenava os restantes
habitantes do Paraíso, assegurando que estava tudo em ordem, era apenas uma
pequena briga familiar, o banco celestial estava mais do que sólido e seguro.
Infelizmente, para desgraça dos habitantes do paraíso, o pai, apesar de
omnisciente, estava errado e veio agora a descobrir-se, por intermédio do
arcanjo Gabriel o mensageiro, que as contas do celestial banco andavam a ser
embelezadas de modo a tapar os buracos financeiros e que os empréstimos que
circulavam entre bancos, holdings, empresas, grupos e offshores eram uma forma da família da Terceira Pessoa da
Santíssima Trindade emprestar a si mesma, dando como garantia do empréstimo os
dividendos do negócio para que pedia o empréstimo e que eram de tão grande
solidez financeira quanto um jogo de roleta num casino. Com entre estas
estruturas todas havia os tais espaços vazios das matrioskas, uma significativa parte do dinheiro foi desaparecendo,
daí os buracos que o arcanjo Gabriel veio mostrar na praça pública. O Pai não
conseguiu acreditar que tivessem andado a fazer tais negociatas nas Suas
Divinas costas, ficou furioso que tivessem dado cabo da Sua palavra e declarou
que agora o que viesse à rede era peixe, não como os do milagre no Mar da
Galileia pois não esperava que tais peixes se multiplicassem (mas manteve as
mãos cruzadas me figas atrás das costas por via das dúvidas) e portanto o que
aparecesse de dinheiro vivo ou apenas virtual era para ser penhorado para poder
pagar aos clientes que havia financiado o falido banco, ordem para ser cumprida
a partir de já e porque não era possível fazê-lo a partir de ontem. Ficou o
povo paradisíaco tranquilo pois assim sendo as suas poupanças de boas acções
não iriam desaparecer num buraco negro. Donde todos se prepararam para ver a
família da Terceira Pessoa da Santíssima trindade cumprir o sonho da sua vida e
ir brincar definitivamente aos pobrezinhos e com carácter de realidade na sua
bonita casa das Comportas do Castelo. Mas os nossos abelhudos anjos caídos, que
têm o defeito de passar a vida a escutar às portas e travessas, informaram já o
nosso jornal de que infelizmente a Quicas Espírito-Santo irá ter uma triste
surpresa: é que não irá poder brincar a sério aos pobrezinhos pois que a sua
família era uma das financiadoras do banco, irá receber o dinheiro que nele
investiu, além de ver perdoados todos os empréstimos contraídos no celestial
banco que geria. Como bónus poderá também usar o dinheiro que foi caindo pelos
buracos das matrioskas para as contas
bancárias secretas em offshores e que
oficialmente ninguém sabe quem são os titulares nem quanto dinheiro nelas está
a repousar. Os outros habitantes do Paraíso, que são apenas simples e meros
depositantes, não sendo portanto investidores e financiadores do banco, apesar
de porem lá o seu dinheirinho, podem ficar descansados que para eles haverá a
parte de leão do resgate: pagar as colossais dívidas e buracos financeiros do
banco falido. Nas praças financeiras do Purgatório e Inferno vai ao rubro a
revolta pelas perdas devidas à contaminação sistémica das bolsas por mor dos
buracos do banco do Espírito Santo Ámen e os diabos já começaram a preparar os
processos, pois advogados é o que mais há pelos infernos, a exigir a
indemnização pelos prejuízos. O Paraíso, para manter a paz entre os três reinos
espirituais, já se comprometeu a pagar todos os danos e prejuízos, sendo os
habitantes do Paraíso chamados a pagar dos seus esmifrados bolsos os prejuízos
que os investidores venham a declarar, mesmo aqueles que nunca ocorreram. Não
será a família da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a brincar aos
pobrezinhos mas os ingénuos cidadãos do Éden. É pena é que estas coisas só se
descubram quando estala a guerra entre amigos e familiares que gerem os bancos,
o que nos leva a perguntar: o que é que mais há por aí roído das traças?

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