Aclarações da Novilíngua
Se o caro leitor
tem tido dificuldades nos últimos anos em seguir o fluxo das notícias e por
vezes sentido que estava no estrangeiro pois não percebia o que lhe estava a ser
dito, acontece que se distraiu e não deu conta de que com o novo Acordo
Ortográfico ocorreu uma revolução profunda da língua. E não é tanto em pérolas
como o país árabe Catar, que deixou de ser Qatar porque os seus habitantes,
vítimas de uma praga como as do Moisés, abandonaram a actividade petrolífera,
passando a catar-se uns aos outros… Mas não desespere pois o nosso filólogo e
chato de serviço vai desbravar-lhe as maravilhas da novilíngua, apetrechando-o
para fazer um brilharete na pausa da bica, qual doutor encartado (e entalado).
Eis aqui então o novo dicionário:
Aclaração –
clarificar, esclarecer, em versão VIP.
Ajuda externa – ficar
com dívida maior do que a que se tinha antes de pedir ajuda. Você fica mais esfolado e falido mas quem
emprestou fica muito mais rico.
Ajustamento –
forma de implosão económica, ou de engenharia social, consoante os
especialistas, em que se corta rigorosamente tudo, incluindo os direitos
laborais, sociais e civis do pessoal, de modo a que os 1% possam enriquecer
mais um bocadinho. Estratégia a ser aplicada sempre que um país pede “ajuda
externa”.
Austeridade –
forma de destruir a economia em 3 passos, de modo a que quem provocou o colapso
da dita saia a ganhar e se safe sem engulhos, deixando as facturas do calote
para os outros pagarem (ex.: bancos).
Deflacção – aquilo que está a acontecer mas todos juram
que não está: a economia em estado de coma vegetativo. Fenómeno também
conhecido por “avestruz com cabeça na areia”
Deslocalização – mudança de armas e bagagens duma indústria
ou investimento para países onde é mais fácil encontrar mão-de-obra escrava (no
sentido mais literal do termo) enquanto a sede da companhia se muda para paraísos fiscais para não pagar impostos e os antigos trabalhadores vão para o
olho da rua.
Idoneidade – aquela virtude de honestidade e rectidão que uma pessoa de
posses tem até se descobrirem os escândalos financeiros em que andou metido.
Normalmente, mesmo depois de descobertos, a pessoal em causa continua a ser
idónea. Pelo menos na sua apreciação pessoal. Quando a idoneidade é
extremamente elevada costuma levar à falência de bancos.
Irrevogável –
tomada de decisão que não é passível de ser abandonada… excepto se o seu
abandono fornecer um tacho maior, com ordenado a condizer.
Linha vermelha –
limite que não pode ser ultrapassado, excepto se estiver no caminho para o
próximo “tacho”.
Mercados – grupo
de agiotas que empresta dinheiro a
juros muito altos e quando as coisas dão p’ró torto exige o seu de volta mesmo que isso viole a lei de vários dos países envolvidos.
Milagre económico
– aquela coisa que todos dizem
que está a acontecer mas não está. E que se acontecer será mesmo um milagre.
Offshore –
paraíso, no geral tropical e de bonitas praias calmas, para todos aqueles que
acham que os impostos são uma chatice e precisam de se ver livres do fiscal do
Fisco por algum (muito, talvez eternamente) tempo. Nesses paraísos localizam-se
anti-buracos negros: devolvem o dinheiro desaparecido no resto do mundo aos
seus donos, mesmo que estes tenham outros nomes e moradas. Os investigadores em
física das cordas acham que estes anti-buracos negros estão unidos por tubos de
vermes a micro-buracos negros espalhados pelos bancos do mundo inteiro para
fazerem desaparecer o dinheiro, o qual transitando pelos tubos de verme vai
reaparecer no paraíso. É ou não milagre?
Reacção vagal –
desmaio, mas apenas para viajantes em classe Executiva.
Recuperar da crise
– processo económico sintetizado na frase “o país está muito melhor, as pessoas é que
estão pior” e que prática se
pode descrever como após você levar um tiro no pé, recebe outro nos joelhos e
finalmente um na cabeça. Quando o terceiro tiro foi dado, e se acertou no alvo,
você recuperou da crise.
Reestruturação – modo
simpático de dizer “despedimento colectivo”. Na prática uma reestruturação
significa mandar umas centenas ou milhares de trabalhadores (perdão, colaboradores)
para a rua, atirando-os para o desemprego eterno, de modo a tornar os lucros da
empresa ainda maiores do que os actuais.
Reformas
estruturais – algo com resultado parecido a disparar um morteiro contra uma
habitação de madeira e taipa. Pegue-se numa economia com alguns problemas,
aplique-se-lhe uma reforma estrutural e o resultado final será uma economia em
cacos. A reforma estrutural tem como principal objectivo colocar toda a gente
no desemprego, que para os mais sortudos será substituído por estágios de 6
meses seguidos de novos longos períodos de desemprego. O segundo objectivo é
destruir todos os apoios e protecções sociais e direitos humanos básicos (como
o da educação ou o simples direito a água potável) para os transaccionar no
mercado livre dado que a vida, a saúde e o desenvolvimento humano são commodities (mercadorias).
Resgate – ao invés
dos resgates de reféns, em que se paga uma maquia para o prisioneiro sair em
liberdade, este é um resgate em que o “resgatado” fica refém e cativo dos
interesses financeiros dos países “resgatadores”, nomeadamente salvar-lhe a
economia e os bancos à conta dos juros agiotários que o “resgatado” tem de
pagar. A soberania do país “resgatado” também vai à vida neste processo e os
direitos básicos das pessoas são executados no pelotão de fuzilamento.
Shadow banking (ou banco sombra) – todos aqueles
interessantes movimentos de capitais e investimentos sem regulação chamados
“instrumentos financeiros”, que se fazem por debaixo dos panos e ficam fora das
contas oficiais dos bancos. Costuma fazer falir países inteiros.
Swaps – conhecidos no resto do mundo por CDS (credit default swaps) são uma espécie de seguro contra
incumprimentos de dívidas com a especial atracção de que se você comprar um e a
seguir apostar que o segurado vai entrar em incumprimento – e até der um
empurrãozinho para isso acontecer – será você a receber a massa e nenhum dos
directamente envolvidos. Dito de outro modo, um seguro contra fogo sobre a casa
do seu vizinho, de que você receberá o prémio se a casa dele arder.
Tratado Orçamental
– acordo odiado por todos os signatários excepto por quem o redigiu (talvez) e
que oferece a quem o ratifica miséria eterna e a bênção dos mercados, com
extrema-unção económica a ser decretada em conformidade com os desejos desses mesmos
mercados.
Troika – triunvirato de uma saga de vampiros, em que
as três partes nunca sabem para onde vão nem porque é que acontecem as coisas
que acontecem, e também discordam de tudo excepto na máxima “sugá-los até ao
tutano”. Também uma boa desculpa para os governos não parecerem tão maus quanto
o são.
Tribunal Constitucional – a segunda boa desculpa de um governo para não
parecer tão mau quanto o é. Com a diferença que, ao invés da Troika, este
parece fazer a economia aguentar-se mais uns dias nos cuidados intensivos. A
Troika, mais eficiente, provoca-lhe morte súbita.


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