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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Aclarações da Novilíngua
Se o caro leitor tem tido dificuldades nos últimos anos em seguir o fluxo das notícias e por vezes sentido que estava no estrangeiro pois não percebia o que lhe estava a ser dito, acontece que se distraiu e não deu conta de que com o novo Acordo Ortográfico ocorreu uma revolução profunda da língua. E não é tanto em pérolas como o país árabe Catar, que deixou de ser Qatar porque os seus habitantes, vítimas de uma praga como as do Moisés, abandonaram a actividade petrolífera, passando a catar-se uns aos outros… Mas não desespere pois o nosso filólogo e chato de serviço vai desbravar-lhe as maravilhas da novilíngua, apetrechando-o para fazer um brilharete na pausa da bica, qual doutor encartado (e entalado). Eis aqui então o novo dicionário:
Aclaração – clarificar, esclarecer, em versão VIP.
Ajuda externa – ficar com dívida maior do que a que se tinha antes de pedir ajuda. Você fica mais esfolado e falido mas quem emprestou fica muito mais rico.
Ajustamento – forma de implosão económica, ou de engenharia social, consoante os especialistas, em que se corta rigorosamente tudo, incluindo os direitos laborais, sociais e civis do pessoal, de modo a que os 1% possam enriquecer mais um bocadinho. Estratégia a ser aplicada sempre que um país pede “ajuda externa”.
Austeridade – forma de destruir a economia em 3 passos, de modo a que quem provocou o colapso da dita saia a ganhar e se safe sem engulhos, deixando as facturas do calote para os outros pagarem (ex.: bancos).
Deflacçãoaquilo que está a acontecer mas todos juram que não está: a economia em estado de coma vegetativo. Fenómeno também conhecido por “avestruz com cabeça na areia”
Deslocalizaçãomudança de armas e bagagens duma indústria ou investimento para países onde é mais fácil encontrar mão-de-obra escrava (no sentido mais literal do termo) enquanto a sede da companhia se muda para paraísos fiscais para não pagar impostos e os antigos trabalhadores vão para o olho da rua.
Idoneidade – aquela virtude de honestidade e rectidão que uma pessoa de posses tem até se descobrirem os escândalos financeiros em que andou metido. Normalmente, mesmo depois de descobertos, a pessoal em causa continua a ser idónea. Pelo menos na sua apreciação pessoal. Quando a idoneidade é extremamente elevada costuma levar à falência de bancos.
Irrevogável – tomada de decisão que não é passível de ser abandonada… excepto se o seu abandono fornecer um tacho maior, com ordenado a condizer.
Linha vermelha – limite que não pode ser ultrapassado, excepto se estiver no caminho para o próximo “tacho”.
Mercados – grupo de agiotas que empresta dinheiro a juros muito altos e quando as coisas dão p’ró torto exige o seu de volta mesmo que isso viole a lei de vários dos países envolvidos.
Milagre económicoaquela coisa que todos dizem que está a acontecer mas não está. E que se acontecer será mesmo um milagre.
Offshore – paraíso, no geral tropical e de bonitas praias calmas, para todos aqueles que acham que os impostos são uma chatice e precisam de se ver livres do fiscal do Fisco por algum (muito, talvez eternamente) tempo. Nesses paraísos localizam-se anti-buracos negros: devolvem o dinheiro desaparecido no resto do mundo aos seus donos, mesmo que estes tenham outros nomes e moradas. Os investigadores em física das cordas acham que estes anti-buracos negros estão unidos por tubos de vermes a micro-buracos negros espalhados pelos bancos do mundo inteiro para fazerem desaparecer o dinheiro, o qual transitando pelos tubos de verme vai reaparecer no paraíso. É ou não milagre?
Reacção vagal – desmaio, mas apenas para viajantes em classe Executiva.
Recuperar da crise processo económico sintetizado na frase “o país está muito melhor, as pessoas é que estão pior” e que prática se pode descrever como após você levar um tiro no pé, recebe outro nos joelhos e finalmente um na cabeça. Quando o terceiro tiro foi dado, e se acertou no alvo, você recuperou da crise.
Reestruturação – modo simpático de dizer “despedimento colectivo”. Na prática uma reestruturação significa mandar umas centenas ou milhares de trabalhadores (perdão, colaboradores) para a rua, atirando-os para o desemprego eterno, de modo a tornar os lucros da empresa ainda maiores do que os actuais.
Reformas estruturais – algo com resultado parecido a disparar um morteiro contra uma habitação de madeira e taipa. Pegue-se numa economia com alguns problemas, aplique-se-lhe uma reforma estrutural e o resultado final será uma economia em cacos. A reforma estrutural tem como principal objectivo colocar toda a gente no desemprego, que para os mais sortudos será substituído por estágios de 6 meses seguidos de novos longos períodos de desemprego. O segundo objectivo é destruir todos os apoios e protecções sociais e direitos humanos básicos (como o da educação ou o simples direito a água potável) para os transaccionar no mercado livre dado que a vida, a saúde e o desenvolvimento humano são commodities (mercadorias).
Resgate – ao invés dos resgates de reféns, em que se paga uma maquia para o prisioneiro sair em liberdade, este é um resgate em que o “resgatado” fica refém e cativo dos interesses financeiros dos países “resgatadores”, nomeadamente salvar-lhe a economia e os bancos à conta dos juros agiotários que o “resgatado” tem de pagar. A soberania do país “resgatado” também vai à vida neste processo e os direitos básicos das pessoas são executados no pelotão de fuzilamento.
Shadow banking (ou banco sombra) – todos aqueles interessantes movimentos de capitais e investimentos sem regulação chamados “instrumentos financeiros”, que se fazem por debaixo dos panos e ficam fora das contas oficiais dos bancos. Costuma fazer falir países inteiros.
Swapsconhecidos no resto do mundo por CDS (credit default swaps) são uma espécie de seguro contra incumprimentos de dívidas com a especial atracção de que se você comprar um e a seguir apostar que o segurado vai entrar em incumprimento – e até der um empurrãozinho para isso acontecer – será você a receber a massa e nenhum dos directamente envolvidos. Dito de outro modo, um seguro contra fogo sobre a casa do seu vizinho, de que você receberá o prémio se a casa dele arder.
Tratado Orçamental – acordo odiado por todos os signatários excepto por quem o redigiu (talvez) e que oferece a quem o ratifica miséria eterna e a bênção dos mercados, com extrema-unção económica a ser decretada em conformidade com os desejos desses mesmos mercados.
Troikatriunvirato de uma saga de vampiros, em que as três partes nunca sabem para onde vão nem porque é que acontecem as coisas que acontecem, e também discordam de tudo excepto na máxima “sugá-los até ao tutano”. Também uma boa desculpa para os governos não parecerem tão maus quanto o são.
Tribunal Constitucional – a segunda boa desculpa de um governo para não parecer tão mau quanto o é. Com a diferença que, ao invés da Troika, este parece fazer a economia aguentar-se mais uns dias nos cuidados intensivos. A Troika, mais eficiente, provoca-lhe morte súbita.

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