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terça-feira, 29 de julho de 2014

Não Acreditem nos Cientistas, Vão Antes à Bruxa
 Da República dos Hambúrgueres chega-nos uma nova intimação para mudarmos de vida, desta vez pela boca da congressista Pelada, que nos diz que não devemos acreditar nos cientistas mesmo que estes andem 30 anos a estudar um assunto antes de formularem uma opinião, dado que o Stephen Hawkings se enganou numa questão quântica. Pelo contrário, a brilhante congressista considera que devemos acreditar antes em bruxas, padres, imãs, pregadores histéricos de shows religiosos televisivos que nem precisam de estudar um assunto para debitar cá para fora as suas opiniões, pois vozes de burro não chegam ao céu mas arrebatam multidões. Especialmente se estas forem burras, perdão, de burras. Além disso, embora também se enganem que se fartam nas suas previsões e visões, ninguém anda a fazer estatísticas, pelo que a credibilidade destes iluminados (que só se enganaram na estrutura do Sistema Solar e na idade da terra por alguns milhares de milhões de anos) nunca é posta em causa. Para ser fiel a este recém-debitado conselho às massas, a congressista Pelada tem já na sua preenchida agenda para a próxima sessão do Congresso a missão de conseguir impugnar e proibir juridicamente um conjunto de práticas, utensílios e técnicas criadas pelos cientistas, dado que estes tipos não são de fiar. O nosso espião no gabinete da congressista Pelada acaba de nos enviar (por pombo-correio, dado ser proibido aos funcionários desse gabinete a utilização de emails, SMS ou qualquer outra tecnologia baseada nos estudos dos cientistas) algumas das propostas de legislação a apresentar ao Congresso:

1º - Proibir o uso e aplicação de vacinas. Têm sido concebidas por cientistas e como se sabe, não se pode acreditar nos cientistas porque eles se enganam. Em alternativa às vacinas, é esperar que a miudagem sobreviva às doenças e os que não sobreviverem, bom, não eram suficientemente fortes e… ups, isto é o Darwin, que foi outro cientista. Não sobreviveram porque foi a vontade de Deus e contra Deus não se discute. O facto do tremendo potencial humano se perder pela morte destas crianças não é problema que se nos afigure importante (desde é claro, que não sejam os filhos e netos da Sra. Pelada).
2º - Proibição do uso de anestesias mesmo que seja só para arrancar ou brocar um dente. As anestesias foram descobertas e testadas por cientistas. A partir de agora as operações serão todas a sangue frio e se você tiver medo por causa das expectáveis dores, sempre pode recorrer a um curandeiro cujos poderes são fundamentados na fé religiosa. Se você morrer após passar pelo curandeiro, a culpa não é dele mas sua pois não demonstrou fé suficiente e Deus só faz milagres aos membros do seu clube que tenham as quotas em dia (entenda-se, o dízimo).
3º - Proibição da prática da medicina e uso de produtos farmacêuticos. Foram criados por cientistas. Se você estiver doente ou precisar de remédios, vá à bruxa.
4º - Autópsias e medicina legal. Proibidas pois são actividades científicas, logo não de confiança, sem contar que constituem um grave pecado em várias religiões monoteístas. Não é importante saber porque um tipo morreu, pois não é importante arranjar cura para as doenças. Ajudar as pessoas a curar-se irá pesar no erário público e no fim de contas todos temos de morrer. Também não é importante descobrir de que forma alguém foi assassinado. Basta recorrer aos velhos métodos do tempo dos celtas ou ainda mais coevos. Pega-se no primeiro tipo que pertença ao estrato social ou grupo étnico que esteja em moda odiar no momento e atira-se de um penhasco abaixo. Se o gajo sobreviver, está inocente e será necessário ir procurar outro candidato. E o gajo morrer, então era culpado mesmo que de facto nunca tivesse nem sequer sonhado em assassinar o morto. Além disso, estes espectáculos-teste-de-inocência serão muito bons para manter o terror, e como tal o controlo, sobre a sociedade, e darão interessante entretém para as massas, pois já diziam os antigos romanos: “Pão e Circo”, para manter a turba quieta e contente.
5º - Ficam desde já proibidos os usos da informação de satélite, e como tal a detecção remota de incêndios, alterações no meio ambiente, prevenção de catástrofes naturais, como tornados e furacões, a meteorologia, o uso de telemóveis, Internet, GPS, etc. Foram tudo coisas inventadas ou descobertas por cientistas e nunca é demais dizê-lo, não se deve confiar nos cientistas porque, por vezes, eles se enganam. Assim, se quiser saber se um furacão ou tornado vem aí, se deve cobrir as couves para as proteger da geada ou se amanhã vai chover, consulte a bruxa ou adivinho do bairro. Quanto ao GPS não vale a pena usá-lo pois é muito mais divertido perguntar as direcções aos nativos que for encontrando pelo caminho mesmo que eles também as desconheçam e o enviem para o cú de Judas numa caça aos gambozinos. Além disso, até chegar ao cú de Judas sempre se pode irritar com a esposa e pregar uma galheta nos catraios que não param de gritar “mas ainda não chegámos?” Se precisar de telefonar ou avisar as equipas de resgate de que ficou soterrado debaixo dos escombros da sua casa, também não precisa de telemóveis, telefones ou Internet (incluindo Facebook, Tweeter, Instagram, YouTube and so forth). Use sinais de fumo como os antigos romanos e índios americanos. Se descobrir que estando soterrado não é possível enviar sinais de fumo, encomende-se ao Eterno e espere por um milagre. Se porventura tiver andado descuidado com os seus deveres religiosos, bom, o melhor é estoicamente resignar-se a morrer debaixo dos escombros.
6º - Também será proibida a utilização de comboios, aviões, automóveis, submarinos e escafandros, dado que também estes resultam das descobertas e experimentações de numerosos cientistas que, como se sabe, não são de confiança. Assim, aquela edificante cena da galheta nos miúdos e briga com a esposa quando for a conduzir a viatura deverá ocorrer em cima duma carroça. Se viver demasiado longe do emprego, também há uma solução: acampe à entrada deste ou, se não o deixarem acampar, construa uma barraca no desvão das traseiras. Economiza na renda de casa, no transporte, nos combustíveis e no feno para as cavalgaduras da carroça. Assim como não contribuirá para a esterqueira em que se transformarão as cidades, dado que em vez de automóveis, autocarros, motas e bicicletas, toda a gente andará a pé ou em carroças puxadas a bois e cavalos e estes não têm problemas quanto à localização das casas de banho. Perante este cheiroso cenário os ratos serão ainda mais numerosos, assim como as pulgas e os casos de peste. E como a medicina e antibióticos estarão proibidos, pelas razões já apontadas, o pessoal poderá morrer aos cachos, promovendo assim a renovação demográfica da cidade (se esta não acabar totalmente vazia pela pestífera mortandade).
7º - Será também proibido o uso de computadores, pelo que as empresas e bancos que precisarem de fazer contas podem recorrer a extensas linhas de funcionários armados de ábacos. Naturalmente a matemática complexa tornar-se-á impossível de utilizar e portanto coisas como construção de prédios de 10 andares, algorítmos de análise de funcionamento de maquinaria, modelos de previsão das reservas de água ou de eventuais afundamentos de terrenos ou danos durante sismos, só para citar alguns casos, deixarão de ser efectuáveis. Também não será necessário: perante uma catástrofe, corram a´s igrejas e rezem. Sobretudo para que não seja um 1755, onde a maior parte dos mortos se verificou precisamente nas igrejas (que desabaram). Se precisar por seu lado de contactar com alguém na outra ponta do mundo, escreva uma carta à moda antiga, preferencialmente em plaquinhas de argila e escrita cuneiforme, dado que o papel também foi inventado por cientistas, no caso chineses, e espere pela resposta ao fim de 10 ou mais meses. Se a comunicação tiver carácter de urgência pode sempre tentar a telepatia. Não garantimos que funcione mas pelo menos você terá uma boa desculpa para os atrasos na correspondência. A ausência de computadores terá ainda a vantagem adicional de não ser assediado pelos seus catraios para comprar a última play station e respectiva panóplia de jogos. Os putos, se quiserem matar o tempo, podem ir lá para fora para a rua, ser atropelados por carroças ou então dedicarem-se a brincar às guerras – já que os jogos de computador não estarão lá para os ensinar – jogando à pedrada uns com os outros. Você, por seu lado, poupará montes de dinheiro, até porque se eles aparecerem em casa com as cabeças partidas não terá de ir ao hospital pois estes estarão proibidos, e poderá antes ir ao padre da freguesia para benzer a fractura.
8º - Fica também interdita a utilização de sabão e bebidas gaseificadas. Porque ambos foram inventados por cientistas que se entretinham a fazer experiências químicas. Assim, para lavar a roupa, use a cinza e a urina como faziam as lavadeiras medievais e as escravas romanas e para beber uma gasosa pegue num copo de água e borbulhe lá para dentro a sua respiração. Será uma porcaria, de acordo, mas pelo menos não é científico.
 9º - Também será punido com prisão e multa o uso e realização de fotografia e vídeo, pois estes são igualmente resultado dos estudos dos cientistas que, como se sabe, devem ser olhados com desconfiança e jamais utilizados. Assim, se você quiser recordar os seus entes queridos ou o último lugar onde passou as suas férias, contrate um escultor para fazer o busto da pessoa ou um painel do seu lugar de ripanço. Poderá ser muito mais complicado enfiar os bustos dos seus miúdos, mãe, gato e cão na carteira, e terá de alugar uma carroça para levar a casa dos amigos os retratos das suas férias mas os museus terão com toda a certeza um muito maior acervo de mamarrachos nos armazéns.
10º - Também não será mais permitida a utilização de ligas metálicas especiais, e deste modo de toda a espécie de produtos com elas fabricados, pois estas ligas foram descobertas por cientistas e muitos desses produtos também. Assim, se cortar uma perna perder um olho ou ficar sem uma mão, e em consequência disso necessitar duma prótese, recorra à intemporal pala no olho, perna de pau e gancho de metal. Provavelmente não será capaz de regressar à sua antiga profissão mas pode sempre mudar de via e tornar-se pirata, que é uma profissão em ascensão e com largo futuro e não apenas nas praças financeiras internacionais.
 
11º - Também estará proibido o uso de aparelhagens sonoras, luzes de discotecas e electricidade em geral, dado que tudo isto foi também inventado e descoberto por cientistas. A interdição das aparelhagens sonoras, em conformidade aliás com certas religiões cujos líderes mais destravados proíbem a audição de música, poderá pôr os nervos da juventude em franja mas em contrapartida, estamos seguros de que será saudada com enormes suspiros de alívio por parte de quase todos os condomínios do mundo. A proibição da geração e utilização de electricidade terá apenas vantagens: a vida dos ladrões ficará consideravelmente mais simplificada e já poderão ter colarinhos de outras cores que não os brancos, os namorados em vez de usarem emails e sms terão de se dirigir às janelas das amadas e dedicar-lhes serenatas, para alegria dos professores de música, cães e gatos, que deixarão de ser os únicos alvos das botas da vizinhança. E também, confessemos, nada mais romântico do que andar de candeia ou coto de vela a passarinhar pela casa, mesmo que os reposteiros, cortinados e roupa de cama peguem fogo com muito mais frequência. Além disso, a dificuldade em ler um livro à luz de velas levará a um aumento da massa crítica de ignorantes, que é mesmo o que o mundo está a precisar.
12º - Como a investigação sobre doenças provocadas por vírus será também proibida ou na pior das hipóteses ignorada, isto também constituirá uma boa notícia para os doentes de ébola. Se estiver com febre e a deitar sangue por todos os poros, não faça uma curta ao hospital, que não vale a pena. Invista antes numa turística viagem de carroça até ao curandeiro mais longínquo e com fama de destruir a doença fazendo sacrifícios aos espíritos, para os apaziguar. Terá uma interessante experiência antropo-cultural que poderá contar aos amigos e vizinhos, caso sobreviva à viagem de regresso (e às práticas do mágico) e ainda consiga abrir a boca. Se por acaso durante a viagem contaminar um monte de gente, a começar pelo próprio curandeiro, tornando deste modo incontrolável a praga letal da febre hemorrágica, ah, bem, acidentes acontecem.
 
13º - Será também proibido nas escolas o ensino da teoria da evolução das espécies, de Darwin, a teoria do Big Bang e da criação do sistema solar, assim como todas as outras matérias científicas pois não devemos poluir a cabeça das criancinhas com o método e pensamento científico, não se vá dar o caso destas começarem a pensar pela sua cabeça e começarem a fazer perguntas incómodas. Em substituição destas matérias será ensinada a teoria do criacionismo tal e qual como vem na Bíblia, e que ensina que o mundo foi criado em 6 dias (retirar-se-á a referência ao descanso do Altíssimo no 7º, não se vá dar o caso de as criancinhas começarem a contemplar ideias sindicalistas), e os animais e o ser humano – Adão – foram feitos a partir do barro, e depois de Adão se ter chateado com as companhias animais que Deus lhe deu, ter perdido uma costela para dela ser criada a mulher. Esta edificante história ensinará aos nossos vindouros que quando adoecermos não será necessário ir ao médico mas simplesmente ao oleiro, dado que viémos todos do barro.

Saudamos a iluminada visão da congressista Pelada que deste modo deverá conduzir-nos à brilhante ignorância da Idade das Trevas, ou talvez mesmo, se a sua cruzada for bem sucedida, à Idade da Pedra (lascada).

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