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terça-feira, 15 de julho de 2014

Tratados?! Quais Tratados?
Um novo nicho de mercado acaba de nascer na União das Hortaliças, o qual explora os potenciais ilimitados do stock de tratados internacionais como papel higiénico de luxo. Não porque o papel seja de duração ilimitada mas porque a incontável papelada dos tratados da União dá para ser transformada em rolinhos do simpático papel (quando não se esfarela nas mãos nem o cachorro lá de casa decide brincar aos anúncios) até ao Dia de São Nunca à meia-noite. A ideia nasceu de uma dessas inspirações da m… que ocorrem quando estando sentados a fazer certas coisas de grande importância naquela divisãozinha que os nossos avós chamavam a “privada”. Milkas Rebentika, cidadão da Democracia da Moussaka a quem as políticas de resolução da crise da União rebentaram com a sua subsistência e quase também com a capacidade de continuar a ir à sala de meditação tripal, ao pensar nas recentes declarações dos maiores políticos do Norte, e em especial os da República Federal das Batatas que se reúnem na capital das Bolas de Berlim para decidir o futuro de todo o continente, deu por si a olhar em paralelo e infinito para o rolo de papel higiénico que tinha pendurado no gancho da parede (o suporte de louça já fora vendido no “prego”). Tendo recordado que nos tratados e leis fundamentais da União estava estabelecido o princípio da igualdade de todos os cidadãos da União mas que na realidade quando tocava a partilhar deveres e direitos, havia uns que eram mais iguais do que outros, que tendo o direito pelo Tratado de Livre Circulação a poder trabalhar em qualquer país da União sem entraves ou barreiras, na verdade havia vários países que ou impediam a entrada aos nativos de outros estados da União, considerados inferiores, ou que simplesmente expulsavam os emigrantes desses estados se porventura estes perdessem os empregos e não arranjassem ouros no espaço de 3 meses (e com a crise, está-se mesmo a ver o filme…), tendo verificado que a noção de solidariedade institucional e entre países só funcionava quando se tratava de salvar as finanças e bancos do norte, esfolando-se depois todos os nativos do sul, que passavam além disso a serem apontados como os reais culpados do problema, sendo que em vez dos princípios de respeito pela identidade dos povos e igualdade de direitos dos mesmos se estava a assistir a sucessivas expulsões, destruições de casas e haveres e deportações de grupos sociais e étnicos minoritários, em arrepio dos tratados e cartas de princípios que tal proibiam sem que ninguém levantasse um dedo contra a violação dos mesmos, verificando enfim que nesta União alguns tinham de ver os salários reduzidos a níveis microscópicos e aumentado o tempo de trabalho até à idade de poderem descansar as botas enquanto noutros havia aumentos de salários, redução de cargas fiscais e redução dos anos de serviço, concluiu que a noção de solidariedade entre as nações, igualdade de direitos entre os povos, liberdade para todos de circularem à vontade dentro da União, a defesa e respeito enfim pelos direitos mais básicos de qualquer cidadão da União há muito que era letra morta, e apenas vigoravam a gora o Tratado da Austeridade, o Tratado de Defesa das Fortunas Demasiado Grandes Para Falir (mesmo se falissem estados inteiros à conta disso) e o Tratado da Contenção Orçamental, Milkas Rebentika concluiu que tinha em mãos não a porcaria duma hora mas o negócio, a oportunidade duma vida! Como não tinha dinheiro para pagar a ligação à Internet pois ia-se-lhe todo nos impostos para pagar o resgate do país, fez uma ligação manhosa a partir duns fios descarnados na rua e enviou um mail o Conselho da Comissão da União das Hortaliças a pedir se por favor lhe poderiam enviar todos os tratados que tinham sido assinados e rectificados, incluindo convenções e tratados internacionais, desde que a União fora fundada, pois precisava desse material apra iniciar uma start-up que revolucionaria o mercado da reciclagem na União e sem precisar de fundos do Horizon 2020. Prometia também uma comissão de 10% aos Comissários, caso estes lhe enviassem os tratados todos sem fazerem perguntas nem indagarem do teor, funcionamento ou legalidade da start-up em questão. Naturalmente, pretendia apenas aqueles tratados que a Comissão considerasse que já não tinham qualquer utilidade ou que porventura tivessem ficado esquecidos nalguma gaveta perdida. Para enorme pasmado espanto feliz de Milkas Rebentika, ao fim de um mês de silêncio uma frota de camiões TIR sem condutor estacionou à porta da sua barraca, atulhados de dossiers e tratados da União, sobretudo na área dos direitos civis, laborais, estado social, equidade social e responsabilidade empresarial. Milkas Rebentika esfregou as mãos, todo contente e atirou-se de imediato ao trabalho. Actualmente as casas de banho da Comissão e do Parlamento da União das Hortaliças estão a ser abastecidas pela fábrica artesanal de Milka Rebentika com papel higiénico reciclado. E o negócio vai tão de vento em popa que Milkas já escreveu para a Organização das Nações Desunidas e para uma série de países fora da União, para lhes fornecer os tratados, convénios, moratórias, acordos de paz e outros que tenham sido de alguma forma ignorados, esquecidos ou caducado por manifesto desinteresse das partes. Na sua mais recente entrevista um sorridente Milkas Rebentika, agora gordinho e com um havano ao canto da boca, garantiu-nos que tem já material para a sua fábrica laborar durante os próximos 500 anos.

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