Tratados?! Quais Tratados?
Um novo nicho de mercado acaba de
nascer na União das Hortaliças, o qual explora os potenciais ilimitados do
stock de tratados internacionais como papel higiénico de luxo. Não porque o
papel seja de duração ilimitada mas porque a incontável papelada dos tratados da
União dá para ser transformada em rolinhos do simpático papel (quando não se
esfarela nas mãos nem o cachorro lá de casa decide brincar aos anúncios) até ao
Dia de São Nunca à meia-noite. A ideia nasceu de uma dessas inspirações da m…
que ocorrem quando estando sentados a fazer certas coisas de grande importância
naquela divisãozinha que os nossos avós chamavam a “privada”. Milkas Rebentika,
cidadão da Democracia da Moussaka a quem as políticas de resolução da crise da
União rebentaram com a sua subsistência e quase também com a capacidade de
continuar a ir à sala de meditação tripal, ao pensar nas recentes declarações
dos maiores políticos do Norte, e em especial os da República Federal das
Batatas que se reúnem na capital das Bolas de Berlim para decidir o futuro de
todo o continente, deu por si a olhar em paralelo e infinito para o rolo de
papel higiénico que tinha pendurado no gancho da parede (o suporte de louça já
fora vendido no “prego”). Tendo recordado que nos tratados e leis fundamentais
da União estava estabelecido o princípio da igualdade de todos os cidadãos da União
mas que na realidade quando tocava a partilhar deveres e direitos, havia uns
que eram mais iguais do que outros, que tendo o direito pelo Tratado de Livre
Circulação a poder trabalhar em qualquer país da União sem entraves ou
barreiras, na verdade havia vários países que ou impediam a entrada aos nativos
de outros estados da União, considerados inferiores, ou que simplesmente expulsavam
os emigrantes desses estados se porventura estes perdessem os empregos e não
arranjassem ouros no espaço de 3 meses (e com a crise, está-se mesmo a ver o
filme…), tendo verificado que a noção de solidariedade institucional e entre
países só funcionava quando se tratava de salvar as finanças e bancos do norte,
esfolando-se depois todos os nativos do sul, que passavam além disso a serem
apontados como os reais culpados do problema, sendo que em vez dos princípios
de respeito pela identidade dos povos e igualdade de direitos dos mesmos se
estava a assistir a sucessivas expulsões, destruições de casas e haveres e
deportações de grupos sociais e étnicos minoritários, em arrepio dos tratados e
cartas de princípios que tal proibiam sem que ninguém levantasse um dedo contra
a violação dos mesmos, verificando enfim que nesta União alguns tinham de ver
os salários reduzidos a níveis microscópicos e aumentado o tempo de trabalho
até à idade de poderem descansar as botas enquanto noutros havia aumentos de
salários, redução de cargas fiscais e redução dos anos de serviço, concluiu que
a noção de solidariedade entre as nações, igualdade de direitos entre os povos,
liberdade para todos de circularem à vontade dentro da União, a defesa e
respeito enfim pelos direitos mais básicos de qualquer cidadão da União há
muito que era letra morta, e apenas vigoravam a gora o Tratado da Austeridade,
o Tratado de Defesa das Fortunas Demasiado Grandes Para Falir (mesmo se
falissem estados inteiros à conta disso) e o Tratado da Contenção Orçamental, Milkas
Rebentika concluiu que tinha em mãos não a porcaria duma hora mas o negócio, a
oportunidade duma vida! Como não tinha dinheiro para pagar a ligação à Internet
pois ia-se-lhe todo nos impostos para pagar o resgate do país, fez uma ligação
manhosa a partir duns fios descarnados na rua e enviou um mail o Conselho da
Comissão da União das Hortaliças a pedir se por favor lhe poderiam enviar todos
os tratados que tinham sido assinados e rectificados, incluindo convenções e
tratados internacionais, desde que a União fora fundada, pois precisava desse
material apra iniciar uma start-up que revolucionaria o mercado da reciclagem
na União e sem precisar de fundos do Horizon 2020. Prometia também uma comissão
de 10% aos Comissários, caso estes lhe enviassem os tratados todos sem fazerem
perguntas nem indagarem do teor, funcionamento ou legalidade da start-up em questão.
Naturalmente, pretendia apenas aqueles tratados que a Comissão considerasse que
já não tinham qualquer utilidade ou que porventura tivessem ficado esquecidos
nalguma gaveta perdida. Para enorme pasmado espanto feliz de Milkas Rebentika,
ao fim de um mês de silêncio uma frota de camiões TIR sem condutor estacionou à
porta da sua barraca, atulhados de dossiers e tratados da União, sobretudo na
área dos direitos civis, laborais, estado social, equidade social e
responsabilidade empresarial. Milkas Rebentika esfregou as mãos, todo contente
e atirou-se de imediato ao trabalho. Actualmente as casas de banho da Comissão
e do Parlamento da União das Hortaliças estão a ser abastecidas pela fábrica
artesanal de Milka Rebentika com papel higiénico reciclado. E o negócio vai tão
de vento em popa que Milkas já escreveu para a Organização das Nações Desunidas
e para uma série de países fora da União, para lhes fornecer os tratados,
convénios, moratórias, acordos de paz e outros que tenham sido de alguma forma
ignorados, esquecidos ou caducado por manifesto desinteresse das partes. Na sua
mais recente entrevista um sorridente Milkas Rebentika, agora gordinho e com um
havano ao canto da boca, garantiu-nos que tem já material para a sua fábrica
laborar durante os próximos 500 anos.


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