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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Luz ao Fundo do Túnel Apagou-se Há Muito (ou o sucesso económico do Continente Apagado)
Por causa das alterações climáticas e dos terríveis gases de efeito de estufa pede-se agora à parte do mundo que quase nunca provou os benefícios da civilização ocidental que se deixe de lérias e tentem é viver com menos e sem os luxos do 1º mundo porque, afinal, estão já a isso habituados. E se é preciso poupar, nada mais natural, portanto, que as poupanças comecem entre o pessoal que nunca se habituou a luxos, e devam aí ser impostas com maior afinco. Afinal, quem nunca teve electricidade em casa nem sabe o que são as delícias dum fogão a gás ou dum micro-ondas, pode continuar alegremente a viver sem essas comodidades; não é tão divertido o jogo de sufocar a cozinheira a dona de casa e família com fogueiras na cozinha alimentadas a lenha? Ou que há de melhor para a saúde do que o mulherio transportar bidões de água à cabeça durante 60 kms (30 de ida e 30 à volta) e a corta-mato, correndo para se safar a violadores, guerrilheiros, polícias ou vizinhos bêbados, todos apostados em enfiarem-lhes o “bico”? Como se pode dizer que ninguém se preocupa com a saúde feminina se se lhes oferece este exercício em troca da escola sedentarizadora e criadora dos pecaminosos hábitos de usar a cabeça para pensar? Afinal é para carregar água, homens e ter meninos que o mulherio serve. Pedir a um honesto cidadão da República das Batatas que passe sem o seu micro-ondas ou o seu televisor de plasma de 1000 e tal milímetros de ecrã… é sem dúvida exigir um sacrifício muito mais doloroso do que pedir aos pobres que se mantenham na pobreza, pois esses não estranharão tal “evolução na continuidade”. Por isso serão a partir de hoje apagadas todas as luzes de todos nos túneis, aldeias, jardins e bairros de barracas no 2º, 3º, 4º e 5º mundo e mais alguns outros que porventura por aí haja e não tenhamos ainda descoberto. Naturalmente, os terroristas que habitam nos bairros da lata desses mundos irão dizer que a luz ao fundo do túnel nunca se chegou a acender mas não acreditem. Pois que há demais romântico do que uma tenda de plástico com bonitos dísticos das misericórdias internacionais, dividida com cinco outras famílias num campo de refugiados? Campismo o ano inteiro e com refeições servidas e tudo! Ou o tipismo único dum bairro de lata onde os homens se colocam em linha para defecar ao ar livre pois como são só meios cidadãos, não precisam de latrinas. Sem contar que estas condições são excelentes para as economias desses países, que podem poupar em luxos como saúde e educação dos seus habitantes e ver crescer fábricas e plantações de óleo de palma e biofúel, onde os nativos têm o privilégio de trabalhar em regime escravo, tal e qual como os seus antepassados e pioneiros da globalização. Das suas mãos saem para o 1º mundo todas as delícias das pessoas civilizadas, como calças, sapatos, cintos, ouro, telemóveis, bluetoots, metais raros, prata, diamantes, petróleo, Ipods, acessórios e tantas outras maravilhas tecnológicas que, é claro, só são tocadas pelos nativos se porventura trabalharem nas fábricas que as produzem. Não pode haver assim maior ordem no mundo: uns produzem e vivem pobrezinhos e maneirinhos para não terem maus hábitos, e outros enriquecem e generosamente colocam as suas fábricas poluidoras nos bairros dos operários, pois para quem é bacalhau basta. O imenso sucesso económico deste modelo é atestado pelos índices macroeconómicos, embora para a maioria da população local esses índices talvez sejam os dum universo paralelo pois as suas condições de vida estão cada vez mais na mesma, em especial se calharem de terem um campo petrolífero nas proximidades que lhes suja os rios onde por milhares de anos puderam pescar e agora também podem mas morrem a seguir, de cancro e essas coisitas, por o peixe estar contaminado. Em alternativa podem sempre receber os misericordiosos tiros à queima-roupa dos seguranças se se armam em parvos e se lembram de protestar pela poluição. Talvez o melhor exemplo deste bem fazer seja ilustrado pelo Continente dos Elefantes, onde o Fundo Mundial da Agiotagem tem ajudado os países a entrar no mercado global, impondo as suas regras económicas fundamentadas nas folhas de cálculo falsificadas do merceeiro-burlão Madoff e que leva as economias locais à morgue. Com desempregos nos píncaros, serviços públicos proibidos porque tem de ser tudo privado, incluindo ar, sol e água, normas alimentares tão assépticas que mesmo hortaliça criada em laboratório não pode ser vendida, os nativos, muito dançarinos, muito alegres, muito folclóricos e garridos, viraram-se à tarefa de se matarem uns aos outros, pois é a única actividade que tem subsídios e ferramentas de trabalho amavelmente cedidas por almas beneméritas em troca de pequenas contribuições em géneros: diamantes, ouro, super-petroleiros cheios, etc. Estas guerras são obviamente um bom investimento pois são os mais fortes, ou seja, os melhor armados e com maior espírito de iniciativa que ficam a controlar estes bens comerciáveis e deste modo o comércio mundial ganha mais dinamismo, enquanto ficam garantidos os subsídios defensivos dos conquistadores. Do mesmo modo quantos mais morrerem, menos são os competidores na hora da distribuição de alimentos doados por outras, às vezes as mesmas, almas beneméritas. Além disso, respondendo ao apelo da espécie os sobreviventes desatam a fazer muitos meninos, o que é excelente pois garante mão-de-obra sempre renovada nas fábricas que as empresas do 1º mundo decidiam aí instalar por os gastos de produção serem tão baixos. Os cidadãos apanhados no meio do tiroteio, apenas podem recorrer ao Divino e este faz-lhes a vontade, enviando mais outra horda de guerrilheiros: os “combatentes por Deus”. Estes combatentes, cujo objectivo primeiro e único é converter as populações, a bem ou a mal e exterminar os teimosos que se recusam à conversão é uma grande mais-valia para a economia mundial por ser um eficiente meio de escoar o material de guerra e alguns outros apetrechos do 1º mundo, estimulando assim o comércio internacional. Mas ultimamente têm-se registado uma perturbadora evolução neste combate teológico. É que os “guerreiros de Deus” deixaram de matar nas terras deles, onde o seu mister faz muita falta, e decidiram “deslocalizar-se” para o 1º mundo. Isto está mal. Só o 1º mundo deveria ter o direito de se deslocalizar para outros lados, o que está já a ser corrigido em sede própria. É que estes “guerreiros de Deus”, quando se deslocalizam não é para pacatamente viverem dos rendimentos da sua guerra mas, apaixonados pela profissão, continuam a matar. Agora nas nossas belas e civilizadas cidades. Até quando se permitirá tão grande atentado à civilização?!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Informações de última hora dão conta que no nabal dos… Reino dos Agriões a situação é pouco
menos que explosiva. Como se sabe, o reino dos Agriões é outro dos estados membro da União das Hortaliças que está intervencionado pela Tripeça pois desfalques vários, falências consecutivas e obras megalómanas nos diques-fronteira do Reino atiraram com este para um endividamento excessivo. Não é que os Agriões estivessem em situação pior que os outros da União das Hortaliças mas, sendo os agriões uns tipos de segunda, com uma economia de terceira, as agências de atribuição de notas (e de recebimento de notas em troca das que dão) decidiram alarmar os mercados, dando chumbos atrás de chumbos à economia dos agriões. Os investidores fugiram todos, os especuladores caíram em bando sobre as folhas ainda verdes do reino, e foi o que se sabe. A seguir à confusão nas finanças sucedeu-se um sarilho de meia-noite na área política – e de meia-noite pois foi a horas tardias que as piores rabaldarias aconteceram – e um jovem todo desempoeirado entretanto chamado ao governo concluiu que o grande problema do país não era o fecho sucessivo de lojas e empresas, os despedimentos (educadamente chamados de layoff, até porque é palavra estrangeira e os agriões não sabem línguas), os cortes nos salários, a emigração em massa e o colapso do consumo interno ainda mais maciço, o que tem dado graves problemas ambientais nos países vizinhos (e possa talvez explicar a invasão maciça de mosquitos no Califado das sardinhas) pois os agriões, sem poder de compra, não recebem agora o adubo que lhes põe, na água e vai tudo borda fora, com as descargas. É claro que a União das Hortaliças já multou o Reino dos Agriões por não cumprir as normas ambientais, mas não se preocupem os dinheiros da Tripeça, a serem pagos com juros de palmo, também irão servir para pagar as multas. Mas voltando ao “furo” principal: o jovem ministro concluiu que o verdadeiro problema do país era… falta de comunicação entre o governo e os agriões revoltados. Com uma boa comunicação, cheia de mensagens de esperança e explicações dos actos governativos simplificadas ao nível de compreensão dos agriões ainda na semente, tudo ficaria resolvido, os agriões que morressem de fome ou se enforcassem por não saberem já como sobreviver demonstrariam uma execrável falta de patriotismo. Estas declarações levaram ao suicídio em massa dos agriões do bordo poente do canteiro e iniciaram aquilo a que se designou de briefings, outra palavra estrangeira que quer dizer “conversas da treta” mas como é em estrangeiro os agriões pensaram que quisesse dizer “importantes sessões de esclarecimento”. E de facto, têm sido. Logo à primeira o Ministro dos Carcanhóis locais demitiu-se, a seguir foi o vice-ministro Agrião Ramalhudo, que disse que se demitia mas depois não se demitiu. De seguida também neste reino rebentaram as posturas de sapos e a sala do parlapatéu ficou inundada de sapos coachantes e a baterem espuma para os ovos, sendo que na semana seguinte já não se podia lá andar com tantos girinos e os briefings foram transferidos para outro lado. Como não se avisassem os jornalistas que têm a mania de fazer as perguntas mais enervantes, estes só descobriram o local correcto duas sessões depois, o que levou a oposição a acusar o governo de falta de espírito democrático. Por fim um dos vendedores de sapos e que fazia parte do governo decidiu dizer que não vendia sapos mas depois já não se lembrava e depois… estão a ver a coisa. Resultado: de cada vez que havia um briefing, o governo sabia que vinha aí sarrabulho. Foi por mero acaso, quando o Ministro da Água Estagnada teve de ir àquele sítio onde se vai quando se está aflito, que se descobriu que afinal o inventor dos briefings era um agente infiltrado da República das Beterrabas, que está há anos em guerra com os agriões por causa das quotas de água para os respectivos canteiros. O excelso ministro descobriu-o ao contemplar os numerosos escritos e graffitis na porta do referido sítio dos aflitos, e como também já fora agente das Beterrabas, compreendeu perfeitamente o código de uma das mensagens, por acaso a única que não referia hábitos íntimos de terceiros nem dissertava sobre a genealogia dos leitores. Rebentou a bomba no canteiro, de repente compreende-se porque os briefings em vez de melhorarem a imagem do governo só a deitavam ainda mais abaixo do que se todos estivessem calados (e garanto-vos que mesmo calados, o governo está com a imagem a alguns 3 kms debaixo da terra). Os agriões andam agora à caça do jovem ministro e inventor dos briefings mas não o encontram em parte alguma, apesar da secretária garantir que ele foi apenas de férias. Entre suspeitas de que o traidor se haja passado para o campo das beterrabas veio a descobrir-se uma outra verdade chocante que deitou por terra o patriotismo dos agriões. Os briefings não eram afinal uma invenção sua mas uma tradição com mais de 100 anos na República dos Hambúrgueres. Depois da economia e da política, foi agora a vez do patriotismo dos agriões entrar em crise…
 

domingo, 13 de outubro de 2013

Abriram vagas para explicadores de Direito Constitucional e Direito Internacional no Ministério das Trapalhadas Estrangeiras, para darem aulas de reforço curricular ao Ministro, o qual veio publicamente confessar que, embora tendo-se formado em Direito com a melhor classificação do seu curso, não só a nota foi obtida graças a métodos inovadores de cabulanço (na altura, hoje esses métodos são usados nos exames do Primeiro Ciclo) como no seu tempo não havia a figura jurídica da separação de poderes entre o legislativo, o judicial e o político. Com efeito, embora esta separação de poderes tenham já 300 anos de existência, como a República Democrática dos Nabos anda sempre um bocadinho atrasada nestas coisas, tal matéria não fazia parte dos currículos há cerca de 30 anos. O Ministro opõe-se a esta contratação porque criará despesa no seu ministério que precisa de todos os trocos para instalar um jacuzzi com massagens direccionadas na casa de banho-suíte ministrial, remodelar os soalhos com mármore montanha embutido a lazúli, revestir as paredes com madeira de teca embutida a paubrasile pau preto com lambrins de turquesa e ouro, substituir as tapeçarias do chão por tapetes de seda tecidos à mão por mãos infantis paquistanesas pagos na origem a meia conquilha o metro e a 3000 conquilhas o metro no mercado da União das Hortaliças, substituir todos os quadros e aguarelas actuais pela colecção integral das obras de Caravaggio, Turner, rembrant, Vermeer, Renoir e Matisse, mudar os puxadores das portas para aplicações em marfim legítimo e substituir os telefones de plástico por aparelhos em ouro 24 quilates. Infelizmente os nabos seus assessores recusaram as explicações do chefe e foram por diante com o concurso para evitar novo desaguisado com a república dos Cocos, que como se sabe anda de trombas por causa dos nabos se darem ao desplante de investigarem alguns altos dirigentes couquenses por tráfico de influências e outros pecadilhos menores. O bem-intencionado ministro das Trapalhadas pediu desculpa ao Coco-chefe, quando o foi visitar pelo aniversário da filhinha Zazá, por esta incómoda investigação e prometeu que mal regressasse ao nabal iria dar 40 chicotadas, como manda a lei religiosa, a cada um dos investigadores e magistrados que andam a incomodar os dignos couquenses. Até porque nabal a corrupção e tráfico de influências, embora criticada na lei, é um modo de vida e adorno cultural dos nabos com rama suficiente para serem mecenas de tais artes. Sem a corrupção o nabal nem é o nabal, que tinham agora os coca-bichinhos nabos de meterem o bedelho na vida dos outros? Tinha de, após aplicar as chicotadas, mandar chamar um catequista para ensinar aos malandretes a parábola da trave de madeira e do grão de sésamo. Tendo jurado e garantido que estas seriam as primeiras medidas que tomaria mal regressasse ao nabal, entregou o cheque à afilhada Zazá, recebeu umas caixinhas de diamantes e vários barris de crude e regressou a casa, onde encontrou os nabos em polvorosa, por causa dessa estranha figura jurídica de “separação de poderes”. Os candidatos deverão ter dado provas durante mais de 20 anos, com livros e teses publicadas em revistas internacionais da especialidade com peer review e impact factornunca inferior a 10, e apresentar provas insufismáveis de que leccionaram durante 15 anos nas melhores faculdades da Ivy League. Os professores serão pagos à hora, sem contrato de trabalho nem desconto para a Segurança Social, sem direito a horário de almoço nem aposentação, sendo o salário função do grau de aproveitamento do aluno. Quando o douto ministro tiver concluído a sua formação, os professores serão despedidos em conformidade com a nova legislação laboral em vigor, devendo pagar integralmente todas as custas do seu processo de despedimento e indemnização à entidade patronal.

sábado, 12 de outubro de 2013

O Director-Geral das Finanças do Céu expressou ontem a sua indignação com o fisco da República dos Nabos, desencadeando uma tempestade das antigas sobre o nabal, por mor do ofício das Finanças Nabense que exige a todos os mortos que compareçam na respectiva repartição de finanças para regularizarem as suas contribuições de IRS, IRC, IVA, IMI, IUC, IMT, Imposto de Selo, Imposto Especial de Consumo, Segurança Social, Direito Sucessório, Tributação Autónoma e diversos outros impostos e taxas, nacionais e autárquicas, dado estarem a baldar-se às ditas mais de um ano. Se não comparecerem, avisa o ofício, as esposas, filhos deficientes e outros dependentes terão integralmente cortadas as pensões de sobrevivência e também as próprias até perfazer o montante em falta. Caso as reformas sejam de miséria, os conjugues dos mortos faltosos serão obrigados a trabalhar em regime forçado – como os médicos, enfermeiros e alunos do Uzbekistão na apanha do algodão – até o seu trabalho, após desconto dos gastos do Estado com o seu alojamento, comida (que contudo os forçados deverão arranjar do seu bolso, mesmo que nada tenham no dito) e utensílios de trabalho, perfazer os montantes em falta. Esta comunicação causou grande indignação nas nuvens pois é suposto os habitantes celestiais serem exemplares em tudo, até mesmo nas suas contas com o fisco, por mais rapace que este último seja. Pior ainda, no topo da lista vinham os nomes de alguns carismáticos líderes, como Moisés (a quem, além dos supra-citados impostos, era taxado o Imposto Devido ao Templo, Imposto de Uso de Material Combustível e Sarças Ardentes, Imposto Por Ter Casado e Vivido no Estrangeiro, etc.), Maomé que, entre outros impostos tinha de regularizar o Imposto de Comércio, Imposto por Caravanas de Camelos, Imposto por Proteger Gatos, Imposto por Posse de Exército Pessoal “como aliás também Moisés”, etc.) e Buda, o qual além de numerosos impostos exóticos, tem em atraso o Imposto do Elefante Branco. Cristo foi taxado com o Imposto por Fazer Milagres, Imposto de Sudário, Imposto por Exercer Ofício de Padeiro e de Pescador Sem Licença, Imposto por Vandalizar Bancas de Cambistas. Com a excepção de Buda, que encolheu os ombros e disse para não se preocuparem pois tudo é ilusão e mudança, continuando calmamente sentado na sua flor de lótus a falar para os doze animais do Zodíaco, que são os únicos que o ouvem, os restantes líderes ficaram muito indignados e pediram uma audiência ao chefe do Paraíso. Maomé declarou que era um homem de paz mas estavam a insultar os seus muitos milhões de seguidores, donde ia promulgar uma fatwa a exigir uma jihad. Moisés elevou mãos e bastão ao alto, queixando-se que andavam mais uma vez a perseguir deliberadamente os judeus e Cristo disse que já dera a César o que era de César, não tinha nada que dar aos nabos aquilo que era do Pai e se continuassem a chateá-lo com impostos ia lá abaixo e punha tudo em cacos, momento em que Moisés se meteu ao barulho, para dizer que não podia fazê-lo pois se ele era o Messias, quando regressasse à terra tinha era de pacificar tudo e dar a comer aos povos o leviatã e o grande touro vermelho, era o que estava nas escrituras sobre o Olam Ha-Bav. Cristo e Moisés pegaram-se de razões em aramaico antigo sobre os estatutos do Olam Ha-Bav, o que pôs Maomé fora de terreiro porque não fala aramaico antigo. Deus viu-se aflito para acalmar os seus profetas e ainda mais à rasca se viu com o resto dos súbditos, pois até os nabos seguidores de Buda estão muito melindrados, ignorando em absoluto os conselhos do Mestre. Xiva é que ficou todo feliz e pôs-se dançar a dança da destruição enquanto abria o seu terceiro olho, embora o fechasse logo a seguir porque Deus lhe deu uma lambada em cheio na pupila, o fim do mundo ainda não é p’ra já. O tumulto, que tem gerado tornados, trovadas, tufões, quedas de granizo e sapos e outros desmandos climáticos, ainda não foi aplacado. No Inferno a mesma pretensão do fisco nabense causou gargalhada geral entre diabos e hóspedes e o chefe da banda enviou o seguinte email que atravessou todas as firewalls: “Acusamos a recepção do vosso ofício e vimos por este meio declarar toda a nossa colaboração para satisfazer a vossa lunática exigência. Mas como os transportes estão caros e antes que por aqui também chegue a crise decidimos começar a poupar, façam o favor de vir cá recolher o guito. Estaremos ansiosamente à vossa espera com forquilhas, aguilhões, instrumentos de tortura ao gosto do freguês, baldes de pez ardente, bombas de napalm, lança-chamas e outros objectos contundentes para no melhor dos nossos esforços vos oferecer a hospitalidade do nosso ardente reino. Tragam por favor bifanas de porco e um bom tinto para fazermos uma churrascada. Caso não haja bifanas, podemos grelhar-vos a vós próprios. Com os nossos reconhecidos e sinceros votos de vos ver por cá em breve, Satã”.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

As autoridades sanitárias encontram-se em estado de alerta, temendo uma epidemia ou, na mais salutar hipótese, adulteração de especialidades alimentares e de prazer, nestes inclusos cigarros, charutos, vinhos pedigree e whiskys velhos de reconhecida reputação, consumidos pelos líderes de estado da União das Hortaliças. É que nos últimos tempos os chefes de estado da União têm proferido umas singulares afirmações sobre o estado do mundo que só por mero acaso coincidem com a realidade. A líder da República Federal das Batatas, apoiando o estranho discurso do seu ministro das finanças disse pouco antes de ganhar as eleições, que as políticas de destruição económica que têm sido aplicadas na União estavam a dar os seus resultados e via-se já um crescimento económico assinalável na Zona da Moeda Única para Pategos. Toda a gente achou esta declaração muito estranha, pois todos os indicadores económicos mostram exactamente o oposto, mas como se estava em campanha eleitoral e os políticos são especialmente sensíveis à bactéria februm votaricum que os leva a proferir afirmações inverosímeis (afecção que felizmente desaparece mal se contam os votos, regressando os afectados à sua consciência normal) pesumiu-se que a pobre líder estivesse a ser vítima dessa epidemia algo benigna. De facto só se torna problemática quando o político afectado, mostrando perturbantes pudores morais e deslocadas honras à sua palavra, tenta depois da eleição cumprir as promessas e diatribes mirabolantes proferidas durante a fase mais aguda de febre votárica. Só que a seguir o chefe em exercício – e é um duro exercício – do Potentado da Paelha, que é outro país nas lonas, veio garantir e jurar e bater o pé de que desta é que o Potentado ia sair da crise, e que o crescimento… para o ano… seria de 0,001% positivo, dado que este ano ainda estava em queda mas era uma queda menos trambolhona do que há 2 meses, e a taxa de desemprego estava já a baixar (altura em que os jornalistas viraram câmaras e cabeças ao contrário, a tentarem apanhar o ponto de vista do chefe de estado pois o desemprego mantém-se acima dos valores do ano passado). Sabemos que a líder das Batatas, a querida e amada Toutiço Despenteado, adora bolinhos e o chefe do Potentado gosta duns bons havanos, tendo um fraquinho especial pelos que forem embrulhados em bom pilim da República dos Hambúrgueres embora também se aceitem contribuições em pasta do Cantão dos Queijos. Hoje foi a vez do representante da República dos Nabos, o excelso Nabo-Maior, surpreender a opinião pública e os mercados com as suas declarações quando visitava a Monarquia das Renas. Nabo-Maior foi durante vários anos professor de economia numa das mais reputadas universidades da República do Nabal e acumulou este trabalho com vários cargos de direcção em alguns dos mais importantes bancos do nabal, incluindo aquele que é polícia dos outros todos. Após um simpático almoço com a família real das Renas, foi o catedrático entrevistado em conferência de imprensa onde, falando em nabês, que é a única língua que domina em condições, se declarou muito surpreendido com os mercados de cebolas, nabos, rábanos, cenouras, couves e outras hortaliças dado que a cotação do nabal nesses mercados estava para esquecer, e não havia razões para isso. Aliás, continuou, não percebia porque tantos bancos internacionais diziam que o nabal estava a afundar-se, prontinho para segunda transfusão vampírica. Não havia crise, a economia estava a crescer, a recessão acabara, os juros da dívida – que durante todo o ano o senhor Nabo-Maior dissera estar em níveis insustentáveis – eram perfeitamente comportáveis, ele sentia-se imensamente perplexo por tantas previsões negativas. Perplexo também se sentiram os jornalistas presentes e até a família real não conseguiu evitar preocupados olhares de soslaio sobre o convidado. Porque no caso a dívida continua a subir pois os juros da mesma vão adicionando aos anteriores e… bem, porque se seu excelentíssimo líder dos nabos, catedrático de economia, dizia não compreender os mercados e seus mercadores, então quem compreenderá? Então, onde está a racionalidade dos mercados que os teóricos e práticos do assunto garantem ser a base de funcionamento dos ditos? Para evitar mais embaraços, a família real das renas arrastou o excelso Nabo-Maior para as traseiras do palácio com o pretexto de terem de realizar a importantíssima missão de inaugurarem uma estátua, descerrarem uma placa comemorativa, e partirem para a caça. Intrigados com estas declarações, os nossos enviados foram investigar o caso. E encontrámos o fornecedor dos charutos do presidente do Potentado da Paelha, dos bolinhos da Toutiço despenteado e do catering dos jantares de gala da União das Hortaliças, que nos confessou que além destes negócios legítimos tinha um pequeno trabalhinho colateral, “por baixo dos panos” e sem descontos à segurança social ou nos impostos, para arredondar o orçamento lá de casa. Todos os seus produtos são docemente condimentados com pozinhos brancos e licores vindos do produtor, sedeado no Charco do Milho. Os ditos pozinhos e licores têm, confessou-nos, por vezes uns pequenos efeitos viciantes (o que é bom para manter a clientela) e dão ao consumidor várias horas de separação deste triste mundo, deliciando-o em coloridas ondas de prazer. Infelizmente a Organização Mundial da Doença, e por conseguinte todos os estados da União das Hortaliças, proíbem os condimentos em questão mas ele tem de dar vazão ao produto. Informados destes desenvolvimentos a nossa cara Toutiço despenteado pôs as mãos em diamante e declarou que não podia preocupar-se com isso, tinha um governo para formar e os colegas de coligação estavam muito renitentes em casar-se com ela, que era uma devoradora de coligantes. O excelso presidente Nabo-Maior informou que não comentava e somente o líder em exercício do Potentado da Paelha se dispôs a prestar declarações, exclamando perante as provas: “oh, infelizmente não sei que charutos são, não prestei atenção à marca pois entrei logo em órbita. Mas que são muito bons, são. Podem dar-me o contacto pessoal do fornecedor?”

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Os sapos tóxicos continuam a fazer baixas. Desta vez foi a memória do Ministro dos Carcanhóis,
durante a última comissão de coscuvilhice. Estas comissões são o desporto nacional dos dirigentes políticos da República dos Nabos, que nelas se reúnem para dizerem mal uns dos outros, falar da vida alheia e tentar descobrir quem é que tem mais telhados de vidro; quem mais tiver é seleccionado como alvo do campeonato da pedrada, que é assim como a segunda ronda do campeonato mas onde o objectivo é não marcar golos e sim fingir que se mudam os maus hábitos, sem que de facto se mude seja o que for das tradições e usos da vida pessoal e paralamentar. Sim, para_lamentar, escrevemos bem. Dito de outro modo, as comissões de coscuvilhice são assim a modos que um ritual para soltar tensões e dar, felizmente, trabalho à nossa redacção. De outra forma teríamos já emigrado, como vários autarcas que nem mesmo à frente de canteiros do nabal se safam na vida e têm de rumar a outras paragens para meter a bucha na rama. Pois bem, na última sessão da comissão da coscuvilhice que avaliava o potencial de arremesso dos sapos tóxicos, o Ministro dos Carcanhóis declarou que nunca lidara com sapos tóxicos ou dos outros, que nunca fora ao charco apanhá-los ou comerciá-los no mercado e que aliás, até nem conseguia distinguir sapos de rãs e relas, que para si eram tudo bichos viscosos, peganhentos e demasiado ruidosos, não deixavam ninguém dormir de noite. Sabia que alguns diziam serem animais muito úteis para apanhar mosquitos e similares mas ele, Ministro dos Carcanhóis nunca lhes descobrira qualquer utilidade e aliás, embora alguns mais dados a jogos de apostas os usassem em corridas de sapos, sempre achara serem fauna peçonhenta da qual era melhor não se ter trato nem contacto algum. O problema foi que logo a seguir se levantou um colega do Ministro que declarou sob juramento por sua honra e lealdade que o ex-colega não só conhecia muito bem os sapos tóxicos como no passado ambos se haviam entretido tardes inteiras a caçá-los nos charcos e a vendê-los aos parvalhões no mercado da bicharada. Aliás faziam enormes caçadas aos fins de semana, para não pequena fúria do pároco da aldeia, que vociferava todos os domingos no púlpito sobre “os faltosos que vão apanhar os bichos das bruxas”, o que conjurava no geral lágrimas de riso da congregação. E, mais disse, e apresentou, fotografias de ambos de botas de pescador até à cintura, posando ao lado dos baldes cheios de sapos, redes de caça nas mãos, braços nos ombros um do outro, a sorrir para as câmara das namoradas. Isto causou um enorme sururú, até porque todos queriam ver a colecção de fotografias, começando logo a comparar galochas, baldes, redes de pesca, vestuário e namoradas. Uns mais exaltados, ao descobrirem quem eram as namoradas, sentiram a velha dor de cotovelo por mor das ditas lhes terem sido roubadas pelos dois atrevidos e gritavam “Mentiroso! Mentiroso! Queremos a tua demissão!”. Naturalmente, o primeiro ministro-só-de-nome veio pôr água na fervura e declarar que não demitia o Ministro dos sapos e se alguém voltasse a chamar-lhe mentiroso, ao seu amigo pessoal e co-companheiro nas caçadas a sapos (foi o silêncio na sala pois ninguém sabia ainda destas actividades secretas do primeiro-ministro-só-de-nome) ia-lhe às fuças e depois iam para tribunal. Como ir a tribunal é uma imensa perda de tempo pois são sempre absolvidos aqueles que a gente sabe, todos os presentes na comissão da coscuvilhice e depois no hemiciclo, estendendo-se rapidamente o uso aos meios de comunicação e nabos em geral, passaram a usar deliciosas alternativas ao vocábulo “mentira”. Assim, agora nos mercados, é normal as nabas donas-de-casa chamarem às vendedeiras, faltadoras à verdade, lapsadoras involuntárias, criativas dos acontecimentos, e outros mimos do género. Conclui-se assim que a verdade sobre os sapos poderá nunca ser apurada, nem a República do Nabal vir jamais a sair da crise, mas a sua contribuição para o léxico do nabês e da riqueza de vocabulário mundial, isso é que ninguém lhes tira (aos nabos).

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Definitivamente, a República dos Nabos está mergulhada num processo revolucionário, não dos habituais com tanques nas ruas, tropas emboscadas às esquinas e jornalistas free-lancers a cobrir o acontecimento enquanto vendedeiras roliças, como se espera de boas nabiças, põem cravos nas boinas dos combatentes, mas uma revolução mais calma, mais serena, mais paciente mas que nem por isso deixará de modificar profundamente a sociedade dos nabos. Após as alterações profundas na economia – que está, finalmente!, moribunda – e das leis do trabalho que tornam esta República das Banan… dos Nabos muito atractivas para o investimento estrangeiro, com a revolucionária lei que exige que os trabalhadores não recebam salário mas o paguem aos seus empregadores, chegou a vez do ensino e espera-se para breve a revolução nas liberdades civis, de que já se têm vindo a fazer ensaios, com a supressão ocasional de dissidentes, que são enviados para o tribunal ou ameaçados disso, quando calham de lançar uns piropos mais fortes ao Nabo-Mor ou de criticarem demais esta revolução em curso. A revolução do ensino permite agora a todos os cidadãos nabenses escolher se querem os filhos a aprender em escolas ao ar livre, à sombra dos feijoais, ou em recintos fechados, tipo  estufas de morangos do canteiro vizinho. Os nabos-pais, ilustrando a sua nabice, já vieram apoiar publicamente a medida, felizes por os seus filhos agora não terem de estudar com os chungas dos vizinhos pindéricos das águas furtadas. Segundo as novas leis, os pais dos nabinhos podem inscrever os filhos nas escolas que quiserem, quando quiserem e ao preço a que quiserem. Podem inscrever. Depois logo se verá se  entram ou não, tudo dependendo, no caso das escolas-estufa, da carinha dos rebentos e no caso das escolas ao ar livre, de se existem ramadas de árvore suficientes para servir de tectos esburacados que melhor deixem cair a chuva para cima dos alunos. Do mesmo modo os pais que optem por inscrever os filhos nas escolas-estufa, com o garante evidente de que os seus nabos se desenvolverão melhor do que os educados à rabaldaria das intempéries, receberão um subsídio do governo (os outros não precisam de subsídios para nada) correspondente ao que os pais gastariam se deixassem os filhos a vegetar nas escolas ao ar livre. Como as propinas nas escolas-estufa são mais elevadas, os subsídios não chegarão para o nabinho ir até ao final dos estudos nas escolas-estufa, pelo que haverá uma altura em que terão de regressar às escolas ao ar livre (isto se os pais ainda tiverem emprego e dinheiro para estes luxos de mandar ensinar os petizes). Nesta altura, que coincidirá com o período mais sensível do desenvolvimento dos nabinhos, espera-se que grande parte deles perca o viço e lhes murche o grelo, passando a integrar o mercado de trabalho, que bem precisa de gentinha de corpo novo e cabeças vazias para dar no duro como deve ser. O dinheiro pago aos nabos-pais que inscrevam os seus filhos nas escolas-estufa, e que antes da aprovação das novas leis ia para as escolas ao ar livre, não passará a ir pois o dinheiro não dá para tudo nem se multiplica como os pães. Deste modo as escolas ao ar livre passarão a ter menos bancos para os nabos se sentarem, mais ramagens furadas e com garantia de encharcamento total dos alunos no Inverno, menos professores e menos material para ensinar, pois são tudo excessos desnecessários e despesistas, que ficam bem numa escola-estufa mas não nas escolas ar-livre destinadas aos pelintras. Garante-se assim a degradação contínua das escolas ar-livre e a igualdade de analfabetismo para todos os alunos, tanto os que nelas estão desde o início, como os que posteriormente para lá vão porque os pais afinal também são pindéricos e não podem pagar as escolas-estufa até ao fim do ciclo escolar. Do mesmo modo, e como as escolas-estufa são antes de mais para dar lucro, tendo-se cortado nos salários dos preguiçosos dos professores, e também em muito do material pedagógico, há a garantia de que estas escolas formarão igualmente a sua quota-parte de analfabetos. Está assim assegurada a estupidificação em todas as frentes das gerações futuras de nabos. Quanto mais analfabetos forem os nabos menos se desenvolverá a República mas mais dóceis serão os seus cidadãos, o que aliviará em muito as dores de cabeça dos políticos que no futuro liderarem o país. “Os nabos analfabetos são o amanhã do Nabal”, declarou o Ministro da Educação nabense na sacra conferência diária onde ministros, secretários, assessores, assessores-adjuntos, adjuntos e especialistas vão mostrar à comunicação social os fatos novos que vestem a cada dia, e que ficam a dever no alfaiate para assim apoiarem a indústria de confecção do nabal.