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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Vai grande arruaça no quintal das vacas da República dos Hambúrgueres. Tudo porque se descobriu que a folha de Excel do merceeiro local, um certo senhor Madoff, estava com erros e falhas que, curiosamente, o beneficiavam sempre. Além de merceeiro, o senhor Madoff tem sido gestor de fundos de uma série de instituições não lucrativas de beneficência. Tudo começou na semana passada quando ele não abriu a loja, o que gerou, primeiro, uma fila de donas de casa aflitas para comprar leite para os “piquenos, que têm de ir p’rá escola, ‘tadinhos e sem leitinho como é que vão conseguir aguentar as exigências daqueles malvados professores!” Duas horas e meio quilómetro de bicha mais tarde, eram as velhotas a juntarem-se às aflitas mães, porque queriam beber a biquinha e cortar na vida alheia. Do senhor Madoff, nem sombra. Cansadas de esperar, decidiram ir todas a casa do homem porque “coitadinho, e se lhe deu alguma coisa, ele lá sozinho sem ninguém p’ra ajudar”. Mas ao chegarem viram tudo muito fechadinho e foi a grande custo que conseguiram persuadir a teimosa porteira a ir “até lá acima” abrir a porta. Bom, na verdade o que a levou a subir as escadas foi o leve cheiro a possível história gorda capaz de animar a má-língua durante dois meses no pacato quintal, tão lerdo como as vacas que lhe dão o nome e no momento ruminavam pasmadas, focinhos por cima da cerca de buxo, sem atinarem com a razão do corrupio feminino. Entraram mas do senhor Madoff e dele nem pó! Tudo muito arrumadinho, tudo muito limpinho mas népias, nada. A porteira, que sabe bem onde ele esconde o cofre e até tem ido lá tirar umas fotografias para o filho vender aos jornais da estranja sob pseudónimo, que isto a vida está difícil e tem de se aproveitar o que calha de vir à mão, foi ao soalho arrancar as duas tábuas mas… adeus cofre. Apenas uma nota para a porteira a dizer: “sua alcoviteira, fui-me embora e a renda, pague-a você, que já ganhou bastante com as fotografias”. O resto do mulherio quis saber a história das fotografias mas não soube porque a porteira teve um conveniente desmaio, o que temporariamente atirou o bater d’asa do senhor Madoff para segundo plano. Quando o dito filho chegou a casa, e como o senhor Madoff tivesse deixado o computador para trás, decidiu vasculhá-lo. Após limpeza de vírus e cavalos de Tróia, semeados nos ficheiros para punir abelhudos (só que o rapaz conhecia a manha da besta e tratou de inutilizar as defesas antes de se meter a espiar os segredos do inquilino fugido), espiolhou os documentos todos e nem queria acreditar quando analisou a folha de cálculo do homem. Estava errada! Não era que o homem, que defendia com todas as forças que quando um cliente estava com calotes, a receita era fazer-lhe empréstimos para pagar as mercadorias e exigir todo o dinheiro de volta com juros de 50%, cortando-lhe no abastecimento de víveres até a dívida estar saldada, se esquecera de somar várias parcelas? Essas somas em falta mostravam para quem quisesse ver que a razão pela qual ele justificara durante anos a condenação dos pobres à fome e levara o bairro e metade da cidade a emigrar em massa para outras paragens, não tinha fundamento. Pior ainda, o filho da porteira descobriu contas secretas cifradas… de fraudes financeiras descomunais. Chocado, o rapaz começou a telefonar para a polícia e de seguida para as associações de caridade de que o senhor Madoff fora gestor de fundos e… as associações nem sabiam que ele dera à sola. Telefonema para cá e para lá, as associações descobriram que as contas bancárias tinham sido todas limpas na véspera… e estavam afinal não com grandes lucros mas com défices gigantescos. Porque fora a desviar os fundos de caridade que o senhor Madoff subsidiara as suas luxuosas vivendas em 7 ilhas, uma extensa frota de caros de luxo, 3 iates, várias inscrições em country clubs, cinco mansões de férias no estrangeiro e contas secretas enormes no Cantão dos Queijos. “Logo ele, que parecia tão modesto!” espantavam-se as vizinhas, aglomeradas em casa da porteira, a verem sem acreditar no que surgia no ecrã do computador. Decorre agora uma internacional caça ao desaparecido, que mobiliza já os melhores espiões do mundo inteiro pois não foi apenas no bairro que ele lixou as contas de quase toda a gente. Tudo isto seria apenas um interessante tema de filme de polícias-ladrões-espiões-romance-comédia, tipo Bollywood massala, se o Fundo Mundial da Agiotagem não tivesse apoiado as suas políticas de financiamento a países em dificuldades precisamente na tese do senhor Madoff sobre o auxílio a fregueses em apertos. Agora se compreende porque as ajudas do Fundo levam sempre, qualquer que seja a estrutura social, económica, dimensão ou contexto geopolítico do país ajudado, a que a sua economia entre em recessão profunda, acabe na morgue e pelo menos metade da população emigre. Claro que a defuntice das economias dos países ajudados é muito boa para as empresas multinacionais, em especial as do grupo do senhor Madoff (desconhecia-se até ontem que ele fosse um empresário de dimensão multinacional) porque podem deslocalizar as suas fábricas para esses países onde não há leis de protecção nem segurança no trabalho, inspecções médicas ou de descargas de efluentes ainda menos, os operários não só têm de pagar para trabalhar nas fábricas como morrem como tordos, as populações nas vizinhanças idem, mas as empresas têm lucros como nunca se viu na História. Os países, é claro, ficam cada vez mais poluídos, cada vez mais miseráveis, cada vez mais ingovernáveis. Mas isso não importa pois hoje o mundo é global. Aliás, a comprová-lo está a notícia acabada de chegar de que o senhor Madoff foi localizado numa das suas mansões, calmamente a beber cocktails ao lado da piscina, acompanhado dum harém de jovens escravas locais, angariadas para lhe fornecerem prazeres. Ele não será repatriado pois o lugar não tem convénios de extradição de criminosos para os seus países de origem. Espera-se agora que o Fundo Mundial da Agiotagem venha prestar declarações sobre as suas políticas de intervenção baseadas nas falsas contas deste merceeiro-vigarista-empresário-apenas-quando-está-entediado. Irá o Fundo alterar as suas políticas? Irá mantê-las como se o seu fundamento fosse incontestável verdade? Aceitam-se apostas, faça a sua para o prédio vaca-malhada n.º 23 até amanhã às 10 horas.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Na Monarquia dos Raviólis houve um novo sarrabulho, mais uma vez por causa o rei D. Cannelloni II, chefe da comunicação local desta monarquia e também Padrinho da sociedade local por mais de 20 anos e que mesmo em posição subalterna continua a mandar nos destinos da nação. Quer dizer… talvez tenha deixado de mandar, os sinais que chegam da capital dos Raviólis são muito confusos. Na sequência de trapaças várias em que D. Cannelloni II se acha envolvido, incluindo prostituição de esparguetinas menores e que, novidade jamais vista no reino, chegaram a tribunal para, pasmo ainda maior, aí serem condenadas, os conselheiros e chanceleres decidiram arrancar o amo do trono para que a pátria não sofra ainda mais má-fama nos fóruns internacionais. Estes pruridos são incompreensíveis em certos países como por exemplo a branda República dos Nabos onde os líderes têm absoluta liberdade para mentir e intrujar e a doce certeza de serem canonizados no final do mandato; porém, os Raviólis decidiram dar uma de Garibaldi e vá de avançarem para o despejo da real figura, até porque esta lhes garantira que se fosse condenado sairia calmamente de cena, sem deitar à fogueira da Inquisição o governo recém-criado após enormes trabalhos, abstinências, orações e peregrinação ao santuário local, por parte do seu chanceler-mor. Só que D. Cannelloni II é monarca de brios e quando viu que os conselheiros falavam a sério (mais uma vez os lorpas tinham-lhe acreditado na palavra) chamou os seus cavaleiros, dando-lhes ordem de prender despejantes e despejá-los nas masmorras. Os cavaleiros ficaram muito consternados não porque esperassem grande coisa do governo ou, já que falamos nisso, do futuro mas… então palavra de rei agora voltava atrás?! De acordo que se tratava de D. Cannelloni II, famoso por dar o dito por não dito (não tanto como certos políticos da República dos Nabos, apesar de tudo) mas era palavra de rei! Os cavaleiros mais novos entreolhavam-se e fitavam os mais velhos, que por experiência acumulada deviam saber o que fazer mas estes sentiam-se igualmente confusos. Quanto ao chefe da tropa, começou-se-lhe a ver um rubor subir de baixo para cima como se houvesse fornalha de ferreiro ali ao fundo do assento da armadura. Quando o rubor chegou aos cabelos e todos esperavam ver-lhe sair fumo pelas orelhas, o nobre cruzado cruzou os braços e disse: “Lamento, meu rei, mas hei dever de fazer cumprir a palavra de Sua Majestade, logo não prenderei os chanceleres.” O rei não gostou e fez ameaças. Quatro cavaleiros apressaram-se logo a obedecer mas os outros, talvez por serem novos e a abarrotar de ideias dos romances de gesta, outalvez cansados da eterna bagunça do reino (todas as conjecturas são possíveis visto estes terem recusado explicações aos nossos “plebeus” repórteres) puseram-se ao lado do cavaleiro-mor. Após longo braço-de-ferro ou antes, olhar-de-ferro entre rei e rebelde-chefe, o rei disse: OK, vamos a votos! Mandaram reunir as cortes e... as cortes votaram pela expulsão do rei, o qual deverá agora ser conduzido a casa, onde passará o tempo em doce prisão domiciliária, com todos os confortos, pois um rei que violou a lei é apesar de tudo um rei, mesmo se deposto, e não pode roçar costelas com presidiários normais, plebeus e republicanos, quiçá anarquistas. Até porque se corre o risco do real fora-da-lei ir ensinar muita coisa aos criminosos de delito comum que estes jamais sonharam obrar. Por enquanto o rei ainda não saiu do palácio pois anda à cata da sua boneca de borracha em tamanho real, dos chinelos de seda com pompons, do telemóvel secreto para continuar a gerir os negócios, incluindo os políticos, a partir da prisão caseira, e do seu ursinho de peluche. No reino vive-se entretanto em perplexidade por esta rebelião de caserna e nas tascas e poisos de pescadores à linha fazem-se apostas sobre qual dos cavaleiros rebeldes irá dar a volta às cortes e auto-coroar-se novo rei dos raviólis.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Charco do Milho é um pequeno país que, embora situado numa posição geográfica muito peculiar, responsável pelo seu nome, em regra não recebe os holofotes noticiosos porque ali se pasa nada, amigo. Mas o pequeno e pobre país decidiu ser campeão das novas tecnologias no sector da informação, por incentivo do seu visionário líder, que anda de candeias às avessas com os jornais locais, uns chatos que não calam a caixa sobre o bonito negócio de extracção de pez (uma coisa malcheirosa mas de grande valor para fazer crescer as conquilhas, em especial as dos viveiros no Cantão dos Queijos) na grande floresta tropical onde, só para enervar os homens de bem, vivem uns selvagens importunos que têm a mania de reivindicar como suas as terras onde já os seus tetra-tetra-tetra-tetra-trisavós viviam. Ridícula pretensão pois se eles não abatem a floresta para nela instalar malcheirosos campos de exploração de pez nem para construírem estâncias turísticas para milionários, grandes condomínios fechados, ou marinas para iates aproveitando o imponente rio que passar por lá, quem lhes dá o direito de pensarem que aqueles baldios são seus? As terras são de quem as apanha e com elas lucra, e tenho dito. Se as florestas ajudam a combater as alterações climáticas isso não interessa, pois quando o mar subir ou faltar a água, o glorioso líder e família terão as suas mansões, campos de golfe e centros de compras em lugares muito recatados de todas as catástrofes e a água virá dalgum canto onde se apinham miseráveis trabalhadores, que a verão fluir docemente dos seus quintais através de canalizações à prova de bala e ramais clandestinos para o lugar de remanso das pessoas importantes. O que levou às do cabo o líder do muy típico Charco foi o facto de que os protestos dos selvagens e terroristas que se atam a árvores prestes a serem demolidas com motosserras chegaram ao resto do mundo. Os colonialistas da União das Hortaliças assinaram até um manifesto contra a destruição da floresta e receberam com honras de primeira página um dos chefes selvagens (como se o Charco do Milho fosse uma terra atrasada, veja-se a afronta!), privando o excelso líder dos fabulosos lucros que, perdão, privando o Charco do Milho dos fracos lucros (o mercado do pez está em crise, como sabem) decorrentes da exploração deste seu precioso recurso A companhia do pez, cheia de tefe-tefe, só irá para a floresta se os pagamentos por debaixo da mesa ao grande líder do Charco receberem um corte de 50% e o exército for destacado para proteger as operações dos perigosíssimos selvagens, que combatem com temíveis pedras e ainda mais aterradores arcos e flechas pré-históricos. O glorioso líder do Charco resignou-se a receber menos conquilhas no seu cofre secreto do Cantão dos Queijos e concordou com as exigências. Neste momento o exército avança já sobre a floresta, juntamente com grosso esquadrão de sapos-boi voluntários, extremamente violentos e recrutados nas cadeias de todo o continente, e rãs mercenárias conhecidas pela sua extrema toxicidade mal entram em contacto com o inimigo. O objectivo primeiro e único é exterminar os selvagens, tornando deste modo a selva muitíssimo mais segura. Quando estiver segura ao ponto de se poder passear por ela, ou seja quando metade das suas árvores e espécies animais tiverem também sido exterminadas pela desflorestação e pelas actividades das companhias de pez, poder-se-á instalar complexos turísticos para a elite financeira mundial, devidamente servidos com prostitutas locais, de preferência selvagens dos países vizinhos pois os turistas gostam muito de conhecer o exotismo destas paragens. Só que os malditos jornais voltaram a agitar os cidadãos do Charco contra estes acontecimentos, ou não estivessem eles ao serviço das perigosas forças colonialistas estrangeiras, nas palavras do glorioso líder em brilhante discurso de 12 horas, onde deu a conhecer o seu novo projecto de reforma da comunicação social. É tempo, disse o divino líder, do Charco do Milho acompanhar a evolução tecnológica. Assim, declarou entre muitos rolares de olhos, simulação de faltas de ar, esbracejares furiosos, apoplexias, espasmos e tremores para galvanizar as hostes, a partir daquele momento os jornais do país estavam todos encerrados. De facto nessa altura as tropas estavam a partir à bazuca todos os escritórios e tipografias e a eliminar a tiro todos os jornalistas, que são uma cáfila de traidores (aplauso, aplauso, aplauso das claques pré-contratadas e muito bem ensaiadas pela equipe do Ministério da Propaganda). Se os milhenses quiserem ler jornais terão agora de o fazer na Rede-de-Pesca. Claro que todas as ligações aos sites jornalísticos locais serão controladas por password, a ser obtida no Ministério da Propaganda após averiguação de todas as actividades do requerente desde o nascimento, incluindo a pesagem dos seus excedentes fisiológicos nas fraldas. Só os milhenses devidamente certificados até à 4ª geração de não serem subversivos nem permeáveis a qualquer subversividade terão direito à password. Sempre que um milhense se ligar aos sites dos jornais, a sua actividade será integralmente monitorizada pela Polícia de Defesa e Vigilância do Charco (a PDVCaca). Será bloqueada toda e qualquer tentativa de acesso à imprensa estrangeira seja pela Rede-de-Pesca ou por jornais em papel traficados nas fronteiras. A qualquer instante, e sem aviso, poderá a PDVCaca ou o Ministério da Propaganda bloquear o aceso aos jornais online, e já agora a toda a Rede-de-Pesca, caso se considere que o conteúdo destes desagrade ao grande líder. Como castigo, o site será imediatamente encerrado. Os felizardos com password encontrarão em lugar das notícias um interessante desenho animado dum milhense todo roto, a abrir buracos, e uma tarjeta por cima anunciando: “Estamos a Trabalhar para a Glória do Charco, Ajude-nos com o seu Contributo”. Em alternativa poder-se-á fornecer ligação a missas campais, serviços de apostas em combates de galos ou ao último jogo de futebol a contar para a Taça. Deste modo, concluiu o glorioso líder ao fim das 12 horas e do mais espetacular espasmo tremebundo que levou os presentes ao êxtase, o Charco do Milho entrará na ilustre era digital. O facto de só a família do glorioso líder e poucos amigos terem dinheiro para computadores e astronómicas taxas de ligação à Rede-de-Pesca, não constituirá decerto entrave a tão revolucionário empreendimento.
Fonte: Wikipedia
 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013


Fonte: www.aloprando.com
No Condado do Gamanço as novas leis estatutárias da profissão de ladrão estão a apanhar desprevenidos os seus cidadãos. Neste Condado existem duas castas: os ladrões e os roubados, embora estes últimos tentem de vez em quando furar o esquema e fazer umas gatunagens por conta própria e sem descontos para a Segurança Social. Acontece que muito recentemente as leis de protecção à esforçada classe dos ladrões sofreram alterações mas estas não foram ainda publicadas em edital colado nas paredes das tabernas e casas de banho públicas, onde normalmente se afixam ou escrevem todas as novidades do condado, garantindo deste modo a sua ampla audiência e divulgação. O mais recente exemplo dos erros de desinformação está agora em juízo e trata dum sr. ladrão, profissional com larga experiência no ramo que, assaltando uma casa de bolos (estava a precisar dum “reforço” entre duas acções de formação de que sou monitor, explicou o visado) foi agredido pelo dono da casa porque pilhado em pleno desempenho das suas funções. Sucede que a nova legislação, valorizando a segurança profissional dos amigos do alheio, estabelece muito claramente no novo decreto que quando alguém descobrir um ladrão a tomar posse dos seus bens deverá deixá-lo trabalhar pacatamente, sendo até recomendado que lhe ofereça chá e cigarrilhas ou, no caso do gatuno ser de baixa craveira, uns charros ou um grande penalty. Como a lei do Condado do Gamanço procede por casos anteriores, está esta fundamentada no exemplo do rabi Zalman que, tendo chegado a casa e dado com uns atrevidos a roubarem-lhe o que lá tinha, declarou ser tudo pertença dos gatunos para evitar que estes fossem castigados por Deus. Deste modo o dono da pastelaria, agora em tribunal por agressão ao honesto sr. ladrão, apesar de argumentar com o desconhecimento da nova lei, será seguramente punido com pena suspensa – não se lhe vá dar na ideia de surrar outro que lá vá à loja fanar doces – e dois anos de trabalho comunitário em que fornecerá bolos, chá e cafés à discrição a todos os ladrões que operem na sua área de residência, no horário de trabalho da gatunagem, incluindo horas extraordinárias. Fora deste horário poderá vender doces e salgados mas a metade do preço de tabela a todo o ladrão que apresente carteira profissional no acto da compra.

domingo, 10 de novembro de 2013

Na Capital dos Lagos de Gelo (descongelados devido às alterações climáticas) do Reino das Renas foi hoje conhecido o nome do vencedor do Nobel dos Ditadores de Sucesso deste ano. Trata-se nem mais nem menos do que o carismático líder do Império dos Ursos. Com efeito, após ter sido atribuído postumamente ao Batata-de-Semente e outros exterminadores particularmente bem-sucedidos no seu mister de assassinar milhões, o galardão decidiu mudar um pouco de rumo e premiar ditadores menos sanguinários mas nem por isso menos eficientes a eliminar adversários e grupos sociais do seu especial desagrado. Coube assim a inauguração deste novo ciclo ao eterno chefe dos destinos dos Ursos, o qual é tão adorado na sua pátria que até vai ter lugar cativo nos mausoléus do futuro. Foi o líder do Império dos Ursos escolhido pelo Comité dos Nobel, pelas suas grandes conquistas no sentido do aumento da repressão no mundo e em particular no seu país, sem que por isso haja perdido o poder, a guerra ou a cabeça. Raros são os líderes deste calibre que conseguem arrumar as botas descansadamente e dar a alma ao Criador no tempo previsto pelo dito, em vez da sua partida lhes ser apressada por inimigos externos ou internos. O Pupu, nome afectuoso com que é conhecido entre os Ursos, tem o muito invejável palmarés abaixo descrito. Iniciou carreira na mais infame polícia política do estado, antes do regime ter metido os pés pelas mãos e mudado de fatiota. Com a lata dos sobreviventes e um pouco de arrivista a temperar o caldo, fez-se eleger deputado e depois substituiu o amado Camarada dos Copos na liderança do país. Uma vez aí chegado, e sem jamais esquecer as lições aprendidas no início de carreia, atirou-se aos súbditos da etnia dos turbantes que tentavam tornar as suas montanhas independentes da Grande Mãe Pátria. Foi uma guerra cheia de sucessos, onde limpou sistematicamente os rebeldes, dando aos seus homens livre mão para violarem todas as chatas declarações de direitos humanos, que só servem para atrapalhar os exércitos que precisem dar no toutiço a insurgentes e aliás, de passagem, violou também um monte de mulheres e mais uma série doutras regras de regras e convenções de guerra, incluindo algumas que ainda não tinham passado pela cabeça dos legisladores. Esta actuação foi uma grande lição para os dos turbantes, os quais não conseguiram a independência mas exportaram as táticas recém-aprendidas para outros campos de conflito no estrangeiro. Ao mesmo tempo, e para não deixar que o moral dos seus governados baixasse durante a guerra, o que é uma traição de lesa-pátria, mandou os seus antigos colegas da polícia limparem o sebo e documentação de todos os jornalistas que porventura se lembrassem de denunciar as violações e atrocidades cometidas na guerra. A limpeza de sebo a jornalistas tornou-se desde essa altura, e mesmo com a guerra acabada há décadas, um desporto nacional muito apoiado pelo governo, com subsídios atribuídos aos melhores limpadores. A seguir, e guerra acabada, virou-se para o seu quintal e pôs-se a instaurar processos e a condenar todos os que o criticavam ou se armassem em seus adversários políticos pois a democracia no Império dos Ursos também é diferente das outras: aqui todos os cidadãos são livres… para concordarem com o Pupu. Quem se desse à fantasia de criticar as suas políticas e fosse suficientemente rico era acusado de corrupção e atentado à segurança nacional, ia para a prisa e os seus bens eram confiscados e dados a amigos do Pupu com currículo comprovado em corrupção, ligações à máfia local e tráfico de influências. Os pobres eram simplesmente condenados por vandalismo e ala para a grelha. Os tolos que porventura se lembrassem, e lembrem ainda pois os ursos são notórios pela falta de memória, de concorrer a eleições locais contra os amigos do Pupu são levados a tribunal acusados de fraude, corrupção, cedência de segredos de estado a potências estrangeiras e outras ilegalidades (o código penal do Império é muito criativo nesta matéria) e as suas sedes de campanha são criteriosamente assaltadas, vasculhadas e vandalizadas. Assim foram-se eliminando os adversários pois ninguém de juízo se atreve a desafiar o Pupu; até porque aqueles que se julgam espertos e fogem para o estrangeiro onde depois desatam a dar com a língua dos dentes também são eliminados com injecções de tálio devidamente dadas com a ponta de guarda-chuvas. De seguida, e porque o Pupu é um rapaz atilado que não gosta de bagunças, caçou uns ambientalistas que protestavam por causa do petróleo acusando-os de... pirataria. No Império dos Ursos só pode ser pirata quem tiver dinheiro bastante para pagar a carta de corso… perdão as concessões de exploração petrolífera, no mar ou na tundra gelada. Compreende-se, porque isto de ser pirata só dá se forem poucos ou o saque deixa de ser interessante. Infelizmente ainda enfrenta alguns problemas na tundra gelada pois vivem por lá uns povos da Idade da Pedra que protestam por lhe estarem a poluir os rios onde sempre foram buscar água e lhes impedirem as suas transumâncias milenares de renas. Como tal, o Pupu permite que os afectados pelos protestos usem a força para amouchar os protestantes e, no caso dos mais reivindicativos, promulgou um decreto que proíbe as associações dos primitivos, as quais são, segundo a lei, um perigo para a segurança do estado. Também tem sido fonte de inspiração e apoio a outros fortes líderes formados na mesma escola, como o do País dos Turbantes, embrulhado já há dois anos numa guerra doméstica e a quem o Pupu fornece dinheiro, armas e outras necessidades básicas, desde que satisfaça todas essas necessidades comprando-as ao Império dos Ursos. E o bom afilhado tem sido mui zeloso no contrato, pelo que a guerra segue o seu produtivo curso, limpando o país de habitantes, esperando-se para breve que só lá fiquem os zaragateiros. E porque tanta actividade mereceu alguns reparos da comunidade internacional, o Pupu foi recuperar a velha tradição da corrida às armas, usando para isso o ancestral receio dos seus súbditos face aos estrangeiros (que normalmente só lá iam para dar cacetada). Deste modo será promovida uma corrida mundial ao armamento, o que terá substanciais efeitos benéficos na economia global, tanto por aumentar as encomendas às fábricas de armas como, ao alimentar as guerras, baixar colateralmente as taxas de desemprego. Por fim, e dando resposta a um chefe de estado que na última reunião da Organização das Nações Desunidas declarou serem os praticantes de sexo em modalidades que não o papá-mamã o pior perigo para a sobrevivência da Humanidade (as alterações climáticas, guerras, fome, epidemias, poluição, colapso de ecossistemas não existem neste cenário), decidiu o amado Pupu proibir todas as associações destes “praticantes de sexo ilegal”, tendo lavrado em lei o que é o sexo legal, devidamente acompanhado, para benefício dos mais distraídos, de ilustrações elucidativas (as quais geraram uma anormal venda do diário oficial). O mesmo decreto-lei legalizou o espancamento, perseguição, violação, roubo, atropelamento, apedrejamento, linchamento ou assassinato (opção facultativa) dos “anormais” por parte dos “normais”, assim como o assalto, devassa, pilhagem, destruição e fogo posto às casas e demais propriedades dos primeiros. Tão carismático líder, possuidor de tão ampla visão de futuro tem garantidamente o seu lugar na História e com efeito assim é. Neste momento estão a reescrever-se os manuais de História do Império, que conta talvez com mais de 2000 anos se se considerarem os períodos ante-imperiais. Embora não se conheça ainda o índice do seu conteúdo, sabe-se já que terá todo um capítulo dedicado à acção do Pupu, apesar dele estar no poleiro há bem menos tempo do que os ditadores anteriores (os raríssimos líderes democráticos do país não foram incluídos na cronologia). Convenhamos, o Pupu merece. O Pupu merece até, não 1 mas 3 Prémios Nobel dos Ditadores de Sucesso.
 

sábado, 9 de novembro de 2013

Em tese post-doc obtida por créditos concedidos em função da sua vasta experiência profissional e escrita não pelo próprio mas por um seu subalterno que deseja muito ser promovido num futuro próximo, o muito bem sucedido gestor e agora Ministro das Trapalhadas Estrangeiras do principado das Miragens (ou pelo menos, bem sucedido no que se refere às suas contas bancárias pessoais porque dos bancos e fundações que geriu já não se pode dizer o mesmo) foi revelado o segredo dos gestores de sucesso. O post-doc foi integralmente baseado na experiência do candidato e não mais do que essa, abarcando o ambiente profissional muito sui-géneris em que decorreu a sua carreira, aliás analisada em forma laudatória pelo escravo que escreveu a tese. Trata-se assim de uma tese baseada num universo de amostragem constituído por um único indivíduo e em condições laborais que só muito por acaso intersectam a realidade do comum dos mortais. Mas como o tesante é ministro, a tese foi naturalmente classificada como de excepcional relevância e as suas conclusões deverão ser implementadas universalmente. Assim o segredo do gestor de sucesso é… o dom da ubiquidade. Porque o gestor de sucesso tem de fazer tudo para pertencer aos conselhos de administração de 15 bancos, 10 parcerias público-privadas e exercer em 5 escritórios de advocacia concorrentes entre si, que defendam e representam grandes magnatas internacionais, de preferência com altos cargos políticos nos países de origem ou para onde se tenham mudado por incompatibilidades com os sistemas jurídicos da terra natal. Ora como é fisicamente impossível dar conta do recado de tantos cargos, ou sequer comparecer às reuniões a estes associadas, já para não falar do trabalho eventualmente associado, o gestor de sucesso tem de se apoiar em comprovadas estratégias que assentam em três pilares:
1º - Ficar confortavelmente em casa e praticar meditação transcendental até desenvolver plenamente as suas capacidades de projecção astral e dom da ubiquidade. Tal deverá ser realizado durante os anos de curso e antes de se candidatar a qualquer cargo de direcção. O universitário que mergulhe neste tipo de treino deverá somente deixar o aconchego do seu quarto durante a noite, para ir beber uns copos, pois é bem conhecido como as pielas facilitam as projecções astrais (e as outras).
2º - Dominadas estas técnicas e conseguidos os cargos (não é necessário ter concluído o curso universitário, embora dê jeito) deverá o gestor permanecer em casa, ou no bar, nos copos, exercendo as suas capacidades ubíquas e de projecção astral. Se nunca tiver passado do nível um da “ubiquidade para totós” e ser um desastre em projecções, o gestor pode sempre contratar um ou mais sósias, a contrato temporário para não se porem de repente com ideias…
3 – Se por azar alguns dos múltiplos cargos caçados tiverem algum trabalho real associado, o gestor deverá contratar a curto prazo um estagiário sobredotado mas parolo no que respeita a contas, para fazer o trabalho a custo zero. Caso haja sido necessário contratar sósias, deverão estes ser multiusados para fazer o trabalho em questão, sem aumento de salário pois as multitarefas são uma condição sine qua non para qualquer aspirante a um posto de trabalho hoje em dia. Naturalmente, os salários destes cargos serão pagos não ao estagiário nem ao(s) sósia(s) mas ao gestor em questão.
Os gurus da economia do principado pretendem exportar este modelo, com a cobrança dos devidos royalties aos países parolos que queiram ir no bote, assim como, de passagem, a todos os gestores para o resto do mundo (dado o desastre local que têm sido a gerir até mesmo um simples negócio de carrinho de cachorros e salsichas na brasa). A sua eventual incompetência não é óbice ao seu emprego e exportação pois na economia de mercado franca e aberta, os mercados e os seus actores são 100% racionais, logo o mercado auto-regula-se por muito disparatadas que sejam as decisões efectuadas, desde que, é evidente, não se apliquem quaisquer regulações aos mesmos. O facto, de desde que foram desregulados, os mercados terem passado a rebentar a cada 10 anos, é simples coincidência ou, mais inisidiosamente, manobra sabotadora da oposição.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Fundo Mundial da Agiotagem está de novo nas bocas do mundo e nos emails das redacções. Desta feita não por mor de mais empréstimo agiotário que atirou para a morgue com a economia de outro país “em salvação”, visto que tal não poderá ser notícia de um Fundo de Agiotagem, de mais a mais com a experiência confirmada de atirar economias ao fundo mais depressa do que os submarinos num jogo de batalha naval. Desta vez, a notícia resulta de mais um erro nas famosas folhas de cálculo usadas por todo o bicho-careta que quer dar uma de economista, mesmo que seja apenas o economista de trazer-por-casa que soma os deves e haveres do ordenado a cada final de semana, desporto radical responsável pelas subidas dominicais de ataques cardíacos, conforme demonstram as estatísticas dos Serviços Nacionais de Doença de metade dos países do clube da União das Hortaliças. Sucede que se veio a descobrir na informática folha de cálculo que os dados com que o Fundo Mundial da Agiotagem calculava índices e rácios, ou melhor, índices e taxas para saber quanto deveria reduzir os salários da República dos Nabos estavam com dados em falta. Na verdade o governo da República dos Nabos, para honrar a fama de nabice dos seus concidadãos, esquecera-se de rever as contas dos salários que já tinham sido cortados no ano anterior. Compreende-se. Os dignos governantes tinham estado na desbunda da festa do Ti Nabo-Porro, candidato às eleições da mão na mangueira e que seria posto na prisão no dia seguinte por desfalque e desvio de água para o canteiro dos seus nabos favoritos, e a despedida de liberdade – uma recente voga nesta República mas que parece vir a tornar-se tradição – não pudera ser mais regada, cheia de brasas e com comes e trocas de chamadas, fotos e mensagens vídeo nos mais recentes smartphones dos convivas. Donde, tendo a festa acabado às 7:30 da matina e os convidados ido para os escritórios às 11 da manhã, briosos em cumprirem os seus deveres (o cidadão comum tem de estar no trabalho às 9), estavam sem cabeça para reverem contas, e enviaram o que lhes tinham posto em cima da mesa. Resultado: mais de 50% dos cortes de salários do ano anterior não entraram nas folhas de cálculo do Fundo Mundial, pelo que este, confiando nos dados governamentais, concluiu que se teria de cortar os salários a toda a gente em cerca de 95%. O que deu como resultado que pelo menos 2% da população empregada se visse não apenas sem salário mas de facto a ter de pagar aos seus empregadores pois como se sabe, tudo o que se corta para além do zero é negativo, o que em economia quer dizer que nos sai do bolso, nada mais simples. Agora vai uma imensa fúria nos gabinetes do Fundo Mundial de Agiotagem pois culpam o governo dos nabos pela péssima imagem que os nativos têm do Fundo e que expressam em manifestações e apedrejamentos quando os revisores do Fundo vêm ao país ver em que param as modas, provar os últimos sucessos culinários e os bons vinhos da região, conhecer nabiças giras e em pé de página ver como andam a cumprir as suas ordens. O governo dos nabos diz que não senhor, que enviou os dados todos que possuía e se surgiram novos elementos foi por sabotagem de alguns funcionários públicos que foram já despedidos, tiveram todos os bens confiscados e foram para a prisão que, tendo por este motivo ficado sobrelotada, procedeu à amnistia total e integral do senhor Nabo-Porro que pode agora vencer as eleições e ficar mais uns tempos de mão na mangueira a regar os amigos. Porque, afirmação dos Ministro das Barafundas no Estrangeiro, “na República do Nabal não se brinca com a hortaliça!”. Neste momento não se saber se o Fundo irá exigir compensações monetárias pela delapidação da sua imagem junto dos nabos e cidadãos de outros países mas pode-se garantir que não foram minimamente alteradas as metas de reduções de salários exigidas pelo Fundo, e que foram calculadas com os tais dados deficitários. Ou, como nos disse em segredo uma das economistas do Fundo, e responsável pelos cálculos: “não vamos emendar nada, enganámo-nos mas é segredo!” Comparações feitas nesta redacção pela nossa coscuvilheira-mor (e porteira em todos os minutinhos livres para ganhar algum com que pagar os grelos e obter informações fidedignas para os seus artigos de jornalismo de investigação) revelaram que as metas de redução de salários para a República dos Nabos são afinal idênticas às exigidas para a Democracia da Moussaka, o Ilhéu das Cabras, a Grande Ilha dos Gnomos e o Potentado da Paelha, que também estão sob “salvação” do Fundo, apesar destes quatro países terem população, dinâmicas económicas e sociais bastante distintas das da República dos Nabos. Será outro erro que não se deve divulgar?
 

Nota da redacção: Aguardamos ansiosamente as novas contas da nossa coscuvilheira-mor, que está já a fazer previsões com a folha de cálculo do Fundo (fanada por um portal hacker) para a Floresta dos Veados, a Ilha dos Cavaleiros, a Monarquia dos Raviolis, a VII República do Amor e Gruyère e a Confederação dos Moinhos porque de crise em crise, o Fundo há-de chegar a todos.