Vai grande arruaça no quintal das
vacas da República dos Hambúrgueres. Tudo porque se descobriu que a folha de
Excel do merceeiro local, um certo senhor Madoff, estava com erros e falhas que,
curiosamente, o beneficiavam sempre. Além de merceeiro, o senhor Madoff tem
sido gestor de fundos de uma série de instituições não lucrativas de
beneficência. Tudo começou na semana passada quando ele não abriu a loja, o que
gerou, primeiro, uma fila de donas de casa aflitas para comprar leite para os
“piquenos, que têm de ir p’rá escola, ‘tadinhos e sem leitinho como é que vão
conseguir aguentar as exigências daqueles malvados professores!” Duas horas e
meio quilómetro de bicha mais tarde, eram as velhotas a juntarem-se às aflitas
mães, porque queriam beber a biquinha e cortar na vida alheia. Do senhor
Madoff, nem sombra. Cansadas de esperar, decidiram ir todas a casa do homem porque
“coitadinho, e se lhe deu alguma coisa, ele lá sozinho sem ninguém p’ra
ajudar”. Mas ao chegarem viram tudo muito fechadinho e foi a grande custo que
conseguiram persuadir a teimosa porteira a ir “até lá acima” abrir a porta.
Bom, na verdade o que a levou a subir as escadas foi o leve cheiro a possível
história gorda capaz de animar a má-língua durante dois meses no pacato
quintal, tão lerdo como as vacas que lhe dão o nome e no momento ruminavam
pasmadas, focinhos por cima da cerca de buxo, sem atinarem com a razão do
corrupio feminino. Entraram mas do senhor Madoff e dele nem pó! Tudo muito
arrumadinho, tudo muito limpinho mas népias, nada. A porteira, que sabe bem onde
ele esconde o cofre e até tem ido lá tirar umas fotografias para o filho vender
aos jornais da estranja sob pseudónimo, que isto a vida está difícil e tem de
se aproveitar o que calha de vir à mão, foi ao soalho arrancar as duas tábuas mas… adeus
cofre. Apenas uma nota para a porteira a dizer: “sua alcoviteira, fui-me embora
e a renda, pague-a você, que já ganhou bastante com as fotografias”. O resto do
mulherio quis saber a história das fotografias mas não soube porque a porteira
teve um conveniente desmaio, o que temporariamente atirou o bater d’asa do
senhor Madoff para segundo plano. Quando o dito filho chegou a casa, e como o
senhor Madoff tivesse deixado o computador para trás, decidiu vasculhá-lo. Após
limpeza de vírus e cavalos de Tróia, semeados nos ficheiros para punir abelhudos
(só que o rapaz conhecia a manha da besta e tratou de inutilizar as defesas
antes de se meter a espiar os segredos do inquilino fugido), espiolhou os
documentos todos e nem queria acreditar quando analisou a folha de cálculo do
homem. Estava errada! Não era que o homem, que defendia com todas as forças que
quando um cliente estava com calotes, a receita era fazer-lhe empréstimos para
pagar as mercadorias e exigir todo o dinheiro de volta com juros de 50%,
cortando-lhe no abastecimento de víveres até a dívida estar saldada, se esquecera
de somar várias parcelas? Essas somas em falta mostravam para quem quisesse ver
que a razão pela qual ele justificara durante anos a condenação dos pobres à fome
e levara o bairro e metade da cidade a emigrar em massa para outras paragens,
não tinha fundamento. Pior ainda, o filho da porteira descobriu contas secretas
cifradas… de fraudes financeiras descomunais. Chocado, o rapaz começou a
telefonar para a polícia e de seguida para as associações de caridade de que o
senhor Madoff fora gestor de fundos e… as associações nem sabiam que ele dera à
sola. Telefonema para cá e para lá, as associações descobriram que as contas
bancárias tinham sido todas limpas na véspera… e estavam afinal não com grandes
lucros mas com défices gigantescos. Porque fora a desviar os fundos de caridade
que o senhor Madoff subsidiara as suas luxuosas vivendas em 7 ilhas, uma extensa
frota de caros de luxo, 3 iates, várias inscrições em country clubs, cinco mansões de férias no estrangeiro e contas
secretas enormes no Cantão dos Queijos. “Logo ele, que parecia tão modesto!”
espantavam-se as vizinhas, aglomeradas em casa da porteira, a verem sem
acreditar no que surgia no ecrã do computador. Decorre agora uma internacional
caça ao desaparecido, que mobiliza já os melhores espiões do mundo inteiro pois
não foi apenas no bairro que ele lixou as contas de quase toda a gente. Tudo
isto seria apenas um interessante tema de filme de
polícias-ladrões-espiões-romance-comédia, tipo Bollywood massala, se o Fundo Mundial da Agiotagem não tivesse apoiado as
suas políticas de financiamento a países em dificuldades precisamente na tese
do senhor Madoff sobre o auxílio a fregueses em apertos. Agora se compreende
porque as ajudas do Fundo levam sempre, qualquer que seja a estrutura social,
económica, dimensão ou contexto geopolítico do país ajudado, a que a sua economia
entre em recessão profunda, acabe na morgue e pelo menos metade da população
emigre. Claro que a defuntice das economias dos países ajudados é muito boa
para as empresas multinacionais, em especial as do grupo do senhor Madoff
(desconhecia-se até ontem que ele fosse um empresário de dimensão
multinacional) porque podem deslocalizar as suas fábricas para esses países
onde não há leis de protecção nem segurança no trabalho, inspecções médicas ou
de descargas de efluentes ainda menos, os operários não só têm de pagar para
trabalhar nas fábricas como morrem como tordos, as populações nas vizinhanças
idem, mas as empresas têm lucros como nunca se viu na História. Os países, é
claro, ficam cada vez mais poluídos, cada vez mais miseráveis, cada vez mais
ingovernáveis. Mas isso não importa pois hoje o mundo é global. Aliás, a
comprová-lo está a notícia acabada de chegar de que o senhor Madoff foi
localizado numa das suas mansões, calmamente a beber cocktails ao lado da
piscina, acompanhado dum harém de jovens escravas locais, angariadas para lhe
fornecerem prazeres. Ele não será repatriado pois o lugar não tem convénios de
extradição de criminosos para os seus países de origem. Espera-se agora que o
Fundo Mundial da Agiotagem venha prestar declarações sobre as suas políticas de
intervenção baseadas nas falsas contas deste
merceeiro-vigarista-empresário-apenas-quando-está-entediado. Irá o Fundo alterar
as suas políticas? Irá mantê-las como se o seu fundamento fosse incontestável
verdade? Aceitam-se apostas, faça a sua para o prédio vaca-malhada n.º 23 até
amanhã às 10 horas.Número total de visualizações de páginas
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Vai grande arruaça no quintal das
vacas da República dos Hambúrgueres. Tudo porque se descobriu que a folha de
Excel do merceeiro local, um certo senhor Madoff, estava com erros e falhas que,
curiosamente, o beneficiavam sempre. Além de merceeiro, o senhor Madoff tem
sido gestor de fundos de uma série de instituições não lucrativas de
beneficência. Tudo começou na semana passada quando ele não abriu a loja, o que
gerou, primeiro, uma fila de donas de casa aflitas para comprar leite para os
“piquenos, que têm de ir p’rá escola, ‘tadinhos e sem leitinho como é que vão
conseguir aguentar as exigências daqueles malvados professores!” Duas horas e
meio quilómetro de bicha mais tarde, eram as velhotas a juntarem-se às aflitas
mães, porque queriam beber a biquinha e cortar na vida alheia. Do senhor
Madoff, nem sombra. Cansadas de esperar, decidiram ir todas a casa do homem porque
“coitadinho, e se lhe deu alguma coisa, ele lá sozinho sem ninguém p’ra
ajudar”. Mas ao chegarem viram tudo muito fechadinho e foi a grande custo que
conseguiram persuadir a teimosa porteira a ir “até lá acima” abrir a porta.
Bom, na verdade o que a levou a subir as escadas foi o leve cheiro a possível
história gorda capaz de animar a má-língua durante dois meses no pacato
quintal, tão lerdo como as vacas que lhe dão o nome e no momento ruminavam
pasmadas, focinhos por cima da cerca de buxo, sem atinarem com a razão do
corrupio feminino. Entraram mas do senhor Madoff e dele nem pó! Tudo muito
arrumadinho, tudo muito limpinho mas népias, nada. A porteira, que sabe bem onde
ele esconde o cofre e até tem ido lá tirar umas fotografias para o filho vender
aos jornais da estranja sob pseudónimo, que isto a vida está difícil e tem de
se aproveitar o que calha de vir à mão, foi ao soalho arrancar as duas tábuas mas… adeus
cofre. Apenas uma nota para a porteira a dizer: “sua alcoviteira, fui-me embora
e a renda, pague-a você, que já ganhou bastante com as fotografias”. O resto do
mulherio quis saber a história das fotografias mas não soube porque a porteira
teve um conveniente desmaio, o que temporariamente atirou o bater d’asa do
senhor Madoff para segundo plano. Quando o dito filho chegou a casa, e como o
senhor Madoff tivesse deixado o computador para trás, decidiu vasculhá-lo. Após
limpeza de vírus e cavalos de Tróia, semeados nos ficheiros para punir abelhudos
(só que o rapaz conhecia a manha da besta e tratou de inutilizar as defesas
antes de se meter a espiar os segredos do inquilino fugido), espiolhou os
documentos todos e nem queria acreditar quando analisou a folha de cálculo do
homem. Estava errada! Não era que o homem, que defendia com todas as forças que
quando um cliente estava com calotes, a receita era fazer-lhe empréstimos para
pagar as mercadorias e exigir todo o dinheiro de volta com juros de 50%,
cortando-lhe no abastecimento de víveres até a dívida estar saldada, se esquecera
de somar várias parcelas? Essas somas em falta mostravam para quem quisesse ver
que a razão pela qual ele justificara durante anos a condenação dos pobres à fome
e levara o bairro e metade da cidade a emigrar em massa para outras paragens,
não tinha fundamento. Pior ainda, o filho da porteira descobriu contas secretas
cifradas… de fraudes financeiras descomunais. Chocado, o rapaz começou a
telefonar para a polícia e de seguida para as associações de caridade de que o
senhor Madoff fora gestor de fundos e… as associações nem sabiam que ele dera à
sola. Telefonema para cá e para lá, as associações descobriram que as contas
bancárias tinham sido todas limpas na véspera… e estavam afinal não com grandes
lucros mas com défices gigantescos. Porque fora a desviar os fundos de caridade
que o senhor Madoff subsidiara as suas luxuosas vivendas em 7 ilhas, uma extensa
frota de caros de luxo, 3 iates, várias inscrições em country clubs, cinco mansões de férias no estrangeiro e contas
secretas enormes no Cantão dos Queijos. “Logo ele, que parecia tão modesto!”
espantavam-se as vizinhas, aglomeradas em casa da porteira, a verem sem
acreditar no que surgia no ecrã do computador. Decorre agora uma internacional
caça ao desaparecido, que mobiliza já os melhores espiões do mundo inteiro pois
não foi apenas no bairro que ele lixou as contas de quase toda a gente. Tudo
isto seria apenas um interessante tema de filme de
polícias-ladrões-espiões-romance-comédia, tipo Bollywood massala, se o Fundo Mundial da Agiotagem não tivesse apoiado as
suas políticas de financiamento a países em dificuldades precisamente na tese
do senhor Madoff sobre o auxílio a fregueses em apertos. Agora se compreende
porque as ajudas do Fundo levam sempre, qualquer que seja a estrutura social,
económica, dimensão ou contexto geopolítico do país ajudado, a que a sua economia
entre em recessão profunda, acabe na morgue e pelo menos metade da população
emigre. Claro que a defuntice das economias dos países ajudados é muito boa
para as empresas multinacionais, em especial as do grupo do senhor Madoff
(desconhecia-se até ontem que ele fosse um empresário de dimensão
multinacional) porque podem deslocalizar as suas fábricas para esses países
onde não há leis de protecção nem segurança no trabalho, inspecções médicas ou
de descargas de efluentes ainda menos, os operários não só têm de pagar para
trabalhar nas fábricas como morrem como tordos, as populações nas vizinhanças
idem, mas as empresas têm lucros como nunca se viu na História. Os países, é
claro, ficam cada vez mais poluídos, cada vez mais miseráveis, cada vez mais
ingovernáveis. Mas isso não importa pois hoje o mundo é global. Aliás, a
comprová-lo está a notícia acabada de chegar de que o senhor Madoff foi
localizado numa das suas mansões, calmamente a beber cocktails ao lado da
piscina, acompanhado dum harém de jovens escravas locais, angariadas para lhe
fornecerem prazeres. Ele não será repatriado pois o lugar não tem convénios de
extradição de criminosos para os seus países de origem. Espera-se agora que o
Fundo Mundial da Agiotagem venha prestar declarações sobre as suas políticas de
intervenção baseadas nas falsas contas deste
merceeiro-vigarista-empresário-apenas-quando-está-entediado. Irá o Fundo alterar
as suas políticas? Irá mantê-las como se o seu fundamento fosse incontestável
verdade? Aceitam-se apostas, faça a sua para o prédio vaca-malhada n.º 23 até
amanhã às 10 horas.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário