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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Vai grande arruaça no quintal das vacas da República dos Hambúrgueres. Tudo porque se descobriu que a folha de Excel do merceeiro local, um certo senhor Madoff, estava com erros e falhas que, curiosamente, o beneficiavam sempre. Além de merceeiro, o senhor Madoff tem sido gestor de fundos de uma série de instituições não lucrativas de beneficência. Tudo começou na semana passada quando ele não abriu a loja, o que gerou, primeiro, uma fila de donas de casa aflitas para comprar leite para os “piquenos, que têm de ir p’rá escola, ‘tadinhos e sem leitinho como é que vão conseguir aguentar as exigências daqueles malvados professores!” Duas horas e meio quilómetro de bicha mais tarde, eram as velhotas a juntarem-se às aflitas mães, porque queriam beber a biquinha e cortar na vida alheia. Do senhor Madoff, nem sombra. Cansadas de esperar, decidiram ir todas a casa do homem porque “coitadinho, e se lhe deu alguma coisa, ele lá sozinho sem ninguém p’ra ajudar”. Mas ao chegarem viram tudo muito fechadinho e foi a grande custo que conseguiram persuadir a teimosa porteira a ir “até lá acima” abrir a porta. Bom, na verdade o que a levou a subir as escadas foi o leve cheiro a possível história gorda capaz de animar a má-língua durante dois meses no pacato quintal, tão lerdo como as vacas que lhe dão o nome e no momento ruminavam pasmadas, focinhos por cima da cerca de buxo, sem atinarem com a razão do corrupio feminino. Entraram mas do senhor Madoff e dele nem pó! Tudo muito arrumadinho, tudo muito limpinho mas népias, nada. A porteira, que sabe bem onde ele esconde o cofre e até tem ido lá tirar umas fotografias para o filho vender aos jornais da estranja sob pseudónimo, que isto a vida está difícil e tem de se aproveitar o que calha de vir à mão, foi ao soalho arrancar as duas tábuas mas… adeus cofre. Apenas uma nota para a porteira a dizer: “sua alcoviteira, fui-me embora e a renda, pague-a você, que já ganhou bastante com as fotografias”. O resto do mulherio quis saber a história das fotografias mas não soube porque a porteira teve um conveniente desmaio, o que temporariamente atirou o bater d’asa do senhor Madoff para segundo plano. Quando o dito filho chegou a casa, e como o senhor Madoff tivesse deixado o computador para trás, decidiu vasculhá-lo. Após limpeza de vírus e cavalos de Tróia, semeados nos ficheiros para punir abelhudos (só que o rapaz conhecia a manha da besta e tratou de inutilizar as defesas antes de se meter a espiar os segredos do inquilino fugido), espiolhou os documentos todos e nem queria acreditar quando analisou a folha de cálculo do homem. Estava errada! Não era que o homem, que defendia com todas as forças que quando um cliente estava com calotes, a receita era fazer-lhe empréstimos para pagar as mercadorias e exigir todo o dinheiro de volta com juros de 50%, cortando-lhe no abastecimento de víveres até a dívida estar saldada, se esquecera de somar várias parcelas? Essas somas em falta mostravam para quem quisesse ver que a razão pela qual ele justificara durante anos a condenação dos pobres à fome e levara o bairro e metade da cidade a emigrar em massa para outras paragens, não tinha fundamento. Pior ainda, o filho da porteira descobriu contas secretas cifradas… de fraudes financeiras descomunais. Chocado, o rapaz começou a telefonar para a polícia e de seguida para as associações de caridade de que o senhor Madoff fora gestor de fundos e… as associações nem sabiam que ele dera à sola. Telefonema para cá e para lá, as associações descobriram que as contas bancárias tinham sido todas limpas na véspera… e estavam afinal não com grandes lucros mas com défices gigantescos. Porque fora a desviar os fundos de caridade que o senhor Madoff subsidiara as suas luxuosas vivendas em 7 ilhas, uma extensa frota de caros de luxo, 3 iates, várias inscrições em country clubs, cinco mansões de férias no estrangeiro e contas secretas enormes no Cantão dos Queijos. “Logo ele, que parecia tão modesto!” espantavam-se as vizinhas, aglomeradas em casa da porteira, a verem sem acreditar no que surgia no ecrã do computador. Decorre agora uma internacional caça ao desaparecido, que mobiliza já os melhores espiões do mundo inteiro pois não foi apenas no bairro que ele lixou as contas de quase toda a gente. Tudo isto seria apenas um interessante tema de filme de polícias-ladrões-espiões-romance-comédia, tipo Bollywood massala, se o Fundo Mundial da Agiotagem não tivesse apoiado as suas políticas de financiamento a países em dificuldades precisamente na tese do senhor Madoff sobre o auxílio a fregueses em apertos. Agora se compreende porque as ajudas do Fundo levam sempre, qualquer que seja a estrutura social, económica, dimensão ou contexto geopolítico do país ajudado, a que a sua economia entre em recessão profunda, acabe na morgue e pelo menos metade da população emigre. Claro que a defuntice das economias dos países ajudados é muito boa para as empresas multinacionais, em especial as do grupo do senhor Madoff (desconhecia-se até ontem que ele fosse um empresário de dimensão multinacional) porque podem deslocalizar as suas fábricas para esses países onde não há leis de protecção nem segurança no trabalho, inspecções médicas ou de descargas de efluentes ainda menos, os operários não só têm de pagar para trabalhar nas fábricas como morrem como tordos, as populações nas vizinhanças idem, mas as empresas têm lucros como nunca se viu na História. Os países, é claro, ficam cada vez mais poluídos, cada vez mais miseráveis, cada vez mais ingovernáveis. Mas isso não importa pois hoje o mundo é global. Aliás, a comprová-lo está a notícia acabada de chegar de que o senhor Madoff foi localizado numa das suas mansões, calmamente a beber cocktails ao lado da piscina, acompanhado dum harém de jovens escravas locais, angariadas para lhe fornecerem prazeres. Ele não será repatriado pois o lugar não tem convénios de extradição de criminosos para os seus países de origem. Espera-se agora que o Fundo Mundial da Agiotagem venha prestar declarações sobre as suas políticas de intervenção baseadas nas falsas contas deste merceeiro-vigarista-empresário-apenas-quando-está-entediado. Irá o Fundo alterar as suas políticas? Irá mantê-las como se o seu fundamento fosse incontestável verdade? Aceitam-se apostas, faça a sua para o prédio vaca-malhada n.º 23 até amanhã às 10 horas.

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